Cem Mil Anos-Luz

4 1.3 Newton's Third Law


A Vanguarda permaneceu na órbita de Ashaam por um dia-padrão e meio até uma nave bélica da Esquadra chegar, mas nada indicava que os invasores da estação planejavam voltar, muito menos que se importassem com uma pequena colônia de habitação. Os colonos estavam ressentidos com a Esquadra por não estarem lá quando precisaram, mas a presença dela ainda era reconfortante.

O capitão Mirant da N.G.G. Peregrina trouxe um destacamento de defesa diligente para a colônia. Naymeeneraham passou bastante tempo com ele e até voltou à estação em sua companhia e do grupo de perícia responsável pela investigação.

Leif esperava receber algumas perguntas relacionadas a forma que o Arquivo em Contenção tinha sido transmitido para seu traje, mas o interrogatório hipotético não chegou a acontecer. Ninguém parecia ter recebido ordens de analisar aquele fato específico, e ele ponderou a possibilidade de Naymeeneraham ter reservado essa informação do outro capitão.

Leif não sabia disso, mas não teria sido a única informação omitida. Ananke e Naymee tinham se aproximado de Seriman pouco depois, para que ele mostrasse a transmissão danificada da estação durante o ataque.

Estamos […] atacados! [...] A Esquadra precisa [...]” Houve uma interrupção mais longa do que mera estática, e quando a transmissão retornou, era uma voz diferente. Jovial e tranquila, e elas podiam jurar que era possível ouvir um sorriso em sua voz. “Eu [...] Ri… g… mery [...] me conhecem. [...] Temam, [...] estou aqui.”

Ananke quis arremessar o aparelho contra a parede. Naymee não levantou o rosto, tentando não deixar transparecer a respiração acelerada, até Ananke segurar seu pulso com firmeza.

— Wangi precisa saber disso.

— E ninguém mais — Naymee completou.

*

O grupo de terra retornou para a nave e seus devidos postos de serviço. Trabalhos como aquele eram importantes, talvez até importantes demais, e havia certo conforto em retornar para o corriqueiro. Ananke Zreindel, na estação de navegação, batia de forma ritmada a sola do coturno no chão, aguardando um novo destino para a Vanguarda. Para a felicidade do Sr. Omeron, não era ele o piloto designado para o horário, mas sim Kahan, que não se importava tanto assim com a navegadora. Olhando de soslaio, ele talvez até gostasse do que via.

Inore Viltri, no centro da ponte, comandava o ambiente na ausência da capitã, que estava fazendo um relatório detalhado para a Diretora Wangi da Inteligência, mas muitas dúvidas atravessavam tangencialmente seus pensamentos. As coisas normalmente eram simples e diretas para ele, mas não para Naymeeneraham, e ele ainda não tinha certeza se valia a pena segui-la incondicionalmente.

Tamura odiava tempo livre, pois, por exigência do Código de Segurança Social em Espaçonaves, no mínimo a metade dessas horas deveria ser passada na sala de convivência para prevenir o pânico e a paranoia de estar enclausurado em uma lata de sardinha em pleno vácuo do espaço. Então se trancou na sua sala para trabalhar o máximo possível, para a infelicidade de Szauratia e Mohtro, seus auxiliares.

Leif não tinha conversado muito desde que voltara para a nave. Cenas da estação de pesquisa ainda não tinham saído de sua cabeça. Às vezes parecia que aquelas imagens sempre estiveram em sua cabeça, tão semelhantes a outras que também não podia esquecer. Mas no salão de convivência encontrou Imari, lendo um artigo holográfico com olhar vidrado, quase encantada. Ela olhou por cima da tela e abriu um sorriso animado, acenando com a mão.

Leif se sentou próximo dela com seu caderno de desenhos no colo. Não pensava em iniciar uma conversa, mas Imari tomou a dianteira, deixando a tela sobre a mesa por alguns segundos: — Sabia que os humanos têm crenças sobre pessoas aquáticas?

— Ficou curiosa com os humanos?

— E tem como não ficar? Além de que não é curiosidade, estou fazendo meu trabalho investigando o recém-chegado. — Ela deixou o falso ar defensivo para abrir duas imagens na tela holográfica. — Só não entendo como podem ser tão diferentes.

Na imagem da direita, Leif viu o torso de uma mulher humana com uma longa cauda de peixe. Mas na da esquerda, tinha um peixe cujo único traço humano era o rosto.

— Eles acham essas “sereias” um povo irresistivelmente atraente, então deve ser essa primeira, não é?

— Confesso que tenho dificuldade de achar qualquer uma atraente, tem metade de um animal nela.

Imari cruzou os braços com um biquinho insatisfeito, mas deu um empurrão leve contra o ombro de Leif, como se dissesse que o deixaria desenhar em paz agora, e continuou lendo sua enciclopédia sobre humanos.

Já Lince refletia sobre os eventos do dia anterior. Nunca 24 horas lhe pareceram capazes de abrigar tantas coisas. Aliás, tinha suas dúvidas de que seus dias permaneceriam com essa duração e fez uma anotação mental de pesquisar sobre o assunto.

Uma batida na porta fez com que guardasse o anel prateado de volta no bolso.

— Pode entrar.

Naymee entrou e fechou a porta. Lince fez menção de se levantar, mas ela o parou com um gesto e sentou no chão do lado dele, apoiando as costas na cama, as asas sobre a borda do colchão.

— Viltri disse que você queria falar comigo. Imagino que chegou a uma resposta definitiva sobre a minha proposta.

Lince assentiu, mas ela o cortou.

— Olha, antes de você dizer, saiba que essa não era a ideia que eu tinha para sua primeira missão. Zreindel me falou da troca de tiros e explosões… Não estava nos planos!

— Não vou mentir e dizer que não foi nada demais, mas não mudou minha opinião. Eu quero continuar na Vanguarda.

Ela deu um sorriso que Lince não compreendeu. Parecia quase aliviado.

— Isso é uma boa notícia. A Especialista Tamura já preparou sua identidade falsa, ela odiaria saber que foi à toa.

— Mas eu decidi não aceitar o seu conselho, Capitã — Lince continuou. — Sobre pensar no meu futuro deste lado da galáxia. Eu sei que, no momento, não há quem entenda o que você chamou de singularidade. Mas o destino de todos os mistérios científicos é a elucidação. Eu vou entendê-las ou encontrar quem as entenda. E vou voltar para a Terra da mesma forma que saí dela.

Naymeeneraham assentiu, parecendo satisfeita com o objetivo audacioso. Mas os segundos em silêncio denunciaram uma hesitação por trás da postura simpática. Em um momento, ela pareceu que iria se levantar, mas desistiu no último instante e se virou para Lince.

— Faça isso, então. Mas… enquanto estiver desse lado da galáxia, você provavelmente vai conhecer pessoas que parecerão interessadas, contagiantes, tolerantes. E eu quero que você as conheça. Mas eu peço que você tenha em mente… A única pessoa que vai ajudá-lo a voltar para casa serei eu.

Lince estreitou os olhos para a estranha colocação.

— O que quer dizer?

— Não é fácil explicar. Pode apenas lembrar disso?

— Não pode dizer algo assim sem maiores explicações. Tem que reconhecer, soa no mínimo suspeito.

Embora não fosse uma piada, Naymeeneraham riu antes de se levantar. Não havia mais um traço da hesitação de antes, como se a dúvida nunca tivesse acontecido.

— Se você vai me pedir algo assim, eu quero pedir uma coisa também. A nave em que eu estava antes, a Wanderer, era bem maior do que aquela no hangar. Se encontrarmos outros humanos na minha situação, pode garantir que irá recebê-los?

De forma menos relutante que o esperado, Naymee fez um gesto calmo com a mão.

— Enquanto tivermos capacidade, não vejo por que não. Bem-vindo à tripulação, Lince Davik.

Depois da ida de Naymeeneraham, Lince repassou a conversa em sua mente. Permanecer na Vanguarda sem dúvida era sua melhor opção, não apenas porque não estava disposto a viver o resto da vida em um cercadinho simulando a Terra sob a guarda de um governo desconhecido, mas também porque enquanto qualquer outro lugar trazia apenas incerteza, a Vanguarda lhe trazia alguns fatos: a capitã lhe dera uma escolha, os médicos lhe trataram da mesma forma que trataram Tamura e Ananke tinha atraído tiros para longe da direção de seus subordinados.

A Vanguarda parecia um lugar seguro o suficiente para um humano desgarrado de seu planeta natal, e isso era bem mais do que poderia esperar do resto da Super-Região.

Naymeeneraham provavelmente já havia espalhado a notícia de que a Vanguarda tinha um novo tripulante — em definitivo, dessa vez —, pois não muito tempo depois, Tamura ligou para ele, informando não tão educadamente que tripulantes não passam o dia inteiro no quarto de pernas pra cima.

Lince decidiu não dignificar a postura dela com uma resposta e apenas desligou.

Mas, no fundo, não achou algo ruim. Ele já tinha sido “o estranho” vezes o bastante para saber valorizar momentos em que fosse tratado como qualquer outro.

Fora do quarto, a maioria dos tripulantes não lhe dava muita atenção, todos focados em seus próprios serviços. Lince, que sempre teve a impressão de ser uma sombra despercebida em locais cheios, notou um ou outro tripulante franzir a testa ao vê-lo, tentando reconhecê-lo de algum lugar. Sua origem terráquea não era uma informação difundida; com exceção dos três oficiais do Comando e das pessoas do hangar de transporte que viram-no chegar à nave — as quais tinham sido convocadas individualmente pela capitã para uma conversa —, apenas o corpo médico saberia.

Eram muitas pessoas para um pretenso segredo.

No caminho para a sala de Tamura, Lince passou pelo salão de convivência, onde tripulantes em roupas casuais aproveitavam suas folgas com jogos e conversas. Ele não tinha intenção de parar ali, mas uma voz reconhecível chamou sua atenção.

— Não faz isso, vai deixá-lo constrangido.

Em um dos cantos do salão, onde as paredes eram repletas de plantas em volta de alguns sofás, ele viu Leif concentrado em um caderno, com aquele ar calmo que lhe parecia característico, falando de lado com Imari. Ao perceber Lince, Imari acenou com um sorriso largo e, em um gesto propositalmente lento, pôs uma das tranças de seu cabelo atrás da orelha e piscou para ele.

Lince franziu as sobrancelhas, pego de surpresa pelo comportamento no mínimo confuso. Ainda sem levantar o rosto do caderno, Leif explicou em tom baixo.

— Ela acabou de descobrir sobre… qual era mesmo o nome? “Ser-eyas”?

Imari fingiu dar um tapa no ombro de Leif, mas não parecia incomodada com a revelação. A compreensão súbita de que Imari havia tentado seduzi-lo deixou Lince sem reação em um primeiro momento, até que ela resolveu dizer algo, que Leif se dispôs a traduzir:

— “Desculpe se te deixei desconfortável. Estava só brincando.”

Lince balançou a cabeça com um riso discreto. Uma coisa era certa, ele poderia estar bem mais mal-acompanhado naquele lado da galáxia.

— Como é que vocês sabem tanto sobre nós se não podem ir até lá?

— Sabemos muito sobre muitos lugares diferentes por causa dos synthraros. O tempo da viagem não é grande coisa para seres sintéticos. Alguns passam milhares de anos viajando. E, quando voltam, suas famílias ainda estão lá para recebê-los.

— Seres daqui já estiveram na Terra?

— Não necessariamente. Eles podem pegar informações à distância, fazendo upload de si mesmos para sondas e satélites sem…

Leif teve a sensação de estar olhando para dois pedaços diferentes da mesma imagem. Fazia muito tempo que não se viam synthraros fora de Anuradhira, mas e se o Arquivo em Contenção fosse uma consciência synthrana? Um arquivo complexo e senciente que recusava, sem motivo aparente, ser extraído, analisado ou copiado, até o momento em que quisesse ser.

Talvez Imari tivesse chegado à mesma conclusão, e como se ouvisse a teoria que Leif formulava, ela comentou: — Não pode ser. Synthraros são pessoas. A Esquadra não pode estudá-los em um laboratório.

— E se não soubessem? E se soubessem, e, por isso, fizeram uma estação isolada para estudar plantas nas quais eles nunca tocaram? Sem dispositivos complexos ao alcance para que o Arquivo em Contenção se transferisse?

— Estão falando do que acharam naquela base, é uma dessas pessoas sintéticas? — Lince perguntou. — E é seguro trazer isso para a nave?

Lince e Leif olharam para Imari, esperando a resposta da Chefe de Segurança.

— Óbvio que não — ela gesticulou rápido, antes de se levantar e correr para fora do salão de convivência.

Era difícil digitar no pergarol em movimento, mas antes de alcançar o elevador, Polya já tinha respondido sua mensagem, com a sala em que o traje de Leif tinha sido deixado no hangar de transporte. Imari não estava esperando pelos rapazes, mas eles entraram logo antes das portas se fecharem, enquanto ela mandava um alerta para Ananke, Viltri e Naymee sobre a possibilidade do Arquivo ser na verdade um synthraro.

No hangar de transporte, um segurança tentou impedi-los de passar por não estarem uniformizados, mas Imari o ignorou e os outros seguiram a deixa dela.

— Não podem entrar aí, ordens da capitã! — Alguém gritou quando se aproximaram da porta da sala.

Naymee olhou por cima do ombro, irritada com a interrupção. Ela estava em um banquinho ao lado do traje usado por Leif, conectado por cabos ao monitor em uma mesa de metal do outro lado. Naymee tinha no colo um painel de controle com muita cara de trabalho amador.

Imari apoiou-se na parede, recuperando o fôlego. Era irritante ser tão mais pesada fora d’água! Apontou para o traje, mas antes que dissesse algo mais, Naymee interrompeu:

— Espero que tenham vindo dar boas-vindas à nossa hóspede — alertou com seriedade. Ela abaixou o rosto para o painel e digitou alguma coisa. — A senhora ainda não se apresentou.

Lince, Imari e Leif entraram na sala em silêncio, sem entender exatamente o que estava acontecendo, mas a postura de Naymee quando entraram na sala era um aviso muito claro para não fazerem besteira. Synthraros eram conhecidos por serem orgulhosos. Por um instante, ninguém se moveu ou fez som algum, quatro pares de olhos observando atentamente o monitor, até que a resposta surgiu em letras brancas sobre o fundo azulado.

Yavanna.

Notas finais
Esse é o último capítulo da missão Wayfaring Stranger, portanto, agora vou demorar a retornar. Nos vemos novamente na missão 2: Sky Mirroring.