Cem Mil Anos-Luz

7 3. Special Request


Notas iniciais
Iniciamos a missão do Leif e do Viltri, que acontece ao mesmo tempo que a das meninas. Espero que gostem!

“Perhaps it is the greatest grief, after all, to be left on earth when another is gone.”

— Madeline Miller, The Song of Achilles.

.

Little boy inside my chest / breathe some life into my bones / I’ve been lost and wandering / down and out and missing home.”

— Barns Courtney, Little Boy.

.

Leif não sabia o que esperar quando entrou na Vanguarda pela primeira vez, há pouco mais de dois meses.

Sua primeira impressão da tripulação se mostrou bastante enviesada. Tamura deveria ser a última opção em gestão de pessoas, mas por algum motivo incompreensível, era ela quem recebia e avaliava cada novo rosto que quisesse entrar naquela nave, e Leif decidiu que precisava ser um deles.

Ou melhor, alguém decidira por ele. Uma caligrafia elegante em um papel com leves reminiscências de um aroma verde e terroso e familiar.

Mas apesar da clara antipatia da Especialista Tamura, suas respostas comedidas e prestativas funcionaram como costumeiro, e ele foi admitido dentre o quadro de funcionários da Vanguarda.

Leif com certeza não esperava ser chamado para um grupo de terra tão cedo, embora admitisse ter jogado bem com o dr. Kuzgun e Tamura. Ela parecia alguém que gostava de fazer seu trabalho bem feito, e a sobrecarga de trabalho do supervisor médico da nave era uma falha dela, ele só não sabia se era grave o bastante para que ela superasse a antipatia que tinha por ele. Pelo visto, era sim, já que no mesmo dia-padrão, Leif entrou com a própria capitã Naymeeneraham e a chefe de segurança Imari em uma base restrita de pesquisa da Esquadra.

Ele esperava menos ainda ter sido contatado, pouco depois da descoberta de Yavanna, pelo Primeiro Oficial Viltri para uma operação especial. Em Yetoni. O planeta que estava em guerra contra o Governo-Geral há décadas. Leif era médico, não soldado. Sabia se virar, mas era só um freelancer, não um real agente da Esquadra. O convite era estranho e, ao mesmo tempo, tinha uma lógica simples: com exceção de Viltri, Leif era a única pessoa na nave que talvez conseguisse se passar por um yeranoa.

— Não sabia se você conseguiria chegar nesse tom — disse Viltri, quando se encontraram na saída da Vanguarda. — A Capitã não consegue.

Como todo anisoptera, Leif podia controlar a cor de sua pele, mas Viltri estava certo, a maioria só alcançava um tom lilás que não chegava nem perto do roxo intenso e profundo dos kodrases e yeranoa. Nada que algumas doses de geneterapia não resolvessem, é claro, e Leif tinha dedicado bastante tempo a aperfeiçoar sua habilidade de camuflagem, mas esse tipo de tecnologia não era tão acessível assim e costumava levantar suspeitas, então apenas deu de ombros de leve e respondeu:

— Varia de pessoa para pessoa.

Com a pele do mesmo tom de Viltri, os veios verdosos de seu rosto ocultos por maquiagem e a capa pesada e gasta sobre suas asas, Leif não era mais um anisoptera aos olhos de ninguém. E havia certo conforto culpado na sensação de ser outra pessoa, mas não era a hora nem o lugar para pensar no assunto. Independentemente de qual fosse a missão, ele queria se sair bem. Viltri era o Primeiro Oficial da Vanguarda, mas o distintivo de metal negro o identificava como algo bem mais valioso, um Agente Executor, a elite da Esquadra que recebe missões diretamente do Supra-Almirantado.

Era alguém que valia a pena impressionar, mesmo que Leif ainda não soubesse o que precisava conseguir ali.

No seu pulso, uma mensagem de Imari apareceu. Ela ainda estava irritada com a suspensão por descumprimento de ordens da capitã. Leif apenas respondeu com “A capitã deve ter seus motivos”. Em parte porque realmente queria acalmar Imari, não a conhecia há muito tempo, mas apesar de ser gentil, ela sabia guardar um rancor mesquinho às vezes, de uma forma tão boba que chegava a ser adorável, e ele não desejaria que ela arranjasse problemas desnecessários. Mas parte dele estava curiosa com a tentativa de segredo da capitã, e alguém que não ele, alguém com mais tempo de serviço, razões mais plausíveis e, principalmente, alguém com quem ele tivesse uma boa amizade, poderia querer questionar tais motivos.

— Se tiver permissão de responder, eu posso perguntar qual é o nosso objetivo, Oficial Viltri?

— Não é a melhor hora para a resposta — Viltri respondeu, simplesmente. Estavam em uma estação espacial de cunho comercial, com milhares de desconhecidos de centenas de planetas diferentes passando de um lado para o outro.

— Verdade — Leif abriu um meio sorriso. — Eu teria perguntado antes, mas não sabia que estávamos indo para Yetoni até o senhor responder ao oficial de triagem quando atracamos. Sabia que encontraríamos yeranoas, mas que desceríamos ao planeta deles…

— Deve ser preocupante para você. Peço desculpas por tirá-lo da ala médica, doutor.

Sem ter certeza da intenção por trás do comentário, Leif deu um riso fraco.

— Admito que não sei qual a serventia de um civil na missão de um Agente Exe…

Viltri parou de andar, os olhos cor de fogo faiscando perigosamente por trás das lentes escuras do óculos que usava quando não queria ser reconhecido como kodrase, mas não o bastante para usar lentes. Com os cabelos laranjas tingidos de preto, os olhos eram o único traço que o traía.

— Desculpe — Leif falou.

— Não estamos na Vanguarda, doutor. Seria prudente cuidar do que diz.

— Eu sei. Não vai se repetir. Enfim, como eu dizia, apesar dessa apreensão, me deixa curioso a sua necessidade por um médico.

— Você é amigo da Imari, correto? Fala vorcia, então? Bom, nós vamos encontrar uma pessoa — Viltri falou, e suas mãos fizeram rapidamente os gestos “refém”, “almirante” e “terroristas” —, e é importante que você verifique que ele esteja bem.

— Certo. Nós dois somos suficientes?

— Que tal eu me preocupar com a parte tática e você se preocupar com a medicina?

— Tudo bem. Parece um arranjo razoável.

Viltri o olhou com surpresa, mas balançou a cabeça e continuou andando, após murmurar:

— Céus, você é pior que a Navegadora Zreindel.

Leif franziu ligeiramente a testa, sem saber exatamente o que isso deveria significar, e seguiu o Executor estação espacial adentro.

Não passaram muito tempo apreciando a grande diversidade de lojas, mas Leif poderia ter se distraído com os povos que nunca havia conhecido. Como de costume, os raithuanos com seus rostos pintados eram maioria, entremeados por um ou outro kaani de olhos negros e semblante distante. Leif fez uma anotação mental de que talvez isso não fosse uma idiossincrasia única de Tamura. Um ou uma vorcia, era impossível presumir quando vestiam trajes pressurizados, tentava vender bijuterias de coral metálico trabalhado em um estande informal no meio do corredor, recebendo olhares pouco simpáticos dos demais lojistas.

Para sua surpresa, Viltri seguiu na direção do vorcia (consideravelmente mais alto que Imari, Leif decidiu pensar no vendedor como sendo um homem), observou os adereços por não mais que cinco segundos e falou:

— Eu reservei um colar que não está aqui. Ele é de vidro vulcânico.

O vendedor respondeu algo, mas Leif só entendeu o final, em que pediu que aguardassem. Ele tinha gestos lentos, mas precisos, não seria difícil de acompanhar para alguém que convivia com Imari, se não fossem pelo que Leif supôs serem gírias. O universo é um lugar bem grande. Nenhuma língua permanece universal por muito tempo.

O vendedor retirou um colar de vidro vulcânico de um caixote escondido atrás do balcão e o entregou a Viltri, que, sem nenhuma curiosidade pelo objeto, apenas o abriu, revelando que o pingente era apenas um relicário. Pegou um pequeno objeto de dentro e colocou algo em seu lugar antes de devolver o relicário.

Quando Viltri levou o objeto ao ouvido, Leif percebeu que era um comunicador. Muitos mercenários usavam desse tipo, onde cada par só se comunicava um com o outro, em vez da rede múltipla e exposta da comunicação galáctica em seus pergarolls.

— Eu espero que você tenha uma explicação para essa brincadeira. Ainda nem começamos o trabalho e eu já estou cansado — disse Viltri, enquanto se afastavam do vendedor.

Leif não podia ouvir a resposta, então apenas observou o Executor conversar sozinho, embora, para qualquer outra pessoa, parecessem estar conversando um com o outro. Leal a sua palavra, ele realmente carregava um semblante enfadado enquanto esperava a resposta.

— Pode repetir? Tem certeza que despistou eles? Certo. Encontro você em terra.

— Algo para nos preocuparmos? — Leif perguntou, pesando a quantidade certa de receio nas palavras, apenas o suficiente para um freelancer recém-contratado, mas não tanto a ponto de fazer Viltri mudar de ideia sobre levá-lo.

— Nosso contato não pôde nos esperar aqui, teve um problema com os documentos e deixou a estação. Vamos encontrá-la em Yetoni.

— Problema com os documentos? Ela precisou despistar um passaporte?

Viltri não se deu ao trabalho de elaborar melhor. Eles nem chegaram a sair do primeiro convés e já estavam de saída outra vez.

.

Mesmo antes da guerra, a maioria dos cidadãos da Super-Região nunca estivera em Yetoni. Leif não era exceção.

Simplesmente não era um destino dos mais interessantes. Embora menos escasso em recursos e mais estruturado socialmente, ele era tão inseguro quanto Kod, com suas centenas de Senhores da Guerra canibalizando metaforicamente uns aos outros por prestígio. A terra era árida, mas, mesmo antes da primeira interação interplanetária, o planeta já sustentava alguma agricultura.

A população se concentrava em assentamentos que eram pequenos demais para serem chamados de cidades, mas, ainda assim, muito maiores que as “colmeias” de Imago onde Leif havia crescido. Por motivos bem diferentes. Os anisopteros buscavam causar o mínimo de impacto ambiental possível na área ao redor. Já os yeranoa eram limitados pela própria dificuldade do planeta de prover a uma quantidade grande de pessoas, e chamavam esses assentamentos de sangri.

Leif e Viltri encontraram seu caminho entre construções térreas cobertas de poeira cinza do sangri Talaj. Nenhum dos yeranoa lhes deu muita atenção. Leif aproveitou a chance para observá-los de perto, pois eram um povo difícil de conhecer. Inicialmente, presumiu que estavam em um assentamento pobre, pois a maioria das roupas eram gastas e puídas, as capas terminavam em rasgos irregulares, braços e pernas cobertos por bandagens de tecido. Leif rasgaria a barra de sua capa assim que encontrasse um local discreto, se conseguisse manter as asas escondidas de outra forma. Mas talvez as suas roupas simétricas, apesar de propositadamente surradas, chamassem mais atenção do que a sua espécie.

Então Leif viu as armas. Todos os yeranoa carregavam alguma arma, homens, mulheres ou mesmo crianças. Poucas eram armas de fogo, menos ainda de energia, mas as facas, espadas e lanças que viu eram muito bem trabalhadas em metais exóticos e entalhes elegantes. Não sabia se era mais seguro presumir condições econômicas pelas roupas ou pelas armas. As dos homens eram mais diversas, enquanto as mulheres e crianças carregavam mais facas e adagas.

— Essas armas parecem caras.

— Se não for para fazer a melhor lâmina, um ferreiro yeranoa nem se dá ao trabalho de começar.

— Como essas pessoas pagam por elas?

— Não pagam. Normalmente, são distribuídas pelos Senhores da Guerra durante o treinamento da população.

Leif voltou a olhar para duas crianças que brincavam em uma área aberta do assentamento. Elas estavam dentro de um círculo traçado na terra e rodeavam-se uma à outra, fazendo movimentos rápidos tentando expulsar a outra do círculo. Eram um garoto e uma garota, ambos com facas na cintura, mas, até o momento, a brincadeira parecia se limitar ao uso das mãos.

— Pensei que os yeranoa separassem funções por gênero. Eles treinam as mulheres e meninas também?

— Os homens formam o exército e brincam de guerra, é verdade. Mas quando você sai de casa, não deixa a porta aberta para bandidos. Na cultura yeranoa, as mulheres são administradoras, mas elas são treinadas em guerrilha e evasão para o caso de um ataque quando as tropas estão dispersas.

Ouvindo a resposta de Viltri, Leif percebeu que, mesmo sabendo sobre a divisão de funções, nunca estranhou o fato dos Asherah R’Tari serem liderados por Wyrrna R’Dahi, uma mulher. Mas táticas de guerrilha descreviam bem as operações dos Ashera R’Tari, então uma coisa se encaixava com a outra. No máximo, agora estava mais curioso para saber como ela havia conquistado a influência de seus guerrilheiros.

— Estamos em terra. Onde encontramos você? — Viltri perguntou no comunicador.

Com poucos instantes de conversa, Viltri os levou até uma construção central de teto abobadado. Era grande e baixa, a entrada ladeada por pilares de pedra colecionando rachaduras e poeira. Uma mulher de pele roxa escura e cabelos prateados na altura dos ombros estava sentada no chão à sombra de um dos pilares, limpando o cano de um rifle rústico. Uma balaclava de tecido preto cobria metade do rosto. Suas roupas, como as dele, eram de uma visitante, com no máximo alguns remendos feitos com linhas de um tom diferente do tecido. Ela os encarou do outro lado da rua e fez um gesto com a cabeça para que se aproximassem.

Viltri analisou os arredores, mas, curioso, Leif se aproximou de imediato, o que foi um descuido de sua parte. Não pelo fato do prédio parecer um local central e importante para a cidade, talvez até vigiado, mas por não manter a distância esperada de quando se conhece uma pessoa nova.

Porque a mulher era Yangden, uma mercenária bem conhecida em Morai Nora. Alguém cuja reputação a precedia, e apesar de não tê-la conhecido pessoalmente, Leif e ela já tinham se correspondido virtualmente anos atrás.

Percebendo seu descuido momentâneo, Leif parou a alguns passos de distância, mas Viltri, logo atrás, não pareceu estranhar seu comportamento.

— Peço desculpas por não encontrá-los na estação como combinado.

— Teremos problemas por sua causa?

Ela franziu a testa e ergueu o rosto de lado com um ligeiro desdém.

— Eu jamais lhes causaria problemas. Vocês são meus clientes.

— Espera… — Leif se intrometeu. — Você disse que ela tinha tido problemas com os documentos, mas ela é yeranoa, não kodrase.

— Tem certeza disso? — Yangden ergueu uma sobrancelha no que ela com certeza achou que fosse um tom divertido. Mas com o rosto parcialmente coberto e a voz neutra, não causou essa impressão. Felizmente para Leif, ela não esperou resposta. — Os documentos não eram para aterrissar em Yetoni, mas embarcar em Riesztak e encontrar vocês. Algumas estações espaciais estão restringindo o embarque de yeranoas. Como se fôssemos Eisenyoungs! É bem… inconveniente. Enfim, Viltri. Seu relato foi preciso o suficiente ou eu preciso saber de algo mais?

— Você quer discutir isso aqui?

— Ninguém vai nos incomodar. As pessoas acham que essa arena dá azar. Foi onde morreu o Senhor da Guerra Hyrn R’Dahi. Está abandonada desde então.

Yangden falou devagar, sem tirar os olhos de Viltri, como alguém contando uma história de fantasmas em uma fogueira de acampamento. Ela realmente precisava aprender as diferenças não tão sutis de postura e entonação entre “divertida” e “ameaçadora”. Apesar disso, Viltri insistiu para que encontrassem um lugar mais particular para conversarem, o que os levou a um corredor de manutenção da arena, ainda mais abandonado do que a própria.

Viltri explicou para ambos sobre a missão. O Almirante Leok da Esquadra estava em posse dos Asherah R’Tari. Seu conhecimento deixava a Esquadra vulnerável. Ele precisava ser resgatado a qualquer custo. Yangden estava ali pelo apoio tático e conhecimento local, e Leif, para garantir ao Almirante qualquer atendimento médico necessário, já que não sabiam as condições em que estava sendo mantido.

— Conseguimos um sinal do Almirante há dois dias-padrão, vindo dessa região. — Viltri estendeu o braço, um holograma do planeta se projetou do pergaroll, ampliando uma região nos trópicos onde uma fenda geológica engolia a luz, e o holograma não exibiu nenhum detalhe do interior.

— Fenda Goshaav. Não é longe. Talvez três horas na nave de vocês. — respondeu Yangden, levantando o olhar em expectativa. — Vocês têm uma nave, não têm?

— Alugamos uma em Riesztak. Vai servir.

Yangden franziu as sobrancelhas, nada interessada em naves alugadas. Mas se resignou com a realidade. Fazia sentido não usarem veículos da Esquadra.

— É um local perigoso. A Fenda é enorme, mas a instalação em si tem apenas uma entrada.

— Como sabe disso? — Leif perguntou.

— Todo mundo sabe disso. Antes dos Ashes, as escolas faziam excursões para lá. A instalação se chama Goshaaviej. É provavelmente a mais antiga do mundo.

— O que significa?

Forte do Ventre, eu acho? Não é muito poético em raithuano. Goshaav é considerado o ventre do mundo.

— A aula de yeraan fica para depois — resmungou Viltri. — Consegue nos colocar lá dentro ou não?

— Pelo que está me pagando, eu conseguiria nos colocar até na Armígera — brincou, fazendo uma referência à nave mítica. Pegou seu rifle e suas adagas. — Vamos, rapazes? Quero voltar a tempo do jantar.

.

— Você não esperava uma yeranoa, não é?

Yangden havia desacelerado, deixando a marcha incansável de Viltri pela companhia de Leif. Ela levava o rifle nas costas, preso à mochila, e havia uma adaga longa em cada lado da cintura. Leif sabia que mercenários tinham instintos violentos, sempre exibindo suas armas em uma ameaça muda, suas mãos sempre encontravam o cabo ou a coronha delas a qualquer sinal de um imprevisto, mas esse não parecia ser o caso de Yangden. Em nenhum momento ela estudou os arredores com o mesmo olhar defensivo dele e de Viltri. Aquele era o planeta dela, mas ela deveria estar tão confortável quando trabalhava para inimigos de seu povo?

— Não, mas foi uma boa surpresa.

— Mesmo?

— Eu fiquei… temeroso quando Viltri falou que precisaríamos de mercenários.

— A fama não favorece a classe, não é?

— Mas a sua fama a favorece. Você é uma das boas. A maioria pensaria em resolver o problema jogando uma bomba na Fenda Goshaav. “O Almirante não será uma vantagem para os yeranoas se não houver Almirante ou yeranoas.”

Yangden riu.

— Por que acha que eu não gosto de bombas?

— Mercenários gostam muito de falar de grandes feitos, e eu vivo em Morai Nora. Se você jogar uma pedra numa árvore, caem cinco mercenários dela.

— Árvores em Morai Nora? Taí algo que eu queria ver.

— Eu sei de pelo menos uma. Eu que plantei.

— Você poderia me mostrar um dia. — Yangden olhou para ele e sorriu. Ao menos, ele achava que estava sorrindo por trás do tecido preto. — Pra ser sincera, você também me surpreendeu. Eu não trabalhei muitas vezes com Viltri, mas foi o bastante para saber que ele não trabalha com kodrases se tiver opção.

— Mas ele é um kodrase.

Yangden deu de ombros.

— Sabe o que dizem sobre eles na Super-Região. “Um já é muito.”

— Silêncio — ralhou Viltri, sem se virar para eles.

Yangden estreitou os olhos para ele com uma malícia inofensiva, mas pareceu mudar de ideia. Cruzou os braços nas costas e falou para os dois.

— Então… A Esquadra finalmente descobriu sobre Goshaaviej? Acho que perdi uma aposta. Um amigo tinha certeza que vocês já sabiam sobre a Fenda, e eu tinha certeza que não. Achei que a Esquadra jogaria bombas lá no momento em que descobrisse.

Talvez Yangden gostasse mesmo de bombas. Talvez não de uma forma sádica, Leif supôs, mas sim extravagante, um show de luzes e sons.

— Não bombardeamos todo lugar que abriga uma célula dos Asherah R’Tari.

— Uma “célula”? Ah, Oficial Viltri, você não tem ideia do que está fazendo aqui, não é?

Viltri parou e se virou para Yangden, nem um pouco entretido com a provocação.

— Você é a especialista local, Yangden. Esclareça-me.

Yangden inclinou a cabeça, fingindo ponderar se contava ou não. Cada segundo de silêncio tensionando mais a corda da boa vontade de Viltri, mas ela parecia conhecê-lo bem o bastante para responder antes da corda arrebentar.

—Goshaaviej é a base da Senhora da Guerra R’Dahi.

— Melhor ainda. Dois problemas de uma vez. E R’Dahi é uma terrorista, não uma Senhora da Guerra.

— Qual seria a diferença?

— Não existem Senhoras da Guerra.

Viltri estava surpreendentemente falante, Leif notou. De fato, parecia não ser o primeiro encontro da dupla. As sobrancelhas de Yangden se curvaram, próximas ao centro. Era curioso como uma máscara deixava os olhos de alguém tão expressivos. Ou apenas forçava o espectador a ler o humor de alguém sem o apoio dos lábios, que sempre chamavam mais atenção.

— Não existem Senhoras da Guerra em Kod? E o que seus clãs fazem quando os homens morrem em batalha?

— Kod não é exemplo de nada — respondeu, andando ainda mais rápido.

A confusão no rosto de Leif devia ser evidente, pois Yangden olhou para ele e sua perpétua zombaria fraterna pareceu se apiedar. Leif guardou uma nota mental desse momento, pois não sabia o que fazer sobre esse sentimento. Sentia que lhe faltava contexto para entendê-lo.

Tentou se colocar na posição de Yangden. O que ela via quando olhava para ele? Com sua pele tingida e traços ocultos por maquiagem técnica, ela via um kodrase confuso com uma conversa sobre seu planeta natal, do qual um compatriota acabara de desdenhar. Qual o gatilho da súbita compaixão? O desdém de Viltri? Ou…

— Eu já ouvi dizer… — começou Leif, incerto, mas o risco parecia valer a pena — que nossos povos já foram um. Mas é a primeira vez que ouço alguém falar como se ainda fossem.

A expressão de Yangden suavizou com algo que parecia muito alívio.

— Onde ouviu isso? Em Kod?

Ela perguntou com uma expectativa mal contida, que fez Leif presumir que esta não era a resposta mais segura. Ele negou com a cabeça.

— Academia Juvenil Raithua-Kod.

— Ah. Então… Vocês estudaram juntos? — ela perguntou, indicando Viltri mais a frente. Tinha dominado a própria voz, mas os ombros caídos não mentiam o desapontamento com a resposta.

Leif respondeu mecanicamente as perguntas pessoais, sempre seguindo a linha do que era mais provável e, consequentemente, mais difícil de levantar suspeitas. Em dado momento, se perguntou por que estava fazendo isso. Ele gostava de Yangden, talvez até a admirasse um pouco pelo seu “portfólio” impecável, e ela não era quem seu disfarce buscava enganar. Mas ser invisível era um hábito difícil de largar.

— É sua primeira vez em Yetoni? O que tem achado?

Novamente, Leif se pegou pensando na resposta mais provável, a resposta “certa”. E, por um instante, aquilo o irritou. O instinto de nunca se expressar de forma natural. Ele era um personagem de modos calculados para um propósito, mesmo quando o propósito estava distante. Decidiu fazer o esforço de ser sincero.

— A guerra não lhe parece cair bem.

— Que bom. Guerra só cai bem para monstros.

Leif a encarou, um pensamento improvável surgindo em sua mente. Yangden não desviou o olhar. Ele resolveu arriscar outra vez:

— Raithua parece bem.

Houve uma fração de segundo de silêncio em que Leif percebeu que não era o único ali calculando riscos. Os olhos dela o estudavam, enigmáticos, e Leif temeu ter cometido um erro. Então ela soltou um riso baixo, abafado pelo tecido da máscara, e assentiu com a cabeça.

— É… Parece, sim.

Continuaram a caminhar em silêncio. Parecia o início de uma piada. “Um agente da Esquadra, uma apoiadora dos Asherah R’Tari e o espião cuja aliança ambos pensavam ter entram em um bar…

Infelizmente para Yangden, era Viltri que Leif queria impressionar. Só precisava de um momento a sós com ele, ou da oportunidade de digitar um alerta para o pergaroll dele.

De preferência, antes que Yangden os guiasse para a morte, apesar de todo seu conhecimento sobre ela dizer que ela não age dessa forma. Mas as coisas mudam quando se trata de crenças pessoais, não? Ela podia ser uma mercenária “ética” quando tudo o que ganharia era dinheiro, mas se o prêmio fosse o triunfo de seu povo, teria o mesmo comedimento?

E Leif, como a julgaria?

.

Talaj não era uma sangri muito grande, mas atravessá-la ainda exigia uma boa caminhada. Bem antes de alcançarem suas fronteiras, os tiros começaram.

Ao som do primeiro disparo, Yangden empurrou Leif para um portão aberto nos muros de uma casa. E, num gesto um tanto irônico para quem estava ainda a pouco criticando, Leif levou a mão no cabo da arma, exatamente ao instinto dos mercenários. Mas assim que se virou, viu que Viltri os acompanhou para dentro dos muros. Yangden, estudando a rua pela limitada fresta do portão, não percebeu sua recente aliança vacilar.

— Estamos longe da sua nave? — Yangden gritou, se arriscando a espiar de onde vinham os tiros, só para se jogar para trás logo antes de os disparos recomeçarem. Era uma artimanha? Yangden teria planejado aquilo contra eles? Mas então porque se escondia dos tiros com eles, em vez de atacar Viltri de imediato? — Por isso que a sangri estava tão vazia! Hesh!

A maioria dos tradutores automáticos vinha com uma configuração de fábrica de não traduzir xingamentos e palavrões. Leif nunca alterou essa configuração, porque sempre lhe pareceu algo irrelevante. Então ele não sabia que Hesh é uma palavra dos yeraan usada sempre nesse tipo de contexto, quando algo extremamente ruim e igualmente previsível acontece. É algo usado para ofender o mundo por ser o desastre que é, e a si mesmo, por ser ingênuo o bastante para esperar do mundo qualquer outra coisa.

Mas o lance dos xingamentos é que não é preciso entender para concordar:

Hesh

Yangden tinha subido em um jarro grande com uma planta morta e estava revezando com os atiradores. Já tinha disparado duas vezes com seu rifle, quando o deixou de lado e sacou suas adagas.

O ditado sobre levar facas para um tiroteio não é universal. Muitas culturas veneram lâminas, como os vorcias, pois as armas de fogo são inúteis no fundo do mar. Embora não fossem inúteis em Yetoni, os yeranoa não viam muito valor em matar alguém de longe. Era fácil e covarde. Se você quer acabar com uma vida, deve estar preparado para ver a luz se esvair dos olhos de seu inimigo.

Quando Yangden correu para fora dos muros com as facas em mãos, os tiros cessaram. Palavras foram ditas entre ela e outra pessoa bem irritada, e o som de metal contra metal começou.

— Vamos! — Viltri agarrou o braço de Leif para ajudá-lo a levantar e correram para o lado oposto da construção. Eles estavam preparados para muita coisa, mas seria uma grande crise diplomática se agentes da Esquadra fossem capturados em missão no território de Yetoni. A Cúpula das Esposas exigiria uma retratação do Governo-Geral, e as mais indecisas penderiam para o lado dos Ashes. Por isso precisavam de uma mercenária local.

Escaparam pelos fundos e continuaram em direção à nave, com Leif torcendo para Yangden ser tão boa quanto sua reputação dizia. Se aquilo não era um teatro armado por ela, era muito cedo para perderem um terço da equipe.

— Espera! — Leif forçou Viltri a parar.

— O quê?!

Estavam passando pela entrada de uma viela de aspecto abandonado, quase alcançando a fronteira de Talaj. Em outra ocasião, não teriam prestado atenção. Mas Leif apontou para um pequeno grupo de pessoas. Cinco yeranoas com o laço vermelho dos Ashes cercavam uma mulher que com certeza não parecia ser do planeta. Ela estava com as mãos erguidas, mas o reflexo de algo úmido nas roupas escuras dava a impressão de que ela estava sangrando.

— A gente tem mais o que fazer! — Viltri grunhiu, mas parecia ter dito isso para si mesmo. Antes que Leif pudesse insistir, Viltri já tinha sacado sua pistola silenciada. — Você fica aqui!

Leif pegou sua arma, por precaução, e entrou na viela apenas o suficiente para não ser visto pelo outro grupo caso viessem por ali. Os tiros haviam parado, então ou Yangden os encontraria em breve, ou os atiradores, e, considerando o que descobrira sobre ela e o que não descobrira sobre o ataque, ele não tinha certeza se queria ser encontrado tão cedo por quaisquer dos dois.

A mulher na viela tinha pele clara e cabelos escuros que formavam duas tranças a partir do topo da cabeça, como chifres rasteiros, até descerem por seus ombros. Uma máscara de acrílico transparente cobria a parte inferior do rosto. Leif olhou para Viltri, mas ele não tinha um sinal de reconhecimento no rosto.

— Ok, entendi! Vocês não me querem aqui! Eu vou embora!

O grupo estava longe demais para o tradutor captar, mas Leif entendia raithuano. A raithuana recuou um passo, mas alguém disparou no chão logo atrás dela, fazendo-a se encolher.

— Vocês querem que eu vá embora ou não?!

Leif estava atento ao movimento de todos eles. O título de Oficial Executor não era concedido levianamente, e Viltri já tinha avançado sobre o segundo inimigo antes do corpo do primeiro cair no chão.

Tudo aconteceu muito rápido. Leif preparou sua arma. A mulher sacou uma escopeta e deu um único disparo na direção do yeranoa na sua frente, mas, quando olhou para ela, haviam três corpos caídos no chão.

— Bem… Isso foi uma distração muito bem-vinda, obrigada! — A mulher sorriu para eles, guardando a arma novamente, como se não tivesse acabado de encerrar uma pequena batalha.

Um sorriso afiado como a ponta de uma faca nas entranhas de Leif.

Só então conseguiu vê-la melhor. A máscara que cobria seu nariz e boca era transparente, tão bem presa no rosto que parecia quase vedada sobre a pele. Apenas as bordas eram de um material emborrachado escuro, com um pequeno quadrado também preto em cada extremidade, onde abrigava pequenos filtros de ar. Seu rosto exibia manchas cinzas e pretas, como seus olhos.

Ela franziu as sobrancelhas em sua direção. Todos os yeranoa estavam mortos, mas Leif segurava a arma apontada para ela.

— Quem é você?! — Viltri gritou.

— Ah, sim! O nome é Tiggy Verannel! É um prazer! Devo uma a vocês pela ajuda, então, a menos que queiram desperdiçar meu favor agora, convença seu amigo a afastar aquela arma de mim. Eu sou paciente. Meu irmão não é.

Um ponto de luz vermelha dançou pelo cano da arma de Leif, subindo por seu braço até parar em seu peito. Agora fazia sentido os três corpos para apenas um tiro de Tiggy Verannel. Ela tinha um franco-atirador.

— Doutor — Viltri falou em uma ordem oculta.

Leif olhou para ele com uma súplica silenciosa que sabia que Viltri não entenderia. Passou pela sua mente que não precisava do aval de Viltri. Seu dedo já estava no gatilho, podia apenas apertar. O franco-atirador era uma ameaça, mas mesmo que o matasse, não poderia devolver uma bala ao cano da arma.

— Doutor…? — dessa vez, foi Tiggy Verannel quem falou, com um tom de questionamento. Não parecia preocupada. Pelo contrário, parecia desejar que Leif fizesse o que estava pensando em fazer. Sua mão pairava ao lado do corpo, ansiosa para sacar a arma de novo.

Ou Leif estava imaginando isso porque queria um motivo para atirar?

Sufocando um suspiro de frustração, Leif abaixou a arma. Viltri pôs a mão em seu ombro e, mesmo que sua intenção fosse tranquilizar um civil que acabara de passar por uma situação de risco — e Viltri não poderia estar mais errado —, Leif agradeceu mentalmente pelo gesto.

Mas o suposto estresse lhe deu uma desculpa para recuar e colocar os pensamentos no lugar. Estava à flor da pele desde aquele laboratório com a Capitã e Imari. Tinha sido pego de surpresa pelo passado, mas não podia agir tão errático assim.

— Então… — Tiggy Verannel cantarolou. — O que vocês fazem por aqui?

— O que você faz aqui? — Viltri devolveu. — Contrabando? Tráfico? Algum esquema vale esse risco?! Estamos em plena guerra! Você é raithuana!

— Ah, só quando convém.

— O que raios isso quer dizer?!

— Ela é de Verthion — Leif respondeu, ainda afastado. Parecia estar se recuperando da ação de antes, mas o olhar distante ia de prédio em prédio procurando um que fosse alto o bastante para um atirador fazer seu ninho. Não havia muitas opções. — Por isso a máscara, não é?

Verthion era uma das dezenas de colônias interplanetárias dos raithuanos. Nomeada em homenagem ao industrial Gremory Verthion, o planeta foi colonizado pelo seu imenso potencial de mineração, mas era altamente intolerante às tentativas de terraformação raithuanas e eles não conseguiram domar mais do planeta do que as pequenas cidades de atmosfera controlada da Iniciativa Verthion. Cerca de cinco anos após o esforço de colonização, as crianças estavam nascendo diferentes. Elas eram pouco mais Verthion do que Raithuas, e muitos bebês morreram logo no primeiro suspiro antes que os médicos descobrissem que as crianças verthianas eram intolerantes a oxigênio. A melhor aposta do motivo era a alimentação dos pais. Nas cidades-domo, o ar era controlado e as plantas eram raithuanas, mas eram cultivadas em solo verthiano, e alguma coisa no universo precisava desafiar o controle das Raithuas. É o que o universo faz de melhor.

— Ah, então você é mesmo um “doutor”! — Tiggy sorriu.

Apenas dois prédios eram altos o bastante para um ninho de atirador, e só um deles batia com o ângulo da luz vermelha. Leif estreitou os olhos, imaginando ser capaz de ver a pessoa os observando, mas a única coisa que viu foi uma ave que alçou voo logo depois, como se também se sentisse observada.

Verannel. Leif conhecia esse nome, mas não sabia que pertencia a esse rosto. Se soubesse, eles teriam se encontrado bem antes. Mas agora ele tinha o mesmo problema outra vez. Como informar Viltri sobre quem haviam encontrado? Se você sabe coisas que não deveria saber, expor alguém é expor a si mesmo.

Pelo menos nenhum dos dois estava prestando atenção nele no momento, imersos em uma discussão acalorada. Pelo menos, acalorada por parte de Viltri, cujo controle de temperamento se chamava Naymeeneraham e havia ficado na Vanguarda. Verannel parecia apenas estar se divertindo com a exaltação dele.

Leif acionou seu pergaroll e pesquisou pelo nome Verannel. Burlou rapidamente alguns dos mecanismos básicos de proteção digital e relembrou as informações mais importantes. O bastante para não precisar se explicar.

— Viltri. Temos que ir, isso foi um erro.

Mas antes que pudesse mostrar o documento em seu pergaroll à Viltri, ouviram:

— O que heshal vocês estão fazendo aí?! Pensei que teriam ido…

Yangden apareceu na entrada, mas parou de falar assim que viu que tinha uma pessoa extra no grupo. Tiggy Verannel sorriu o máximo que os limites de sua máscara permitiam e desceu a mão para o coldre. Antes que ela sequer tocasse nas escopetas novamente, a adaga de Yangden já estava no pescoço de Leif.


Notas finais
Eu amo tanto a quantidade de nonsense per capita dessa missão, espero que Viltri e Leif me perdoem.