CelleXty Saga - Temporada I
13 Espelho da Alma
Parte 1 — O Despertar da Fome
O inverno de 1998 avançava sobre São Paulo de maneira silenciosa, quase melancólica. Nos corredores da Escola Brasil X, a rotina tentava retomar alguma normalidade depois dos acontecimentos traumáticos que marcaram os meses anteriores. A Gangue Fantasma permanecia desaparecida. Testament não deixara rastros. Scariotis tornara-se uma sombra presente em relatórios, reuniões estratégicas e pensamentos que ninguém verbalizava com facilidade. Para os veteranos da EBX, aquela ausência de movimentação não representava tranquilidade. Pelo contrário. Alex Aleff costumava dizer que os momentos mais perigosos eram aqueles em que o inimigo parecia ter desaparecido. Significava que alguém estava observando, planejando ou esperando o momento certo para agir. Enquanto parte da equipe ocupava a Gruta em treinamentos intensivos inspirados nos métodos do Professor Xavier, outra preocupação crescia silenciosamente nos níveis inferiores da base.
Gregory continuava isolado desde a batalha ocorrida no Mascarade. A explosão mutante que transformara João Victor em prata e provocara dezenas de mortes havia alterado profundamente o garoto. Nenhum dos pesquisadores da escola conseguia determinar onde terminava sua condição vampírica e onde começava a mutação recém-desperta. Exames apontavam alterações biológicas constantes, oscilações energéticas incomuns e uma atividade cerebral que variava entre padrões humanos e comportamentos predatórios extremamente agressivos. Por precaução, Alex autorizara que Gregory permanecesse em uma ala especialmente preparada para contê-lo caso algo saísse do controle. Embora a medida parecesse severa, ninguém estava disposto a correr riscos depois da tragédia recente.
Foi Isabelle quem percebeu primeiro que algo havia mudado. Durante uma sessão de monitoramento psíquico realizada em uma das salas protegidas da escola, sentiu uma perturbação atravessar o vínculo mental que mantinha com Gregory. Inicialmente acreditou tratar-se de um sonho agitado ou de alguma reação fisiológica comum ao processo de recuperação. Contudo, em poucos segundos, a sensação tornou-se muito mais intensa. Emoções primitivas começaram a atravessar sua consciência sem qualquer filtro. Medo, desespero e dor misturavam-se de forma caótica até que uma necessidade específica passou a dominar completamente o fluxo mental do garoto. Não era um pensamento racional nem uma tentativa de comunicação. Era um instinto bruto, repetitivo e desesperado que se projetava contra sua mente com a força de um grito. Gregory estava acordando. E estava faminto.
O alerta espalhou-se rapidamente pelos setores internos da EBX. Enquanto equipes médicas eram acionadas e protocolos de contenção eram revisados às pressas, Basco foi um dos primeiros a responder ao chamado. Ao descer para os níveis inferiores acompanhado por Carcará, encontrou um ambiente tomado por tensão silenciosa. Técnicos monitoravam equipamentos, enfermeiros aguardavam instruções e vários integrantes da equipe observavam a porta da ala de isolamento sem esconder a apreensão. O quarto onde Gregory permanecia internado lembrava mais uma cela de segurança máxima do que uma enfermaria. As paredes haviam sido reforçadas com ligas metálicas especiais, as portas possuíam múltiplos sistemas de travamento e grossas contenções mantinham o garoto preso à cama. As medidas pareciam exageradas quando foram implementadas. Agora pareciam insuficientes.
Ao atravessar a porta, Basco percebeu imediatamente uma característica incomum do ambiente. O ar estava excessivamente seco. A baixa umidade não era acidental. Tratava-se de uma precaução deliberada criada para limitar possíveis manifestações mutantes relacionadas à manipulação de fluidos ou vapores. Para qualquer outra pessoa seria um detalhe insignificante. Para Basco, representava uma limitação importante. Sua conexão com a névoa dependia diretamente da presença de umidade no ambiente. Quanto mais seco o local, maior o esforço necessário para utilizar seus poderes. Aquela constatação fez com que permanecesse ainda mais atento ao comportamento de Gregory.
O garoto estava sentado sobre a cama quando Basco entrou. À primeira vista, parecia apenas exausto. Contudo, bastava observá-lo por alguns segundos para perceber que algo profundamente errado acontecia dentro dele. Veias escuras espalhavam-se pelo pescoço e pelas têmporas como raízes crescendo sob a pele. Pequenos fragmentos prateados ainda permaneciam visíveis em diferentes partes do corpo, lembranças físicas da mutação que despertara de forma tão violenta durante o confronto no Mascarade. Seus olhos, antes marcados pela insegurança de uma criança arrancada prematuramente da própria vida, agora exibiam uma intensidade inquietante. Quando o olhar encontrou o de Basco, o ambiente pareceu ficar ainda mais pesado.
Durante alguns segundos, nenhum dos dois falou. Basco percebeu que Gregory lutava contra algo que mal conseguia compreender. O garoto não demonstrava hostilidade consciente. Havia medo em sua expressão. Confusão. Vergonha. Contudo, por trás de todas aquelas emoções, existia outra presença muito mais forte. O instinto vampírico observava cada pulsação visível no pescoço de Basco. Observava o fluxo de sangue circulando sob a pele. Observava a vida que seu organismo desesperadamente desejava consumir. A fome não era apenas física. Era uma necessidade tão intensa que parecia ocupar todos os espaços da consciência.
Com movimentos lentos, Basco aproximou-se alguns passos da cama. Sua intenção era transmitir segurança e evitar qualquer estímulo que pudesse agravar a situação. Em tom calmo, explicou que ninguém ali pretendia machucá-lo e que encontrariam uma forma de ajudá-lo. Gregory tentou responder. O esforço era visível. As palavras demoraram a surgir porque pareciam disputar espaço com algo muito mais poderoso dentro dele. Quando finalmente conseguiu falar, sua voz saiu rouca, desgastada e carregada por um sofrimento difícil de ignorar. Ele não pediu liberdade. Não pediu respostas. Não perguntou onde estava. Admitiu apenas aquilo que dominava completamente seu corpo e sua mente naquele momento: estava faminto.
A partir daí, tudo aconteceu rápido demais. As contenções começaram a ceder sob uma força muito superior àquela registrada nos exames anteriores. Correntes metálicas estalaram. Fixações se romperam. Equipamentos foram arrancados da parede. Antes que qualquer integrante da equipe pudesse reagir adequadamente, Gregory lançou-se para fora da cama com uma velocidade impossível para alguém em seu estado físico. Seus movimentos não lembravam os de um adolescente assustado. Eram os movimentos de um predador guiado exclusivamente pelo instinto. Em poucos segundos alcançou o teto da sala, deslocando-se entre luminárias e estruturas metálicas como uma criatura habituada a caçar em três dimensões. Carcará tentou interceptá-lo, mas percebeu imediatamente que já estava atrasado.
Quando Gregory bloqueou a única saída do quarto, Basco compreendeu que a situação havia ultrapassado qualquer possibilidade de contenção convencional. O garoto não estava tentando escapar por rebeldia ou desobediência. Estava lutando contra uma necessidade biológica que ameaçava consumir tudo aquilo que ainda restava de sua humanidade. Permanecer na EBX significava colocar dezenas de pessoas em risco. Ferir Gregory também não era uma opção. Por alguns segundos, Basco avaliou possibilidades, caminhos e alternativas. Então tomou uma decisão que não constava em nenhum protocolo da escola.
Recorrendo a conhecimentos adquiridos anos antes ao lado de Illyana Rasputin, pronunciou antigas palavras de poder em latim arcaico. O espaço à sua frente começou a se deformar imediatamente. Uma fenda avermelhada abriu-se no ar como uma cicatriz rasgando a própria realidade, liberando correntes de energia mística e um calor que contrastava violentamente com o frio do inverno paulistano. Gregory voltou-se para aquela abertura instintivamente. Antes que pudesse reagir ou compreender o que estava acontecendo, Basco avançou, envolveu-o em uma massa de névoa condensada e lançou ambos através do portal. Segundos depois, a fenda desapareceu, deixando para trás apenas o silêncio inquieto daqueles que permaneceram na Terra.
Parte 2 — O Espelho de São PauloA travessia foi brutal. Gregory teve a impressão de estar sendo puxado através de uma correnteza invisível que atravessava não apenas espaço, mas também algo mais profundo e difícil de definir. O frio da enfermaria desapareceu instantaneamente, substituído por um calor sufocante que parecia penetrar roupas, pele e pensamentos. Quando finalmente recuperou a consciência da própria posição, percebeu que estava ajoelhado sobre concreto rachado, respirando com dificuldade. O cheiro do lugar era uma mistura perturbadora de enxofre, fumaça e ferrugem. Durante alguns segundos, permaneceu imóvel, tentando compreender onde estava. Quando ergueu os olhos, sentiu o estômago revirar.
À sua frente existia São Paulo.
Mas não a São Paulo que conhecia.
O horizonte era dominado por um céu vermelho escuro, coberto por nuvens densas que pareciam sangrar luz sobre a cidade. O edifício onde haviam surgido era facilmente reconhecível. O formato sinuoso do COPAN permanecia intacto, mas a estrutura apresentava rachaduras gigantescas que percorriam sua fachada como cicatrizes abertas. Algumas partes do prédio pareciam fundidas pelo calor, enquanto outras davam a impressão de ter sido reconstruídas inúmeras vezes por mãos desconhecidas. Ao longe, o Vale do Anhangabaú transformara-se em uma vasta extensão de pedra quebrada, cortada por fendas incandescentes que liberavam vapores escarlates. Nada naquele cenário parecia morto. Pelo contrário. A cidade parecia viva demais.
Basco aproximou-se lentamente da borda do edifício enquanto observava o horizonte com uma familiaridade inquietante. Fazia anos desde sua última permanência prolongada naquele plano, mas certas paisagens permaneciam impossíveis de esquecer. O Limbo jamais possuía uma forma fixa. Era uma dimensão moldada por emoções, memórias, traumas e energias místicas acumuladas ao longo de incontáveis eras. Em algumas regiões assumia a aparência de desertos infinitos. Em outras, tornava-se um labirinto de fortalezas demoníacas e cidades impossíveis. Naquele setor específico, porém, a realidade adotara a forma de um reflexo distorcido da maior metrópole brasileira.
— Onde estamos? — perguntou Gregory, ainda tentando recuperar o equilíbrio.
Basco permaneceu alguns segundos em silêncio antes de responder. Havia muitas maneiras de explicar o Limbo. Nenhuma delas era simples.
— Estamos em um lugar que existe entre mundos. Um reflexo imperfeito da realidade. Alguns chamam de dimensão demoníaca. Outros chamam de prisão. Eu prefiro pensar nele como um espelho. Tudo que existe aqui é influenciado por aquilo que as pessoas carregam dentro de si.
Gregory voltou a observar o horizonte.
Ao longe, o Viaduto do Chá surgia inclinado em um ângulo impossível, sustentado por colunas parcialmente destruídas. Mais adiante, o Teatro Municipal ardia em chamas permanentes que não consumiam sua estrutura. Sombras atravessavam ruas vazias. Criaturas aladas circulavam entre prédios retorcidos. Em determinados momentos, o garoto tinha a impressão de enxergar rostos surgindo entre as nuvens avermelhadas que cobriam o céu.
— Isso tudo é São Paulo?
— É o reflexo da alma dela.
A resposta provocou mais perguntas do que esclarecimentos, mas Gregory não teve tempo para formulá-las. A fome continuava ali. Menor do que antes, porém ainda presente. Atravessava seu organismo como uma necessidade constante, pressionando sua consciência e transformando cada cheiro ao redor em uma possível fonte de alimento. Basco percebeu a mudança imediatamente. Conhecia aquele olhar. Durante anos observara vampiros, mutantes e criaturas de diferentes naturezas lutando contra instintos semelhantes.
— Concentre-se em mim.
Gregory tentou.
Falhou.
O coração de Basco pulsava.
O sangue circulava.
A vida vibrava.
Para um predador faminto, aquilo era impossível de ignorar.
O ataque aconteceu sem aviso.
Num instante, Gregory permanecia imóvel. No seguinte, atravessava o espaço que os separava em uma velocidade impressionante. As garras revestidas por fragmentos de prata cortaram o ar enquanto seu corpo avançava impulsionado por puro instinto. Qualquer observador inexperiente provavelmente acreditaria que Basco seria atingido. Não foi o que aconteceu.
No Limbo, a relação de Basco com seus poderes era diferente.
Muito diferente.
A névoa surgiu instantaneamente ao redor de seu corpo, espalhando-se pela cobertura do edifício como uma tempestade viva. Não dependia da umidade natural do ambiente terrestre. Naquele plano, a energia mística amplificava sua mutação de maneiras que poucos compreendiam completamente. Gregory atravessou apenas uma imagem ilusória antes de sentir uma corrente de vapor condensado atingir seu peito. O impacto foi suficiente para arremessá-lo contra uma estrutura metálica parcialmente destruída.
O garoto levantou-se imediatamente.
E atacou novamente.
Dessa vez com mais agressividade.
Basco não revidou com violência equivalente. Limitou-se a desviar, conter e redirecionar os movimentos do adversário. Sua intenção não era vencer uma luta. Era impedir que Gregory se tornasse escravo da própria fome. Ainda assim, a batalha começou a atrair atenção indesejada.
Movimentos surgiram entre os escombros próximos.
Pequenas criaturas observavam.
Tinham pouco mais de um metro de altura, pele escamosa de tonalidade esverdeada e olhos amarelados excessivamente grandes para os rostos deformados. Eram servos menores do Limbo, seres oportunistas que sobreviviam explorando regiões abandonadas e evitando confrontos com entidades mais poderosas. Em circunstâncias normais, manteriam distância. Contudo, a presença de dois visitantes em combate despertara sua curiosidade.
Basco percebeu imediatamente.
Gregory também.
A diferença era que o garoto não enxergou criaturas.
Enxergou alimento.
O primeiro ser morreu antes mesmo de compreender o que acontecia. Gregory avançou com uma velocidade assustadora, derrubando-o contra o concreto rachado. Os demais tentaram fugir. Não conseguiram. A fome que o consumia havia encontrado uma direção. Um a um, os pequenos habitantes do Limbo foram abatidos. O sangue que escorria de seus corpos possuía coloração esverdeada e consistência estranha, mas parecia suficiente para satisfazer parcialmente o organismo híbrido que lutava para sobreviver.
Basco observou tudo em silêncio.
Não havia prazer naquilo.
Nem crueldade.
Gregory não matava por diversão.
Matava porque seu corpo exigia.
Quando a última criatura tombou, o garoto permaneceu imóvel por alguns instantes. Sua respiração começou a desacelerar. As mãos tremiam menos. O olhar recuperava parte da lucidez perdida durante o despertar. Finalmente, exausto física e emocionalmente, caiu de joelhos sobre o concreto.
A fome não desaparecera completamente.
Mas deixara de controlá-lo.
Basco aproximou-se devagar, avaliando o estado do rapaz. Pela primeira vez desde que acordara na enfermaria da EBX, Gregory parecia consciente de seus próprios atos. Havia tristeza em seus olhos. Vergonha. Talvez até medo. Afinal, começava a compreender a extensão daquilo que se tornara.
Ao redor dos dois, a São Paulo do Limbo continuava pulsando sob o céu vermelho. As chamas distantes iluminavam arranha-céus deformados. Sombras atravessavam avenidas abandonadas. Ruínas observavam silenciosamente a chegada de mais uma história àquela dimensão marcada por sofrimento, transformação e escolhas difíceis.
Basco sabia que o verdadeiro desafio começaria agora.
Trazer Gregory até o Limbo havia sido a parte fácil.
Ensinar o garoto a conviver consigo mesmo seria algo muito mais complicado.
...
Parte 3 — EscolhasQuando Gregory despertou novamente, não soube dizer quanto tempo havia passado. No Limbo, a noção de horas era tão instável quanto a própria paisagem. Não existiam amanheceres verdadeiros nem noites completas. O céu permanecia mergulhado em tonalidades vermelhas e alaranjadas, como se um crepúsculo interminável tivesse sido aprisionado sobre a cidade. Durante alguns instantes, o garoto permaneceu imóvel, observando as ruínas ao redor. As lembranças do ataque na enfermaria e da caçada às criaturas do Limbo retornaram lentamente, trazendo consigo uma sensação de vergonha que apertou seu peito de maneira inesperada. Pela primeira vez desde o despertar, conseguia enxergar seus atos através dos próprios olhos, e não apenas através da fome.
Basco estava sentado próximo à borda de uma estrutura parcialmente destruída que um dia parecera um dos inúmeros edifícios do centro paulistano. A névoa movia-se lentamente ao seu redor, misturando-se às correntes quentes que atravessavam a dimensão. Ele não demonstrava preocupação imediata nem mantinha uma postura vigilante. Limitava-se a observar o horizonte deformado da cidade. Quando percebeu que Gregory estava acordado, voltou o olhar para o garoto e fez um gesto simples para que se aproximasse. Não havia julgamento em sua expressão. Talvez fosse justamente isso que mais surpreendia.
Gregory caminhou em silêncio até ele. A culpa tornava difícil sustentar contato visual por muito tempo. Sabia que havia tentado atacá-lo. Sabia que perdera completamente o controle. Mais do que isso, começava a compreender que aquela situação poderia se repetir inúmeras vezes se não aprendesse a lidar com a própria condição. Durante toda sua vida, acreditara entender o que significava ser vampiro. Crescera cercado por regras, tradições e histórias transmitidas pelos membros da Geração Vamp. Contudo, nenhuma dessas histórias mencionava mutações capazes de transformar matéria ou impulsos biológicos que pareciam amplificados por algo além da natureza vampírica.
Basco percebeu o conflito antes mesmo que o garoto encontrasse palavras para expressá-lo. Por isso iniciou a conversa de forma direta. Explicou que o Limbo não fora escolhido apenas como esconderijo ou campo de treinamento. Ali, longe das pressões da EBX, dos julgamentos dos Treze Clãs e das preocupações constantes de Alex, Gregory teria tempo para compreender quem realmente era. O problema não estava apenas na fome. Vampiros conviviam com ela há séculos. O verdadeiro perigo surgia quando alguém permitia que um instinto definisse completamente sua identidade. Se isso acontecesse, deixaria de fazer escolhas. E sem escolhas não existia liberdade.
Os dias seguintes transformaram-se em semanas de treinamento intenso. Basco começou pelas lições mais básicas. Antes de aprender a lutar ou utilizar seus poderes, Gregory precisaria sobreviver. O Limbo estava repleto de criaturas que exploravam qualquer sinal de fraqueza. Algumas possuíam inteligência limitada. Outras eram antigas o suficiente para rivalizar com entidades mitológicas. Basco ensinou a reconhecer pegadas, identificar odores, interpretar mudanças sutis na paisagem e perceber quando determinada região estava prestes a atrair algo perigoso. O garoto aprendeu rapidamente. Sua natureza vampírica ampliava sentidos de maneira impressionante, permitindo-lhe captar informações que passariam despercebidas para a maioria das pessoas.
Com o passar do tempo, os treinamentos tornaram-se mais complexos. Basco passou a conduzi-lo através de diferentes regiões daquela versão distorcida de São Paulo. A Catedral da Sé surgia parcialmente destruída, cercada por estátuas deformadas que pareciam observar qualquer visitante. O Vale do Anhangabaú havia se transformado em uma extensão de pedra negra atravessada por rios de magma. Em determinados setores da Avenida Paulista, prédios inteiros encontravam-se suspensos acima do solo, ligados por pontes improvisadas que contrariavam qualquer lógica arquitetônica. Cada local apresentava desafios próprios e obrigava Gregory a desenvolver não apenas força física, mas também percepção e estratégia.
O exercício mais difícil envolvia justamente aquilo que ele mais temia. Em diferentes momentos, Basco provocava pequenos cortes na própria mão e permitia que o cheiro de sangue se espalhasse pelo ambiente antes de dissipá-lo com a névoa. O objetivo não era testar resistência física. Era testar escolhas. Toda vez que o aroma atingia seus sentidos, Gregory sentia o corpo reagir imediatamente. A fome despertava. Os instintos tornavam-se mais agressivos. O desejo de avançar parecia quase irresistível. Ainda assim, era obrigado a permanecer imóvel. No início falhou diversas vezes. Em algumas ocasiões precisou ser contido. Em outras, afastou-se voluntariamente para recuperar o controle. Lentamente, porém, começou a compreender que a fome podia ser administrada.
— Você não é aquilo que sente, repetia Basco durante os treinamentos. Você é aquilo que decide fazer com o que sente.
A frase tornou-se uma espécie de mantra.
Gregory passou a repeti-la mentalmente sempre que percebia a fome tentando assumir o controle.
Os exercícios físicos vieram depois. Utilizando a própria estrutura fragmentada da cidade infernal, Basco criou percursos que exigiam velocidade, raciocínio e adaptação constante. Portais surgiam e desapareciam em pontos inesperados. Barreiras de névoa alteravam rotas aparentemente seguras. Criaturas menores eram utilizadas como distrações. O objetivo não era transformar Gregory em um combatente mais eficiente. Era ensiná-lo a pensar antes de agir. Pela primeira vez desde o Mascarade, o garoto começou a perceber que seus poderes poderiam representar algo além de destruição.
Mas o treinamento mais importante não envolvia força, velocidade ou combate.
Envolvia silêncio.
Basco explicara que o Limbo reagia a emoções intensas. Medo, raiva, desespero e obsessões funcionavam como faróis para inúmeras entidades que habitavam aquela dimensão. Quanto mais instável fosse a mente de alguém, maior a chance de atrair atenção indesejada. Por isso passou a ensinar técnicas simples de concentração inspiradas em exercícios que aprendera anos antes com Illyana Rasputin. Gregory precisou aprender a observar pensamentos sem permitir que eles o dominassem. Precisou aprender a reconhecer a própria raiva. A própria culpa. O próprio medo. Não para eliminá-los, mas para impedir que se tornassem senhores de suas ações.
Foi durante esse período que mudanças mais profundas começaram a surgir. A camada prateada que permanecia espalhada por partes de seu corpo recuou gradualmente. Seus impulsos tornaram-se menos erráticos. As explosões emocionais diminuíram. Em vez de reagir imediatamente aos problemas, passou a fazer perguntas. Escutava instruções. Refletia antes de agir. Pequenas transformações que talvez passassem despercebidas para observadores externos, mas que significavam muito para alguém que, poucas semanas antes, havia despertado como uma ameaça ambulante.
Basco observava aquela evolução com satisfação cautelosa. Sabia que o verdadeiro desafio não estava no Limbo. O verdadeiro desafio continuava aguardando do outro lado dos portais. Os Treze Clãs dificilmente aceitariam um vampiro mutante sem resistência. Muitos enxergariam Gregory como uma aberração. Outros como uma ameaça. Existiam ainda os próprios mutantes, alguns dos quais também poderiam temê-lo após o que acontecera com Hardcore. Além disso, havia os projetos secretos conduzidos por Alex, iniciativas que envolviam pesquisas médicas, genética mutante e possibilidades que nem mesmo Basco conhecia completamente.
Certa noite, enquanto observavam as ruínas da Catedral da Sé sob o brilho avermelhado do céu, Gregory perguntou se realmente precisariam voltar.
A pergunta permaneceu suspensa entre os dois durante alguns segundos.
Basco compreendia perfeitamente o que motivava aquela dúvida. No Limbo, apesar dos perigos, o garoto não precisava explicar sua existência para ninguém. Não precisava justificar sua natureza híbrida. Não precisava enfrentar preconceitos, medos ou julgamentos. Era um refúgio imperfeito, mas ainda assim um refúgio.
Mesmo assim, respondeu com honestidade.
Explicou que ninguém pode viver para sempre escondido. Mais cedo ou mais tarde, todos precisam enfrentar o mundo que existe além dos próprios medos. O objetivo daquele treinamento jamais fora construir uma prisão confortável. O objetivo era prepará-lo para retornar mais forte.
Gregory permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de concordar.
Pela primeira vez desde o Mascarade, não parecia apenas uma criança assustada nem uma criatura dominada pela fome. Havia algo novo surgindo em seu olhar. Algo próximo de confiança.
Naquela noite, enquanto o garoto adormecia próximo às ruínas da antiga catedral, Basco permaneceu observando o horizonte distorcido da cidade infernal. As luzes avermelhadas refletiam-se nas nuvens espessas, transformando São Paulo em um gigantesco mosaico de sombras e fogo. Pela primeira vez desde que atravessaram o portal, acreditou que Gregory realmente tinha uma chance. Não porque fosse poderoso. Não porque fosse especial. Mas porque começava a entender que sua identidade não seria definida pela fome, pela mutação ou pelo vampirismo.
Ainda assim, o mundo continuava esperando do outro lado.
E Basco suspeitava que o julgamento dos homens seria muito mais cruel do que qualquer coisa que o Limbo pudesse oferecer.
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