CelleXty Saga - Temporada II
19 A Santos dos Santos - Parte II

*Na imagem: o mutante Basco e o vampiro Gentil
Personagens: Alex Aleff, Lucius, Gregory, Beatrice, Basco, Noah, Simeão, Maurice Durand, Gentil, Inverno, Lobo, Acordador.
Ambiente: Monte Serrat e região portuária de Santos, litoral de São Paulo. A escadaria que conduz à Igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat torna-se palco de confronto entre os CelleXtys e as forças vampíricas ligadas aos Sete do Rio D’Ouro. Ao mesmo tempo, o cais do porto e as docas do navio MS Capricórnio permanecem como segundo campo de batalha.
Contexto: Enquanto Basco e seus aliados enfrentam as consequências do confronto contra os vampiros portugueses nas docas, Alex conduz um pequeno grupo de mutantes até o alto do Monte Serrat para impedir que Inverno conclua seus planos dentro da antiga igreja. A cidade de Santos, que já fora palco de eventos sobrenaturais desde os primeiros séculos da colonização, volta a se tornar território de criaturas antigas. Uma nevasca impossível começa a se formar sobre o litoral brasileiro, anunciando que a fúria de Inverno despertou por completo.
...
Enquanto Basco e os demais CelleXtys enfrentavam o trio vampírico no cais do porto, uma segunda frente de batalha avançava pela encosta do Monte Serrat. Alex liderava o pequeno grupo formado por Lucius, Gregory e Beatrice na difícil subida que levava até a antiga igreja que dominava o alto do morro. Durante o dia, aquele caminho era frequentado por turistas, peregrinos e moradores curiosos que buscavam contemplar a vista privilegiada da cidade de Santos. Naquela noite, porém, o cenário era completamente diferente.
O vento frio soprava com força entre as construções históricas e os postes de iluminação lançavam sombras irregulares sobre os degraus de pedra que serpenteavam pela encosta. A atmosfera carregava um silêncio pesado, quase opressivo, como se a própria cidade estivesse prendendo a respiração diante daquilo que estava prestes a acontecer.
O tempo era curto. Muito curto.
Beatrice parou por alguns segundos no meio da escadaria e abriu seu caderno de desenhos. Mesmo com a tensão evidente em seu rosto, suas mãos se moviam com incrível precisão enquanto o grafite corria sobre o papel. Em poucos segundos, traços rápidos começaram a formar um círculo complexo de linhas e símbolos arcanos. Assim que a última linha foi concluída, o desenho brilhou intensamente e rasgou o ar diante deles.
Um segundo portal havia sido criado.
A superfície da abertura tremulava como água agitada, revelando do outro lado a parte final da escadaria que levava diretamente à entrada da Igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat. Alex não hesitou. Ele foi o primeiro a atravessar o portal, seguido rapidamente pelos outros três mutantes.
Do outro lado, a cena que encontraram foi perturbadora.
Diversos corpos estavam espalhados sobre o chão cimentado que antecedia a igreja. Alguns estavam caídos sobre os degraus, outros espalhados pela pequena praça em declive que se abria diante do templo. Os cadáveres apresentavam sinais claros de violência extrema: membros arrancados, costelas expostas, torsos rasgados como se tivessem sido dilacerados por garras ou dentes.
Ainda assim, algo naquela cena parecia estranho. Havia sangue demais nos corpos, mas sangue de menos no chão.
Gregory ajoelhou-se próximo a um dos cadáveres e fechou os olhos por um breve instante. Sua sensibilidade sobrenatural permitia perceber traços energéticos residuais nos mortos, como ecos deixados por forças que já haviam passado por ali. Herança dos ensinamentos que recebeu no Limbo.
Quando abriu os olhos novamente, sua expressão estava sombria.
— Eles eram “filhos” de Maurice — disse em voz baixa.
Ao se aproximarem das últimas escadarias que davam acesso às portas da Igreja uma sombra surge do interior do templo sacro. Era um dos vampiros portugueses e os CelleXtys ouvem a rouca voz de Acordadorproclamar:
- Levantem-se meus irmãos! Levantem-se para cear!
Gregory não perdeu tempo quando os primeiros cadáveres começaram a avançar. O mutante ergueu ambas as mãos e sua habilidade entrou em ação imediatamente. As barras metálicas de uma antiga grade ornamental próxima à escadaria vibraram com um ruído metálico agudo assim que o mutante as tocou. Em questão de segundos, o metal foi reorganizado como se obedecesse a uma força invisível, formando um conjunto de grades de prata que se fecharam ao redor de vários dos mortos recém-despertos.
As criaturas se debatiam contra o metal sagrado, emitindo estalos horríveis de ossos e carne putrefata enquanto tentavam escapar da prisão improvisada.
Beatrice avançou alguns passos à frente e abriu novamente seu caderno. Seus olhos brilhavam e percorriam o papel com rapidez quase sobrenatural enquanto o grafite riscava formas geométricas complexas. Pequenos círculos começaram a surgir no chão aos pés das criaturas presas pelas grades de Gregory. Assim que os círculos foram concluídos, o solo sob os cadáveres simplesmente desapareceu.
Os mortos despencaram através das aberturas dimensionais como se tivessem sido engolidos pelo próprio espaço. Em questão de segundos, os portais se fecharam novamente, despejando aquelas criaturas deformadas em pleno Oceano Atlântico, a milhares de quilômetros da costa brasileira.
Mas antes que qualquer um pudesse comemorar a vitória momentânea, uma sombra gigantesca caiu sobre o grupo.
Lucius ergueu os olhos no exato momento em que algo colossal despencava do telhado de um dos sobrados turísticos ao lado da igreja. O impacto no chão foi brutal.
A criatura que surgiu diante deles era ainda mais grotesca do que os relatos que Simeão havia compartilhado. Seu corpo era uma fusão antinatural entre vampiro e lobisomem. A pele escura parecia grossa como couro curtido, enquanto músculos enormes se moviam sob a carne com uma força selvagem. Suas patas terminavam em garras curvas do tamanho de punhais e sua mandíbula aberta revelava presas que pareciam capazes de rasgar aço.
Lobo.
A criatura avançou contra Lucius com uma velocidade assustadora.
O clérigo mutante tentou reunir energia psiônica para contra-atacar, mas não teve tempo. A enorme pata do monstro o atingiu em cheio no peito, lançando-o contra a parede de um dos sobrados históricos com um impacto seco que fez parte da estrutura do edifício rachar.
Lobo caminhou lentamente em direção ao mutante caído, os olhos brilhando com ódio primal. Seu peito subia e descia com respirações pesadas enquanto as presas se projetavam para fora da boca aberta.
Ele iria dilacerar Lucius ali mesmo. Mas Alex Aleff se colocou no caminho. O líder dos CelleXtys avançou alguns passos e ergueu a espada de prata criada por Gregory. A lâmina brilhava sob a fraca iluminação das lanternas da escadaria, refletindo o olhar determinado do mutante.
Sem desviar os olhos da criatura monstruosa, Alex falou com firmeza:
— Lucius... nas minhas costas. Agora.
Mesmo ferido, Lucius compreendeu imediatamente a estratégia. Ele apoiou uma das mãos contra o chão e reuniu toda a energia cinética que ainda conseguia canalizar. Quando disparou a rajada contra Alex, a explosão de energia atingiu diretamente as costas do líder mutante.
Qualquer humano teria sido arremessado para frente. Mas Alex era um ergocinético. Seu corpo absorveu o impacto como uma bateria viva.
A energia percorreu seus músculos, seus ossos, cada célula de seu corpo, transformando-se em uma força devastadora que pulsava através de suas veias. Seus olhos brilharam intensamente enquanto ele canalizava aquele poder para a espada de prata que empunhava.
Lobo rugiu e partiu para o ataque. No último segundo, Alex ergueu a lâmina acima da cabeça e a cravou violentamente contra o chão de pedra da escadaria.
O impacto foi ensurdecedor.
Uma onda de choque percorreu todo o Monte Serrat. As pedras da escadaria tremeram como se um pequeno terremoto tivesse atingido o morro. Fissuras rasgaram o chão e o impacto da energia ergocinética foi suficiente para interromper completamente o avanço da criatura.
Lobo foi arremessado para trás como se tivesse sido atingido por um aríete invisível.
Seu corpo atravessou a parede do sobrado de onde havia saltado segundos antes, despedaçando parte da estrutura do imóvel histórico. Tijolos, madeira e reboco desabaram sobre a criatura enquanto uma nuvem de poeira se espalhava pelo local.
Durante alguns segundos houve silêncio. Mas não durou. Do interior da igreja, uma presença antiga surgiu. Inverno havia sentido a morte de dois de seus irmãos.
- Espelho... Tempestade.
Dentro do templo, o vampiro ergueu lentamente os braços enquanto uma fúria fria se espalhava por sua mente. O ar ao redor dele começou a se condensar, e pequenos cristais de gelo surgiram no interior da nave da igreja. Então o frio explodiu para fora.
Uma nevasca sobrenatural começou a se formar sobre o Monte Serrat.
Em poucos minutos, a temperatura na cidade de Santos despencou para níveis impossíveis. Flocos de neve começaram a cair sobre o porto, sobre os telhados coloniais e sobre o oceano revolto que cercava o litoral. A tempestade gelada avançava como uma praga.
Sob os escombros do sobrado destruído, Lobo abriu os olhos novamente. Sua forma monstruosa começou a se transformar ainda mais. As garras cresceram, rasgando o concreto ao seu redor, enquanto sua musculatura se expandia como se estivesse sendo alimentada pela própria nevasca que descia do morro.
Ele emergiu dos destroços com um rugido ensurdecedor. Ao mesmo tempo, Acordador levantou a cabeça e abriu a boca em um urro tão profundo que parecia vir das próprias entranhas da terra. Seu poder ecoou por toda a cidade. Nos quatro cemitérios de Santos, algo começou a se mover sob a terra congelada.
Caixões se abriram. Túmulos racharam. Dezenas… depois centenas de mortos começaram a se erguer, caminhando lentamente pelas ruas cobertas de neve. A ordem era simples: Trazer a morte à cidade.
No cais
Nas docas do porto, Basco, Simeão e os outros também sentiram o eco daquele grito. Era impossível ignorar. Maurice olhou para o alto do morro, onde a silhueta da Igreja de Monte Serrat agora estava envolta por uma tempestade branca que parecia completamente deslocada da realidade tropical do litoral paulista.
Sem perder tempo, o vampiro francês libertou os últimos marinheiros sobreviventes que ainda estavam presos nos porões do MS Capricórnio pouco antes do navio desaparecer nas profundezas do cais.
— Precisamos subir agora — disse ele.
Gentil, ainda preso na jaula formada pelas lanças de prata, ergueu lentamente a cabeça.
— Vão! Não percam mais tempo! Vocês precisam deter Inverno de uma vez por todas se quiserem salvar estas terras brasileiras!
— É alguma piada, portuga!? — Pergunta Noah.
— Piada alguma, meu jovem oponente! — Respondeu Gentil.
O vampiro observava a nevasca crescendo sobre a cidade.
— Inverno sentiu a perda de nossos irmãos. Vejam o frio mórbido que tomou conta deste litoral. Poucas foram as vezes em que o vi com tamanha fúria. Mas se pensam em derrotá-lo, este é o momento!
Sua voz ganhou um tom mais grave.
— A rapariga que trouxemos conosco... nosso plano era levá-la conosco para Portugal. Inverno a transformará e fará dela uma nova rainha! Ele quer banhar nossa antiga terra com o sangue dos inocentes com o punhal que era de sua família.
A jovem precisará passar por um ritual antigo. Não deve se tornar uma de nós pelas vias “naturais”. O sangue dela deve ser derramado...por ela mesma em solo português! Inverno a induzirá a tal ato profano! Mas o punhal também é mortal a todos nós! Use-o contra Inverno e ele tombará! – Revela Gentil.
- O punhal de ouro roubado do Mascarade! – Lembrou Simeão
Maurice se aproximou das lanças.
— Porque? Porque agora quer nos ajudar?
Gentil soltou uma pequena risada amarga.
— Eu não podia fazê-lo antes. Juntos, meus irmãos eram muito fortes, mas agora restam apenas Lobo, Acordador e Inverno. Não penses que eu estou do teu lado por afeto, gajô. Eu perdi muito por segui-los. Minha amada... meu jovem irmão. Apenas esperei o momento certo para agir.
A revelação sobre o punhal de ouro fez o grupo compreender a gravidade da situação.
Se Eliana chegasse a Portugal…
A maldição se espalharia.
E então Basco tomou sua decisão.
— Certo....eis o que iremos fazer. Simeão, Maurice e Noah, vão o mais rápido possível para o alto do monte. Eu ficarei tomando conta do nosso “novo aliado”.
Noah tentou protestar. Basco foi firme.
— Isso não está aberto a discussões, Noah.
Simeão segurou o jovem mutante pelo braço e Maurice fez o mesmo do outro lado.
Quando os dois vampiros começaram a correr, seus movimentos eram rápidos demais para olhos humanos acompanharem. Em poucos segundos desapareceram na nevasca que começava a engolir a cidade.
Basco ficou para trás.
Apenas ele e Gentil.
Basco se coloca em prontidão. Estava preocupado com a grande nevasca que começava a cair sobre Santos. Lembrou sobre a difícil luta que passaram em Osasco há pouco tempo quando tiveram um vislumbre dos poderes de Inverno pela primeira vez, mas agora, talvez tivessem uma chance.
- Não te preocupes, oh brasileiro. – Disse Gentil para Basco enquanto via os outros desaparecerem em meio a neve que já cobria parte da cidade e do porto.
- Desta vez pode ser que consigam deter meus irmãos. Afinal, tens aliados vampiros ao teu lado. Você me lembra um homem que conheci em Portugal, um mouro. Era um “sangue bruxo” como vocês! – Finalizou Gentil.
- “Sangue Bruxo”? – Indagou Basco, curioso.
- Sim, pessoas com dons como os de vocês. Eles não eram agraciados com poderes através de uma maldição como nós. Foram concebidos assim, no ventre. – Revelou Gentil.
- Nós chamamos de mutantes hoje em dia! – Diz Basco.
- Para mim, continuam sendo bruxos. – Ironizou, Gentil.
Gentil sentiu que Basco estava preocupado com os amigos e como possivelmente aquela história acabaria.
- Se conseguirem derrotar Inverno e os outros, espero que também possam deter o meu irmão, o pior de nós, se ele ainda estiver caminhando por aí. – Menciona Gentil.
Aquela menção fez a atenção de Basco se voltar para o vampiro português. – Está se referindo aquele que chamam de Sétimo, não é? – Pergunta Basco. — Eu conheço parte da história, a vida de vocês num castelo, a aliança com os ciganos, o tal de Sétimo colocando a todos em perigo e como os tais “Bentos” caçaram vocês por causa dele. -Completa, Basco. Há algum tempo, Basco ouviu breves relatos sobre os Sete através do vampiro Simeão, mas não imaginava que um dia estaria frente a frente com um deles.
Gentil sorri. Mesmo tendo se passado tantos séculos, a história dos vampiros do Rio D’Ouro ainda se mantinha viva.
– Impressionante, gajo! Sim....Sétimo...o mais odiado e também o meu irmão mais jovem! – Disse Gentil com um olhar de pesar.
O vampiro lusitano relembra que o destino quis que os seus irmãos e ele se encontrassem com os “Sangue Bruxos” conhecidos como “Os Bentos”, a guarda real do rei de Portugal, responsável, segundo o vampiro, por todo o tipo de atrocidade contra os mais humildes e desafortunados. Lutavam contra invasores, mas também cobravam altos impostos dos aldeões e castigavam brutalmente a aqueles que eram considerados hereges ou se posicionavam contra as ordens do rei. Para “Os Bentos”, todos abaixo do rei ou da igreja eram servos das trevas em potencial.
Gentil conta ainda a história da luta emocionante que os Sete travaram às margens do Castelo do Rio D’Ouro contra os quatro últimos “Sangue Bruxos”, Igrayne, a celta, Joaquim, o ferreiro, Mahmud, o mouro e Esperança, a andaluz. Gentil revela que estes Bentos foram os responsáveis por prendê-los no grande caixão de prata e bani-los como degredados de Portugal. A caravela fora escoltada até a colônia brasileira e afundada em sua costa para que jamais alguém pudesse libertá-los. Basco questionou onde estava Sétimo? Um ser tão poderoso como ele, não deveria estar junto com os demais?
Basco desconfiava de que esse sétimo vampiro poderia estar tramando alguma armadilha para os seus amigos.
- Não te preocupes, eu não sinto o cheiro de meu irmão desde que despertamos nas terras ao sul. Nem mesmo Eliana ou os que a ajudaram a nos libertar sabem donde Sétimo está. Para a sorte do teu povo, brasileiro, espero que ele esteja morto. – Desejava Gentil.
E então os mortos começaram a surgir.
A batalha nas docas
As primeiras sombras apareceram lentamente entre os contêineres do porto. Depois vieram os sons. Passos arrastados. O estalo seco de ossos deslocados. Gemidos abafados.
Quando as criaturas finalmente emergiram da névoa branca da nevasca, até Gentil demonstrou surpresa.
— Basco… algo não está certo.
Os mortos que se aproximavam pareciam muito mais antigos do que aqueles normalmente controlados por Acordador. Alguns estavam reduzidos a esqueletos incompletos. Outros vestiam restos de roupas que pareciam ter décadas de idade. A horda avançava em silêncio. Centenas deles. E atrás deles apenas o oceano revolto.
...
- Mais essa agora! Meus poderes não são lá de grande valia contra uma horda de mortos. Posso solidificar partes do meu nevoeiro e lançá-los em alto mar, mas isso apenas nos daria tempo – Indaga Basco.
- Tempo....hum....talvez eu possa ajudá-lo, mas para isso, terás que me libertar dessa jaula. – Responde Gentil
- Acha que eu sou idiota? – Ironiza Khassan
- Não...mas acho que quer viver.
Com os cadáveres se aproximando, Basco Khassan assume a forma de um denso nevoeiro e parte para cima da horda putrefata, ignorando Gentil. De fato, com a solidificação de parte do seu poder, conseguia esmurrar alguns mortos e jogar outros ao mar, mas eles eram muitos e continuavam avançando.
Basco reconhece que não conseguiria manter a sua forma mutante por um longo período de tempo. Enquanto isso, Gentil observava alguns zumbis atravessarem o nevoeiro de Basco e seguirem em sua direção. Estaria ele protegido atrás das lanças de prata? O vampiro temia que não, pois a horda era maior do que qualquer outra que tenha visto e os dentes…ah, os dentes…mesmo podres, poderiam rasgar-lhe a carne e queimá-lo por dentro e por fora.
Subitamente, Khassan, já cansado, retorna a forma humana. Ele consegue pegar uma barra de ferro próximo a um conglomerado de entulhos de uma obra do cais e corre na direção da jaula que prendia Gentil. Acertou alguns mortos mais próximos do cárcere. Basco estende a mão e pede para o vampiro segurá-la através das grades. Basco canaliza o seu poder e em segundos o corpo de Gentil também se torna um montante de névoa, atravessando as grades de prata sem se ferir e retornando a forma humana em seguida.
- Seu dom...é impressionante, Basco! – Menciona o vampiro, surpreso.
- Dá para dar uma mãozinha aqui…estou meio esfumaçado no momento! – Pede Basco, já cercado pelos mortos. Será que Gentil o deixaria para traz, pensou Khassan.
Mas ao contrário do que Basco imaginou, o vampiro lusitano não pestanejou em cumprir a sua palavra e ajudar o mutante ao seu lado. Gentil estende os braços na direção da legião de mortos que jaz à sua frente, desacelerando o tempo ao redor das criaturas. Basco toca no ombro de Gentil deixando-o semicorpóreo.
Parte do corpo do vampiro transformasse em névoa, assim como todo o chão de cimento em direção dos mortos. Basco também estende o braço contra os invasores enquanto o seu nevoeiro tomava conta do chão e cobria a horda que se aproximava. Os zumbis continuam o seu trajeto de forma ameaçadora sobre a densa névoa. Inesperadamente um a um começam a “cair” sobre o nevoeiro como se um alçapão se abrisse sob os pés de cada um.
Na verdade, Basco assimilou o chão ao redor transformando todo o espaço em um grande nevoeiro que sugava a tudo em seu meio para o mais profundo oceano. Com exceção de Basco e Gentil, os mortos foram sucumbindo ao abismo marítimo, permitindo que a dupla voltasse a forma humana. Khassan parecia exausto e Gentil também se mostrava cansado devido ao esforço de utilizar seu dom, mesmo que apenas uma fração do que realmente o define como um dos mais poderosos vampiros do Rio D’Ouro.
Infelizmente um dos marinheiros mortos do MS Capricórnio surpreende Gentil com uma mordida em seu braço que lhe arranca parte da carne gélida e deixando os ossos à mostra. O vampiro solta um urro de dor e agonia. Jamais tinha sentido tamanha dor depois que se tornou um ser da noite. Basco consegue transformar em nevoeiro uma pequena porção do chão aos pés do morto, que também despenca no mar.
Gentil se desequilibra e vai ao chão. O jovem vampiro português sente um frio fantasmagórico e, pela primeira vez, pressente o toque da morte. A verdadeira, aquela que lhe arrancaria em definitivo o prazer de caminhar dentre os vivos. Teria finalmente o descanso que não conseguiu em vida e na “primeira morte”. Estaria destinado ao Tártaro ou aos Elíseos?
Basco não se afasta do vampiro, pelo contrário, demonstra uma simpatia inexplicável por Gentil. Ele ajuda o vampiro a se levantar e promete que não o abandonaria. Enquanto isso, mais uma legião de mortos se aproximava da dupla....
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Continua....
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