CelleXty Saga - Temporada II

8 O Vírus Legado - PARTE 2


Arquivo Confidencial – Instituto Xavier

Sujeito(s): Madalenna (Raial Puri), Málaca

Status: Conexão ancestral estabelecida. Possível avanço místico-genético na pesquisa do Vírus Legado.


A noite descia espessa sobre a Serra da Mantiqueira, envolvendo os picos em névoa prateada. O vento percorria as encostas como um sussurro antigo, carregando memórias de um povo quase apagado da História. Era ali que Madalenna retornava quando precisava se reencontrar — não como heroína, não como CelleXtys, mas como filha da terra. A Mantiqueira era seu refúgio, seu altar e sua fortaleza invisível.

Pouco os seus companheiros sabiam sobre o passado da jovem. Reservada como a própria mata, Madalenna cultivava o silêncio como estratégia de guerra. Sua pele parda, os cabelos longos e negros, o olhar firme — tudo nela carregava ecos de uma linhagem milenar. Filha do povo Puri, descendente também de quilombolas que encontraram abrigo sob a proteção indígena, ela era fruto de duas resistências que sobreviveram à violência colonial. Seu pai, pajé respeitado, guardião dos saberes antigos; sua mãe, herdeira da coragem dos que romperam correntes em 1888.

Quando nasceu, disseram que era sinal de Jaci — a Lua — bênção e presságio.

No ponto exato onde outrora se erguera a aldeia de seu pai, restavam apenas vestígios arqueológicos: marcas de fogueira, pedras circulares, raízes que guardavam segredos. Madalenna montou sua barraca com gestos quase cerimoniais. Acendeu a fogueira. Depois, ajoelhou-se sob a lua cheia, cujo brilho atravessava as copas e inundava a clareira com luz azulada.

— “Jaci, mãe antiga… escuta tua filha…” — murmurava em língua ancestral, palavras indecifráveis ao homem branco, mas claras à floresta.

No silêncio profundo, a mata respondeu.

Capivaras surgiram primeiro, cautelosas. Depois veados-mateiros, pacas, tatus. Das sombras vieram jaguatiricas, lobos-guará, bugios. Até um casal de onças-pintadas se aproximou, impondo respeito e silêncio. Cercaram-na sem medo. O corpo de Madalenna começou a irradiar um brilho lunar intenso, como se absorvesse o luar e o devolvesse multiplicado. A energia corria por suas veias com uma potência que jamais experimentara ali.

Então, o mundo rompeu.

Os animais dispararam em pânico. O chão vibrou. Cipós emergiram da terra como serpentes violentas, enrolando-se em seus braços e pernas antes que pudesse reagir. Em segundos, estava suspensa no ar, presa por amarras vivas que apertavam a cada movimento.

— Maldição — sussurrou, tentando alcançar o espadim. Inútil.

Quanto mais força fazia, mais os cipós se contraíam, como se obedecessem a uma mente própria. No silêncio abrupto, passos leves aproximaram-se da clareira. Precisos. Jovens. Determinados.

Do limite entre luz e sombra, surgiu uma mulher.

Não aparentava mais que vinte e cinco anos. Magra, pele parda, cabelos negros e cacheados, vestindo trajes rústicos que lembravam antigas guerreiras indígenas. Seus olhos brilhavam com autoridade primitiva. Madalenna sentiu — os cipós eram obra dela.

— Quem é você? — Exigiu, suspensa no ar.

— Não te interessa. Você invade território sagrado. Não é bem-vinda aqui. — A voz era firme como tronco antigo.

— É melhor me soltar. Agora.

A jovem girou levemente o pulso. Os cipós apertaram-se ainda mais, arrancando um gemido involuntário de Madalenna.

— Eu… avisei.

A resposta veio em forma de explosão.

Sem tocar o espadim, Madalenna liberou a energia lunar acumulada. Um clarão branco-prateado rasgou a clareira, despedaçando os cipós e arremessando a adversária metros adiante. Pela primeira vez, Madalenna não apenas saltou — flutuou. Seu corpo pairava no ar, envolto por um halo de luar vivo.

— Isso… nunca aconteceu antes — murmurou, surpresa com a própria ascensão.

A guerreira se recompôs com rapidez impressionante. Ergueu as mãos, e o solo tremeu. Uma porção de terra elevou-se como montanha nascente, levando-a até a altura de Madalenna. Galhos se partiram das árvores e voaram como lanças afiadas. Com um gesto sereno, Madalenna os repeliu.

Ela não sentia hostilidade na essência daquela mulher — apenas proteção feroz.

Ambas desceram ao solo. O combate tornou-se físico. Golpes rápidos, precisos. A guerreira movia-se como parte da mata; Madalenna respondia com agilidade e técnica refinada.

— Eu não sou sua inimiga! — Bradou, desviando de um soco.


....

A resposta veio com fúria renovada. Árvores começaram a se curvar ao redor delas, troncos emergindo do solo, galhos cortando o ar como chicotes. Madalenna esquivava-se até que um tronco a atingiu no estômago, lançando-a contra a terra úmida.

— Saia da mata! — Ordenou a jovem. — Você invade!

Madalenna, ainda ajoelhada, ergueu o rosto sujo de terra.

— Eu também sou filha dessa mata. Sou filha de Jaci… e do pajé Dauá Puri!

O nome ecoou como trovão sagrado.

A guerreira congelou. A respiração desacelerou. Os troncos retornaram ao solo.

— Você… é filha de Dauá Puri? — A voz agora era quase um sussurro. — Você é Raial?

Madalenna sentiu o peso do nome antigo atravessar-lhe o peito.

— Há muito tempo não me chamam assim. Mas sim, já fui Raial Puri. E você? Nunca te vi por aqui.

A jovem relaxou os ombros.

— A mata é grande, Raial Puri. Eu viajar muito. Quando ver clarão da lua aqui, achar que era fazendeiro. Ou posseiro. — Aproximou-se com cautela. — Você ainda é filha de Jaci? Guerreira da Lua?

Madalenna levantou-se lentamente.

— Pode me chamar de Madalenna.

— Tem vergonha do nome Puri?

— Não… é complicado.

Um silêncio breve. A lua intensificou seu brilho, como testemunha do reencontro.

— Eu sei por que você aqui. — Disse a jovem. — Você quer resposta pra doença que mata “gente mágica”. Ouvi falar.

Madalenna estreitou os olhos.

— Você fala bem português… e sabe do Vírus Legado. Quem é você?

A mulher ergueu o queixo com dignidade ancestral.

— Eu sou Málaca. Última guardiã do conhecimento dos Puri.

O vento soprou mais forte, fazendo a fogueira dançar.

Madalenna sorriu pela primeira vez naquela noite. Se Málaca também era mutante, então talvez houvesse esperança além da ciência e da guerra. A luz de Jaci envolveu as duas guerreiras como um manto antigo.

Talvez não fosse coincidência.

Talvez fosse convocação.



Continua…