Abri meus olhos e chamas me cercavam, corri em direção ao quarto da Grapple e me esbarrei com ela no meio do caminho. Ela desesperadamente diz:

— Capple, graças a deus, você viu o Zephyr?

Simplesmente balancei a cabeça em discordância, corremos para a porta até que um pedaço do teto desgastado cai em minha irmã, a imobilizando. Tentei levantar o escombro, sem sucesso. Avistei nas chamas um vulto, a voz era parecida com a da mulher que meu irmão conversava, ela estava rindo, como alguém poderia rir disso? O sofrimento de alguém?... Nem tive tempo de me aproximar, pois de repente sinto uma mão em meu pescoço, quando menos eu vi, meus pés se elevaram acima do chão. E ouvi a voz do meu irmão:

— Vamos, desfaça isso. Não é o seu desejo? Se não o fizer, isso será culpa sua

Me senti tão apavorado, meu irmão queria me matar e minha irmã destinada a sofrer nas chamas. Gritei em desespero, mas nada adiantava, meu querido irmão parecia em um transe, como se fosse um demônio. O que eu fiz com ele de tão ruim? Talvez eu deva ter queimado algo, será que foi algo que fiz com a minha mãe? Não importa qual era a motivação, aquilo que que meus olhos viam era a mais crua e nua realidade.

Não conseguia de jeito nenhum respirar, a fumaça entrava em meus pulmões e aquela mão apertava cada vez mais o meu pescoço, a risada no fundo intensificava, a cada momento meu corpo se aproximava da desistência.

E meus olhos, eu queria tanto fechá-los, mas meus ouvidos diziam a verdade, vi minha irmã gritar, era intenso ao ponto de não conseguir ouvir mais nada que meu irmão dizia e nem os risos de fundo, mesmo quando começou a se silenciar, vi sua pele derretendo de seu corpo deixando o branco do cálcio para atrás, o seus olhos incharem e fotografei em minha mente o exato momento em que estouraram, seus ossos, ausentes de carne, se tornarem nada menos do que cinza.

Quando menos percebi, meu irmão e a mulher desapareceram, e pude respirar novamente, a casa já arruinada e na minha frente as cinzas dela amontoadas, Grapple. “Porquês” era o que mais esteve em minha cabeça praticamente sempre, especialmente nesse momento, o porquê que meu irmão cometeu tal atrocidade, o porquê da minha irmã ter falecido, o porquê tive que sofrer isso e o porquê de eu não conseguir fazer nada além de chorar.

Sou só uma pessoa sem propósito neste mundo, nem utilidade. Somente existi até o presente momento para ser um peso para as pessoas à minha volta. Talvez seja só o mundo rindo de mim, será que é demais pedir para ser feliz em um mundo que gosta. Me agarrei às cinzas dela... Quem esteve sempre ao meu lado desde o meu nascimento, ouvia os meus problemas e respondia com um bobo sorriso, na infância confundindo a nossa mãe usando as mesmas coisas até chegar à adolescência e decidimos mudar o corte, milhares de momentos passavam em minha mente, não era algo que me preparei para ocorrer, não era isso que eu esperava, almejava que esses dias nunca tivessem acabado.

Uma luz vermelha brilhou no ambiente acompanhada de um aperto no coração. Quando menos esperava, estava em meu quarto, parece que afinal era só um pesadelo bobo. Estranho que o teto era diferente, mas quem se importa, não é? Sai de lá para o banheiro para lavar o meu rosto, quando vi o meu reflexo no espelho... Meus olhos e cabelos ficaram vermelhos.

Não era um vermelho qualquer, era um vermelho tão profundo que nem o sangue pode reproduzir. A cor era tão exuberante, que parecia que tudo ao redor não importava, nem a escuridão da sala podia impedir a reflexão dessa cor, como se a mais pura alma de meu ser saísse de meu reflexo e voltava infinitamente. A intensidade do brilho emitido era intensa, como se duas estrelas estivessem dentro do espelho. Era tão viciante, como um bom programa de televisão, talvez o favorito quem sabe uma maratona 24 horas, uma hora vou ter que sair, era como um verdadeiro alucinógeno.