CelleXty Saga - Temporada II
20 Amanhecer

Personagens: Alex Aleff, Lucius, Gregory, Beatrice, Noah, Simeão, Maurice Durand, Basco Khassan, Eliana, Inverno, Lobo, Acordador, Gentil.
Ambiente: Igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat e encosta do morro, na cidade de Santos, litoral de São Paulo. A cidade permanece tomada por uma nevasca sobrenatural provocada pelo poder de Inverno, enquanto hordas de mortos-vivos caminham pelas ruas, despertadas pelo dom macabro de Acordador.
Contexto: Após a morte de dois dos vampiros do Rio D’Ouro, Inverno decidiu acelerar seus planos. Eliana foi levada para o interior da igreja para iniciar o antigo ritual que a transformaria em uma nova rainha vampírica. Enquanto Alex e seus aliados enfrentam Lobo na escadaria do templo, Noah, Simeão e Maurice avançam para impedir o ritual. Nas docas, Basco Khassan permanece ao lado do ferido Gentil enquanto a cidade de Santos é lentamente engolida por uma maré de mortos.
...
A nevasca soprava com violência sobre o alto do Monte Serrat.
Flocos de gelo giravam no ar como cinzas pálidas enquanto a tempestade avançava sobre a cidade. Santos jamais havia visto algo parecido. As ruas estavam cobertas por uma moderada camada de neve e o vento carregava um frio sobrenatural que parecia atravessar ossos e almas.
Diante da igreja, o confronto havia recomeçado.
Dos escombros do sobrado destruído, Lobo emergia novamente. Sua forma havia se tornado ainda mais monstruosa. Os músculos pareciam pulsar sob a pele escura enquanto garras maiores rasgavam o chão de pedra a cada passo. A criatura ergueu a cabeça para o céu e soltou um rugido tão profundo que ecoou pela encosta inteira do morro.
Lucius limpou o sangue do canto da boca enquanto se erguia novamente.
— Eu realmente odeio quando eles voltam mais fortes… — murmurou.
Beatrice já estava com o caderno aberto em suas mãos. Seus olhos percorriam as páginas enquanto linhas surgiam no papel quase sozinhas. Gregory mantinha a espada de prata nas mãos de Alex vibrando com uma leve energia metálica.
Lobo avançou.
A criatura saltou com uma velocidade impossível, atravessando o espaço que os separava em um único impulso brutal. Alex ergueu a espada, mas não foi ele quem atacou primeiro.
Lucius avançou.
O clérigo mutante reuniu toda a energia psiônica que ainda possuía e a lançou diretamente contra a criatura. A rajada atingiu o peito de Lobo como um aríete invisível, fazendo o monstro perder o equilíbrio por um breve instante.
Era tudo que Beatrice precisava. Ela rasgou a última linha do desenho em seu caderno e o portal se abriu no ar acima da criatura. Lobo caiu parcialmente dentro da abertura dimensional.
A criatura lutou para escapar, cravando as garras no chão de pedra da escadaria. O portal puxava seu corpo como uma força gravitacional monstruosa, tentando arrastá-lo para algum lugar distante do mundo.
Mas Lobo era forte demais. Ele começou a se libertar. Foi quando Lucius avançou pela última vez. O mutante concentrou sua energia psiônica em um único golpe e atingiu o crânio da criatura com uma explosão brutal de poder. O impacto ecoou como um trovão abafado.
O pescoço de Lobo se partiu. O portal de Beatrice se fecha com metade do corpo da criatura sendo engolida e a outra metade despencando aos pés da jovem mutante. E o silêncio retornou por alguns segundos à escadaria.
Lucius caiu de joelhos.
— Alguém… me lembra… de nunca mais enfrentar lobisomens vampiros.
Alex respirou fundo. Mas não havia tempo para descanso. Porque dentro da igreja, algo ainda pior estava acontecendo.
...
No interior do templo, Inverno mantinha Eliana presa diante do altar antigo. O vampiro parecia ainda mais sombrio do que antes. Seu rosto carregava a fúria de séculos de existência enquanto seus olhos brilhavam com um azul espectral.
A jovem tremia.
— Não… — murmurou ela.
Inverno segurava o punhal dourado.
— Este punhal pertence à minha família — disse ele calmamente. — O destino sempre foi curioso com linhagens humanas. Séculos se passaram e, ainda assim, ele retorna às mãos daqueles que devem cumprir a profecia.
Ele aproximou o punhal do peito da jovem.
— Já que não será provável que retornemos à nossa amada terra, serás nossa rainha neste Brasil. Aqui reinaremos! Derrama teu sangue, criança… e tornar-te-ás eterna.
Mas naquele instante as portas da igreja se abriram violentamente. Noah entrou primeiro. Logo atrás dele vinham Simeão e Maurice.
Mortos-vivos invadiam o templo pelas portas laterais e pelas janelas quebradas, arrastando-se para dentro da nave da igreja como um enxame de cadáveres. Noah correu até Eliana. Simeão e Maurice se lançaram contra os mortos que tentavam cercá-los.
Inverno sorriu. — Tarde demais.
O vampiro ergueu o punhal. Mas Maurice foi mais rápido. O vampiro francês avançou com uma velocidade que parecia rasgar o ar ao redor de seu corpo. Ele agarrou o braço de Inverno antes que o golpe fosse desferido. O punhal caiu no chão.
Alex entrou na igreja naquele exato momento.
— Agora! — Gritou Maurice.
Alex não hesitou. Ele avançou e cravou o punhal diretamente no peito de Inverno. A lâmina dourada atravessou o coração do vampiro.
Por um instante, nada aconteceu. Então Inverno gritou. Um grito que parecia conter séculos de dor.
Seu corpo começou a congelar por dentro. Rachaduras de gelo surgiram sob sua pele enquanto a nevasca lá fora se intensificava violentamente por alguns segundos.
Depois… tudo cessou.
O corpo de Inverno se partiu como uma estátua de gelo. E se transformou em cinzas. A nevasca começou a desaparecer.
...
Nas docas do porto, Basco ainda sustentava o corpo de Gentil. A horda de mortos continuava avançando pelas ruas. Gentil observava o horizonte com olhos cansados.
— Basco… — murmurou ele.
O vampiro ergueu lentamente a mão.
— Eu ainda posso ajudá-los… uma última vez.
Antes que Basco pudesse responder, Gentil liberou todo o seu poder. O tempo parou. Toda a cidade de Santos congelou em um silêncio absoluto. Os mortos ficaram imóveis. A neve parou no ar. O mar congelou em movimento. Apenas Basco permanecia livre.
— Vai… — disse Gentil.
Basco compreendeu imediatamente. Ele correu. Subiu o Monte Serrat em poucos minutos. Viu os seus amigos em posições de ataque e defesa contra os adversários, mas ele continuou em busca do seu alvo. Podia ouvir Gentil lhe guiando até o alvo. Ele encontrou Acordador diante da igreja e com alguns zumbis que o cercavam e o protegiam.
O vampiro tentava manter controle sobre os mortos, mas sem o fluxo normal do tempo seu poder estava enfraquecido. Basco avançou. E o combate terminou rapidamente. O mutante transformou seu corpo em nevoeiro, atravessou as defesas de Acordador e solidificou o braço dentro do peito do vampiro. Quando puxou o braço de volta, o coração negro da criatura veio junto.
Acordador caiu. E todos os mortos da cidade desabaram ao mesmo tempo. O tempo voltou a fluir.
Quando Basco retornou às docas, Gentil ainda estava ali, escorado em uma marquise.
Horas depois, Santos despertava lentamente. A cidade ainda estava coberta por cadáveres e escombros, mas o pesadelo havia terminado. No alto do Monte Serrat, os CelleXtys observavam o nascer do dia em silêncio. A batalha contra os vampiros do Rio D’Ouro havia terminado — e com ela, a noite mais longa que Santos já enfrentara. O silêncio que tomou a cidade de Santos não foi imediato.
Primeiro vieram os gritos.
Depois os ecos da batalha.
Depois o crepitar do fogo que ainda consumia parte da igreja.
Somente então veio o silêncio. As ruas estavam cobertas de corpos. Mortos-vivos, vampiros destruídos e restos daquilo que outrora haviam sido pessoas. A noite havia sido longa demais, cruel demais, e agora a cidade parecia suspensa em um estado de exaustão absoluta. No cais, Basco ainda segurava Gentil nos braços.
O vampiro português já não tinha forças para se sustentar sozinho. Seu corpo, que durante séculos desafiara o tempo, agora se desfazia lentamente sob a aproximação inevitável do amanhecer. Gentil respirava com dificuldade, como se cada palavra exigisse um esforço monumental.
— Curioso… — murmurou ele com um sorriso cansado — Passei séculos fugindo do sol… e agora… tudo o que quero… é vê-lo nascer.
Basco não respondeu imediatamente. O guerreiro olhava para o horizonte, onde o céu começava a clarear em tons suaves de azul e laranja. Pela primeira vez desde o início da batalha, o vento parecia tranquilo.
— Você lutou ao nosso lado — disse Basco por fim. — Isso já é mais do que muitos da sua espécie fariam.
Gentil riu baixo.
— Não lutei por vocês… lutei por mim mesmo… mas… — ele virou o rosto, encarando Basco com um olhar sincero — fico satisfeito que tenha sido ao seu lado. Um adversário notável!
O silêncio voltou a cair entre os dois.
No alto do morro, os demais membros da equipe começavam a se reunir. Alex Aleff limpava o sangue da lâmina de sua arma enquanto observava o corpo de Inverno caído entre os escombros. Maurice permanecia próximo, igualmente em silêncio, segurando ainda o punhal que havia atravessado o coração do vampiro.
Lucius e Beatrice surgiam da lateral da igreja. A batalha contra Lobo havia terminado minutos antes, e o corpo da criatura repousava mutilado entre as pedras do pátio.
Mais adiante, Noah ajudava Eliana a caminhar para fora do templo destruído. Simeão observava a cidade em silêncio, como se tentasse compreender o significado daquela noite.
A guerra havia terminado. Mas o preço fora alto.
Gentil ergueu lentamente uma das mãos trêmulas e segurou o braço de Basco.
— Antes que eu desapareça… há algo que você deve ter.
Com dificuldade, ele retirou de dentro de seu manto um pequeno objeto envolto em couro antigo. Basco o pegou com cuidado.
Ao abrir o embrulho, encontrou um anel antigo, de metal escurecido, marcado por símbolos que não reconhecia. Um antigo anel de ouro escurecido com um símbolo gravado: um rio serpenteando sob uma lua crescente.
Gentil observou a expressão dele e sorriu.
— Guarda isto… pode precisar no futuro… contra alguém… pior do que eu.
Basco segurou o presente.
Gentil olhou para o horizonte.
— Se meu irmão ainda estiver vivo… tu o encontrarás.
Os primeiros raios de sol começaram a surgir no horizonte. A luz dourada deslizou lentamente pelas ruas de Santos, iluminando os escombros, os corpos e os sobreviventes da batalha. Gentil percebeu a mudança imediatamente.
— Ah… — murmurou ele. — Finalmente.
A luz tocou seu rosto. Por um instante, Gentil parecia em paz.
Não havia medo.
Apenas alívio.
— Basco… — disse ele com um último suspiro — obrigado… por não me tratar como um monstro… no final.
Basco apertou o braço dele.
— Você não morreu como um monstro.
Gentil sorriu.
E então seu corpo começou a se desfazer. Primeiro a pele. Depois os ossos. Até que restaram apenas cinzas levadas pelo vento da manhã.
Basco permaneceu imóvel por alguns segundos, observando as partículas desaparecerem na luz do sol nascente.
Ao longe, os primeiros sons da cidade começavam a surgir novamente.
Sirenas. Carros. Vozes confusas de pessoas que ainda não compreendiam o que havia acontecido durante a noite.
Simeão e Maurice precisaram se esconder dos primeiros raios do sol, não sem antes afirmar que a aliança entre eles e os CelleXtys, agora, era eterna!
Alex se aproximou lentamente do topo do morro, observando o horizonte iluminado.
— Acabou? — Perguntou ele a Lucius ao seu lado.
Lucius fechou o punho. Ele respirou fundo.
— Sim.
Seus olhos percorreram a cidade devastada.
— Pelo menos… por enquanto.
...
O sol finalmente surgiu por completo sobre Santos. A neve restante começou a derreter lentamente sobre os telhados da cidade. E pela primeira vez em muitas horas, a cidade voltou a respirar.
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