CelleXty Saga - Temporada II

3 Mortos não contam histórias


Arquivo Confidencial — Instituto Xavier

Classificação: Nível Ômega

Período Monitorado: Março de 2000

Eixo Principal: São Paulo (SP)

Observação: Evento não relacionado às anomalias registradas no litoral gaúcho


Cemitério da Consolação — Gelo, Fogo e Sombras Antigas

Inquisidor disparou uma sequência de raios psiônicos contra o francês, e a energia azulada rasgou a alameda principal como um relâmpago contido entre esculturas centenárias. A luz refletiu nos mármores importados da Itália e nos vitrais funerários, criando sombras distorcidas sobre anjos e figuras alegóricas. Para se defender, La’Vern fincou os pés no chão e criou um redemoinho de gelo que brotava do próprio cerne, misturando-se a chamas violentas que subiam em espiral. Vapor e faíscas se entrelaçavam, transformando o ar num campo de distorção térmica que fazia o cemitério parecer respirar.

Com um rugido gutural, ele avançou sem hesitação. A espada de gelo — afiada como a vingança que cultivara por meses — desceu contra Lucius com força suficiente para partir granito. O impacto contra o escudo luminoso do clérigo ecoou pelas alamedas vazias, espantando morcegos e fazendo alguns vampiros recuarem instintivamente entre os mausoléus.

— Finalmente terei minha vingança! — vociferou o francês

— La’Vern, eu não fui o responsável pela morte de Angelique! O próprio pai dela a matou!

— Ele me avisou que você diria isso para tentar se safar. Não vai funcionar. Sua morte é certa. E será agora!

O choque entre lâmina e luz tornou-se mais violento, obrigando Lucius a recuar alguns passos. Por um triz, o golpe em forma de cruz que ele desferiu não atravessou o coração do adversário. La’Vern girou o corpo com precisão quase coreografada, fruto de treinamento antigo, e respondeu com um corte horizontal que rasgou parte da veste clerical de Inquisidor. O sangue começou a manchar o mármore branco, contrastando com a frieza azulada do gelo que se acumulava ao redor.

Basco mantinha certa distância, respeitando o duelo que, em sua visão, precisava ser resolvido entre os dois. Contudo, algo no ambiente lhe causava desconforto. Não era apenas a oscilação mística criada por La’Vern, mas uma presença múltipla, silenciosa, observando. Quando decidiu expandir levemente sua percepção mutante, foi tarde demais: mãos frias o agarraram pelas costas e o arrastaram para a escuridão entre jazigos ornamentados e esculturas funerárias.

Vozes graves e agudas alternavam-se ao redor do rapaz, quase sussurrantes, mas carregadas de hostilidade ancestral. A sensação era de julgamento, como se estivesse diante de um tribunal invisível composto por criaturas que se consideravam proprietárias daquele território. Um vulto aproximou-se de sua nuca, expondo presas afiadas.

— Vocês, CelleXtys trazem suas pestilências e algozes para importunar o nosso descanso. Invadem o Mascarade a todo o momento e nem vou comentar a desgraça dos Lycans que, graças a vocês, estão infestando a cidade! Pelo menos um de vocês irá pagar!

Quando uma das criaturas tentou cravar os caninos em seu pescoço, Basco reagiu instintivamente. Ampliou sua mutação e transformou parte do corpo em neblina densa e instável. O vampiro o atravessou como se tivesse investido contra um espectro. Solidificando o braço direito em fração de segundo, Basco golpeou o rosto do agressor, fazendo-o recuar contra um mausoléu de mármore negro. Em resposta, dezenas de olhos vermelhos surgiram entre túmulos e ciprestes, formando um cerco silencioso.

— Vamos ver quantos aguentam passar alguns anos no Limbo! Podem vir! Vai ser um prazer mandá-los para lá.

Ele já preparava a abertura de um portal quando um jovem se destacou entre as sombras e estendeu o braço, ordenando que os demais cessassem o avanço. O corpo dele era um borrão, uma versão mais densa e obscura do nevoeiro que Basco manipulava. Tinham a mesma idade aparente, mas a postura do vampiro revelava autoridade consolidada.

— Eu sei quem é você! — Disse o vampiro! — O brinquedo da Verônica! Não queremos briga com o Clã Toreador. Somos “bons vizinhos” e você não vai estragar tudo o que levamos décadas para conquistar.

Com um simples gesto de mão, as demais criaturas recuaram e desapareceram entre as tumbas.

— Qual o seu nome? — Perguntou Basco enquanto voltava à forma humana.

Simeão!

Antes de desaparecer na penumbra, deixou o ultimato:

Os Sete estão chegando, mutante, e esse será o fim da sua maldita raça impura e dos traidores que ousam atravessar o caminho da Geração Vamp!

Quando Basco tentou responder, restava apenas pó cinzento e um odor antigo de terra revolvida. A tensão foi interrompida por uma explosão que ecoou pela alameda central. Khassan correu imediatamente, temendo que Lucius estivesse em apuros.

Não muito longe dali Inquisidor encontrava-se no chão, escorado às portas de um mausoléu ricamente adornado com arcanjos de bronze e mármore branco. O olho direito estava parcialmente congelado e parte do braço exibia queimaduras severas, mesclando gelo e carne carbonizada. La’Vern percebeu a aproximação de Basco e expandiu o redemoinho ao redor do clérigo, criando uma muralha de fogo que girava com violência crescente.

Khassan tentou teleportar-se para dentro das labaredas, mas seus dons falharam pela primeira vez desde que despertara plenamente sua conexão com o Limbo. Havia ali uma interferência desconhecida, uma blindagem que anulava sua magia arcana. La’Vern, isolado com Lucius, criou então uma espada de gelo com pontas duplas, cuja lâmina emitia vapor constante sob o calor do redemoinho.

— Vou atravessar o seu coração lenta e dolorosamente! — Bradou, La’Vern!

Do alto de um edifício vizinho, Simeão observava tudo em silêncio. Bastaria uma ordem sua para que dezenas de vampiros atravessassem as chamas e destroçassem o invasor. Muitos de seus antigos companheiros estavam enterrados ali, não como vampiros, mas como homens que um dia marcharam ao seu lado em 1924, durante a Revolta Paulista. Ele lembrava dos disparos de artilharia ecoando na capital e do cheiro de pólvora que impregnava os bairros centrais.

Após a derrota, seguiu rumo ao Sul ao lado de Luís Carlos Prestes, Juarez Távora, Miguel Costa e Isidoro Dias Lopes. A marcha da Coluna foi árdua, marcada por fome, deserções e confrontos. No interior do norte do Paraná, sua tropa foi emboscada durante a madrugada. Não eram forças legais que os cercavam, mas criaturas de olhos rubros e movimentos impossíveis.

Simeão lutou até o último cartucho. Foi imobilizado por uma figura mais antiga, que observou sua coragem com interesse incomum. Ao invés de matá-lo, o vampiro abriu o próprio pulso e ofereceu-lhe escolha: morrer ali, como os demais, ou atravessar a eternidade. O jovem soldado aceitou. Sentiu as presas perfurarem-lhe o pescoço e a vida esvair-se sob o céu escuro do Paraná, apenas para despertar horas depois sob nova condição. Seus companheiros serviram de alimento ou foram libertados para espalhar o terror. Ele foi moldado como herdeiro.

Em 1946, após conquistar a chamada “liberdade”, retornou a São Paulo e viu o tempo consumir antigos aliados humanos. Transformou o Cemitério da Consolação em território neutro, um refúgio para desgarrados e expulsos de clãs. Sob sua liderança, o local tornou-se mais respeitado que a própria Mascarade. Ali, ninguém atacava sem permissão.

De volta ao confronto, Lucius cuspia sangue e mal conseguia manter-se em pé.

— Eu já disse....eu não matei a sua namorada. Angelique foi assassinada pelo próprio pai. O cara que te contratou! É ele que te deve explicações!

— Você mente, CelleXty! A troco de quê, Raziel mataria a própria filha? — Respondeu La’Vern. — Sua jornada termina agora—

A espada desceu. Antes que atingisse o alvo, outra lâmina atravessou o redemoinho e cravou-se no chão entre os dois. Uma jovem cruzou as chamas sem sofrer dano aparente. Tratava-se de Madalenna. Seus poderes ligados à Lua vibravam numa frequência distinta, quebrando a interferência que bloqueava Basco.

La’Vern atacou com ferocidade, mas ao choque das lâminas uma explosão de energia o lançou contra um túmulo, estilhaçando parte da estrutura. O impacto não o matou, mas dissipou a influência que obscurecia sua mente. O redemoinho cessou abruptamente. Madalenna avançou e cravou o espadim no peito do guerreiro, que tombou lentamente. Seus olhos cruzaram com o adversário, segundos que pareciam horas.

— Não podemos deixa-lo aqui, — Disse Madalenna.

— Mas ele está morto! – Respondeu Lucius

— Não...não está! Eu apenas quebrei o encanto que o prendia a um “outro mundo”! Mas se ficar aqui ele irá morrer de verdade!

— Pois que morra! O cara quase acabou comigo!

— E depois sou eu o pecador, não é irmão!? – Interrompeu Basco

Com esforço conjunto, e auxílio de um teleporte instável de Basco, o quarteto levou La’Vern para um galpão abandonado nas proximidades da Estação Júlio Prestes. Os poucos vampiros restantes dispersaram-se rapidamente, obedecendo ao silêncio imposto por Simeão. Do alto do edifício, o jovem guardião observava, avaliando se aqueles mutantes ainda cruzariam seu território no futuro.

A noite retomou o silêncio no Consolação, mas o equilíbrio havia sido quebrado.