Arquivo Confidencial — Instituto Xavier

Sujeitos: Isabelle Hoffmann (Rosa Vermelha), Lucius Viriato (Inquisidor), Ivan Castro de Medeiros (Tornado), Alex Aleff, Gregory, Madalenna (Mandala), Folkhen, Carcará

Status: Perfis psicológicos consolidados. Liderança provisória transferida a Tornado. Reforços estratégicos integrados à EBX.


Parte 1 — Rosa Vermelha

Toda equipe carrega cicatrizes invisíveis.

Antes dos uniformes improvisados, dos codinomes e das batalhas travadas nos subterrâneos de São Paulo, os CelleXty foram apenas adolescentes tentando sobreviver às próprias tragédias. Nenhum deles despertou extraordinário por escolha. Nenhum pediu para carregar poderes capazes de alterar vidas ou destruir destinos. Em comum, compartilhavam uma verdade simples e cruel: a mutação raramente surgia nos momentos felizes. Quase sempre nascia da dor.

Isabelle Hoffmann compreendeu isso muito cedo.

Sua infância transcorreu em uma pequena propriedade rural nos arredores de Brusque, em Santa Catarina. Cercada por plantações, riachos e estradas de terra, cresceu ouvindo histórias contadas pela avó materna, uma mulher descendente de imigrantes alemães que cultivava um vasto jardim de rosas vermelhas ao lado da casa. A idosa costumava dizer que aquelas flores absorviam o sofrimento da família e transformavam tristeza em beleza. Isabelle acreditava sinceramente naquela explicação. Talvez porque, mesmo ainda criança, já percebesse que a dor parecia encontrar caminhos estranhos para alcançá-la.

Durante anos, a vida seguiu tranquila. Os pais trabalhavam muito, os irmãos enchiam a casa de risadas e a avó mantinha a família unida através de pequenas tradições que pareciam atravessar gerações. Tudo mudou durante uma noite chuvosa de inverno. O acidente aconteceu em uma estrada cercada por neblina, quando um caminhão perdeu o controle e atingiu frontalmente o automóvel onde viajavam. Isabelle sobreviveu porque dormia no banco traseiro. Os pais e os dois irmãos morreram antes mesmo da chegada do socorro. Em poucos segundos, o mundo que conhecia deixou de existir.

A avó tentou manter a família de pé após a tragédia. Assumiu a responsabilidade de criar Isabelle e a irmã mais velha, Elis, enquanto enfrentava o próprio luto. Durante algum tempo conseguiu sustentar uma aparência de normalidade. Contudo, a perda cobrava seu preço silenciosamente. Os anos seguintes consumiram sua saúde física e emocional. Quando faleceu, Isabelle tinha apenas quinze anos e precisou abandonar definitivamente a infância.

A mudança para Florianópolis representou um novo começo apenas no papel. A capital catarinense parecia grande demais, rápida demais e indiferente demais para alguém acostumada ao interior. Elis conseguiu um pequeno apartamento e passou a trabalhar em jornadas exaustivas para sustentar as duas. Isabelle encontrou emprego em uma loja durante o dia e frequentava a escola à noite. A tatuagem de rosa vermelha que mais tarde marcaria seu ombro nasceu naquele período. Não era rebeldia. Era memória. Uma tentativa desesperada de preservar tudo aquilo que havia perdido.

O evento que mudou sua vida ocorreu poucos meses depois. Retornando para casa após uma noite de trabalho, foi abordada por um homem em uma rua pouco movimentada. O medo tomou conta de seu corpo quando percebeu as intenções do agressor. A luta física durou apenas alguns segundos. O que veio depois desafiava qualquer explicação racional. Enquanto era imobilizada contra o chão, algo despertou dentro de sua mente. Primeiro surgiram pensamentos desconexos. Depois emoções. Então vieram imagens. De repente, Isabelle conseguia ouvir cada intenção daquele homem como se fossem palavras pronunciadas em voz alta.

O terror transformou-se em instinto.

Sem compreender o que fazia, mergulhou na mente do agressor. Sentiu seu coração acelerando, sua respiração tornando-se irregular e seu medo crescendo até consumir completamente sua consciência. O homem tentou recuar, mas já era tarde. O órgão cardíaco entrou em colapso poucos segundos depois. Quando tudo terminou, Isabelle permaneceu sozinha naquela rua, observando um cadáver sem entender como havia provocado aquilo.

Os dias seguintes foram um pesadelo.

As vozes não desapareceram.

Pelo contrário.

Tornaram-se mais intensas.

No ônibus, escutava preocupações de desconhecidos. Na escola, captava inseguranças, mentiras e desejos que jamais deveria conhecer. No trabalho, precisava fingir normalidade enquanto pensamentos alheios atravessavam sua mente sem qualquer convite. Aos poucos, descobriu que podia silenciar aquelas vozes. Mais tarde, percebeu algo ainda mais perigoso: podia influenciá-las.

O ponto de ruptura aconteceu dentro da própria família. Consumida por sentimentos confusos e pela embriaguez causada pelo poder recém-descoberto, Isabelle voltou sua atenção para o namorado de Elis. O rapaz jamais lhe fizera mal. Ainda assim, a combinação de ciúme, raiva e impulsividade produziu consequências devastadoras. Utilizando suas habilidades de maneira irresponsável, implantou em sua mente uma sensação de culpa tão intensa que o jovem tentou tirar a própria vida. Sobreviveu por pouco. O horror estampado no rosto de Elis quando descobriu o ocorrido foi suficiente para destruir o vínculo entre as duas.

Isabelle fugiu naquela mesma semana.

Sem destino, vagou pelas ruas de Florianópolis até encontrar abrigo no Palácio Cruz e Souza. Durante semanas sobreviveu escondida entre corredores históricos, salões vazios e áreas pouco frequentadas do edifício. Foi ali que Alex Aleff finalmente a encontrou. Diferente de todas as pessoas que haviam cruzado seu caminho desde o despertar mutante, ele não demonstrou medo, repulsa ou julgamento. Conversou. Escutou. Compreendeu.

E, pela primeira vez desde o acidente que destruíra sua família, alguém lhe ofereceu uma alternativa ao desespero.

Disciplina.

Não porque temesse seus poderes.

Mas porque compreendia o que ela poderia se tornar sem controle.

...

Parte 2 — Inquisidor

Se Isabelle descobriu o peso dos próprios poderes através da dor, Lucius Viriato aprendeu cedo que algumas monstruosidades não dependem de mutação para existir. Sua infância foi cercada por riqueza, privilégios e uma aparência de perfeição que impressionava qualquer visitante. A mansão da família, localizada nos arredores de São Paulo, abrigava coleções de arte raríssimas, bibliotecas inteiras dedicadas à história religiosa e corredores decorados com peças que pareciam pertencer a museus internacionais. Aos olhos do mundo, os Viriato eram uma família respeitável, influente e admirada. Contudo, desde muito jovem, Lucius percebeu que algo estava profundamente errado por trás daquela fachada.

Os primeiros sinais surgiram de maneira sutil. Funcionários desapareciam sem explicação. Algumas salas permaneciam permanentemente trancadas. Conversas cessavam abruptamente sempre que ele entrava em determinados ambientes da casa. Na infância, aceitava aquelas situações como parte da estranha rotina dos adultos. Com o passar dos anos, porém, a curiosidade transformou-se em suspeita. Aos quatorze anos, começou a investigar por conta própria documentos guardados nos escritórios da família. O que descobriu destruiu definitivamente qualquer idealização que ainda possuía sobre os próprios pais.

A fortuna dos Viriato não vinha apenas de investimentos e negócios legítimos. Havia uma rede complexa de tráfico de obras roubadas, contrabando de arte sacra e negociações realizadas com figuras influentes do submundo brasileiro. Algumas informações sugeriam conexões ainda mais sombrias envolvendo desaparecimentos e exploração humana. Lucius passou semanas tentando convencer a si mesmo de que estava interpretando tudo errado. Não conseguiu. As evidências eram numerosas demais. O pai e a mãe participavam ativamente daquele sistema.

A descoberta criou uma distância impossível de ignorar. Os jantares tornaram-se silenciosos. As conversas passaram a ser marcadas por respostas curtas e olhares desconfiados. Os pais perceberam rapidamente que algo havia mudado no comportamento do filho. Em vez de tentar reconstruir a confiança, decidiram impor uma lição. Acreditavam que o problema não estava em seus atos. Estava na sensibilidade excessiva do rapaz.

A "lição" aconteceu em uma tarde quente de verão.

Lucius foi conduzido até o jardim interno da propriedade. O espaço era amplo, cercado por esculturas religiosas e árvores ornamentais cuidadosamente podadas. Ali também estava Argos, um pastor-alemão que o acompanhava desde a infância. O animal corria alegremente pelo gramado, completamente alheio ao que estava prestes a acontecer. O pai aproximou-se carregando uma pistola e a colocou nas mãos do filho. Inicialmente, Lucius acreditou tratar-se de algum exercício absurdo envolvendo tiro esportivo. Então ouviu a ordem.

Precisava matar o próprio cachorro.

Segundo o pai, liderança exigia desapego. Grandes homens precisavam aprender a eliminar obstáculos sem permitir que emoções interferissem em suas decisões. Era uma demonstração de poder. Um ritual de passagem distorcido pela lógica cruel que dominava aquela família.

Lucius recusou imediatamente.

O pai insistiu.

Lucius recusou novamente.

Foi então que o disparo aconteceu.

O som da arma ecoou pelo jardim enquanto Argos tombava sobre a grama. Durante alguns segundos, o mundo pareceu congelar. Lucius observou o corpo do animal sem conseguir processar completamente o que acabara de acontecer. Toda a raiva, tristeza e impotência acumuladas ao longo dos meses convergiram para um único ponto. Algo rompeu-se dentro dele naquele instante.

A mutação despertou de forma brutal.

Uma energia branca e distorcida surgiu ao redor de seu olho esquerdo e percorreu o braço direito como se estivesse rasgando o próprio espaço ao redor. O ar tornou-se instável. Objetos começaram a vibrar. A realidade pareceu dobrar-se sobre si mesma. Os pais tentaram reagir, mas já era tarde. A força liberada por Lucius expandiu-se violentamente pelo jardim, consumindo tudo que encontrava pela frente. Quando a polícia chegou à propriedade horas depois, encontrou apenas destruição e um adolescente inconsciente cercado por destroços.

Nenhum vestígio dos pais foi recuperado.

Durante muito tempo, Lucius acreditou tê-los assassinado.

A culpa tornou-se sua companhia permanente.

O único familiar disposto a acolhê-lo foi o tio Benício, monge beneditino responsável por uma pequena comunidade ligada ao Mosteiro de São Bento. O ambiente monástico representava o oposto absoluto da mansão onde crescera. Não havia luxo. Não havia influência política. Não havia segredos escondidos atrás de portas fechadas. Existiam apenas disciplina, silêncio e reflexão.

Foi naquele lugar que Lucius começou a reconstruir a própria identidade.

Passava horas estudando manuscritos históricos, documentos religiosos e registros de antigas perseguições ocorridas ao longo dos séculos. Fascinava-se especialmente pelos relatos sobre heresias, julgamentos e conflitos envolvendo figuras que acreditavam agir em nome de uma justiça superior. Não porque admirasse a violência. O que despertava sua atenção era a convicção daqueles indivíduos. A capacidade de acreditar tão profundamente em algo que estavam dispostos a sacrificar tudo por uma causa.

Com o passar dos anos, percebeu a ironia daquela obsessão. Enquanto estudava pessoas que julgavam os outros, era incapaz de absolver a si mesmo. Continuava enxergando-se como alguém perigoso. Um mutante que perdera o controle e destruíra a própria família. Talvez por isso mergulhasse tão intensamente em conceitos relacionados à responsabilidade e ao autocontrole.

Quando Alex Aleff finalmente o encontrou, os rumores sobre o jovem já circulavam discretamente entre diferentes comunidades mutantes. Falava-se de um rapaz capaz de manipular forças psiônicas devastadoras. Um garoto que vivia em um mosteiro e passava mais tempo entre livros do que entre pessoas. Alex não precisou insistir muito. Lucius compreendeu imediatamente a proposta que lhe era oferecida.

A Escola Brasil X não representava apenas abrigo.

Representava propósito.

Ali encontraria outros jovens enfrentando conflitos semelhantes aos seus. Pessoas que também precisavam aprender a conviver com poderes capazes de alterar destinos. Pessoas que carregavam culpas, medos e traumas que o mundo comum dificilmente compreenderia.

Foi nesse período que adotou o codinome Inquisidor.

Não como símbolo religioso.

Nem como homenagem aos tribunais históricos que estudava.

Escolheu esse nome para lembrar diariamente que o julgamento mais difícil não acontece nos tribunais, nas igrejas ou nos campos de batalha.

Acontece dentro de cada indivíduo.

E, para Lucius, essa seria uma luta permanente.

...

Parte 3 — Tornado

A história de Ivan Castro de Medeiros começou muito longe dos túneis subterrâneos da Escola Brasil X. Antes de se tornar Tornado, antes das correntes psiônicas e das missões ao lado dos CelleXty, ele era apenas mais um filho de uma família tradicional do interior de Goiás. Os Medeiros possuíam terras extensas, influência política regional e uma reputação construída ao longo de gerações. Na teoria, Ivan deveria herdar parte daquele legado. Na prática, parecia destinado a decepcionar todas as expectativas depositadas sobre ele.

Desde criança, carregava uma energia difícil de controlar. Enquanto o irmão mais velho demonstrava disciplina, inteligência estratégica e facilidade para lidar com responsabilidades, Ivan reagia ao mundo através do impulso. Brigava na escola, respondia aos professores e acumulava conflitos com uma frequência que exasperava o pai. Cada erro reforçava a impressão de que jamais estaria à altura do que esperavam dele. Com o passar dos anos, essa sensação transformou-se em ressentimento. Quanto mais tentava provar valor, mais parecia fracassar.

A tragédia que alterou definitivamente sua vida começou de forma banal. Em uma noite qualquer, durante uma confraternização em um bar de Anápolis, uma discussão aparentemente insignificante escalou para violência. Palavras provocativas foram trocadas, empurrões aconteceram e Ivan reagiu da única maneira que conhecia. O confronto terminou com um jovem gravemente ferido e hospitalizado em estado crítico. Naquela região, porém, conflitos raramente terminavam dentro de um hospital. Famílias influentes carregavam memórias longas e orgulho ainda maior.

Dias depois, a retaliação veio.

O irmão mais velho de Ivan foi assassinado em uma emboscada.

A notícia atingiu a família como uma explosão. O pai não procurou compreender circunstâncias nem responsabilidades compartilhadas. Em sua mente existia apenas um culpado. Durante uma discussão marcada por acusações, gritos e dor, expulsou o filho de casa. Chamou-o de maldição. Disse que tudo aquilo jamais teria acontecido se ele tivesse aprendido a controlar a própria agressividade. Ivan partiu sem responder. Não porque concordasse. Mas porque, no fundo, já começava a acreditar que talvez o pai estivesse certo.

Os meses seguintes foram marcados por deslocamentos constantes. Trabalhos temporários surgiam e desapareciam. Pequenas cidades transformavam-se apenas em pontos de passagem. Sem destino claro, acabou encontrando oportunidades em eventos agropecuários espalhados pelo interior do país. Foi assim que chegou à Festa do Peão de Barretos. O ambiente lhe pareceu familiar desde o primeiro momento. Havia música, competição, animais e uma cultura que conhecia desde a infância. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu que talvez pudesse pertencer a algum lugar novamente.

O episódio que mudaria sua vida aconteceu durante uma competição de montaria. Entre todos os animais inscritos naquele ano, existia um que atraía atenção especial dos competidores. Um touro conhecido por derrubar praticamente qualquer peão que tentasse montá-lo. Seu nome era Tornado. A fama da criatura misturava exagero e realidade, mas poucos se mostravam dispostos a desafiá-lo. Ivan enxergou naquela situação uma oportunidade de provar algo para si mesmo. Talvez coragem. Talvez teimosia. Talvez apenas a necessidade de esquecer, ainda que por alguns minutos, tudo o que carregava dentro de si.

Quando o portão da arena se abriu, algo extraordinário aconteceu.

Nos primeiros segundos da montaria, Ivan sentiu uma energia percorrer seus braços. Não era adrenalina. Não era medo. Era algo vivo, pulsando sob a pele como se sempre estivesse presente, apenas aguardando o momento certo para despertar. O fenômeno espalhou-se rapidamente pelas cordas que segurava, alcançando as estruturas metálicas ao redor da arena. Correntes azuladas começaram a surgir ao redor de seu corpo, vibrando em sintonia com os movimentos do animal.

Por um breve instante, homem e touro pareceram conectados.

Então tudo saiu do controle.

A energia expandiu-se violentamente. Grades metálicas explodiram. Equipamentos foram arremessados pelos ares. Parte da estrutura da arena entrou em colapso. O público entrou em pânico. Pessoas corriam em todas as direções enquanto organizadores tentavam compreender o que havia provocado aquela destruição repentina. Ivan mal teve tempo de reagir. Assim que percebeu que o fenômeno partira dele, fugiu.

Passou a noite inteira caminhando sem direção.

O amanhecer encontrou-o sentado em uma praça de São Paulo, observando as próprias mãos como se pertencessem a outra pessoa. Pela primeira vez, compreendia que não era apenas impulsivo. Não era apenas problemático. Era diferente. E essa diferença possuía um nome que ainda não conhecia.

Foi ali que Alex Aleff apareceu.

Sem ameaças.

Sem acusações.

Sem promessas milagrosas.

Sentou-se ao seu lado e iniciou uma conversa simples. Explicou o que era o Gene X. Falou sobre outros jovens que enfrentavam situações semelhantes. Mostrou que existiam caminhos além da fuga constante. Pela primeira vez desde a morte do irmão, Ivan ouviu alguém falar com ele sem julgamentos.

A decisão de ingressar na Escola Brasil X não aconteceu imediatamente, mas tornou-se inevitável. Nos CelleXty encontrou algo que jamais tivera. Não uma família perfeita. Não um grupo sem conflitos. Encontrou responsabilidade compartilhada. Pessoas dispostas a carregar parte do peso que sempre acreditara ser obrigado a suportar sozinho. O nome Tornado, originalmente pertencente ao touro que provocara o despertar de seus poderes, transformou-se em símbolo de uma nova identidade.

Anos depois, no inverno de 1998, Ivan caminhava pelos corredores da EBX carregando responsabilidades muito diferentes daquelas que imaginara quando chegou à escola. Alex encontrava-se temporariamente afastado em uma missão internacional. Basco permanecia consumido pelas revelações envolvendo Scariotis e o desaparecimento da própria família. A morte de Raquel e a condição de Hardcore continuavam afetando profundamente toda a equipe. Diante daquele cenário, a liderança operacional dos CelleXty passou provisoriamente para suas mãos.

A mudança trouxe desafios inesperados. Rosa Vermelha assumiu a coordenação dos sistemas da Gruta, o complexo de treinamento inspirado nos projetos desenvolvidos pelo Professor Xavier. Lucius reforçou protocolos de segurança e reorganizou parte das rotinas internas da escola. Enquanto isso, uma nova integrante começava a integrar a equipe de forma discreta. Madalenna, conhecida pelo codinome Mandala, observava mais do que falava. Sua presença ainda era recente, mas Alex demonstrara confiança suficiente para permitir sua aproximação ao grupo.

Os veteranos também retornavam gradualmente ao cotidiano da escola. Folkhen e Carcará auxiliavam em tarefas estratégicas, compartilhando experiência acumulada durante anos de atuação mutante no Brasil. Para os alunos mais jovens, ambos representavam uma ligação direta com gerações anteriores dos CelleXty. Para Ivan, representavam algo igualmente importante: apoio. Afinal, liderar não significava carregar tudo sozinho.

Gregory permanecia sob observação médica. Seu despertar mutante havia deixado marcas profundas na equipe e ninguém sabia exatamente quais seriam as consequências futuras. O garoto continuava alternando períodos de inconsciência e recuperação, enquanto pesquisadores tentavam compreender a natureza de seus poderes. A estátua de prata que um dia fora João Victor permanecia em uma área isolada da escola, lembrando diariamente a todos que algumas batalhas continuavam sem solução.

Naquela noite, ao encerrar mais uma rodada de inspeções pelos túneis da EBX, Ivan parou por alguns instantes diante de uma das galerias principais. O movimento da escola continuava ao seu redor. Alunos estudavam. Instrutores conversavam. Técnicos trabalhavam em equipamentos. A vida seguia em frente apesar das perdas. Pela primeira vez, compreendeu que liderança não significava ausência de medo. Também não significava possuir todas as respostas. Liderar era continuar avançando mesmo quando as dúvidas pareciam maiores do que as certezas.

Com Alex distante, Basco mergulhado em conflitos familiares e novas ameaças surgindo além dos limites da cidade, os CelleXty precisariam encontrar força em algo maior do que seus poderes. Precisariam confiar uns nos outros. Porque, no fim das contas, as batalhas mais difíceis jamais eram travadas contra vampiros, mutantes ou monstros escondidos na escuridão. Eram travadas contra as sombras que cada um carregava dentro de si.