Cem Mil Anos-Luz
1 1. Wayfaring Stranger
“I confess I do not now why, but looking
at the stars always makes me dream.” — Vincent van Gogh
“É a Terceira Lei de Newton: A única forma dos humanos chegarem a algum lugar é deixando algo para trás.”
Interestelar (2014)
O café esfriava na xícara intocada sobre o metal frio da mesa, um ou outro conjunto de passos ecoava pelo corredor ocasionalmente e o universo fora da nave parecia exatamente igual ao que tinha sido durante os últimos 14 bilhões de anos.
Ainda assim, era nele que Lince Davik mantinha sua atenção. O mal dos astrônomos, saber que um dia algo diferente aconteceria e, quando acontecesse, queriam estar olhando para o lugar certo.
Mas, spoiler: Lince não estava olhando para o lugar certo.
Lince tinha um singelo laboratório naquela nave, nada muito sofisticado, pois aquele veículo era um transporte temporário por alguns meses no espaço que o levariam até a colônia de Marte, onde encontraria o Dr. Tolstoy. A primeira colônia humana fora da Terra havia evoluído belamente, tornando-se uma pequena, porém promissora cidade, e Lince não se importaria de conhecê-la um pouco também. Mas não queria chegar de mãos vazias, por isso passava todo seu tempo livre estudando a pesquisa da equipe de Tolstoy.
Eram dois monitores despejando luz artificial nos compenetrados olhos verdes, um exibindo o simulador onde rodava os testes e outro com as capturas realizadas pelo telescópio de Tolstoy, que testemunhara as anomalias na luminosidade de uma estrela do outro lado da galáxia. O programa parou de rodar com um aviso em letras vermelhas, um novo resultado negativo para sua recente coleção. Lince passou a mão pelo cabelo cinza, a seriedade habitual no rosto apresentando a intrusão de uma ruga de frustração na testa franzida. Bebeu um gole do café apenas para ter a desagradável surpresa de senti-lo frio, mas era uma boa desculpa para levantar por alguns instantes.
Com as costas contra a parede e os braços cruzados enquanto a xícara girava dentro do micro-ondas, se houvesse mais alguém na sala, o clima começaria a parecer desagradável. Felizmente, não havia ninguém por perto para desconfiar que a postura retraída de Lince fosse culpa da presença de outra pessoa — às vezes ele passava essa impressão. Não encontrar a raiz de um problema o incomodava muito mais. Deixar a mesa de trabalho não fazia o problema milagrosamente sair de sua cabeça. Vez após outra vinha testando hipóteses para justificar a variação da luz naquela estrela, mas o programa de simulação sempre lhe dava resultados diferentes. Tudo o que ele sugeria realmente era possível, nuvens de poeira ou gás atravessando a linha de visão do telescópio, algum pequeno planeta ainda não identificado orbitando a estrela, ou alguma instabilidade própria da composição química dela; porém, segundo o simulador, nada causaria uma variação tão discrepante do normal.
Com o café reaquecido, retornou para a mesa. Mas, como se o universo gritasse olhe para mim, não para o computador, bastou que Lince se sentasse novamente para a energia cair. Não só os computadores se apagaram como a sala inteira. Um acontecimento estranho e preocupante, porém, inicialmente, Lince teclou repetidamente um comando para a máquina, sem sucesso. Perder resultados de testes era o pior pesadelo de qualquer cientista. Então as luzes de emergência acenderam e um alarme começou a soar.
Algo diferente havia acontecido, e, como Flammarion na noite da chuva dos meteoros de Biela, ele não estava olhando para o lugar certo.
Do lado de fora, tripulantes guiavam passageiros para fora das cabines com um tom de urgência, gritando orientações mais alto do que as sirenes.
— O que está acontecendo? — Lince perguntou para uma segurança.
— Queda total de energia! Precisam ir para o convés inferior!
— Está operacional?
— Sim, lá tem um sistema de alimentação secundário. Por favor, apresse-se!
Ela não precisou dizer outra vez. Em 2228, a humanidade não era novata nas viagens interplanetárias. Isso significava não apenas que as naves eram muito mais preparadas para o imprevisto do que dois séculos antes, mas que as pessoas dentro delas também. Mesmo que só existisse a colônia de Marte e a base de pesquisas lunar, viagens interplanetárias se tornaram corriqueiras, fossem por trabalho ou turismo. Lince seguiu o fluxo de pessoas andando rápido, porém ordenadamente, seguindo as instruções das luzes de emergência e dos seguranças. Mesmo que soubessem reagir, não significava que não estivessem assustadas. Ele viu duas pessoas trocando sussurros um pouco a sua frente, um senhor de meia idade em roupas casuais, demonstrando que era um passageiro, e uma médica de jaleco e hijab brancos que Lince reconhecia das avaliações de saúde pré-embarque.
— Queda total? Isso quer dizer…
— Sistema de suporte de vida em risco, sim.
— Quanto tempo temos?
— Não se preocupe, senhor, o sistema ainda está ativo no convés inferior. Poderíamos até redirecionar para o resto da nave se os controles ainda estivessem operacionais. Não dependeríamos de um único sistema.
— Doutora Lestari — Lince se aproximou quando o passageiro continuou andando. Ela sorriu com amabilidade, como sempre, mas era óbvio que não lembrava de conhecê-lo. Puxar conversa não era muito do feitio de Lince, mas situações anômalas permitiam exceções. — Está ciente do que é essa falha?
Lestari sorriu e abriu os braços como quem diz “Você sabe a quem está perguntando?”
— Médicos não são os primeiros a serem informados de falhas mecânicas. — Ela não parecia preocupada com a falha ou os alertas. Tinha plena confiança de que o protocolo era seguro, só precisavam segui-lo. — Deveria perguntar a alguém da engenharia.
— Acho que estão um pouco ocupados no momento — respondeu.
A forma como ela estava falando antes com o passageiro o fez pensar que ela poderia saber de alguma coisa, mas era provável que apenas estivesse repetindo respostas ensaiadas para acalmá-lo.
— Desculpe, qual é mesmo seu nome?
— Davik... Lince — disse, sem ver muito a importância de nomes no momento.
Lestari abriu a boca para dizer algo, mas foi impedida por um baque forte que a jogou de costas contra a parede e fez Lince perder o equilíbrio. Se as pessoas estavam sendo ordeiras até o momento, gritos assustados se espalharam pelos corredores e gemidos de dor mostravam que a dra. Lestari não tinha sido a única a se machucar.
— Você está bem?
Lestari fez que sim, afastando uma discreta careta de dor. Lince a ajudou a levantar, depois parou por um instante, pensativo. Não parecia ter sido um impacto. Parecia mais que estavam sendo puxados, e se prestasse bastante atenção, ainda havia uma sensação sutil de movimento na mesma direção de antes. Ainda não tinham a tecnologia ideal para contrabalancear a inércia, o que podia ser bem perigoso em altas velocidades. E se ele conseguia perceber o movimento, então estavam mesmo em alta velocidade.
— Como mudamos de curso sem energia?
— Pessoal, por favor, continuem andando! — Dra. Lestari tentou falar para a multidão, não ouvindo a pergunta de Lince para si mesmo. — Precisamos da cooperação de todos.
Eventualmente, Lince e Lestari chegaram às escadas. Os elevadores não estavam funcionando. Várias vezes Lince a perdeu de vista no meio das pessoas, mas ela era fácil de reconhecer, e acabaram chegando ao mesmo tempo até às portas seladas do hangar de transporte.
— Mudança de planos — informava o Tenente Veracruz a cada nova leva de pessoas que chegavam até ele. — Vão para os transportes de emergência! Vamos evacuar a nave.
— Evacuar?! — alguém gritou. — Nós sequer estamos perto de Marte?!
— Senhor, por favor, coopere conosco. Ficar não é uma opção.
Os oficiais subalternos de Veracruz não permitiram que o rapaz e outros questionadores bloqueassem o caminho por mais tempo. Ainda tinham muitos para passar. Lince e Lestari se afastaram antes que a animosidade do tenente sobrasse para eles também.
Eram dezenas de transportes de emergência com espaço para vinte passageiros em cada um deles. Entraram no mais próximo, que chegou ao limite com eles. Um oficial precisou empurrar uma mulher assustada que tentou entrar depois deles, gritando para que ela procurasse outro transporte.
— As pessoas estão assustadas... — Alguém reclamou da grosseria do oficial.
— Temos transportes suficientes e não é permitido mais do que vinte pessoas. Mas se quiser ceder seu assento para ela... — O oficial deu de ombros, sem ser respondido. Lince fez menção de se levantar, mas a dra. Lestari segurou seu braço. Não estavam no Titanic, transportes de emergência não faltariam. — Foi o que pensei.
Com isso, o transporte abandonou a nave com vinte passageiros torcendo para que essa fosse a melhor ideia.
De fato era, mas, para eles, não parecia ser. Assim que saíram, puderam ver o que acontecia lá fora, no espaço. O algo diferente que não pudera ser previsto. Uma região escura do espaço parecia envolver a nave, com traços luminosos partindo da nave em sua direção como se estivesse roubando sua energia e deixando-a em completa escuridão.
— O sistema secundário também foi perdido. Ficaríamos à deriva até sufocar — murmurou Lestari.
Lince inclinou o máximo que o cinto permitia para ver a cena inexplicável. A nave estava sendo puxada. Seja lá o que fosse aquilo, tinha força o suficiente para alterar o curso como se um asteroide tivesse se chocado do lado oposto.
E o mesmo acontecia com eles agora.
— Por que não estamos nos afastando? — perguntou o mesmo homem de antes, nervosismo transbordando de sua voz. — Hein? Por que não estamos nos afastando?!
— Ah, cala a boca! — respondeu o piloto, lutando com os controles. — Até parece que eu faço de propósito!
Eles não estavam sem energia como a nave principal, mas a força da anomalia superava a dos motores, e eles não podiam fazer nada além de esperar o fim daquela lenta queda em direção ao desconhecido.
*
Em outro lugar da galáxia, algo semelhante acontecia. Mas a tripulação da Vanguarda tinha problemas maiores para se preocupar, e, por isso, também não testemunharam o estranho evento. De nada adiantaria assistir uma singularidade espacial se a Serenina, a nave yeranoa diante deles, os destruísse.
No centro da ponte de comando da Vanguarda, a cadeira da capitã estava vazia. Naymeeneraham estava de pé atrás dos pilotos, observando o painel de navegação com seriedade, tentando pensar na solução de um quebra-cabeças invisível. Com os cabelos escuros presos para trás, o painel iluminava a pele esverdeada do rosto fino. A parte superior do macacão preto de oficial da Esquadra estava desabotoada e amarrada pelas mangas na cintura, exibindo a regata padrão por baixo, a insígnia dourada no peito, e deixando as asas de libélula à mostra num descaso pelo protocolo que o Primeiro Oficial Viltri, com seu uniforme impecável exibindo uma insígnia de metal preto, sempre criticava.
Afinal, Naymeeneraham não era mais uma capitã de nave civil.
Ela se inclinou sobre os dois oficiais diante do painel. O piloto, Sr. Omeron, ficava desconfortável quando ela fazia isso, como se sentisse que estava sendo cobrado por algo, tendo sua competência questionada. Ao lado dele, a navegadora raithuana, Ananke Zreindel, controlava o painel com diligência. Ela normalmente o incomodava também, embora por um motivo diferente do da capitã. Ananke mal olhava para ele e sempre parecia tão sisuda e arrogante que Omeron agradecia internamente por seus horários de serviço raramente se cruzarem. Detestava ouvir o batuque das unhas em esmalte dourado dela na superfície do painel após um longo silêncio, era instintivo rever todas as suas ações para conferir se não tinha feito algo errado com as orientações dela. Naquele momento, surpreendentemente, Ananke parecia bem mais à vontade. E esses dez minutos foram suficientes para Omeron decidir que isso era ainda pior.
Ananke olhou por cima do ombro com sua cara de poucos amigos. O olhar de âmbar dourado estava parcialmente ocultos pelas informações que piscavam nas lentes de seus óculos de aviador. Eram da mesma cor que as manchas sobre a pele negra de seu rosto emoldurado por dezenas de pequenas tranças firmes que, hoje, estavam estavam erguidas em um coque alto.
— Eu também penso melhor olhando o problema mais de perto, Capitã, mas o painel revelou algo que já não tínhamos dito? — E, quebrando o semblante quase desafiador de antes, ela mostrou divertimento. O que era um baita feito, considerando a nave yeranoa duas vezes maior que a Vanguarda exibindo suas armas na tela panorâmica.
— Escudos em 70% — informou o Primeiro Oficial Viltri.
Naymeeneraham ignorou ambos.
— Preparar para disparar.
— A nave não é identificada como parte da frota dos Asherah R’Tari. Se for destruída, haverá retaliação de Yetoni. — Viltri informou.
— Por que não disse antes? Abaixem os escudos logo, já que não podemos atacar — comentou com descaso, voltando para sua cadeira e apoiando a cabeça em uma das mãos com um sorriso cínico. Viltri permaneceu sério, já acostumado com aquelas doses de sarcasmo inofensivo. — Não se preocupe, eu não vou destruir aquela nave. Olhe para ela, isso seria um crime. Ao meu sinal.
Oficiais se mobilizaram, controles foram preparados, e sistemas bélicos, acionados. No painel de Ananke, um alerta piscou. Com uma rapidez habilidosa, ela puxou o alerta para o centro do painel e correu os dedos no ar, fazendo as informações desenrolarem como um pergaminho sendo aberto.
— Capitã! — disse, registrando as leituras incomuns nos sensores da nave, como se houvesse entre as duas naves um objeto ainda inexistente, vindo de uma estranha agitação no exterior, onde o próprio tecido espacial se revolveu em uma singularidade nunca decifrada por espécie alguma do universo conhecido; o espaço vertendo para dentro de si mesmo.
Mas não houve tempo para Ananke comunicar a descoberta, uma onda de energia sem ponto de origem percorreu quase a metade daquele sistema deserto antes de se dissipar. Os painéis holográficos apagaram e reiniciaram, e a imagem da Serenina foi ocultada por um aviso de alerta.
— O que aconteceu?
— Provavelmente um pulso de energia... — ela respondeu. — Sistema de navegação inoperante. Já resolvo, só um instante!
Era o pior momento possível para precisarem de um instante.
— Defesa e armas também fora de atividade — Viltri informou em tom monótono as informações de um retângulo holográfico projetado do pergarol em seu pulso esquerdo.
— Motores ainda operacionais?
Viltri confirmou com um único aceno de cabeça. Naymeeneraham continuou estudando com os olhos a nave yeranoa, com suas armas preparadas, porém tão inertes quanto os painéis da Vanguarda. O que quer que tivesse acontecido, tinha atingido ambas as naves. A Vanguarda era muito veloz e confiável, mas a Serenina com certeza se recuperaria primeiro.
— Zreindel, seu instante acabou. Tire a gente daqui.
— Seria um prazer, mas, infelizmente, parece que a origem do problema não é aqui — respondeu, teclando comandos que foram perfeitamente ignorados pelos equipamentos. De forma semelhante, os outros oficiais também tentavam reativar suas respectivas estações de trabalho. — Não posso resolver dessa estação, precisamos da engenharia.
— Comunicações interrompidas, não há contato com a engenharia — disse o Tenente de Comunicações Halyel.
— Eles demorariam para chegar aqui de qualquer forma. — Naymeeneraham dispensou o esforço do Tenente com um gesto. — Consegue calcular um salto manualmente?
— O que disse?!
Viltri se virou para ela, incrédulo. Para alguns dos presentes, era a primeira vez que ele parecia se exaltar. Para Omeron, felizmente alguém tinha verbalizado a descrença, pois ele não queria ter de questionar. Mas ele pôde ver o sorriso de lado de Ananke, diferentemente dos dois superiores atrás deles, e soube que a objeção de Viltri seria ignorada.
— Consigo. — Era arriscado e exibicionista. Seu tipo preferido de tarefa. Abrindo seu próprio pergarol, Ananke começou a rodar alguns cálculos. Era uma projeção delicada, mas a prática fizera com que tivesse algumas informações sempre em mente, como a massa da Vanguarda, seu consumo padrão de combustível, e ela tinha uma boa noção da distância que faltava entre eles e o planeta Ashaam.
Ainda que ela trabalhasse com absoluta certeza, Viltri virou de costas, sem intenção de assistir a Vanguarda ser jogada acidentalmente contra uma estrela ou um buraco negro. Saltar sem sistema de navegação! Nem um kodrase faria algo tão arriscado, e ele era sempre o primeiro a criticar seu próprio povo. Ele estava tentando lembrar de precedentes desse feito na história da Esquadra quando recebeu uma mensagem da Chefe de Segurança. Um toque no aparelho em seu pulso confirmou o contato. Ótimo. Pelo menos as comunicações tinham voltado.
— Oficial Viltri, senhor! Aqui é Polya, falo em nome da Chefe de Segurança Imari — disse uma voz masculina. — Estamos no hangar de transporte, ela diz que temos intrusos na nave.
— Intrusos? — Que inusual. Atrás de Viltri, Ananke e Omeron começavam as especificações da partida. — Quem? Yeranoa?
— Ela disse: “Parece com um kaani ou raithuano, mas claramente não é nenhum dos dois.”
— Então o que é?
— “Esquisito” — disse, simplesmente. Conhecendo Imari, Viltri supôs que a resposta tinha sido natural. — Tem metade de um objeto aqui, provavelmente uma nave, mas nunca vi uma dessas. Isso sou eu, Polya, dizendo, não a Chefe Imari. A maioria dos passageiros estão mortos.
— Entendido. Aguardem instruções.
Quando se virou para a capitã, Viltri viu que já não estavam mais ao alcance da Serenina.
Também não estavam dentro de uma estrela ou um buraco negro. Impressionante, admitiu apenas mentalmente. Ou apenas sorte. Não é como se faltasse espaço no espaço...
— Tem algo errado — Ananke falou, franzindo a testa sem esconder o desapontamento. — Não estamos em Ashaam. Deveríamos estar ao menos no sistema dele. Eu... posso ter errado em algo, capitã.
— Ainda desaprovo o feito, mas creio que não tenha sido um erro seu, Navegadora Zreindel — Viltri falou antes de informar Naymeeneraham do aviso de Imari. — Temos metade de uma nave estranha dentro da Vanguarda, o que deve ter alterado a nossa massa e, consequentemente, o seu cálculo.
Os painéis aos poucos voltavam a ligar. O Tenente Halyel conseguira contato com as outras estações de controle da Vanguarda e cada chefe de setor tentava teorizar sobre o acontecido. Com o painel novamente funcional, Ananke viu que não tinha errado o cálculo tanto assim, estavam no espaço vazio entre dois sistemas estelares, há cerca de dezesseis anos-luz de distância de Ashaam. Chegariam rápido.
— Curso corrigido — informou.
— Ótimo. Assuma a ponte, Zreindel. Viltri, me acompanhe. Vamos ver que tipo de criatura invadiu minha nave.
Os dois deixaram a ponte de comando, mas Ananke não se levantou de imediato. Ao contrário, ela se apoiou no encosto da cadeira e cruzou os braços, encarando o painel de navegação com a seriedade que Omeron tinha como costumeira, o dedo indicador batendo de leve no próprio braço. Os lábios comprimidos quase em uma linha reta fizeram-no imaginar se ela não preferiria estar ainda em um conflito com a Serenina. Subitamente, ela o encarou. Antes que Omeron pudesse voltar o rosto para os controles da nave e tentar disfarçar, ela perguntou:
— Por que ela nunca me chama pelo primeiro nome? Eu sirvo aqui há anos, não é como se fosse inapropriado... — resmungou, finalmente se levantando para que outro oficial assumisse a navegação enquanto o comando fosse dela.
Omeron olhou discretamente o relógio no painel.
Ainda faltava muito para seu turno terminar.
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