Para convencer funcionários a trabalharem virando à esquerda no fim do mundo, era necessário permitir que suas famílias os acompanhassem, além de que uma estação como Ashaam I precisaria de manutenção de pessoal não prioritário. Por essa razão que a colônia conhecida como Ashaam II existia, não muito longe da estação de pesquisa, mas ainda assim, dez minutos se passaram até que avistassem os portões da pequena cidade.

Ananke se levantou brevemente para observar o terreno. O Vetorial continuou seu curso naturalmente, graças aos controles embutidos nas lentes de seus óculos. O único terreno plano disponível era abaixo da colina fora da cidade, onde o Vetorial pousou. Tamura guardou algumas coisas em sua mochila e Lince apenas olhava através do vidro.

— É muito diferente? — Ananke perguntou para ele, levantando os óculos.

— Não muito. Acho que a vida é vida em qualquer lugar.

Fora da Vanguarda, todos usavam trajes especiais reforçados com placas metálicas ou plásticas resistentes, mesmo quando não precisassem desse tipo de proteção. Elas ficavam sobre uma camada de tecido isolante e antirradiação, e o painel das costas era um pouco mais grosso por abrigar uma unidade de processamento que ajudava a manter o usuário na temperatura adequada. Os capacetes eram opcionais naquela atmosfera, mas além de Ananke com seus óculos, Tamura tinha um visor transparente fixado sobre seu olho direito que lhe passava algumas informações sobre o lugar.

— Não devia ter neve nessa estrada — comentou, a poucos metros do portão fechado da colônia. — Eles não têm alguém para tirar a neve? Os veículos daqui são terrestres…

Algo refletiu no topo do portão rápido demais para que Ananke identificasse o objeto, mas a experiência lhe dizia que isso nunca era um bom sinal.

— Para trás!

Com o grito de Ananke, Tamura recuou rápido, um disparo alto se ouviu e a neve no lugar onde ela estava um pouco antes agora soltava uma fina coluna de vapor onde a bala quente havia parado. Uma pessoa no alto do muro estava recarregando o que parecia uma espingarda bastante antiquada, mas os companheiros que surgiram logo depois tinham armas que Ananke reconheceu como sendo o padrão raithuano de armas de energia. Ela puxou Lince para acompanhá-la e viu Tamura correr para trás da barreira causada pela própria colina irregular. Lince e Ananke chegaram logo depois e se agacharam ao lado dela, com o som de balas de metal e disparos de energia.

— Que merda é essa?! — Tamura gritou. Infelizmente, os colonistas não ouviram. Estavam ocupados tentando matá-los.

— Achei que a gente veio ajudar essas pessoas — Lince questionou, ajoelhado atrás da barreira, preparado para levantar quando necessário. O subalterno de Imari, Polya, havia arranjado umas armas comuns aos membros da tripulação, mas ele não esperava ter de usar tão cedo. Tamura deu um riso irritado.

— Pelo visto, vai ser difícil falar com eles!

Ananke pôs os óculos novamente. Não podiam levantar para avaliar a situação, mas o Vetorial provavelmente teria uma boa visão mesmo em um nível mais abaixo da cidade.

— São sete pessoas, cinco com armas raithuanas e dois com espingardas j’vi.

As armas raithuanas não tinham munição física, disparavam energia concentrada. Não deixavam queimaduras muito bonitas. Eram assustadoras, mas podiam ser sabotadas à distância por um curto período de tempo. As espingardas tinham sua limitação natural de velocidade de recarga. Ananke tinha um rifle de assalto consigo, mas esperava não precisar usar. Eles estavam sem capacete, podiam ter sido eliminados rapidamente, mas o primeiro colono havia hesitado no tiro contra Tamura.

— Tome, Ananke — Tamura lhe estendeu um pequeno disco metálico que tirou da mochila. Uma granada magnética. É, seria útil.

— Você quer ajudar?

— Pode ficar à vontade — Tamura respondeu com descaso, como quem diz “não estou nem um pouco afim” após ser convidado para uma tarde de faxina no meio do deserto arenoso de Yetoni.

— Certo. Vocês ficam aqui. — Ela entregou as granadas para Lince, exceto por uma, e explicou como ativá-las. — Aperte aqui e lance as granadas perto dos cinco atiradores do meio. Tem de ser longe de mim, porque minha arma é do mesmo tipo que a deles.

E Ananke começou a se afastar abaixada ainda sob a proteção da barreira.

— Ela quer que eu lance granadas enquanto vai para cima deles?

— Não são bombas, são pulsos magnéticos. — Tamura revirou os olhos. Ela estava com as costas apoiadas na barreira e as pernas cruzadas. — E mesmo se fossem bombas, você deveria obedecer. Ela claramente tem um plano que depende de você fazer o que ela mandou.

Lince guardou para si mesmo o comentário de que planos normalmente devem ser bons.

Uma vez longe de Tamura e Lince, em quem os disparos se concentravam, Ananke conseguiu dar uma espiada por cima da barreira. Ao contrário da cerca vazada da estação de pesquisa, os muros da colônia eram muito bem sólidos. Preparou remotamente o Vetorial por meio de seus óculos. Transportes auxiliares não tinham armas excepcionais, mas tinham o bastante para destruir obstruções quando necessário, e aquele portão parecia muito uma obstrução no momento.

Os colonistas se protegeram atrás do muro quando viram o Vetorial deixar a área de pouso e Ananke aproveitou o momento para jogar a primeira granada no lado direito do muro. Assim que os portões foram destruídos, liberando uma nuvem de poeira e lascas de metal, ela deixou a cobertura e correu para eles. Os colonistas mais próximos tentaram disparar, mas suas armas fizeram o som de “erro” de quando algo afetava seu mecanismo de geração de energia. Apenas o da espingarda conseguiu disparar, mas Ananke era um alvo bem veloz e, depois de errar o primeiro tiro, ele precisou recarregar.

Os colonistas do lado esquerdo não perceberam Ananke que vinha quase colada ao muro, e voltaram a atirar onde Tamura e Lince estavam. Mas Lince já tinha lançado uma das suas granadas contra eles, que ativou após uns três disparos, silenciando as armas restantes.

— A interferência não dura muito tempo, precisa jogar de novo assim que perceber que eles corrigiram as armas — avisou Tamura.

Lince viu os colonistas perderem o interesse neles e apontarem as armas para o lado interno do muro. Como Ananke esperava que ele não jogasse granadas perto dela se ele não podia vê-la? Pelo aviso de Tamura, decidiu jogar novamente no primeiro grupo, que já pareciam se preparar para atingir Ananke do lado de dentro e torceu para que isso não prejudicasse ela também.

— Ela não vai precisar de ajuda?

— Dificilmente.

Eram sete pessoas armadas contra Ananke, e ele ainda não sabia a realidade daquelas pessoas, mas achou de certo mau gosto o semblante quase entediado de Tamura.

Os disparos em sequência de uma das armas raithuanas o fez voltar a atenção para a colônia, os atiradores mirando para o lado de dentro. Então aproveitou que Ananke tinha se atirado aos leões e saiu da cobertura, afinal, um contra sete não era uma luta justa na Terra e não devia ser ali também.

Sacou a pistola que Polya lhe entregara e se aproximou o máximo possível sem chamar atenção, o que foi muito, graças ao trabalho de Ananke, e disparou na direção do atirador da ponta, o da espingarda, errando por generosos centímetros.

Lince não era um soldado e mesmo que aquelas pessoas fossem uma ameaça, ainda era estranho pensar em matar alguém. Principalmente porque ele não conhecia nada daquele mundo e muitas coisas podiam justificar aquela recepção hostil. Então se contentou em assustar o atirador com o disparo, fazendo-o se abaixar atrás da mureta e se preocupar novamente com as pessoas fora dos muros em vez de Ananke.

Perto do portão como estava, Lince teve um vislumbre do lado de dentro. Os atiradores estavam sobre andaimes de ferro, mas haviam subido para o muro quando perceberam que as soqueiras de Ananke eram eletrificadas. Ela havia apagado um deles apenas com um golpe na haste de suporte, e outro deixara a arma cair com o choque. Isso lembrou Lince de lançar uma nova granada para o alto, inibindo o terceiro atirador do lado esquerdo, escondendo-se em seguida sob o andaime para evitar a mira do outro lado.

Lince percebeu que havia apenas um atirador no lado direito do portão, pois dois colonos haviam descido do andaime, ambos tinham desistido de suas armas de energia e estavam com facas e bastões indo em direção a Ananke.

Ela era para a atenção deles o que um buraco negro é para a luz, tornando Lince quase invisível no escuro ao seu redor. Ele conseguia se mover sem grandes obstáculos próximo ao muro e subiu o andaime, despercebido pelo rapaz com a espingarda, que estava concentrado em conseguir uma visão de Ananke que não arriscasse a vida dos outros dois.

Talvez Ananke tivesse percebido isso, pois estava evitando usar suas soqueiras enquanto estivesse no raio de visão do atirador. Lince tentou desarmá-lo, mas o rapaz era mais forte do que esperava. Ambos competiram pela arma até que o rapaz subitamente parou de puxá-la para si e a usou para empurrar Lince contra a mureta, a quina do concreto fazendo um baque contra o traje armadurado. Com um último puxão, Lince arrancou a arma dele e deu uma coronhada em seu rosto. O garoto caiu de joelhos, encarando-o com um misto de raiva e lágrimas.

— Vão nos matar também? — O garoto soltou um riso amargo.

Lince sequer tinha erguido a arma contra ele. Tinha percebido que Ananke também não estava usando métodos letais e, se preciso, apenas para coagi-los a parar.

— O quê?

— Você é um deles, não é? Me mata logo então, porra.

Vendo que o atirador não seria mais uma preocupação, Ananke nocauteou um dos atacantes com um soco no rosto com tamanha força que mesmo se a soqueira não fosse eletrificada, duvidava que ele levantaria de novo tão rápido. Desviou de um golpe circular da faca do segundo e o derrubou com um chute no joelho, antes de finalizar com outro soco porque pra que arriscar, não é?

— Um deles? Da Esquadra? — Lince perguntou, agora que as ameaças, aparentemente tinham sido neutralizadas.

Ananke estava subindo o andaime. A raiva no olhar do garoto vacilou com dúvida, mas ele queria sentir raiva e persistiu nela admiravelmente.

— Vocês... Vocês são da Esquadra? Onde é que vocês estavam, seus…

— Óbvio que somos da Esquadra, por que eu usaria esse uniforme sem graça se não para ser reconhecida como oficial da Esquadra? — Ananke cortou sem muita paciência e cruzou os braços. — Explique-se. Agora.

— A gente estava esperando por vocês! — Ele gritou. — Vocês chamaram no rádio, a estação desligou as defesas... Mas não foram vocês que apareceram.

— Nós não conseguimos contato pelo rádio. Você estava na estação? Quem apareceu?

— Qual é o seu nome? — Lince interrompeu. Segundos atrás, o garoto tinha uma espingarda e estava pronto para matá-los, mas agora via que era só um menino estressado e assustado. Um pouco magro demais para a altura, com cabelos claros e manchas vermelhas no rosto parecidas com as de Ananke.

— Seriman — respondeu, quase cuspindo a palavra. — Claro que eu não estava na estação, eu tenho cara de cientista do governo, imbecis?

— Aí, garoto — Tamura gritou do chão. Ela andava entre os colonos desmaiados dando chutes leves para ver se ainda estavam vivos, por mera curiosidade, já que não parecia disposta a prestar nenhum auxílio médico. — Se você responder rápido, a gente vai embora rápido.

— Meu pai trabalha na estação. Trabalhava. — A raiva se desfez em lágrimas ressentidas. — A gente não sabe o que aconteceu direito. Apareceu uma nave estranha. Depois recebemos uma comunicação toda zoada. Eles pareciam em perigo, então um grupo foi conferir e... — Ele não conseguiu continuar, cobriu a boca com uma das mãos, as lágrimas se transformando em um choro copioso. — Onde vocês estavam...? Onde vocês estavam...?

Lince encarou Ananke. Pelo que sabia, a Vanguarda deveria estar ali bem antes, mas o encontro inesperado com uma nave hostil — Yetoni, talvez? Ele ainda precisava aprender os nomes —, no mesmo momento em que a singularidade entregava Lince para a Vanguarda, os atrasaram em algumas horas.

— Tem mais gente aqui? — Ananke perguntou.

Seriman assentiu.

— Estão nas casas. Se esconderam quando vimos vocês voando para cá. Pensamos que eles tinham voltado.

— Nós trouxemos os suprimentos.

— Grande merda — disse, começando a descer o andaime.

— Eu devia esperar por essa… — Ananke comentou, encostando-se no muro. Conforme Seriman informava que não havia risco, as pessoas começaram a deixar suas casas. Os colonos encaravam com um misto de desconfiança e alívio os membros da Esquadra, mas o alívio desaparecia ao verem apenas três pessoas. Ananke ativou o rádio. — Capitã, como estão por aí? Os colonos nos disseram que houve um ataque na estação de pesquisa.

A resposta não veio de imediato, o que, por um momento, a preocupou. Passados alguns segundos, a resposta chegou.

Nós... já tínhamos percebido… — A voz dela parecia estranhamente abalada.

— Foi muito ruim?

*

Naymeeneraham desligou o rádio após informar Ananke de que não precisariam de apoio. A estação estava vazia, com exceção dos mortos, e eles não costumam ser uma ameaça.

Ao entrarem na estação, não tinham dimensão do banho de sangue que acontecera ali horas antes. Estavam cautelosos por terem encontrado uma equipe de três seguranças mortos com ferimentos no peito logo na entrada de carregamento, mas, quando chegaram no complexo em si, não havia um ângulo em que pudessem olhar sem encontrar um cadáver.

Leif recuou um passo, encontrando a porta às suas costas. A mão esquerda tateou às cegas até encontrar a maçaneta, em desacordo com a mente que se forçava a aguentar a visão grotesca. Se fosse possível viajar no tempo, Leif poderia encontrar a si mesmo naquela sala. Não queria se encarar naquele momento, mas se houvesse a mais remota chance de ter alguém ali precisando de ajuda, ele o faria. Engoliu em seco, a mente vencendo a batalha dessa vez, e seguiu em frente.

De soslaio, viu que Naymee e Imari também relutavam. Imari cobria a boca com as mãos, os olhos marejados refletindo as luzes vacilantes. Leif imaginou que fosse a primeira vez que ela via algo do tipo, considerando sua pouca idade.

Naymee, imóvel exceto pelos olhos que vagueavam pelo ambiente, determinados a absorver cada ângulo da cena, parecia já ter visto sua cota de corpos no passado. Mas mesmo assim, desviou o rosto por um instante antes de continuar andando.

A esperança de Leif de que alguém pudesse ter sobrevivido àquilo logo se mostrou falsa. Todos estavam mortos. Seguranças, cientistas, executivos, não havia distinção entre as vítimas. Algo nos mortos chamava atenção de uma forma sutil que ele não conseguiu compreender de imediato. Então Imari, confiando nas leituras de Leif, guardou a arma no coldre e gesticular para eles: — Não parece… que todos foram atingidos deitados?

Nos cientistas, o sangue das feridas do peito havia jorrado em uma mancha circular, escorrendo homogeneamente pelas laterais dos corpos de uma forma que a gravidade não permitiria caso estivessem de pé. Imari se ajoelhou ao lado de um dos seguranças, com um traje armadurado parecido com o que a equipe da Vanguarda usava agora: — Nos seguranças, tem apenas um ferimento entre as placas do traje. Esse aqui parece ter sido causado por uma lâmina. Sem arranhões ou marcas de impacto no traje.

Naymee esticou a mão para o ferimento. A pele estranhamente avermelhada em volta parecia ter sido queimada.

— Os assassinos acertaram exatamente onde queriam, sem erros? — Leif perguntou. — Ou são muito habilidosos, ou estavam com muita calma e tempo disponível.

— Concorda com a avaliação dela, doutor?

— Em geral sim, mas... — Ele se agachou ao lado do segurança. Em vez de olhar as feridas no torso, moveu delicadamente a cabeça do segurança para o lado, exibindo um pequeno objeto metálico agarrado no pescoço dele. Parecia uma bala que, em vez de perfurar a pele totalmente, havia aberto a extremidade da frente e se enterrado na pele com uma mordida metálica. — Vocês viram se os outros também estavam assim?

Naymee foi verificar um dos cientistas. Não havia nada em seu pescoço, mas encontrou o mesmo objeto na lateral do braço, mal posicionado como se atingido de raspão, mas fixo o bastante para seu objetivo. Outras vítimas também tinham em locais diferentes.

— Então todos eles têm um desses trequinhos e um único ferimento letal. Opiniões?

Leif tinha encontrado um desses objetos perto da parede com a ponta destruída, comprovando a teoria de que fosse um tipo de munição. Não era resistente o bastante para causar danos à parede, ou não seria tão superficial nas vítimas. Da ponta arrebentada, ele notou uma agulha vazando um líquido azul. Abriu a maleta e pegou um aparelho de análise laboratorial, um par de luvas e uma pipeta descartáveis. Pingou algumas gotas do líquido no aparelho e inspirou fundo ao ler o resultado.

— Ao que parece, isso injeta um neuro-inibidor.

Imari se levantou, encarando-o com horror. Suas mãos tremiam de leve: — Essas pessoas... estavam imobilizadas enquanto os assassinos as executavam?

Leif assentiu, sem querer vocalizar um destino tão severo.

Naymee não fez comentários. Continuaram para uma área que parecia uma recepção. Ela andava lentamente pelo lugar como se tivesse medo de perturbar os mortos ou de atrair o que tivesse provocado aquele fim. Tinha uma mulher kaani caída atrás de um balcão com uma roupa formal, os olhos negros abertos sem vida observando-os entrar. Havia um corte de lâmina nas costas. Naymee se agachou ao lado dela, olhando na mesma direção que ela, as portas de vidro que mostravam outros mortos no corredor externo.

Que desespero devia ter sentido, vendo o portador daquela lâmina se aproximar, já sabendo o que ele havia feito aos outros. Será que ele tinha sorrido enquanto caminhava até ela? Será que balançara a espada com descaso, sabendo que ninguém podia desarmá-lo ou atacá-lo de surpresa? Será que tinha aproximado seu rosto do dela para ver a vida abandonar seus olhos? A respiração de Naymee falhou. Ela quase podia ver os olhos dele através das lentes vermelhas de uma máscara. E sabia que a resposta era sim, para todas as perguntas.

— Capitã? — Leif a chamou, despertando-a do transe. Ele e Imari estavam diante dos laboratórios, esperando por ela.

Levantando-se rápido, ela foi até a porta, mas a trava magnética exigia uma identificação. Imari fez um gesto para que esperassem e foi até um dos cientistas, tateando os bolsos do jaleco até encontrar um cartão preto que permitiu a entrada deles.

— É um laboratório do Governo-Geral, eu posso...? — Leif perguntou. Normalmente, ele não teria permissão de estar ali. Talvez nem Naymee e Imari. Com o braço impedindo o fechamento das portas, ela apenas o encarou com seriedade.

— Leifrheaarem, eu sinceramente não ligo. Deixar você passar por uma porta não é o que vai me ferrar.

Leif pigarreou. Parecia errado ter uma conversa casual em um lugar como aquele, mas se não dissesse logo, o motivo se perderia.

— Você não é o que eu imaginava de uma capitã da Esquadra.

Naymee hesitou, também ponderando deveria responder.

— Sou a primeira que conheceu?

— De perto, sim. Já trabalhei em outras naves, mas nunca próximo dos capitães. A propósito, pode me chamar de Leif.

— Bom, Leif, já que você é um cientista, pode me ajudar a descobrir o que tinha nesse laboratório para justificar isso?

— E tem como justificar? — Ele murmurou, abatido, entrando no laboratório.

— Não justificar, mas entender o motivo disso ter acontecido aqui, em uma base do Governo-Geral. — Imari, ouvindo a conversa, deixou de lado os papéis largados sobre as bancadas em que mexia. Não apenas seu rosto, mas suas mãos também mostravam o quanto estava abalada com a visão da estação de pesquisa naquele estado, gestos lentos e hesitantes, muito opostos à animação costumeira. Era uma excelente soldado, mas era jovem e tinha visto poucas coisas como aquela. — O que estudavam aqui, capitã?

Naymee deu de ombros.

— Plantas, pelo que sei.

— Não parece um laboratório de biologia — Leif comentou. Não tinham amostras, tubos de ensaio ou nada do que, por experiência própria, ele esperaria ver em um laboratório. Apenas bancadas de numerosos computadores exibindo as telas de repouso e um objeto que tomava toda a parede do laboratório conectado a eles, que parecia ser uma grande unidade de processamento. Alguns computadores ainda com seus pesquisadores debruçados sobre os monitores, surpreendidos pelos assassinos no meio do trabalho. — Meu “parecer de cientista” é que isso é um laboratório de informática. Certeza que é o laboratório principal?

No tempo em que Naymeeneraham conferia a placa de identificação na entrada, Leif já havia casualmente tomado o lugar no computador central. Era o único desocupado, mas o corpo jogado ao chão ao lado da cadeira podia sugerir que um dos assassinos também havia se sentado ali.

— Sim, laboratório principal. Então... nada de plantas?

— Felizmente para nós, parece que os assassinos destruíram o sistema de segurança — Leif falou baixo, ativando algum comando no monitor. Uma tela preta surgiu com diversas informações em letras brancas. — Eles deviam estar com pressa. Pelo histórico de operações, apenas fizeram uma cópia de tudo e foram embora. Quase tudo. “Arquivo em Contenção não pôde ser copiado”, seja lá o que isso for.

— Arquivo em Contenção? Não é Arquivo Compactado? Ou, sei lá, comprimido?

— Tá escrito “Arquivo em Contenção”.

— Vê o histórico desse arquivo, por favor, Leif.

Leif tinha relativa facilidade em encontrar qualquer coisa no computador. Seus predecessores não tinham sido sutis, quase era possível ver as trilhas deixadas pelo programa que usaram para burlar a segurança. Na verdade, eles pareciam ter apenas danificado a interface. Como se, ao pegar a chave errada de uma porta, eles achassem mais simples refazer a fechadura.

Logo, uma lista de entradas que se estendia por meses, desde a criação do arquivo, se revelou. Mas a maioria delas se repetia.

[Arquivo em Contenção] não pôde ser aberto.

Erro: Falha de varredura de [Arquivo em Contenção].

Extração de arquivos pelo programa Zachri.

Erro: [Arquivo em Contenção] não pôde ser extraído.

Erro: Zachri parou de rodar.

Extração de arquivos pelo programa Vega.

Erro: [Arquivo em Contenção] não pôde ser extraído.

Erro: Vega parou de rodar.

Os cientistas pareciam muito interessados no arquivo trancafiado. As primeiras tentativas de abri-lo tinham sido inocentemente executadas por programas pré-existentes. Depois, meses de comandos brutos irreconhecíveis para os três apareciam listados, sempre retornando o mesmo resultado. Leif passou rapidamente por essa parte das entradas, até chegar no dia atual.

Erro: [Arquivo em Contenção] não pôde ser copiado.

Erro: [Arquivo em Contenção] não pôde ser copiado.

Erro: [Arquivo em Contenção] não pôde ser copiado.

— Viltri, o que você pode me dizer de arquivos digitais em contenção?

Como assim? Quer dizer compactado? — Depois de uma breve explicação, o Imediato respondeu: — Sinceramente, nunca ouvi falar.

— É seguro supor que o que motivou a invasão foi isso. Eles mataram todos aqui, mas esse parece ser o único lugar na estação em que mexeram.

— Alguma ideia do porquê, capitã? — Dessa vez, foi Leif quem buscou opiniões, uma curiosidade discreta estudando cada gesto de Naymeeneraham, ainda imersa nas informações sem sentido exibidas na tela.

— Nenhuma — respondeu, com um suspiro frustrado, quase convencendo-o de que era verdade.

Leif deixaria passar de uma forma ou de outra, mas algo aconteceu que desviou a sua atenção e ele bruscamente afastou as mãos do computador. As luzes do sistema do traje apagaram rapidamente, apenas por um piscar de olhos ou batida de coração. Não por tempo o bastante para que ele começasse a sentir o frio cortante de Ashaam, logo as luzes reativaram, os sistemas de sobrevivência operando como sempre.

— Pensei que levaria um choque — explicou para elas, surpresas com o movimento súbito

— Você encostou em algo?

— Nada além do computador.

— Leif — Imari chamou. Na língua de sinais vorcia, gestos específicos identificavam nomes de pessoas. Para ele, Imari girou o pulso no topo de uma orelha, por causa das orelhas levemente pontudas de Leif. Em seguida, tocou com dois dedos a tela holográfica em seu pulso, uma pergunta não formulada sobre a integridade do traje.

— Parece estar tudo em ordem — respondeu, conferindo a tela em seu próprio pulso. — Espera…

A tela do computador exibia uma nova mensagem:

Êxito: [Arquivo em Contenção] transferido para dispositivo externo.

Para controlar todas as funções, os trajes tinham uma singela unidade de processamento. Não era impossível que funcionasse como um computador primitivo, apesar de não ser o propósito principal, recebendo e enviando arquivos quando conveniente, mas apenas ao comando do usuário.

— Arquivo parasita?

— Não.

Um arquivo parasita teria sido copiado facilmente pelos invasores, seguindo sua programação de distribuição exponencial. Anuradhira havia desativado a maioria deles em um longo processo de cooperação interplanetária há centenas de anos-padrão, mas ainda era possível encontrar alguns em atividade. Não foi o caso deles.

— Vamos sair daqui — disse Naymee. — Vou contatar a Esquadra, eles que lidem com isso. Leif, esse arquivo precisa ser avaliado. Evite se aproximar de terminais e computadores com esse traje na Vanguarda.

— Se essa é uma preocupação, eu posso esperar na colônia pelo seu técnico.

Naymeeneraham digitou algo no pergarol e ativou o comunicador. Nos segundos que precederam a resposta de, Leif supunha, Viltri, ela o encarou com seriedade e respondeu, simplesmente:

— Não, não pode.

Notas finais
Eu não sou muito confiante em cenas de ação, mas gostei do resultado. Espero que tenham gostado também :)