Uma voz ecoou em meus ouvidos que chamavam por meu nome, era toda distorcida parecia que meu cérebro tentava processar essa informação em um tempo completamente diferente, como se tivesse um conflito entre a minha visão e audição. Conforme o tempo parecia passar, aquela voz se tornava mais doce e familiar, e o profundo vermelho saiu lentamente de meu consciente.

Como o estalar de dedos, parei de contemplar a imensidão contida em meus olhos, e os direcionei em direção a voz que ecoava em minha mente. Era a minha irmã... Impossível? eu não conseguia acreditar que era ela mesma, era como se eu tivesse visto um fantasma, será que tudo aquilo foi só um sonho tão horrível que me deixou tão abalado?

Ela tocou em meu rosto e minha pele pode confirmar que aquilo era físico, que aquilo era real. Com isso ela me perguntou:

— Capple, está tudo bem com você? Você está tão pálido, passou mal a noite... Você comprou tinta para cabelo? Nossa você queria tanto assim nos diferenciar

Diria que estar no banheiro deu o álibi perfeito para a estranha mudança de meu couro cabeludo, os meus olhos achei estranho ela não ter perguntado, mas como o efeito de olhar para eles não parece ser dos melhores, ainda bem que ela não viu. Apesar disso, meu coração só sentia um alívio falso e minha boca naturalmente proferiu as palavras:

— E-Eu estou b-bem... por agora – respondi trêmulo – M-Meu cabelo, e-era só para experimentar u-uma c-coisa...

Grapple olhou bem fundo nos meus olhos e me respondeu com um sorriso sincero:

— Ficou bem em você, que tal pintar o meu também? Você me deu a ideia de pintar o cabelo de verde, já que é uma cor bem chamativa

Parece que ela tinha esquecido de minha palidez, bem ela também nunca foi muito de se preocupar com que está ao seu redor ou sequer desconfiar do que outras pessoas dizem, mas sinceramente se não fossem essas características eu não estaria tão relaxado neste momento. Uma conversa até que trivial após basicamente vê-la morta. Decidi que era melhor focar no que ela me disse do que pensar o que poderia, poderia ser só uma ilusão, então o tempo devia ser aproveitado:

— Talvez uma outra hora, dá bastante trabalho – abro um sorriso e coloco a mão atrás da cabeça

— Tudo bem, é uma promessa tá? E... — Grapple dá uma pausa estranha — preciso usar o banheiro

É claro, pessoas não entram no banheiro sem esse tipo de intenção, me retirei de lá já pensava em como estaria meu irmão. Não fazia ideia a data ou hora, então a chance dele estar acordado eram variadas... Era o que eu pensava, ele estava apenas dormindo na sala, provavelmente de ressaca. Ao lado dele tinha o seu celular, abri e vi que era umas 8 horas e um pleno domingo.

Os finais de semana são dias perfeitos para cozinhar, um bom bolo de chocolate era a medida certa, só esperava que ainda tivesse ingredientes, pelo que eu me lembrava, tinha alguns faltando. Na geladeira encontrei os ovos, leite e margarina. Olhei nos armários apesar da disposição diferentes das coisas, achei açúcar, farinha de trigo, fermento em pó e... Não lembro de termos creme de leite, mas fiquei feliz em encontrá-lo. Diria que a parte mais difícil foi encontrar as minhas formas, eram todas personalizadas, eu tinha uma em forma de coelho, coração, gato e tinha várias formas de biscoito também, todas desapareceram, tive que usar a chata forma redonda, sem personalidade alguma. Deixei o forno pré-aquecido para colocar a massa depois

Peguei uma panela pequena, coloquei uma lata de creme, uma colher de margarina, duas colheres de açúcar e meia xícara de achocolatado. Acendi o fogão em fogo médio, com os ingredientes dispostos deixei lá e de tempos em tempos mexia enquanto cuidava da massa.

Em uma forma passei a margarina e a farinha para evitar que grudasse, no liquidificador dispus dos três ovos, uma xícara de leite e uma de óleo, ficaram 3 minutos no processo. Nesse tempo vi que meu irmão me observava e entrou na cozinha, ele parecia um pouco assustado.

— Tem certeza disso?

— Do que? – olhei para o chão e vi várias vasilhas, panelas e outros ingredientes no chão – D-Desculpe, irmão é que eu estava tão distraído que esqueci de guardar, m-mas p-pode deixar...

— Não é esse o problema, você não colocou nada estranho nesse ‘bolo’, não é?

Pensei comigo mesmo que a pergunta era algo tão fora de si, sempre cozinhei esses doces, se fosse eu fritando um ovo eu até entenderia. Talvez eu tenha ouvido errado devido ao barulho do liquidificador.

— Sempre fiz isso, não precisa se preocupar não, você só deve estar cansado... Você está fedendo a bebida, toma um banho antes

Zephyr foi embora da cozinha, e ouvi ele falar com a minha irmã sobre onde ela guardou os remédios de estômago, ele devia estar passando bem mal. Depois desliguei o liquidificador, antes de continuar desliguei o fogão e deixei a calda perto, então despejei em uma vasilha onde coloquei uma colher de fermento em pó, uma xícara de açúcar, duas xícaras de farinha de trigo e uma xícara de achocolatado. Não tinha uma batedeira então tive que misturar os ingredientes da vasilha usando uma colher de madeira, minha mão ficou toda dolorida, o que me motivava era saber que meus irmãos iriam adorar como sempre, mesmo que agissem um pouco diferente. Enfim, coloquei a mistura na forma sem graça e cobri com a calda, coloquei a forma no forno com um pano aleatório cobrindo minhas mãos, parece que minha luva especial tinha sumido.

Enquanto esperava o bolo ficar pronto, arrumei a cozinha era estranho como faltava inúmeros utensílios, alguns ingredientes que tinha separado também até minha dispensa secreta não tinha chave, só era uma dispensa comum. Esse ambiente quase familiar me deixava um pouco incomodado e até mesmo as coisas um pouco estranhas, provavelmente deve ser só impressão minha, quem sabe uma peça que Zephyr pregava. Descansar parece ser a melhor medida para agora, já que o forno está programado para desligar nos exatos 50 minutos.

Retornei ao meu quarto, observei que meu guarda-roupa não tinha nenhuma saia, a cama estava desarrumada, e tinha vários papéis espalhados pelo chão, esse local precisaria de uma faxina. Ainda é cedo, tenho dia inteiro, só precisava descansar um pouco a cabeça. Olhei novamente para aquele teto estranho, e pouco a pouco meus olhos foram se apagando... um cheiro estranho se impregnou em minhas narinas... não, não, é só fedorento, um péssimo odor...