CelleXty Saga - Temporada II
18 A Santos dos Santos - Parte I

CAPÍTULO 38 – A Santos dos SantosParte I
Personagens: Basco, Noah, Simeão, Maurice, Gentil, Tempestade, Espelho, Inverno, Acordador, Lobo, Eliana, Alex, Lucius, Gregory, Beatrice
Ambiente: Complexo Portuário de Santos / Igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat
Contexto: Enquanto os CelleXtys perseguem os vampiros portugueses responsáveis pelo caos no litoral paulista, parte dos Sete tenta resguardar o navio frigorífico MS Capricórnio para a fuga do grupo.
Uma fina garoa caía naquele início de noite sobre a cidade de Santos. A chuva parecia quase imperceptível para quem caminhava pelas ruas do centro histórico, mas nas áreas industriais do porto ela assumia um aspecto muito mais sombrio. No vasto conjunto de terminais e docas do Complexo Portuário, a umidade fria do mar misturava-se ao cheiro metálico das estruturas enferrujadas e ao rugido constante das ondas quebrando contra as muretas de contenção. Entre os inúmeros cargueiros e embarcações mercantes atracadas, um navio chamava atenção pela bandeira portuguesa que tremulava lentamente no mastro principal.
O MS Capricórnio era um navio frigorífico de médio porte que permanecia atracado no Porto de Santos com a finalidade de reabastecer suprimentos antes de iniciar sua viagem de retorno para Lisboa. Para a tripulação, aquela escala seria apenas mais uma parada rotineira antes da longa travessia do Atlântico. Nenhum dos marinheiros imaginava que, naquela mesma noite, o destino de todos já estava selado. Assim que o sol desaparecesse completamente e desse lugar à grande e radiante lua cheia, alguns passageiros clandestinos planejavam tomar a embarcação. Quando isso acontecesse, o Capricórnio deixaria de ser um simples navio mercante e se transformaria em um gigantesco túmulo flutuando sobre o oceano.
Não demorou para que três das criaturas responsáveis por aquele destino macabro subissem silenciosamente a bordo: Espelho, Tempestade e Gentil. O primeiro a agir foi Espelho, cuja habilidade de transmorfo permitia assumir a aparência física de qualquer pessoa que tocasse. Aproveitando-se da escuridão e da confusão típica do turno noturno no porto, ele assumiu a forma de alguns membros da tripulação, o que lhe permitiu circular livremente pelo interior do navio. Um a um, os marinheiros eram enganados pela falsa identidade do vampiro e conduzidos até um dos grandes compartimentos frigoríficos da embarcação, onde acabavam aprisionados dentro de um freezer industrial utilizado para armazenar mantimentos.
Gentil, por outro lado, não teve a mesma discrição. Ao caminhar próximo à popa da embarcação, acabou sendo descoberto por dois vigilantes do porto que realizavam a ronda de rotina. Os homens imediatamente sacaram suas armas e ordenaram que o estranho se identificasse. O vampiro português respondeu apenas estendendo os braços lentamente em direção à dupla. No mesmo instante, os vigilantes sentiram algo estranho acontecer com seus próprios corpos.
Seus movimentos tornaram-se pesados, lentos, quase impossíveis de controlar, como se o tempo ao redor deles tivesse desacelerado de forma antinatural. Gentil não precisou de esforço para aproveitar aquela vantagem. Com velocidade sobrenatural, aproximou-se dos dois homens e cravou os caninos em seus pescoços, drenando suas vidas antes que pudessem reagir. Quando terminou, simplesmente arremessou os corpos sem vida ao mar escuro.
Mesmo assim, o vampiro evitava utilizar seu dom demoníaco em excesso. A maldição que recaía sobre este membro dos Sete do Rio D’Ouro – como eram conhecidos em Portugal — impunha uma limitação cruel: Gentil possuía um poder extraordinário, mas só poderia manifestá-lo em sua plenitude uma única vez durante cada ciclo da lua.
Usar fragmentos desse poder em momentos menores era possível, porém trazia consequências. Quanto mais Gentil utilizava sua habilidade de manipular o tempo, mais debilitado se tornava… e mais intensa se tornava sua fome.
Enquanto isso, Tempestade avançava pelos corredores internos do Capricórnio até alcançar a cabine do comandante. O homem que ocupava o posto se assustou ao ver aquela figura de pele pálida e olhos sombrios surgindo diante dele. Instintivamente tentou fugir, abrindo a porta para escapar.
No entanto, Espelho já o aguardava do lado de fora. O vampiro aproximou-se com um sorriso frio e, sem dar tempo para qualquer reação, cravou seus caninos no pescoço do comandante. O homem morreu em silêncio, com os olhos arregalados de puro terror.
Assim que terminou de se alimentar, Espelho assumiu a forma do próprio comandante do navio. Mais do que a aparência física, sua habilidade permitia absorver também fragmentos das memórias e conhecimentos técnicos de navegação da vítima. Em poucos segundos, o vampiro possuía décadas de experiência náutica dentro de sua mente. O cadáver foi largado no chão da cabine enquanto o falso comandante assumia o controle do painel de navegação. Foi nesse momento que Gentil chegou ao convés superior.
— Sabes manobrar este monstro marinho? — Perguntou Gentil, observando os instrumentos da cabine.
— Não duvides de meus dons, irmão! — Respondeu Espelho com um sorriso arrogante. — Este brasileiro possuía anos de experiência no mar. Eu vos levarei de volta ao vosso lar.
— Já ficamos por tempo demais nestas terras! — Interrompeu Tempestade. — Temos o punhal dourado e a rapariga que nos trouxe de volta dos mortos. Precisamos partir agora.
— Paciência realmente não é a vossa virtude, não é mesmo? — Respondeu Espelho com ironia.
— E por falar em virtude… o que pretendem fazer com a garota que está com Inverno? — A pergunta não veio de nenhum dos três.Uma nova voz ecoou da escuridão da ponte de comando.Das sombras no fundo da sala surgiu Maurice, o vampiro francês que até então permanecera em silêncio. Ele também havia sido capturado pelos invasores portugueses quando chegaram ao litoral santista. Apesar de estar tecnicamente sob o domínio deles, passara a maior parte do tempo apenas observando, aguardando o momento certo para agir.
— Os demais membros da tripulação já estão presos — disse ele em um tom baixo. — Estão aguardando apenas que o navio zarpe. Servirão de alimento durante a viagem.
Segundo os cálculos de Espelho, a travessia até a Europa levaria cerca de dezoito dias. Dezoito dias de escuridão. Dezoito dias de caça.
Tempestade voltou a falar, com uma expressão de fervor quase religioso.
— “Ela” foi quem nos despertou. Quando chegarmos a Portugal, ela será a nossa Madre Nocturna… o seu sangue…
— Já chega, Tempestade! — Interrompeu Gentil com impaciência.
— Não devemos explicações ao jovem Maurice.
O vampiro português caminhou até a janela da cabine e observou o porto envolto pela garoa. — E tu estás certo…. Não precisamos aguardar mais nenhum instante neste lugar. Devemos partir esta noite. Devemos avisar nossos irmãos, na igreja, que conseguimos a embarcação.
Igreja de Nossa Senhora do Monte Serrat
Enquanto isso, os demais membros do clã português permaneciam em silêncio dentro da antiga igreja localizada no alto do morro de Monte Serrat. O interior do templo estava mergulhado em uma atmosfera quase sepulcral. Entre os bancos de madeira e as velas acesas diante do altar, Inverno, Acordador e Lobo aguardavam impacientes pelo sinal de partida.
Próxima ao altar, uma jovem repousava como se estivesse em um sono profundo. Seu nome era Eliana, estudante de História da UFRGS. Seu sangue fora responsável por despertar os vampiros de seu longo sono.
Inverno aproximou-se dela lentamente e passou os dedos pelos longos cabelos loiros da jovem, observando-a com uma mistura perturbadora de fascínio e desejo. Para ele, Eliana não era apenas uma vítima. Ela era o futuro.
A mulher que daria origem a uma nova linhagem vampírica quando retornassem a Portugal.
A chegada dos CelleXtys
Não muito longe dali os CelleXtys finalmente chegavam à cidade de Santos. A viagem fora possível graças aos poderes da mutante Beatrice, que através de suas ilustrações era capaz de criar portais interdimensionais entre dois pontos distantes. Em poucos minutos, o grupo havia sido transportado da capital paulista até o litoral.
O vampiro Simeão os acompanhava.
Utilizando seu faro sobrenatural, ele conseguiu localizar os vampiros portugueses em dois pontos distintos: o navio MS Capricórnio e a igreja no alto do morro de Monte Serrat.
O grupo então se dividiu.
Basco, Noah e Simeão seguiram para o cais do porto, ocultos pelo nevoeiro criado por Khassan. Enquanto isso, Alex, Lucius, Gregory e Beatrice iniciaram a subida pela trilha turística que levava até a igreja.
O confronto no cais
Ao se aproximarem do navio, Basco e seus companheiros foram surpreendidos por cinco vampiros que guardavam a entrada do cais. Eram membros da tripulação que haviam sido recentemente “abraçados” pelos portugueses.
Os mutantes assumiram posições de combate. Basco foi o primeiro a agir. Ele avançou em direção ao grupo inimigo e, em pleno movimento, seu corpo se desfez em uma grande massa de nevoeiro que envolveu completamente os cinco vampiros. A estratégia era simples: impedir qualquer possibilidade de reação coordenada.
Noah agiu em seguida.
Utilizando sua habilidade de transmutação, transformou algumas cordas trançadas do cais em correntes de prata com ganchos triplos nas extremidades. Com movimentos rápidos e precisos, lançou as correntes contra dois dos vampiros. Assim que o metal prateado tocou a pele das criaturas, o efeito foi imediato. Seus corpos começaram a queimar como se fossem consumidos por ácido.
Enquanto isso, duas outras criaturas noturnas cercaram Simeão. O jovem militar dos anos 1930 não demonstrou qualquer medo.
— Tentar atravessar os meus labirintos mentais é inútil — disse ele calmamente.
Simeão invadiu a mente dos dois vampiros recém-criados. A pressão psíquica foi tão intensa que ambos sentiram como se seus cérebros estivessem prestes a explodir. Incapazes de suportar o ataque mental, fugiram desesperados pela escuridão do cais.
O quinto vampiro tentou atacar Basco saltando de cima de um guindaste, com garras e presas à mostra. O mutante materializou-se novamente no instante exato do impacto e o repeliu com um poderoso soco. Noah finalizou o combate envolvendo a criatura em correntes de prata, que rapidamente a reduziram a cinzas.
Basco apontou para o navio. Era óbvio que o verdadeiro confronto ainda estava por vir. E, no alto da proa, Tempestade já observava a aproximação deles.
...
Com sutileza, o vampiro salta do alto do navio e pousa suavemente no cais. Num piscar de olhos, Espelho e Maurice estavam ao seu lado, mas Gentil não os acompanhava preferindo ficar na ponte do navio.
Espelho olha um por um e escolhe aquele em que a forma mais lhe agradou para assumir: o mutante Noah! Assim como o mutante, Espelho também manifesta os seus poderes sobre a alquimia. Ao tocar um emaranhado de grossos montantes de cordas, transmuta os objetos em gigantescas serpentes. As criaturas rapidamente atacam o verdadeiro Noah! Basco tenta ajudá-lo, mas recebe um golpe certeiro de Maurice que o arrasta até a parede de um dos galpões.
O vampiro o segura pelos braços enquanto sussurra em seu ouvido: - Fique tranquilo, mutante…eu estou do seu lado. Simeão sabe o que faz! – Dizia o vampiro enquanto olhava para Simeão e deixando Basco sem entender o que estava acontecendo. Noah, por sua vez, toca o chão de cimento do cais e imediatamente grandes muralhas de concreto cercam as serpentes como um enorme caixão de concreto. Espelho sorri e transmuta uma barra de aço que agora manifestava-se como uma afiada espada em sua mão. O verdadeiro Noah não se deixa intimidar e transmuta um banco público em uma lança. O CelleXty avança ferozmente contra o vampiro português.
Enquanto isso, Simeão parte para cima de Tempestade. O vampiro estende os braços em direção do morador das catacumbas do Cemitério da Consolação e um forte vendaval tenta conter o avanço do rapaz, mas Tempestade não conhecia todos os truques de Simeão. Com extrema destreza, Simeão agarra Tempestade por traz e sem dar chance para que o adversário pensasse num contra-ataque. Simeão invade a mente de Tempestade e por alguns segundos tem um vislumbre de algo aterrador. Aquele cujo os vampiros lusitanos chamam de Sétimo!
Não muito ao longe, Maurice contem Basco e o leva para o convés principal. – Não pensei que vocês iriam demorar tanto. Meu nome é Maurice. Sou líder dos vampiros de Santos. Assim que esses intrusos chegaram ao porto, eu os reconheci do noticiário e o que fizeram em Osasco. Entrei em contato com meu velho amigo, Simeão solicitando ajuda. Só não imaginei que seriam os mutantes os mocinhos. – Disse Maurice. Do alto do convés Maurice e Basco presenciam a derrota de Espelho, empalado por Noah e de Tempestade que tem a cabeça arrancada por Simeão! – Eles eram os "mais fracos" entre os Sete. O cara na ponte é o problema! – Alertava Maurice.
...
A chuva agora caía com violência sobre o Porto de Santos, transformando o convés do MS Capricórnio em um campo de batalha encharcado de água salgada e sangue. Relâmpagos riscavam o céu.
Subitamente o próprio Gentil surge na frente de ambos. Ele tenta segurar Basco pelo pescoço, mas o mutante assume a sua forma de nevoeiro mais uma vez. Maurice segura os braços de Gentil tentando contê-lo, mas é facilmente repelido com uma cotovelada que o lança para fora do navio.
– Não posso usar todo o meu dom ainda, mas posso deter-te assim mesmo, traidor – Disse Gentil para Maurice. O vampiro junta as palmas das mãos e fecha os olhos. Em segundos, seu corpo emana uma espécie de campo sensorial ao redor. Maurice e Basco, são impactados pela aura que emanava de Gentil. Maurice cai de joelhos em uma dor agonizante e Basco sente as células do seu corpo retornarem à forma humana. Em segundos era novamente um homem à frente do vampiro.
Na tentativa de conter o lusitano, Simeão surge e parte para cima de Gentil, porém, seus movimentos tornam-se lentos e previsíveis. O vampiro português o ataca com ferocidade, quebrando ossos e provocando sangramentos.
...
Basco, Maurice e Simeão estavam tão feridos que mal conseguiam se colocar de pé. Gentil apenas sorria a alguns metros à frente do trio, enquanto sutilmente desacelerava o tempo ao redor deles. Isso lhe desprendia grande esforço, visto que não podia manifestar o seu poder em toda a sua magnitude. O vampiro ouve passos se aproximando.
A chuva caía com mais intensidade e os ventos davam a impressão que o navio estava em alto mar. A força das ondas empurrava o MS Capricórnio de encontro as muretas de proteção do Porto. Um humano normal poderia ser arremessado do convés do navio, tamanho a força das ondas, mas todos mantinham-se em seus lugares naquele momento. Ao virar-se, Gentil encara mais um propenso oponente: o jovem mutante Noah!
- Agora mandam infantes para pelejar as contendas dos mestres? Se eu fosses tu, criança, estaria a pular mar adentro, ó gajô! Vais mesmo querer ter uma escaramuça comigo? – Dizia Gentil com certo deboche.
— O problema de vocês, dentuços sempre foi a arrogância e a soberba! – Responde Noah, enquanto unia as palmas das mãos. Seus olhos emanavam um brilho intenso. Em seguida ao tocar as mãos nas paredes de férreo do navio, uma incrível transmutação tem início e subitamente uma gigantesca cruz de ferro surge entre ambos, abrindo uma grande fenda na proa da embarcação.
O Capricórnio iria afundar!
...
O vampiro coloca o braço à frente do rosto tentando se proteger da imagem que lhe consumia as forças e parecia lhe queimar de dentro para fora, contudo, em uma nova ação de Noah, lanças em forma de cruzes cercam Gentil como em uma grande gaiola santificada! Com um simples gesto com as mãos, canos de ferros da embarcação assumem a forma de novas lanças. Noah ordena que elas avancem contra o vampiro lusitano. Gentil consegue desviar de duas delas, mas a terceira consegue lhe atravessar um pouco abaixo do peito.
Ele apenas observa Noah se aproximar enquanto Basco e os demais se uniam a ele. Os mutantes e vampiros sentem que o poder de Gentil sobre o tempo se desfaz. Tempestade e Espelho estavam mortos e Gentil confinado em uma prisão de cruzes e com uma lança atravessada no corpo. A atenção de todos se volta para o alto do morro onde se encontrava a Igreja de Monte Serrat e de onde emanava um frio intenso.
— Agora é com eles! — Disse Simeão.
Gentil ergue lentamente a cabeça, os olhos brilhando sob a tempestade. O vampiro então solta uma pequena gargalhada rouca que se mistura ao barulho das ondas quebrando contra o casco do navio. Mesmo com a lança atravessada em seu corpo, sua postura ainda carregava uma dignidade sinistra, típica de uma criatura que atravessou séculos de violência e guerra.
— Admirável... — murmurou ele em português arcaico. — Um mutante que ergue cruzes de ferro como se fossem brinquedos de criança. Confesso que não esperava encontrar tais adversários nestas terras bárbaras do Novo Mundo.
Noah avançou alguns passos, mantendo as mãos abertas ao lado do corpo. O jovem mutante parecia exausto, mas a intensidade prateada de seus olhos ainda ardia como uma chama viva na escuridão.
— Acabou, Gentil — disse ele com firmeza. — Seus irmãos estão mortos. E você também vai cair aqui.
O vampiro inclina levemente a cabeça, como se estivesse analisando o rapaz com curiosidade científica. Por um instante, a chuva parece desacelerar ao redor dele, e pequenas ondulações invisíveis atravessam o ar, sinalizando que Gentil ainda tentava manipular os fragmentos restantes de seu poder temporal.
Basco percebeu primeiro.
— Noah... cuidado!
No mesmo instante, Gentil move o braço livre com velocidade sobrenatural. A lança cravada em seu peito se parte em dois com um estalo seco, arrancada brutalmente de seu próprio corpo. O vampiro gira o tronco e arremessa metade da haste de ferro como um projétil contra Noah. O mutante reage por instinto e uma parede improvisada de aço se ergue diante dele, interceptando o projétil com um impacto ensurdecedor.
A força do golpe faz a estrutura vibrar violentamente.
Gentil aproveita aquele único segundo de distração. Com um movimento explosivo, ele atravessa as lanças de ferro que o cercavam, ignorando o metal que rasga sua carne morta. O vampiro avança como um raio contra Simeão, que mal tem tempo de erguer os braços antes de receber o impacto direto no peito.
Simeão reage rápido. Mesmo atordoado, ele crava as unhas no rosto de Gentil e mergulha novamente na mente do vampiro português. Por um segundo, ambos ficam imóveis, presos em um confronto silencioso dentro do próprio pensamento.
Mas a mente de Gentil era um campo de guerra antigo.
Visões de batalhas medievais, execuções, navios incendiados e cidades devastadas invadem a consciência de Simeão como uma avalanche e mais uma vez o nome Sétimo lhe é sussurrado. O vampiro brasileiro solta um grito rouco ao ser violentamente expulso da mente do adversário.
Gentil o agarra pelo pescoço e o levanta do chão.
— Tu brincas com pensamentos... — sussurrou ele. — Mas esqueces que eu vivi séculos de horrores que tua mente sequer consegue compreender.
Antes que pudesse esmagar a garganta de Simeão, uma corrente de prata se enrola violentamente em seu braço.
Noah.
O mutante puxa a corrente com força, arrastando Gentil alguns passos para trás. Basco surge logo em seguida, já transformando metade de seu corpo em neblina viva, atravessando o espaço entre eles como um espectro. O punho materializa-se no último instante e atinge o rosto do vampiro português com uma força brutal.
Gentil é lançado contra a base do mastro central do navio que já tem boa parte de si embaixo d’água. O impacto ecoa como um trovão metálico.
Por um instante, todos ficam imóveis sob a tempestade. Gentil tenta se levantar lentamente, o corpo atravessado por ferimentos e ainda preso parcialmente pelas correntes de prata. A expressão em seu rosto já não era de arrogância, mas de algo muito mais sombrio.
Frustração. Ele olha para o horizonte escuro do oceano. Depois para o alto do morro onde a Igreja de Monte Serrat dominava a paisagem da cidade. Seus lábios se movem em um sussurro quase imperceptível.
— Inverno... já devem estar vindo.
No mesmo instante, um vento glacial desce do morro como uma respiração sobrenatural.
Simeão se levanta com dificuldade, olhando para a igreja no alto da colina.
— Eles já sabem que seus irmãos estão mortos...
Basco acompanha o olhar do vampiro. A névoa que descia do morro não era natural. Era fria demais. Antiga demais.
— Então vamos acabar com isso rápido — disse ele.
Mas naquele momento todos perceberam algo perturbador. Gentil... estava sorrindo novamente.
.
Continua...
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