Arquivo Confidencial — Instituto Xavier (EBX)

Classificação: Nível Ômega

Localização Primária: São Paulo — SP

Data: Início do Ano 2000

Status: Instabilidade Crescente


Mascarade — A Elegância da Crueldade

Gregory retornou ao Mascarade com a convicção de quem já perdera demais para recuar. A boate estava estranhamente vazia, como se aguardasse apenas a sua chegada. Nenhuma música ecoava, nenhum mortal distraía a atenção. Era um teatro preparado para um único espectador.

Os vampiros na entrada recuaram quando seus punhos se tornaram prata pura. A mutação reluzia como desafio aberto. Uma vampira silenciosa indicou o caminho até o terceiro pavimento, território quase mítico dentro da estrutura do Mascarade. Ali, Venâncio aguardava.

O líder vampírico estava impecável. Terno escuro, postura serena, uma taça de sangue repousando entre os dedos longos. O ambiente exalava sofisticação decadente.

— Ela era jovem! Seu maior sonho era se tornar uma de nós. Você acredita nisso, Gregory? O gado quer sair do abatedouro e sentar à mesa! Há certas coisas que nunca irão mudar.

O tom não era exaltado. Era didático. Isso tornava tudo pior.

Gregory avançou, mas foi contido por um gesto sutil. Quando disparou a rajada de prata, a sombra interceptou o ataque com precisão impossível. O brasão caiu ao chão, fumegando.

Cibele emergiu da penumbra.

Os olhos dela não tinham mais a mesma luz. Havia ali algo frio, disciplinado, domesticado. Venâncio levantou-se lentamente, segurando-a pela cintura como se exibisse uma obra de arte recém-adquirida. Sua mão percorreu o pescoço da jovem com intimidade possessiva.

Gregory sentiu o estômago revirar.

— Ela veio até nós na esperança de encontrar você! — Informa, Venâncio. — Pelo que soube, algumas semanas depois que você tornou-se um de nós. Havia um entre nós que não respeitava as tradições e muito menos receber ordens de minha filha, Verônica. O verme saía transformando qualquer um em vampiro. Isso atraía demais a atenção para o Mascarade. Em raros casos como este, quando um membro da Geração Vamp coloca em risco a sobrevivência de todos, o conselho dos 13 clãs decide por exterminar o mestre e as suas criações! Mas o coração de minha filha, mesmo sem bater, teve compaixão por você. Ela lhe concedeu a piedade e no caso de sua amiga...o banimento. Cibele foi enviada para uma região remota da Argentina. Quando fiquei à par de sua ligação com um agora, CelleXty, pensei: Porque não fazermos uma pequena barganha?

A crueldade estava na naturalidade com que relatava execuções. Como quem comenta uma reunião administrativa.

— O que você quer, vampiro?

Venâncio sorriu, mas não com os lábios. Sorriu com os olhos.

— Ora, meu jovem Gregory...porque tanta hostilidade? Afinal de contas, já foste um de nós. Como bem sabe, agora temos um adversário em comum. Se não bastasse os humanos e suas crendices e insanidades, temos licantropos infestando a cidade. Já lidei com lobisomens antes, mas estes, trazidos por um dos seus....

— Sphinx não era um de nós!

— Mas era um mutante e isso você não pode negar. Um mutante que conseguiu conjurar um feitiço tão poderoso que trouxe essa praga licantropa direto do Egito Antigo e que agora tem sido uma ameaça constante para os vampiros de todas as regiões de São Paulo. Até em Guarulhos e Praia Grande recebi relatos desses vira-latas nos caçando! Precisamos dar um basta nisso!

Quando ofereceu a troca por Cibele, Venâncio inclinou o rosto para perto dela, como se respirasse seu perfume. Gregory sentiu a revolta queimar por dentro. Não era apenas perda. Era humilhação.

— Não faço barganhas com tipos como você!

— Então, nossa conversa termina aqui, mutante!

O ataque foi brutal. Cibele foi a primeira a avançar. Cada golpe que ela desferia não era apenas físico; era uma lembrança destruída. Gregory hesitava em contra-atacar. Ele via flashes da antiga amiga em cada movimento. A mordida que queimou com o sangue prateado provocou um breve recuo coletivo, mas não interrompeu o cerco.

Quando ele a atingiu com a rajada que marcou seu rosto, o arrependimento foi imediato. A dor dele era maior do que a dela.

O nevoeiro invadiu o salão como entidade viva. Rosnados ecoaram. Lycans gigantescos surgiram entre colunas e lustres. O pânico foi generalizado. Venâncio recuou estrategicamente, observando antes de desaparecer pelas escadarias internas.

Todos os vampiros começam a ouvir todo o tipo de vozes fantasmagóricas. Em meio a penumbra, rosnados e gigantescos Lycans. Não demorou para que o recinto fosse imediatamente evacuado. Gregory conhecia o nevoeiro....sem dúvida era Basco e apenas por este motivo, seguiu os Lycans para fora do local, porém, as criaturas, como num passe de mágica, desapareceram. Gregory demorou a entender o que tinha acabado de acontecer até ver Isabelle ao lado de Basco.

— Ela me atacou… — murmurou, a voz quase inaudível. — E eu quase… quase a matei.

Basco não respondeu de imediato. Sabia que aquela ferida não era física.

Gregory não sentia apenas tristeza.

Sentia revolta.

Contra Venâncio.

Contra o Mascarade.

Contra si mesmo.

(Enfermaria da EBX — reconciliação silenciosa)

A enfermaria estava mergulhada numa penumbra quase monástica, interrompida apenas pelo monitor cardíaco que marcava o ritmo da sobrevivência. La’Vern permanecia sentado na maca, o torso enfaixado, o olhar fixo nas próprias mãos — mãos que já haviam conjurado fogo para destruir e gelo para punir. Quando Lucius entrou, o silêncio tornou-se mais pesado que qualquer acusação.

— Se veio terminar o que começou no cemitério… estou cansado demais para lutar — murmurou o francês, sem erguer os olhos.

Lucius aproximou-se devagar.

— Eu não vim lutar. Vim dizer que Raziel não era você… e que Angelique não morreu por sua culpa.

La’Vern riu, mas era um som quebrado.

— Culpa não precisa de lógica para existir, mon ami. Ela apenas fica.

Lucius segurou-lhe o pulso, firme, não como ameaça, mas como âncora.

— Então fique. Mas fique conosco. Se quer justiça, lute ao nosso lado. Se quer redenção… construa-a.

Pela primeira vez desde que chegara à EBX, La’Vern sustentou o olhar do clérigo.

— Não peço perdão. Ainda não sei se o mereço. Mas lutarei. Não por mim… por ela.

E naquele quarto silencioso, o ódio perdeu o primeiro pedaço de território.

Nos túneis desativados do metrô, a EBX reorganizava seus quadros após a devastação do centro da cidade no ano anterior. A plataforma abandonada tornara-se sala de recepção improvisada para dois jovens que carregavam nos ombros mais medo do que experiência. Ivan observava em silêncio enquanto Carcará assumia a dianteira, avaliando postura, respiração e reação instintiva de ambos. Não era apenas acolhimento; era triagem para guerra.

Gerson, dezesseis anos, lutava para controlar o nervosismo que fazia pequenas exalações tóxicas escaparem de seus poros. Seu dom podia incapacitar um quarteirão inteiro se perdesse o controle. Lídia, quinze, mantinha os olhos fixos nos trilhos, fazendo pequenos parafusos vibrarem a centímetros do chão. Sua telecinese ainda era limitada, mas a precisão indicava potencial promissor. O silêncio dos veteranos os intimidava mais do que qualquer teste formal.

— Aqui vocês aprendem a sobreviver — disse Carcará com firmeza. — Poder não significa nada sem disciplina.

Basco cruzou os braços, observando os novatos com expressão analítica. A cada novo integrante, aumentava a responsabilidade de manter a cidade respirando. E São Paulo já respirava com dificuldade.


La’Vern e Lucius recebiam cuidados de Madalenna. Gerson e Lídia observavam de perto, tendo o primeiro contato real com as consequências de uma guerra invisível. Madalenna explicava, com serenidade tensa, que a influência de Raziel era mais do que manipulação mental.

— Era um vínculo ancestral — disse ela. — Algo que não pertence ao nosso tempo.

Basco franziu o cenho. Se nem mesmo seus sentidos arcanos detectaram a presença, o inimigo operava em um nível anterior ao que conheciam. La’Vern se recuperava, e com ele viriam respostas… ou mais perguntas.

Enquanto isso, Gregory permanecia em silêncio absoluto, encarando as próprias mãos prateadas.

A barganha estava lançada.

E o preço começava a cobrar juros.