Celestial Cross
9 Escamas
Mais areia cobre o meu corpo, mas essa era diferente da do deserto em que estive. Era de um amarelo vívido, úmido e me carregava gentilmente, como se fizesse uma massagem por todo o meu corpo. Seu objetivo era me guiar para um “lugar”. Quando ela foi embora, estive parado e senti que pisava em escamas, ao olhar para elas eram douradas quase como ouro, mais acima havia o que parecia um corpo de uma serpente coberto por mais escamas que se estendia muito mais do que o horizonte, aos lados tinha mais. parecia pertencer ao ambiente, segmentos de corpo espalhados por várias direções que começaram a se organizar e trazer dos ‘céus’ uma cabeça enorme de dragão, seus dentes eram enormes e numerosos, tinha enormes olhos dourados... Ele olha para minha direção, o me faz me encolher de medo, e ao meu corpo entrar em contato consigo mesmo, as minhas roupas sumiram.
— Esse cheiro... – O dragão começa a falar com uma voz grossa e imponente – Milhares de anos se passaram desde a última vez que contemplo um potencial assim
Palavras se recusaram a sair de minha boca, a aparência e o tamanho da criatura me deixaram imobilizado.
— Pare de pensar sobre o meu tamanho, analisá-lo é uma decisão tola – ele dá uma leve pausa – Me chamo Mugen... O possessor do corpo que não possui uma cauda... O espaço que ocupa não pode ser devidamente calculado
— O-Olá, s-senhor M-mugen... p-porque estou aqui...
— O que o trouxe aqui no momento não importa, o importante é que está aqui... O poder que emana de você é muito poderoso, especialmente o de seu coração... e isso pode trazer efeitos irreversíveis, principalmente em meus domínios, por isso aceite... Não! Eu o obrigo a usar o presente que lhe concederei...
O corpo do dragão começa a brilhar intensivamente, não entendia nada que ele queria dizer... Meu corpo começou a flutuar, fiquei cara-a-cara com ele. Correntes surgem e aprisionam os meus braços.
— O Laranja pensante do Psi...O Índigo receptivo da Mana... O Rosa determinado da Aura... Do mais profundo da alma, selo-os com esse contrato – com isso não consigo sentir as minhas mãos – Os limitadores devem responder as palavras que rogo...
A fala é interrompida com uma luz rasgando os meus olhos... Vejo um teto de madeira, percebo que estou no macio, deitado em um futon e ao meu lado havia uma vasilha de água e uma muda de roupas... o resto preenchido pelo vazio da sala, com uma porta shoji isolando-a do mundo... Me sento e observo as minhas mãos, estou de luvas mitine pretas com detalhes dourados, no meio um círculo da cor rosa semelhante a um botão, em suas bordas tinham palavras de um alfabeto estranho. Estranho, não sinto as luvas... Era como se fosse apenas uma pintura extremamente realista, para confirmar mergulhei elas na vasilha, movia elas, tocava uma com a outra, e nada do tecido somente sentia a minha pele. Ao retirá-las acabei vendo o meu rosto... Meus cabelos tinham mechas com a cor original antiga, castanho... meu olho esquerdo retornou a ser verde, e o direito agora era rosa.
O que era aquele dragão? O domínio dele? O que seriam aquelas palavras que foram interrompidas? E... Porque sinto uma fraqueza... Parece que algo faltava, mas ao mesmo tempo está próximo, talvez essas estranhas luvas devam ser o “presente” ou as “correntes”, ou os dois...
— Aquelas palavras, eram a chave dessa prisão – Minha boca escapa essa frase enquanto o meu olho esquerdo por um instante brilha vermelho
Gostaria de entender o porquê digo coisas tão estranhas, não tenho nenhuma informação da veracidade, mas não consigo desconfiar das falas que digo sem intenção... como se estivesse garantido de que jamais me enganaria.
A quantidade de questões que sempre passeiam por minha mente, só pode ser respondida com o tempo e a vontade. Decidi deixá-las de lado, ao menos por agora, no lugar fiscalizei a muda de roupas... Essas não eram as minhas... Ao olhar melhor para o meu corpo, eu vestia trapos ... Infelizmente eu não tinha escolha a não ser usar essas, vesti elas.
A vestimenta era: um casaco laranja sem zíper, com mangas amarelas e contornos verdes, cobria até metade das minhas pernas. Um tímido short preto. E um tênis verde... Olhei para a bacia e minha aparência não parecia tão ruim até que combinei com as roupas, me fazem até lembrar da... Grapple. Em minha mente surge um flash do fim de tudo...
A pele... Os olhos... Os ossos... As cinzas...
Comecei a chorar, e corro desesperado do quarto, desesperado quebrei a porta e dando de cara com o chão... Relembro o motivo de estar aqui... Preciso ver o meu irmão, preciso saber o que realmente aconteceu... Não desejo sua morte, quero estar ao seu lado o choque daquilo deve ter o afetado também... Zephyr... Onde será que ele está?
Egoísta... Foi o que ele me chamou... Por ter deixado a responsabilidade de estar ao seu lado agora... É o que realmente sou, ao menos vou tentar arcar os meus erros.
Organizei a minha mente para retornar ao momento, fora daquela sala era um corredor bem extenso, tinha uma luz ao fundo, caminhei até ela. Conforme me aproximei um cheiro doce se impregnava, sabia muito bem o que era. Ao chegar na porta vi que ela era bem grande, o teto era alto, e tudo lá era mais ou menos o dobro do tamanho normal. Tinha uma humilde mesa, uma bancada, geladeira, pia e fogão era basicamente a cozinha do lugar. Foi na bancada que vi o éden que era preparado, estava lá contemplando o mundo enquanto esfriava... uma torta de creme.
Relutantemente a encarei, parecia o café da manhã perfeito, mas o problema é ... para quem era isso? Queria muito pegar um pedaço, todavia esse ato deixaria um desconhecido desapontado. Quando queria desistir, o chão começou a tremer.
— Quem estar aí? – Uma voz imponente surge
Como um gato assustado, entrei debaixo da bancada e me agachei. Vejo as enormes botas próximas e sinto os tremores ainda mais intensos.
— Força bate forte, se não quiser esmagado ficar, agora do esconderijo saia
Com esse jeito de falar era claro quem era, me levantei, meu corpo tremia bastante, como não havia alternativa me aproximei.
— M-me d-d-desculpe, a F-Força... é que... eu só...
— Garoto estar escondido – ele me interrompe – Força pode explicar, torta não feita por Força — se perde em suas palavras – estar olho para amigo, confiar você pode
— Vo-você por acaso... — Ouvindo, era óbvio que aquilo era uma desculpa esfarrapada, e parecia a oportunidade perfeita para pedir – está a-aprendendo a c-cozinhar?
— Força não... -ele fica sem graça, se ajoelha e fala em uma voz desanimada – ninguém confia que Força faça mais nada além de bater forte... Força pode provar que pode pensar, Força pode usar algo além da força
— E-eu a-mo ... — por ter observado a sua coragem, me expirei e digo mais confiante — Eu amo cozinhar, então posso provar a torta para você... c-claro se estiver t-tudo bem...
— Faria isso por Força! – ele se levanta e vai para o outro lado da bancada, retorna com um prato, uma faca e um garfo. Mesmo sendo gigante ele cortou o pedaço perfeitamente, colocou na mesa e puxou um assento – Garoto senta
Era como um banco alto, um pouco chato de subir, mas a recompensa parecia valer a pena, peguei o garfo e direcionei um pedaço de torta para minha boca. O paraíso tocou o meu paladar, mastiguei bem devagar para apreciar o quão cremosa e saborosa era. Começo a conversar com o gigante enquanto como os pedaços de céu.
— Como torta está? – indaga o gigante
— Está divina – coloco a mão na minha bochecha com brilhos saindo de meus olhos
— Feliz força está, garoto respeito aumentar, Força quer saber nome garoto
— Me chamo... Capple, espera você me c-chamou esse t-tempo todo de garoto
— Força chamará nome estranho de garoto, pronome não saber, julgar aparência errado, hipocrisia seria
— Não julgar pela aparência, realmente você é bem inteligente mesmo que se expresse de forma... diferente... Desculpa, enfim e-estou muito feliz que finalmente u-uma pessoa não errou o meu pronome, sempre pensam que sou uma garota, não entendo p-porque
— Força saber que fala diferente, Força não pensar direito no motivo de pronome errar, motivo não saber
— D-Desculpe, não p-pensei que você me daria uma r-resposta... – nesse momento, percebi que ele agia um pouco diferente de quando lutei com ele – por qual motivo você está sendo tão g-gentil comigo?
— Respeito garoto, garoto derrotar Força justamente, garoto gostou da torta de Força...
Nossa conversa é interrompida por uma mulher meia-cadela.
— Senhor Força você está aqui? Sabe se o garoto já acordou
— Garoto está aqui, au-au precisa
— Então... Senhor Uriel está o aguarda
— Desculpa au-au, Força esquecer, Força ocupado estava, Força deve levar garoto a sala, garoto deve finalizar
— Me levar para algum lugar? – faço a pergunta retórica para confirmar que ouvi
Finalizo rapidamente o pedaço, vou para fora da cozinha e ele começa a me guiar, vejo que o corredor era bem maior e cheio de bifurcações, ele andava lá como se estivesse em uma avenida... Às vezes víamos outras meia-pessoas limpando ou só conversando.
Nos deparamos com uma porta enorme, a Força a abre e me pede para entrar. A sala é enorme e se assemelha a uma catedral, tinha um tapete verde esmeralda que levava até um trono, no caminho tinha vários pilares acessos com chamas. Caminhamos em linha reta e paramos perto do trono, onde a pessoa que havia me nocauteado se sentava, e ao seu lado tinha um meio-carneiro. Força se ajoelha, fiquei um pouco desesperado e me ajoelhei de uma forma que parecia que suplicava por misericórdia.
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