Cem Mil Anos-Luz

2 1.1 The Gates of Babylon


Havia uma pequena multidão de tripulantes à toa no hangar de transporte. Não porque estavam de folga — com certeza não, já que tinham escapado de um conflito bélico cinco minutos antes —, mas porque o súbito aparecimento de metade de um veículo espacial bem no meio do hangar (1) impossibilitava fisicamente o trabalho deles, ou (2) era simplesmente tão mais curioso e interessante que obscurecia o chamado das responsabilidades.

Imari ficava com a segunda opção, mas, felizmente, seu trabalho era melhor executado quando ficava bem perto de coisas esquisitas e invasores desconhecidos. A melhor parte de ser Chefe de Segurança era poder ao mesmo tempo satisfazer sua curiosidade sem deixar de lado sua responsabilidade. Por isso ela tentava se comunicar com o invasor, com Polya de lado traduzindo a língua de sinais vorcia para todo idioma que tinha baixado em seu PGR. Nenhum estava funcionando.

O rapaz não parecia machucado, mas olhava ao redor sem ter a menor ideia de onde estava e a barreira idiomática não acalmava ninguém. Imari se perguntou se ele já tinha visto uma vorcia alguma vez. Ela sabia que era um pouco estranha para povos exclusivamente terrestres, com a pele pálida azulada, os grandes olhos escuros e os dois cateteres pretos conectados em seu pescoço, mas ainda causava menos estranheza que outros conterrâneos pela rara característica de seus cabelos trançados. A maioria dos vorcias não tinha cabelo algum. Mas o intruso olhou para Polya, com suas manchas e olhos lilases da mesma forma que olhara para ela, então Imari supôs que ele devia ser de um povo bem mais isolado do que ela havia pensado.

Quando Viltri e Naymee chegaram, os curiosos rapidamente deram um jeito de disfarçar a ociosidade. Dois auxiliares de elétrica encararam o painel disjuntor como se analisassem alguma coisa — o que funcionaria melhor se o painel estivesse aberto —, um grupo de três pessoas se aproximou de um dos transportes auxiliares do hangar como se estivessem discutindo a engenharia do veículo, e um dos soldados de Imari se aproximou dela rapidamente para mostrar que estava em serviço.

Imari prestou uma breve continência para os oficiais recém-chegados. Ela podia ser um pouco jovem para a função, mas já tinha a patente necessária e Naymeeneraham queria pessoas que ainda não fossem tão “da Esquadra” assim. Nada contra Viltri e Zreindel, ela gostava muito de seus segundos em comando, mas ainda não tinha esquecido a “invasão” de oficiais quando converteu a Vanguarda em uma nave da Esquadra. Tinha aberto a porta da Vanguarda para eles, mas às vezes sentia que tinham sequestrado sua nave.

Junto de Imari e Polya estavam um outro soldado e um rapaz claramente diferente. A Capitã e o Imediato trocaram um olhar de estranhamento e hesitação ao vê-lo. Imari tomou a frente, com gestos calmos e compassados, ainda na esperança de que de alguma forma o estranho começasse a entendê-los. As pessoas falavam devagar e baixo com animais assustados, aquela era a sua forma: — Houve uma queda de energia aqui no hangar. As luzes apagaram e o ar ficou... — ela hesitou, procurando a melhor forma de descrever — fervendo. Quando as luzes voltaram, isso estava aqui.

Com “isso”, Imari queria indicar a metade de um tipo rudimentar de transporte espacial, uma carcaça metálica cortada perfeitamente como se um grande maçarico tivesse feito o trabalho, mas os oficiais olharam para o rapaz como se “isso” fosse “ele”. Era um homem pálido, de cabelos cinzentos na altura dos ombros e olhos verdes que vagavam entre os presentes como se ainda não tivesse decidido com quem mais deveria se preocupar. Estava propositalmente afastado, a postura rígida contribuindo para o aspecto forte que possuía, em cima da linha que separava o receio de uma calma simulada.

Imari atraiu a atenção dos oficiais de volta para si. Fez um gesto indicando os presentes e levou um dedo aos lábios em um toque rápido: — Ainda estamos tentando conversar. Ele parece não entender a maioria das línguas que o tradutor conhece. Tentamos primeiro J’vi e Thuaam, mas agora já passamos por metade dos povos do Governo-Geral.

— Entendi. Deixe-me testar algo — disse a Capitã, mexendo no tradutor do PGR em seu pulso. De onde estava, Imari não conseguiu entender a língua selecionada, a palavra no holograma aparecia invertida para ela. A Capitã se aproximou do invasor, a pele mudando para o mesmo tom da dele, com exceção dos finos traços de verde em seu rosto. — Você consegue me entender agora?

Ele arregalou os olhos, surpreso. Revezou o olhar entre os dois recém-chegados, como se ainda não tivesse decidido baixar a guarda, o nervosismo permitindo apenas um aceno de cabeça como resposta.

— Sim. Eu consigo entender agora.

— Baixem o idioma Esperanto, da Terra, no tradutor. Ele é um humano.

Com exceção de Viltri, olhares surpresos precederam a ação. Mesmo que houvesse conhecimento da existência dos humanos da Terra, ninguém teria imaginado conhecer um espécime de fora da Super-Região. A Terra era um lugar muito distante para que qualquer um pensasse em conhecer um de seus habitantes. Imari não teve muito êxito em disfarçar a curiosidade e deixou de lado o que estava tentando comunicar antes para fazer novas perguntas.

— “Quem é você? Como veio parar aqui? Vocês já têm tecnologia espacial de longas distâncias?” — Com o tradutor atualizado, Polya perguntava em voz alta tudo o que Imari falava, pela limitação dos tradutores a línguas verbais. Todos os membros da Esquadra eram fluentes no que passaram a conhecer como a língua vorcia, mas a empolgação deixava os gestos de Imari um pouco erráticos e ligeiros demais. — Mais devagar, Chefe Imari, não estou conseguindo entender…

— Que tal as perguntas importantes primeiro? — Viltri sugeriu, nada influenciado pela curiosidade dos demais.

— Meu nome é Lince Davik — disse o humano, erguendo a mão para interromper a sobrecarga de perguntas. Tomou um instante de hesitação, em que precisou respirar fundo para convencer o instinto de autopreservação de que o que tinha acontecido com seu transporte de emergência já tinha acabado, e que, sim, apesar de estar no meio de pessoas (?) muito, muito estranhas e armadas, aparentemente a comunicação era possível. Crise evitada, Lince cruzou os braços e indicou Viltri com um gesto de cabeça. — E eu tenho uma pergunta importante. O que aconteceu com a nossa nave? Aliás, o que... — ele se interrompeu, olhando com certo receio para as pessoas na sua frente. Corrigiu-se: — Quem são vocês?

Viltri não demonstrou o mínimo interesse em responder, apenas ativou a tela holográfica do PGR de forma entediada. De repente, parecia não estar mais na conversa. Imari e Polya esperaram que Naymeeneraham respondesse.

— Eu sei que isso — Naymee apontou para a nave humana destruída — é bem incriminador, Lince Davik, mas eu não sei do que está falando. Viemos descobrir como você entrou aqui justamente porque não fazemos ideia do que aconteceu. Sua nave não estava nos sensores e, de repente, estava aqui dentro. Esperamos que possa nos ajudar a entender o que aconteceu, mas, antes, você está ferido?

Lince olhou de relance para o transporte auxiliar onde estava. Metade da máquina havia desaparecido, levando metade das pessoas para Deus sabe onde. Dos que restaram, apenas ele tinha sobrevivido ao que quer que tivesse acontecido. Quase dez corpos mostravam diversas causas de morte, desde colisões com objetos que se soltaram no interior a outros com escoriações sem causa aparente na pele. Ele reconheceu um ou dois rostos da pouca interação antes de partirem, mas muitos estavam ausentes, como a dra. Lestari e o piloto. Por fim, desviou o olhar.

— Eu estou bem.

— Certeza? Temos médicos a bordo.

— “A bordo”?

Naymeeneraham decidiu que essa era uma boa forma de começar a explicar a situação. Infelizmente, tinha uma parte dessa conversa em que ela não queria ter de chegar.

— Você está na Vanguarda, uma espaçonave da Esquadra Interplanetária a serviço do Governo-Geral.

Lince não esboçou reação além de uma leve ruga de indagação entre as sobrancelhas, mas continuou de braços cruzados, ouvindo. Decidiu aceitar o que lhe falassem e só depois pensaria de fato sobre as novas informações. Talvez não fosse a melhor decisão, mas era a decisão que se sentia capaz de executar no momento, porque sua mente queria perguntar que piada é essa, mas ainda tinha a plena noção da presença dos cadáveres a seu lado para duvidar que algo no mínimo estranho tivesse acontecido. Mesmo que fosse estranho assim.

Como se percebesse a ginástica mental de Lince para aceitar aquela única frase, Naymeeneraham se virou para os outros.

— Alguém tem um daqueles panfletos que explicam sobre a Super-Região aí? Não? Certo, não é importante. Você está numa espaçonave e nós não somos terráqueos, basicamente é isso.

Bom, ele precisava reconhecer que isso explicava bem as pessoas esquisitas na frente de Lince. Então tudo bem. Alienígenas. Certo. Por que não? Quantos de seus colegas de profissão não passaram a vida teorizando sobre outras formas de vida pelo universo?

Pensar nisso depois. Uma coisa de cada vez.

— O que aconteceu conosco não foi um artifício de vocês, então?

É claro, Lince não acreditaria nisso apenas pela palavra deles, mas estava disposto a deixá-los guiar a conversa e captar eventuais contradições. Mesmo que, agora que não se sentia mais ameaçado e o pico de ansiedade diminuía, ele começasse a se sentir exausto. Talvez precisasse repetir essa conversa depois. O esforço de permanecer de pé com tudo que precisava absorver prejudicava sua atenção. Percebeu que não tinha ouvido a primeira frase da capitã, mas decidiu não interromper.

— … então a resposta seria mais precisa se nos disser o que exatamente aconteceu com vocês.

Então Lince contou do acontecido, da queda de energia e a região escura que envolveu a nave, atraindo objetos próximos com força suficiente para cancelar o efeito dos motores. No instante seguinte, ele estava ali.

— Foi coisa de um piscar de olhos.

Enquanto explicava, percebeu vagamente que a capitã encostou em seu ombro. Se deixou ser guiado para algum lugar até que se viu diante de um banco perto da parede do hangar, onde ele e Naymee se sentaram. Imari e Polya continuaram de pé ao redor deles, com Viltri um pouco mais distante.

— Ficamos sem energia também logo antes de sabermos da sua presença — disse Naymee. — Parece-me que vocês foram vítimas de uma singularidade anômala. É um efeito raro e totalmente aleatório, nós não tivemos parte alguma com isso. Se quiser, posso lhe mostrar os registros no computador da nave.

— Capitã — Viltri se inseriu novamente na conversa com um tom de crítica. — Não acha que temos prioridades maiores do que demonstrar hospitalidade para com um invasor alienígena?

Até aquele momento, Lince não tinha contemplado a ideia de que ele era o alienígena naquela situação.

— Esse é meu Primeiro Oficial, Inore Viltri. Eu sou a Capitã Naymeeneraham. Você já conheceu a Chefe Imari. Perdão pela falta de cordialidade, ficamos tão preocupados com quem você é que não pensamos que pudesse ser recíproco. — Naymee continuou, antes de se virar para Viltri. — Já estamos com o curso marcado, Sr. Viltri, acho que temos tempo para hospitalidade sem prejudicar essas tais prioridades.

— Não é disso que estou falando, Capitã.

Ambos trocaram um olhar significativo por uns instantes, antes dela virar o rosto.

— Chefe Imari, por favor, oriente o nosso visitante e peça a Especialista Tamura para arranjar um lugar para ele. Desculpe, Lince Davik, mas nós teremos que conversar depois.

Lince teve a impressão desagradável de que a conversa silenciosa naquela troca de olhares dizia respeito a ele. Deixar ser afastado não lhe parecia uma boa ideia, mas também não se via em posição de abusar da “hospitalidade” que Naymeeneraham lhe oferecia. Pelo visto, hospitalidade não era consenso entre os oficiais. Era melhor não perder o favor dela tão cedo.

*

— Eu tenho a impressão, Capitã, de que você esqueceu a nossa primeira obrigação ao encontrar alienígenas, principalmente humanos.

Viltri, Ananke e Naymeeneraham estavam reunidos no gabinete da capitã, anexo à ponte de comando. Ela estava em sua cadeira, com Viltri de pé diante da mesa e Ananke, também de pé, apoiada de leve na mesa, ouvindo atentamente o resumo dos fatos que, infelizmente, não testemunhara. Seus óculos de aviador estavam sobre a cabeça e as tranças estavam livres do coque de antes.

— Eu me lembro muito bem, Viltri.

— Então por que eu sinto que tem um “mas” nessa sua resposta? — Como ela não respondeu, ele continuou: — Humanos devem ser entregues à custódia do Governo-Geral, sem “mas”. Eu já preparei a notificação, basta dizer e eu envio.

— Você pode esperar um pouco, então?

— Isso é uma Lei-Geral, Capitã. Todas as naves na Super-Região são obrigadas a comunicar a presença de qualquer alienígena e entregar os humanos. Nós, ainda mais, pois somos membros da Esquadra.

Naymee girou a cadeira, desviando o olhar para a grande parede de vidro atrás dela, que fazia o gabinete parecer um quarto exposto ao espaço aberto. A vista era admirável. Ela se perguntou em que direção naquele pequeno recorte do universo a Terra ficaria.

— O Governo-Geral diz que isso é para a segurança deles também. — Ananke falou quando o silêncio começou a ficar desagradável. — Dizem que humanos não se adaptam muito bem às consequências de uma singularidade.

— Quem se adaptaria bem, Zreindel? Em um piscar de olhos, ser jogado para outro local da galáxia. Às vezes tão longe que não há como voltar.

— O Governo-Geral cuida disso — Viltri insistiu. — Criaram uma colônia de pequeno porte muito parecida com a Terra.

— Você viveria assim, Viltri? No cercadinho de um zoológico com outros três ou quatro infelizes que deram o mesmo azar de vir parar aqui? Singularidades não costumam acontecer diariamente…

— E o que você quer fazer? Não tem como levar ele de volta, você sabe! Aliás, por que você se importa?!

— Poderia abaixar seu tom? Estou com dor de cabeça — Naymee cortou em tom baixo, ainda sem olhar para os dois oficiais.

— Desculpe-me, Capitã — disse, embora os punhos ainda estivessem cerrados e ele não a encarasse ao falar.

— Zreindel. Você compartilha dessa opinião?

Ainda que estivesse calada na maior parte da conversa, Ananke voltou-se para a capitã com uma fagulha de impaciência no rosto, como se ansiasse por se juntar à discussão, mas ao mesmo tempo ainda não tivesse organizado satisfatoriamente a própria opinião.

— Eu estou... dividida — admitiu. Viltri revirou os olhos com desdém e um suspiro audível.

— Já estou ciente da sua opinião, Viltri, agora controle esse humor kodrase ou saia daqui.

Ele fechou os olhos, tentando decidir se valia a pena receber uma reprimenda formal por causa de algo tão banal.

— Fico curioso para o dia em que você descobrir o que é humor kodrase — resmungou, mas se sentou em silêncio com o sorriso seco com que respondia às ironias habituais da capitã. — Mas claro, vamos ouvir madame Zreindel, desculpe interromper.

— Eu entendo o motivo da lei, mas pelo que vocês disseram, o rapaz não parece uma ameaça à Vanguarda ou ao Governo-Geral. Você está preocupado com a adaptação dele na Super-Região, e você, com a vida restrita a uma pequena colônia vigiada pelo Governo-Geral, então por que não discutir isso com ele?

A opinião de Ananke surpreendeu Naymee. Ananke era membro da Esquadra há mais de uma década; não escolher seguir de imediato a Lei-Geral era inesperado, mas bem-vindo. Viltri, por outro lado, tinha mantido a palavra de ouvir sem comentários, mas apertava a ponte do nariz como se não conseguisse conceber o fato daquela discussão estar acontecendo. Ele estava na Esquadra há tanto tempo quanto Ananke, mas a diferença entre eles era fundamental.

— Eu esperava seu apoio nesse assunto, Navegadora Zreindel. Estamos falando de uma Lei-Geral.

— Eu sei. Mas aplicações despropositadas tornam as leis burras. Se a custódia do Governo-Geral tem o sentido de proteger, não pode ser obrigatória quando não existe o risco.

— O Tribunal vai adorar essa lógica...

— Mas você também tem que lembrar, Capitã, que isso não é uma matéria de opinião pessoal — Ananke continuou, esfregando as mãos. Ainda estava se acostumando à nova posição na cadeia de comando e toda decisão que pudesse afetar muitas pessoas era delicada. — Se não quiser entregá-lo ao Governo-Geral, pode ter consequências para toda a tripulação. Se vazar a informação de que a Vanguarda abriga um humano, a senhora vai se responsabilizar por todos os outros que sequer estão cientes da presença dele aqui?

Naymeeneraham não respondeu de imediato.

— Eu só não acho que isolá-los de todos seja a forma mais inteligente de lidar com isso. — Ela se voltou para os dois e apoiou os cotovelos na mesa. — Vou falar com ele antes. Mas se formos ficar com ele, vamos precisar convencer a Especialista Eisenyoung.

— Se decidirmos por isso, deixa que eu falo com ela, ela gosta de mim — Ananke se ofereceu, a seriedade com a qual tinha discutido sobre o futuro da tripulação dissolvendo-se em um instante.

— Ela não gosta de ninguém — Viltri falou. — Mas é uma Eisenyoung. Vai seguir as ordens.

— Estão dispensados.

Viltri e Ananke se retiraram já para assumir novamente seus postos. Viltri tinha voltado a ser a pedra de gelo que costumava ser em público, mas antes se inclinou para Ananke.

— Tenho que dizer, Navegadora Zreindel, é estranho vê-la ser a voz da razão de alguém.

E Ananke decidiu que, de certa forma, era um elogio.

*

Desnecessário dizer: Lince tinha tido um dia horrível.

Não que isso nunca tivesse acontecido, mas fazia muito tempo que não chegava em um nível tão crítico.

Na solidão da cabine que tinham separado para ele, Lince estava sentado à mesa, com a cabeça apoiada nas mãos unidas como se estivesse rezando. O que seu irmão, Dyx, dizia nos piores dias, quando ainda estavam em casa?

Às vezes, o melhor que se pode fazer é ouvir o ar entrando em seus pulmões.

Respirou fundo algumas vezes seguindo a orientação do passado. Isso não fazia os problemas desaparecerem quando era criança e não faria agora, mas alguns minutos de abstração seriam bem-vindos.

Oculto entre as mãos havia um anel prateado em uma corrente, a única coisa visível escapando do aperto. Ainda de olhos fechados, Lince repousou com os nós dos dedos sobre os lábios.

— Eu não devia ter partido.

A Capitã — ele não conseguia lembrar o nome dela — passara pela cabine um tempo atrás, para explicar melhor sua situação sem a pequena plateia de quando ele chegou na Vanguarda. Foi uma conversa quase casual, apesar da conclusão desagradável. Aparentemente, haviam apenas duas opções: ficar na nave com eles e parecer o menos humano possível ou ser entregue a um órgão especial que o largaria em um mundo esquecido para que morresse junto a outros humanos azarados.

Vocês não podem só me levar de volta?” A Capitã pareceu triste quando ele fez essa pergunta.

Você não faz ideia do quão longe está de casa, Lince Davik. Tem ideia do quão grande é a galáxia?” Ele tinha. Cem mil anos-luz de diâmetro. A distância que a luz consegue percorrer em um ano, na espetacular velocidade de 300.000 km/s, vezes cem mil. Ele podia saber calcular isso, mas não conseguia dimensionar a imensidão em sua cabeça. “A Vanguarda é a nave mais rápida da Esquadra. Nós não conseguiríamos cruzar a galáxia em menos de cem anos. Ainda que estivesse disposto a viajar apenas para morrer de velhice ao pisar em seu planeta-natal, não pode esperar que nós estejamos também.”

Mesmo meia hora depois dela ter se retirado, Lince ainda fazia cálculos, porque não aceitava que não tivesse outra resposta. Mas voltar em uma nave não era uma opção. Ele tinha simplificado os números para fazer contas de cabeça, e se a Vanguarda viajasse mil vezes acima da velocidade da luz, eram 26 anos do sol até o centro da galáxia, mais 45 até onde estava agora. Totalmente impraticável. Ele precisava de uma alternativa que não levasse 71 anos para se concretizar.

Como eu disse antes, as singularidades são aleatórias e imprevisíveis”, disse ela quando Lince levantou a possibilidade. “Não dá para saber quando vão acontecer, muito menos aonde vão lhe levar. Você pode parar ainda mais longe. Eu sinto muito, mas sugiro que comece a pensar em uma vida desse lado da galáxia.”

Lince guardou o anel no bolso novamente e se levantou. Se quisesse viver com os humanos, deveria procurar o Primeiro Oficial Viltri. Se quisesse permanecer na Vanguarda, deveria encontrar a Especialista Eisenyoung.

Que bom que Lince já conhecia o caminho para a sala dela.

[...]

— Tamura falando.

Tudo bem com você? O que aconteceu? — A voz de Ananke perguntou do outro lado da linha. — O pessoal na sua sala disse que você está na enfermaria.

— É verdade, parece que eu peguei uma gripe pesada. Sabe quem pega gripe em uma nave espacial? Ah, sim. Ninguém! É um ambiente controlado, com descontaminações periódicas! Ou melhor, era, até um alienígena do outro lado da galáxia aparecer e a capitã decidir adotar ele. Eu tive que passar cinco horas com ele tentando descobrir o que fazer com ele aqui! Como eu emprego alguém que não conhece metade das coisas que vê ao seu redor?!

Isso é perfeitamente solucionável com treinamento e…

— Ah, eu não vou treinar ninguém!

E... — Ananke continuou, com bastante ênfase — você não deveria falar assim fora da sua sala. Nem todos na nave sabem sobre o Lince.

Tamura ainda ficava ofendida com a insinuação de que humanos eram suficientemente parecidos com kaanis a ponto de ter recebido ordem de fazer documentos falsos que registravam Lince como um conterrâneo seu.

Um kaani com uma mutação genética para justificar os olhos claros. Tá bom, quem vai cair nessa?

— Só tem o corpo médico aqui, eles precisam saber. Foi pra essa perda de tempo que ligou?

Estamos chegando em Ashaam em duas horas e você está listada na equipe de terra. Ainda pode comparecer?

— Óbvio. Quem mais seria útil? Com licença, o médico está voltando.

Tamura desligou antes de ouvir a resposta e se jogou de volta na maca, encarando o teto com seus olhos negros de irises prateadas. Se a irritação fosse um fenômeno físico, seu olhar teria aberto um buraco no teto e jogado todos para o vácuo do espaço. Que estupidez fazerem-na ficar deitada por causa de uma porcaria de febre e dor no corpo. Nunca tinham sentido dor antes?

O médico, um rapaz de Imago chamado Leifrheaarem, entrou no local carregando uma bandeja com uma seringa. Ele tinha um aspecto calmo, porém tímido, e a dúvida hesitou rapidamente em seu rosto sobre fazer ou não um comentário. Por fim, ele decidiu que sim:

— Posso ver que a dor de garganta passou — brincou, deixando a bandeja no suporte ao lado da maca. Apoiou os braços na grade lateral, com um sorriso gentil nem um pouco desencorajado pelo mau humor quase palpável da paciente.

— Está enganado — respondeu, seca. — Onde está o médico chefe?

— Ali. — Ele apontou com um gesto de cabeça. Do outro lado da enfermaria, meio oculto por uma cortina fina, Dr. Kuzgun dormia em uma maca, deitado de qualquer jeito como quando alguém resolve se enganar dizendo “só vou descansar um pouquinho aqui” e entra em coma. Leif foi até ele e terminou de fechar a cortina para que a luz ambiente não o despertasse. — Um descanso merecido, às vezes ele passa dezoito horas aqui direito. Tudo bem se for eu a lhe atender?

Tamura avaliou o rapaz. Era um anisoptero como a capitã, de pele marrom clara e intensos olhos verdes. O jaleco especial deixava livres as asas desiguais, uma delas sendo a membrana delicada de uma asa de libélula e outra, a carapaça escura e iridescente de um escaravelho. Uma identificação vermelha na gola do uniforme branco e na lapela do jaleco mostravam que ele não era um oficial da Esquadra, mas Tamura não precisava desses sinais para lembrar do rosto dele. Sabia quem era cada um na nave, pois a maioria dos currículos dos freelancers e históricos dos oficiais passavam por suas mãos antes de alguém subir a bordo.

Caso não esteja claro, Tamura não gostava de pessoas que não conhecia. Ela não gostava do humano, não gostava da Chefe Imari e, com toda a certeza, não gostava dos freelancers.

Mas aceitou que Leif lhe atendesse. Tinha algo de pacificador na sua voz, suave e contida. Mesmo contra sua vontade, Tamura recuou um pouco o instinto de hostilidade. Além de que ele tinha certa razão. Com o conflito entre o Governo-Geral e Yetoni, médicos estavam sendo realocados diariamente. O único oficial médico capacitado para oficialmente supervisionar a enfermaria da Vanguarda era Kuzgun. Tamura tinha um pouco de culpa, já que controlava os horários de todos os tripulantes. Fez uma nota mental de reorganizar o corpo médico e ver se não tinha como facilitar as coisas para ele.

— Com licença — disse, antes de injetar algo em seu braço. Os remédios para a gripe já haviam sido ministrados, aquilo era uma vacina produzida na última hora especialmente para os principais riscos da convivência com o humano. — Esse Lince Davik foi informado de que deve passar aqui? Já preparamos as doses dele.

Por mais que gostasse de reclamar, Tamura supôs que estava no lado sortudo. Não queria nem imaginar como ficaria o braço de Lince após todas as vacinas necessárias. A tripulação estava exposta aos patógenos da Terra, mas Lince estava exposto aos patógenos de toda a Super-Região. Era até bom que ela tivesse ficado doente primeiro e chamado atenção para o risco antes que algo mais grave acontecesse.

— Provavelmente. A capitã o quer no grupo de terra. — Um pensamento se formou rápido demais para Tamura avaliá-lo melhor antes de dizer: — Você também vai, não é?

— Eu? — Ele deu um sorriso tímido passando a mão esquerda nos cabelos castanhos. — Ah, eu não iria me opor. Mas isso não é com o Dr. Kuzgun?

— É uma visita de rotina, a presença dele especificamente não é obrigatória. E como você disse antes, ele merece uma folga. Não é uma má ideia. — Se Leif notou que ela ainda estava pensando no assunto e argumentando consigo mesma, não disse nada. Apenas esperou a sugestão se tornar um convite de fato. — É, tanto faz. Prepare suas coisas e esteja no hangar em duas horas. Vou informar o Comando.

Tamura saiu antes que ele arranjasse algum motivo para mantê-la ali.

*

Ashaam era um mundo distante de seu sol, visível no céu como uma estrela branca inchada. Não tinha muitas formas de vida pluricelulares próprias além de plantas rasteiras adaptadas ao frio eterno do planeta, que eram o motivo da pequena estação de pesquisa que a Vanguarda devia visitar. Num mundo como aquele, a Esquadra precisava manter uma entrega de suprimentos constante.

— Nem a estação de pesquisa nem a colônia estão respondendo, capitã — Ananke disse, atrás dos controles do Vetorial, o principal transporte auxiliar da Vanguarda. Naymee e Tamura estavam sentadas uma em cada lado da piloto. — Não temos garantia de que nossa identificação foi reconhecida.

— Viltri, você conseguiu contato com a estação? — Naymee perguntou pelo rádio. O Primeiro Oficial tinha ficado na Vanguarda. — Alguma hipótese sobre o silêncio?

Negativo para ambas as perguntas, capitã.

— Deve ser alguma falha. Eles têm proteção antiaérea, Tamura?

— Apenas a estação de pesquisa, mas parece estar desativada.

Ananke não precisou de orientação, direcionou o transporte para as cercanias da estação de pesquisa. As defesas antiaéreas desativadas fortaleciam a hipótese de que, apesar da falha de comunicação, a Vanguarda havia sido reconhecida. Sobrevoando a cerca vazada, ela parou o transporte no pátio interno e abriu o compartimento de carga. Imari desceu primeiro e Tamura se levantou para ajudar Lince e Leif a descarregarem os caixotes.

— Normalmente tem gente para receber destacamentos da Esquadra, não é? — Naymee comentou. — Tenta contato com a colônia de novo.

— Oficial Ananke Zreindel da Esquadra solicitando permissão de se aproximar, por favor, respondam. — Esperaram por alguns segundos antes dela menear a cabeça. — Nada, capitã.

— Vou ficar com Imari e Leifrheaarem e ver se encontro alguém na estação. Vá conferir a colônia.

— Se está desconfiada de algo, a gente deveria deixar vocês aqui?

— A nossa prioridade é a estação, mas, se algo realmente aconteceu, os civis da colônia vão precisar de ajuda — falou, já diante da porta. — Além disso, eu gosto do número três.

Ao desembarcar, Naymee informou Imari e Leif da divisão. O Vetorial ganhou altitude para escapar das cercas altas e desapareceu à distância.

Leif tirou da maleta um equipamento que as outras não reconheciam, mas os sinais na tela holográfica indicavam que era um leitor de sinais de vida de amplo alcance. Em alguns segundos de varredura, o resultado estava em suas mãos.

— Não vamos precisar disso... — comentou para Imari, que verificava suas armas como sempre fazia antes de uma missão. Com as mãos ocupadas, ela apenas ergueu uma sobrancelha para sinalizar a pergunta que não podia fazer. — A estação está vazia.

Notas finais
Como eu disse no blog, as "missões" serão inteiramente escritas antes de publicar. Essa tem 4 capítulos, que eu deixei programado para hoje, quarta e sexta-feira.