CelleXty Saga - Temporada II
7 O Vírus Legado - PARTE 1
Arquivo Confidencial – Instituto Xavier
Sujeito(s): CelleXtys, Geração X, Geração Vamp, Forças Armadas do Brasil
Status: Surto confirmado. Possível contaminação cruzada internacional. Nível de ameaça: Ômega.
O céu sobre o Aeroporto Internacional de Congonhas permanecia silencioso demais. As pistas, antes riscadas por turbinas e pressa, agora eram cicatrizes vazias sob o sol cinzento de São Paulo. Fechado por semanas, o aeroporto tornara-se símbolo de pânico nacional, estampando manchetes no Brasil e no exterior. Voos redirecionados para Aeroporto Internacional de Guarulhos e Aeroporto Internacional de Viracopos congestionavam rotas enquanto Campo de Marte, Sorocaba, Ribeirão Preto e Bauru absorviam o excesso como podiam.
Nos telejornais, a narrativa era uma só: “Ataque mutante em solo brasileiro. ” Cassiopéia e os Lycans haviam chamado a atenção de potências como Estados Unidos, França, China e Japão. Pressões diplomáticas ecoavam nos gabinetes de Brasília. “Tolerância zero”, exigiam alguns. No Congresso, políticos radicais inflamavam discursos contra a chamada “ameaça genética”. A caça aos mutantes deixava de ser metáfora — tornava-se política pública.
Mas a verdadeira tragédia não estava nos céus vazios — e sim nos corpos que começavam a falhar.
Carcará foi o primeiro a assustar os demais. No meio de uma conversa banal, seu corpo se contorceu, ossos estalaram, penas rasgaram a pele. Em segundos, a ave de rapina emergia onde antes havia um homem.
— “Eu não consigo… segurar!” — grasnava, entre humanidade e instinto, antes de retomar a forma original, exausto e trêmulo.
Lídia também piorava. Suas ondas telepáticas tornaram-se tempestades incontroláveis. Isabelle permanecia ao lado da jovem, mãos em suas têmporas, sustentando sua mente como quem segura uma barragem prestes a romper.
— “Foque na minha voz, Lídia… respire comigo!”
Mas o esforço cobrava preço. Febre alta, suor frio, dores lancinantes. As conexões psíquicas reverberavam pela EBX como descargas elétricas invisíveis, afetando até os mais resistentes.
Gerson, já ferido no ataque dos Lycans, delirava sob febre intensa. Ivan seguia o mesmo caminho. Em menos de quarenta e oito horas, os noticiários anunciavam um possível novo ataque biológico: mutantes perdendo o controle… e morrendo pouco depois. O padrão era brutal. Progressivo. Irreversível.
As exceções eram inquietantes: Basco, Gregory, Madalena, La’Vern e Lucius permaneciam ilesos.
Desesperado, Basco contatou Danielle Moonstar — Miragem. A imagem holográfica da mutante surgiu trêmula na sala escura.
— “Vocês foram expostos ao Vírus Legado.”
O silêncio que se seguiu foi mais devastador que a própria revelação.

Danielle explicou que a chamada “Praga Mutante” fora criada pelo mutante Apocalipse em um futuro distópico. Um clone de Cable — Conflyto — roubara o vírus e viajara no tempo, libertando-o dois anos antes, nos Estados Unidos.
— “Ele enfraquece o hospedeiro… depois o poder entra em colapso. O corpo não resiste.” A voz dela endureceu. — “Centenas já morreram.”
Sem cura conhecida, o Dr. Hank McKoy — Fera — e a Dra. Moira MacTaggert trabalhavam incansavelmente para compreender por que alguns sucumbiam e outros não. Danielle suspeitava que alguém trouxera o vírus ao Brasil… e o entregara a Cassiopéia.
A guerra agora era invisível.
Enquanto Gregory cuidava dos infectados, Inquisidor mergulhava na fé e nos manuscritos do Mosteiro de São Bento em busca de uma cura. Madalenna partia para o isolamento na Serra da Cantareira, buscando na energia lunar uma resposta que a ciência não oferecia. La'Vern dirigia-se ao Mascarade, em busca de apoio da Geração Vamp. E Basco escolhia, talvez, o caminho mais perigoso de todos: retornava ao Limbo.
Na Restinga de Marambaia, o mar parecia calmo demais para a história que ocultava. Ligada à Barra de Guaratiba pela antiga Ponte Velha, construída em 1945, a ilha paradisíaca escondia séculos de horror sob sua areia branca. Antes área militar, pertencera ao comendador Joaquim José de Souza Breves, traficante de escravizados e de mutantes — os chamados “Sangue-Bruxos”.
Ali, africanos cativos “engordavam” após a travessia nos tumbeiros. Mutantes capturados eram enviados a destinos piores: experimentos, flagelos, inquisição. A herança da crueldade nunca fora apagada — apenas modernizada.
Trezentos metros abaixo do solo, um complexo prisional secreto operava desde o fim dos anos 1950. Durante a Ditadura Militar, atingira o ápice. Depois, tornara-se laboratório clandestino para estudar — e eliminar — o Gene X. Diziam alguns que o Soro Prometheus e os Protocolos de Contenção, nasceram neste complexo. Oitenta indivíduos eram mantidos em suas celas com colares inibidores. Entre eles, Althy, Pappylon, Sangue-Rubro e os vampiros Caio e Verônica.
Em tanques selados, os corpos de Testament, Jihad, Brahma e Sphinx flutuavam preservados, como relíquias macabras.
Nem mesmo aquele inferno subterrâneo resistiu ao vírus.
Um a um, os prisioneiros começaram a definhar. Poderes explodiam fora de controle, corpos colapsavam, gritos ecoavam pelos corredores de aço. Em menos de dez dias a maioria dos mutantes haviam perecido, com algumas exceções. Sangue-Rubro e uma misteriosa mutante, presa em uma cela fortemente guardada desde 1984. Já uma ala separada do complexo, responsável por alojar outras criaturas míticas, mantinha-se intacta. Verônica estava em uma das celas. Através de sussurros descobre que Caio também não resistiu aos experimentos e sucumbiu há alguns dias. A jovem secular descobre que o Vírus Legado também era mortal para os vampiros.
— “Então… eles eram mutantes o tempo todo…” murmurou um cientista, encarando os relatórios.
O vírus não distinguia sangue humano de vampírico — apenas o Gene X. Isso podia significar que um vampiro poderia possuir o Fator X em potencial?
No silêncio austero do Mosteiro de São Bento, Lucius virava páginas antigas sob a luz amarelada de uma luminária solitária. Pergaminhos do século XVI mencionavam “Sangue-bruxos” com o mesmo temor reservado a demônios. Ele buscava respostas médicas, mas também históricas. Padrões. Ciclos. Profecias.
— Irmão Graciliano! O senhor me assustou! — A sombra do abade projetava-se longa sobre a parede.
— Alguma razão em especial para tal temor, irmão Viriatto? — Respondeu o homem de barba grisalha, voz baixa e densa como pedra.
Lucius tentou disfarçar os manuscritos. — Estava concentrado em meus estudos.
— Percebi. Estudos sobre Sangues-bruxos. A palavra soou como sentença. — Sabia que há quem compare esses servos das trevas aos atuais hereges conhecidos como mutantes?
— Servos das trevas? Com todo respeito, preciso discordar.
— São uma praga! — Interrompeu Graciliano, a voz agora firme. — Um câncer. Sua origem é profana.
Lucius ergueu o olhar. — Os mutantes são…
— Pecadores! — Cortou o abade. — Seres inferiores. Infelizmente não podemos mais recorrer ao fogo purificador.
— Quer dizer aos tempos do medo? — Rebateu Lucius, desafiador.
O abade caminhou até a janela, observando os pássaros no pátio interno.
— Você sempre demonstrou compaixão por essa raça, não é mesmo? — Aproximou-se lentamente. — Em respeito ao seu tio, não irei interromper seus estudos. Mas saiba que eu… sei o que você é.
O silêncio pesou como chumbo.
— Aproveite a hospitalidade do Mosteiro, irmão. Ela tem data de validade.
A porta fechou-se sem pressa.
Lucius permaneceu imóvel. O vírus ceifava vidas lá fora — mas ali dentro, outra ameaça se erguia. As palavras de Graciliano não eram mera advertência. Eram um veredito.
E, pela primeira vez, Lucius sentiu que talvez o Mosteiro não fosse refúgio algum, mas um altar pronto para o sacrifício.
Continua…
Fale com o autor