CelleXty Saga - Temporada I
14 O Futuro A Quem Pertence?

Sujeitos: Basco Khassan Markel (Nevoeiro), Igon Markel (Scariotis), Testament, Pappylon, Sphinx, Althy, Geração Vamp
Status: Atividade mística de grande escala detectada. Possível evento ritualístico na próxima lua cheia. Conflito fratricida iminente.
A cidade de São Paulo jamais dormia completamente. Mesmo durante as madrugadas mais silenciosas, motores continuavam rugindo ao longe, trens cruzavam bairros inteiros e milhares de vidas seguiam seus próprios caminhos sob a luz artificial dos postes. Ainda assim, existiam lugares onde o tempo parecia se comportar de maneira diferente. Lugares esquecidos pela modernidade, cercados por histórias que poucos se lembravam de contar. Em Itaquera, um desses lugares resistia ao avanço dos anos como uma cicatriz preservada em meio ao concreto.
Muito antes dos viadutos, dos conjuntos habitacionais e das multidões que atravessavam diariamente a zona leste, aquela região fora marcada por chácaras, plantações e pequenas propriedades rurais. O silêncio predominava onde mais tarde surgiriam avenidas congestionadas. A inauguração da estação ferroviária em 1875 acelerou transformações inevitáveis, aproximando a região do crescimento urbano que remodelaria São Paulo ao longo do século seguinte. Entre os homens que enxergaram potencial naquele território estava Sabbado D’Angelo, industrial influente que ergueu uma residência grandiosa cercada por jardins e áreas verdes. Durante décadas, a propriedade simbolizou prosperidade e prestígio. Com o tempo, porém, foi abandonada à própria sorte.
O casarão sobrevivera.
Mas apenas como sombra daquilo que um dia fora.
Conhecido popularmente como Castelo Sudan, o edifício permanecia erguido em meio ao abandono como um monumento à decadência. Colunas rachadas sustentavam varandas que pareciam desafiar a gravidade. Trepadeiras cobriam parte das fachadas, infiltrando-se através de janelas quebradas e corredores esquecidos. Os vitrais originais haviam sido destruídos há muito tempo, restando apenas fragmentos coloridos que refletiam a luz da lua em padrões irregulares sobre o chão coberto de poeira. O vento atravessava os salões vazios produzindo sons que lembravam lamentos distantes, transformando o lugar em algo próximo de uma assombração arquitetônica.
Naquela noite, porém, o castelo não estava vazio.
Após o fracasso no Mascarade, a Gangue Fantasma precisara desaparecer rapidamente dos radares vampíricos e mutantes. O esconderijo escolhido parecia improvável, mas possuía vantagens importantes. Poucos ousavam aproximar-se do local depois do anoitecer. Menos ainda permaneciam ali tempo suficiente para observar movimentações suspeitas. Testament passara os últimos dias estudando a estrutura do casarão e planejando formas de transformá-lo em uma base temporária. Pappylon inspecionara a região em busca de ameaças, certificando-se de que nenhum clã vampírico utilizava as ruínas como território secundário. Sphinx, por sua vez, mantinha-se isolado na maior parte do tempo, dedicando-se a antigos rituais que envolviam símbolos egípcios gravados em um amuleto que carregava desde a infância.
Apesar da aparente normalidade, a derrota sofrida no Mascarade continuava presente em cada integrante do grupo. Para Testament, representava uma falha estratégica. Para Pappylon, uma mancha em sua reputação. Para Sphinx, um sinal de que forças maiores estavam interferindo em seus planos. Contudo, ninguém carregava um peso tão grande quanto Igon.
O homem conhecido como Scariotis permanecia sozinho em uma das antigas galerias do casarão quando os pensamentos voltaram a persegui-lo. Desde a batalha, sua mente parecia incapaz de encontrar repouso. As lembranças surgiam de forma fragmentada, desordenada e insistente. Em alguns momentos recordava apenas sensações. Em outros, imagens completas atravessavam sua consciência como relâmpagos iluminando uma paisagem escura. Via novamente a floresta. Escutava o som do vento entre as árvores. Recordava o pai avançando por trilhas cobertas pela vegetação enquanto ele tentava acompanhá-lo. Depois vinha o vazio. O desaparecimento. A ausência de respostas.
E então surgia Basco.
Durante anos acreditara que o irmão estivesse morto.
Agora sabia que estava vivo.
Mais do que isso.
Sabia que havia se tornado poderoso.
A conexão estabelecida durante o confronto no Mascarade destruíra certezas que sustentara por quase toda a vida. O reconhecimento ocorrera antes mesmo que pudesse impedi-lo. Sangue reconhecendo sangue. Memórias encontrando memórias. Por mais que tentasse negar, compreendia que uma parte de si havia hesitado quando enfrentou Basco. Aquela hesitação continuava incomodando-o.
Porque Althy sempre o ensinara a confiar apenas no propósito.
Nunca nos sentimentos.
Parte 2 — AlthyO rangido da madeira ecoou pelos corredores do Castelo Sudan com uma intensidade incomum. Não era o som provocado pelo vento que atravessava as janelas quebradas nem o estalar natural de uma construção antiga lutando contra o próprio peso. Havia algo deliberado naquele ruído. Algo que fez Testament interromper imediatamente suas anotações, obrigou Pappylon a abandonar a inspeção de um dos salões laterais e levou Sphinx a erguer os olhos do amuleto que observava. Nenhum deles precisava perguntar quem estava chegando.
A presença dela era sentida antes mesmo de ser vista.
Os passos atravessaram lentamente o corredor principal do casarão. Cada toque contra o assoalho parecia ressoar além da matéria, como se as próprias sombras reconhecessem sua aproximação. O ambiente tornou-se mais frio. As chamas de algumas velas vacilaram sem motivo aparente. Até mesmo o vento que percorria as galerias abandonadas pareceu perder força por alguns instantes. Testament foi a primeira a ajoelhar-se. Pappylon repetiu o gesto logo em seguida. Sphinx fechou os olhos em sinal de reverência silenciosa.
Igon permaneceu de pé.
Não por desafio.
Mas porque ela jamais exigira submissão dele.
Exigia algo muito mais difícil.
Lealdade.
A figura surgiu sob o antigo pórtico que separava os salões centrais do casarão. Durante alguns segundos, ninguém falou. A simples presença daquela mulher dominava completamente o ambiente. Era alta, esguia e possuía uma beleza que ultrapassava padrões convencionais. Não era uma beleza acolhedora. Era algo mais próximo de uma escultura criada para inspirar fascínio e desconforto ao mesmo tempo. A pele possuía a tonalidade branca do mármore recém-polido. Os cabelos prateados desciam até a cintura em ondas suaves que pareciam refletir a própria luz da lua. Seus olhos, de um azul extremamente claro, observavam tudo com uma serenidade impossível de interpretar.
As vestes que utilizava pareciam pertencer a diferentes épocas simultaneamente. Tecidos antigos misturavam-se a detalhes metálicos gravados com símbolos arcanos. Bordados escuros percorriam mangas e golas formando padrões que mudavam sutilmente conforme a luz incidia sobre eles. Havia algo profundamente errado naquela imagem. Não porque fosse monstruosa. Pelo contrário. Parecia perfeita demais para pertencer ao mundo comum.
Sem pronunciar palavra, ela ergueu uma das mãos.
A lareira apagada no extremo do salão explodiu em chamas.
O fogo surgiu instantaneamente, iluminando o ambiente com reflexos dourados e avermelhados. Contudo, nenhum calor foi produzido. Testament sentiu isso imediatamente. As labaredas dançavam normalmente, mas não aqueciam o ar. Eram chamas sustentadas por energia mística, não por combustível. A luz projetou sombras deformadas pelas paredes do casarão, transformando colunas rachadas e vitrais destruídos em figuras quase fantasmagóricas.
Somente então ela falou.
Sua voz não parecia atravessar o ambiente.
Parecia atravessar a mente.
— O tempo continua avançando.
As palavras ecoaram simultaneamente nos pensamentos de todos os presentes.
— E nós continuamos atrasados.
Ninguém respondeu.
Althy caminhou lentamente pelo salão até parar diante da lareira. Seus olhos percorreram cada integrante da Gangue Fantasma antes de finalmente repousarem sobre Igon. O silêncio prolongou-se por alguns segundos. Então ela ergueu novamente a mão.
Uma esfera de fumaça negra começou a se formar entre seus dedos.
A névoa girava lentamente, condensando-se em movimentos circulares cada vez mais rápidos. Símbolos luminosos surgiram em seu interior. O ar ao redor tornou-se instável. A própria realidade pareceu curvar-se sob a pressão da energia liberada. Testament observou fascinada enquanto a esfera aumentava de tamanho até rasgar o espaço à sua frente.
Um portal abriu-se.
Do outro lado não existia outro lugar.
Existia outro futuro.
Arranha-céus queimavam sob um céu permanentemente crepuscular. Ruas inteiras encontravam-se cobertas por corpos e cinzas. Vampiros avançavam em grupos organizados pelas avenidas, capturando mutantes e humanos como caçadores recolhendo presas. Algumas cidades resistiam. Outras já haviam caído completamente. A visão deslocou-se rapidamente. São Paulo desapareceu. Surgiu o Rio de Janeiro. Depois Nova York. Londres. Moscou. Pequim. Em cada lugar o resultado era semelhante.
Os vampiros haviam vencido.
Não todos os vampiros.
Mas aqueles que enxergavam o restante do mundo apenas como alimento.
O portal fechou-se abruptamente.
O silêncio que se seguiu foi pesado.
Até mesmo Pappylon parecia incapaz de encontrar comentários irônicos diante daquilo que acabara de testemunhar.
— É isso que nos aguarda — disse Althy. — Em quase todas as linhas temporais que consigo alcançar, a mutandade é reduzida a uma lembrança. Um recurso. Um rebanho. Os dons que hoje tornam nossos iguais especiais transformam-se em motivo para escravidão e extermínio.
Seus olhos voltaram-se para Igon.
A mudança foi sutil.
Mas todos perceberam.
— Você hesitou.
A frase atingiu o salão como uma lâmina.
Igon não respondeu imediatamente.
Não havia motivo para mentir.
Ela saberia.
Sempre soubera.
— Quando sua mente tocou a dele — continuou Althy — você sentiu o vínculo. Sentiu as lembranças. Sentiu o sangue compartilhado. E por um instante esqueceu quem é.
A acusação não carregava raiva.
Carregava decepção.
Ela aproximou-se lentamente dele.
Os demais permaneceram imóveis.
— Eu o encontrei quando era apenas uma criança perdida na floresta. Vi seu medo. Vi sua dor. Vi aquilo que poderia se tornar. Enquanto o mundo acreditava que estava morto, fui eu quem lhe ofereceu propósito.
Igon manteve o olhar firme.
Mas as lembranças voltavam.
A floresta.
A escuridão.
O frio.
O despertar.
A figura prateada observando-o pela primeira vez.
— Fui eu quem o treinou. Quem ampliou seus dons. Quem lhe mostrou aquilo que os outros esconderam. Quem transformou sofrimento em força.
Ela pousou as mãos sobre seus ombros.
O toque era gelado.
Antigo.
— E mesmo assim seu coração ainda insiste em olhar para trás.
Durante anos, Igon jamais questionara completamente os ensinamentos recebidos. Althy lhe mostrara visões. Revelara supostas traições. Explicara que sua mãe permitira seu abandono. Que Basco fora favorecido pelo destino enquanto ele era esquecido. Que vampiros manipulavam eventos muito além da compreensão humana. Talvez algumas dessas informações fossem verdadeiras. Talvez não fossem. O problema era que, ao longo dos anos, acreditar nelas se tornara mais fácil do que questioná-las.
Althy afastou-se alguns passos.
Então abriu os braços lentamente.
— Sou Althy.
O nome pareceu alterar a atmosfera ao redor.
— Vidente temporal. Guardiã de futuros esquecidos. Arquiteta de possibilidades desde antes de você compreender o significado da palavra destino.
As sombras ao redor da lareira tornaram-se mais densas.
A energia presente no salão cresceu.
E Igon compreendeu que aquela reunião estava apenas começando.
...
Parte 3 — O Sangue e o AmanhãO silêncio que se seguiu à apresentação de Althy não era resultado de respeito ou medo. Era algo mais profundo. Os integrantes da Gangue Fantasma haviam testemunhado manifestações extraordinárias ao longo de suas vidas, convivido com mutantes, vampiros, entidades místicas e criaturas que desafiaram a lógica humana. Ainda assim, existia algo perturbador na maneira como Althy falava sobre o tempo. Ela não apresentava teorias. Não discutia possibilidades. Descrevia futuros como alguém que relembra acontecimentos já vividos. Aquela certeza absoluta era mais inquietante do que qualquer demonstração de poder.
A vidente permaneceu imóvel diante da lareira enquanto a fumaça negra voltava a girar lentamente ao redor de seus dedos. As sombras projetadas pelas chamas pareciam mover-se em sintonia com seus gestos, como se a própria escuridão aguardasse instruções. Testament observava tudo em silêncio reverente. Pappylon mantinha a postura elegante de sempre, mas seus olhos revelavam atenção absoluta. Sphinx, por sua vez, parecia fascinado. As antigas tradições egípcias que estudara durante toda a vida falavam sobre sacerdotes capazes de enxergar fragmentos do futuro. Nenhuma delas, entretanto, descrevia alguém como Althy.
A esfera de fumaça tornou-se mais densa. Lentamente, imagens começaram a surgir em seu interior. Não eram visões grandiosas como aquelas que mostraram cidades dominadas por vampiros. Eram cenas menores, fragmentadas, quase íntimas. Laboratórios subterrâneos iluminados por luzes frias. Cientistas manipulando ampolas contendo um líquido azul-violeta pulsante. Soldados submetidos a procedimentos invasivos enquanto cabos e equipamentos monitoravam alterações genéticas em tempo real. Documentos sigilosos deslizavam diante dos olhos dos presentes, exibindo símbolos governamentais norte-americanos, brasileiros e referências a organizações que operavam muito além do conhecimento público.
— Enquanto acreditamos que a guerra acontece apenas nas ruas e nas sombras — disse Althy, observando as imagens flutuarem diante deles —, outros disputam o futuro em laboratórios escondidos.
A esfera ampliou uma das cenas.
Arquivos digitais surgiram em sequência. Fórmulas químicas. Mapas genéticos. Estudos envolvendo mutações artificiais. Relatórios incompletos contendo referências ao geneticista conhecido como Senhor Sinistro. Citações indiretas a pesquisas conduzidas por Hank McKoy, o Fera dos X-Men. Análises teóricas associadas aos conhecimentos acumulados por Moira MacTaggert ao longo de diferentes linhas temporais. Nenhum dos presentes compreendia totalmente o significado daqueles nomes. Althy compreendia.
— Eles chamam isso de Projeto Prometheus.
A esfera revelou uma ampola transparente.
Dentro dela, o líquido azul-violeta parecia vivo.
— O objetivo é simples. Sintetizar o Gene X. Reproduzi-lo. Controlá-lo. Neutralizá-lo quando necessário. Transformar aquilo que deveria permanecer livre em uma ferramenta de Estado.
Testament franziu a testa.
— Isso é possível?
Althy não respondeu imediatamente. Limitou-se a observar a imagem da ampola girando lentamente diante deles.
— Em algumas linhas temporais, sim. Em outras, não. O problema não é o sucesso completo. O problema é que eles não precisam alcançar a perfeição para causar estragos irreversíveis.
As imagens mudaram novamente.
Desta vez mostravam campos de contenção.
Mutantes presos.
Outros sendo utilizados como cobaias.
Alguns transformados em armas.
Outros simplesmente desaparecendo.
— Se obtiverem sucesso parcial, poderão controlar nossa espécie. Se alcançarem sucesso total, poderão substituí-la. Em ambos os casos, o resultado é o mesmo. O futuro deixa de pertencer aos mutantes.
O ambiente mergulhou em um silêncio desconfortável.
Pela primeira vez, até mesmo Igon desviou o olhar das imagens para encarar diretamente Althy. Durante anos acreditara que a principal ameaça fosse a expansão vampírica. Agora percebia que existiam forças muito maiores se movimentando nos bastidores.
A vidente fechou lentamente a mão.
A esfera dissipou-se.
As imagens desapareceram.
Restou apenas o brilho trêmulo da lareira.
— É por isso que a próxima lua cheia é importante.
A declaração alterou imediatamente a postura dos três membros da Gangue Fantasma.
Althy caminhou até uma antiga mesa de madeira posicionada no centro do salão. Sobre ela havia mapas, símbolos arcanos desenhados à mão e documentos que Testament organizara nos últimos dias. A mulher deslizou os dedos sobre algumas inscrições e diversos símbolos começaram a emitir um brilho suave.
— O tempo da observação terminou. O tempo da preparação também. Agora iniciaremos a próxima fase.
Seu olhar encontrou Sphinx.
— Você passou anos estudando os mistérios de suas origens. Aprendeu idiomas mortos. Investigou cultos esquecidos. Carrega consigo fragmentos de tradições mais antigas do que muitos impérios. Chegou a hora de utilizar esse conhecimento.
Os olhos dourados do mutante brilharam.
— O ritual está pronto?
— Quase.
Althy apontou para um dos símbolos gravados sobre a mesa.
— Na próxima lua cheia, abriremos um caminho que esteve fechado durante séculos. Você convocará testemunhas antigas. Não deuses no sentido que os humanos compreendem, mas entidades que caminharam ao lado dos primeiros mutantes quando o mundo ainda era jovem.
Sphinx sorriu pela primeira vez naquela noite.
Não era um sorriso amistoso.
Era o sorriso de alguém que aguardava aquele momento havia muito tempo.
Althy voltou-se então para Testament e Pappylon.
— Cada um de vocês foi refinado para este instante. Tudo que viveram, tudo que sofreram e tudo que aprenderam converge para os eventos que se aproximam. Não haverá espaço para falhas.
Os dois assentiram.
Nenhum deles parecia disposto a questioná-la.
A reunião aproximava-se do fim.
Pappylon e Testament começaram a recolher documentos. Sphinx guardou cuidadosamente o amuleto egípcio junto ao peito. Pouco a pouco, os três deixaram o salão principal e desapareceram pelos corredores escuros do Castelo Sudan.
Restaram apenas Althy e Igon.
O silêncio retornou.
Diferente do anterior, porém, aquele silêncio possuía intimidade.
Durante alguns instantes, nenhum dos dois falou.
A vidente observava a lua através de uma janela parcialmente destruída. A luz prateada atravessava os vitrais quebrados e desenhava reflexos irregulares sobre sua pele. Por um breve momento, Igon recordou a primeira vez que a vira. A mulher que o encontrara perdido entre a vida e a morte. A mulher que lhe dera propósito quando o mundo inteiro o abandonara.
Ou pelo menos era isso que ele acreditara durante anos.
Althy aproximou-se lentamente.
Parou ao seu lado.
— Você continua pensando nele.
Não era uma pergunta.
Igon permaneceu em silêncio.
— Basco.
O nome produziu uma reação involuntária.
Pequena.
Mas suficiente.
— Quando suas mentes se tocaram, algo mudou.
Igon fechou os olhos por alguns segundos.
As lembranças vieram novamente.
A infância.
A pequena casa.
As brincadeiras.
O pai.
A floresta.
O desaparecimento.
E então Basco.
Não como inimigo.
Como irmão.
— Ele está confundindo você.
— Não.
A resposta saiu antes mesmo que pudesse refletir.
Althy arqueou levemente uma sobrancelha.
— Não?
— Ele está me fazendo lembrar.
A frase pairou entre os dois.
Pela primeira vez naquela noite, a vidente permaneceu alguns segundos sem responder.
Então aproximou-se ainda mais.
Sua voz tornou-se quase um sussurro.
— Quando a hora chegar, terá coragem de atravessar o nevoeiro?
Igon permaneceu imóvel.
— Terá coragem de enfrentar aquilo que o prende ao passado?
A lua continuava subindo lentamente sobre Itaquera.
O vento atravessava as ruínas do casarão.
— Terá coragem de matar o próprio irmão?
A pergunta não era apenas uma ameaça.
Nem apenas uma ordem.
Era um teste.
O teste mais importante de sua vida.
Igon sentiu o peso das lembranças colidindo contra anos de treinamento, disciplina e convicções construídas por Althy. Durante alguns instantes, a imagem de Basco surgiu diante dele exatamente como aparecera durante a conexão mental no Mascarade. Não como Nevoeiro. Não como um adversário. Mas como o menino que corria ao seu lado entre as árvores de Cipó-Guaçu.
A visão desapareceu.
Lentamente, ele abriu os olhos.
Quando voltou a encarar Althy, sua expressão havia endurecido novamente.
— Se for necessário para garantir nosso futuro... eu farei.
O sorriso que surgiu nos lábios da vidente foi pequeno.
Mas profundamente satisfeito.
— Então prepare-se, meu filho.
Ela ergueu os olhos para a lua.
— Porque o futuro não pertence aos justos. Não pertence aos inocentes. Não pertence aos fracos.
O vento atravessou o salão.
As sombras pareceram mover-se.
— O futuro pertence àqueles dispostos a moldá-lo com sangue.
Lá fora, sobre as ruínas do antigo Castelo Sudan, a lua iluminava silenciosamente os restos de uma era esquecida. Por um breve instante, uma névoa distante serpentou entre árvores e paredes destruídas, como se tivesse sido atraída por algo invisível.
Muito longe dali, sem saber exatamente por quê, Basco despertou abruptamente no Limbo.
E, pela primeira vez em semanas, teve a sensação inquietante de que alguém acabara de pronunciar seu nome.
Fale com o autor