— Não precisa ficar se ajoelhando não, ninguém aqui morde... a não ser que você seja um pedaço de alface disfarçado

O carneiro tinha falado isso para mim, levantei-me levemente envergonhado. A pessoa no tornou começou a falar:

— Prazer, garota, me chamo Destreza, sou o senhor desse palácio. Observei a sua batalha com Força e decidi te ensinar como usar a Aura, conversei com o mais forte do mundo e ele concordou em te ajudar

— Não preciso de uma introdução assim – diz o carneiro apesar de parecer bem orgulhoso – Meu nome é Pierrot, pupilo de Bilboquê. É um prazer

— S-Saudações – fiquei com vergonha de tentar corrigir o gênero, estava na presença de um Deus e do mais forte, parecia ser algo impertinente – M-me chamo C-Capple

— Nome estranho – o carneiro se aproxima e estica sua mão – Vem pode me cumprimentar, não vou te eletrocutar

Pierrot parecia um jovem de pele amarelada com lãs de carneiro no lugar do cabelo, algumas cobriam suas mãos, ele usava um quimono amarelo, tinha chifres ao lado da cabeça, estava descalço e no lugar de pés humanos ele tinha cascos. Respondo o cumprimentando, e realmente a mão dele era macia.

— Sua mão é macia como a minha — ele estranhamente olho para os meus olhos — só me responde uma pergunta... O que é um humano?

— Um h-humano? o-o q-que a profes...

— Uma raça extinta – sou cortado pela Destreza — Eles vivem isolados do mundo então para ele você é tão estranho quanto. por isso direi para você também Capple, o ‘carneiro’ ao seu lado é um Zodíaco, sua raça e habilidades são diretamente impostas de quando nascem, diferente dos humanos que não possuem nenhum talento, mas o potencial é gigantesco

— Interessante, quer saber treinar alguém como parte de um treino não parece ser tão chato, espero que você seja de aprender rápido

— Uma semana, se não expulso os dois – diz o Deus de repente- os teletransportarei para o local

— U-uma semana, c-como? N-não sei nem c-como... – tento dizer, mas sou interrompido

— Porque ainda estão aqui? vão logo.

O deus começa a recitar um canto estranho, um círculo se forma entre mim e o Pierrot, uma calma luz azul nos cobre, que nos leva até uma floresta bem densa, era como um parque só que grande, e com um sentimento estranho, alguma coisa me atraia e outra me observava.

— Esse lugar parece péssimo, ei Capple sobe em uma árvore e vê aí se encontra uma cachoeira – Pierrot interrompe o meu silêncio

— Uma cachoeira? Para tomar água?

— Não só isso, como se banhar é ótimo para concentrar o corpo... Não vai subir

— Desculpa, nunca subi em uma

— Dessa vez deixo passar

Semelhante a um macaco, ele escala a árvore como se fosse subir uma escada

— Daqui uns 10 metros. Ótimo, posso formular uma boa canta... digo ensinamento

Ao descer, ele viu que eu já havia me retirado, o sentimento estranho havia me atraído, era como uma mariposa sendo guiada pela luz. Ele corre desesperado atrás de mim. Ao me alcançar ele se joga em cima e me prende com suas lãs

— Tá louca menina? Te perder nessa floresta é dois palitos, não ande assim não...

— Alguém me chama...

— Sua mãe?

— Sinceramente estou cansado de ser levado aos lugares sem nenhum controle, penso que estou gostando ou me adaptando e alguma coisa me arranca sem ao menos me consultar... Isso é frustrante..., mas algo me procura e algum lugar eu vou por conta própria

— Está cansada de viver? – diz Pierrot estranhamente- Viver é isso, ser jogado em um monte de situações sem controle, chorar por não poder escolher seu destino ou se deixar levar por ser o coadjuvante da vez é patético

— ...

— Vamos tudo tem o seu tempo, acredite uma hora os holofotes serão seus

Nos levantamos e fomos em direção das águas, no percurso nós nos mantivemos calados, ele ficou com raiva de minha pessoa, não sou de ser grosso era como se tivesse sofrido uma hipnose. Será que isso afetou a minha imagem mostrada para o pequeno carneiro? Alguém como eu entrar em um estado assim... Dizer o que me preocupa para um completo estranho, não faço ideia nem porque confiei nele..., mas pelo destino parece que não tenho muita escolha, seguir em frente e ser jogado em provações sem fim.

No fim de nosso objetivo estávamos em um grande lago, havia inúmeras pedras cercando o local, ninguém ali parecia feliz, eu sabia que teria que falar alguma coisa.

— Pi... Pierrot — começo a falar com a voz fraca- D-desculpe-e p-por...

Ele me abraça, seus braços estavam trêmulos, mas eram macios. Seu rosto vermelho, o meu também... um cara me abraçou e ao menos, apesar do conforto eu acho que esse não é o meu gosto.

— Me desculpe por ter te colocado no chão tão de repente, tocar em uma dama assim é desprezível de minha parte – Diz Pierrot em uma voz rouca

Ignorei a parte da “dama” por agora, não era o momento para isso, além do mais não ia adiantar corrigir ele, ninguém nunca levou a sério mesmo. Sempre respondiam com coisas do gênero "mas você parece” ou “é uma piada”...

— N-não s-sou eu que m-me desculpo pela grosseria... N-não quero que tenha um gosto amargo por...

— E desculpa com desculpa quer dizer que ninguém deve ninguém, não é? Hahaha -ele volta ao seu estado normal

— O-o Q-Que?

Estar na escuridão, ter que contar com a sorte ou outros sentidos, isso pode ser bem agoniante, e esse era o plano. Pierrot me deu uma venda e um galho e disse para tentar rebater “bolas”. Não sei a quanto tempo ele está às jogando.

— Ouvi dizer da Destreza que você é bem sensível a aura, por isso foque e sinta a energia que coloquei nessas bolas de lãs e as rebata.

Foi o que ele havia me dito, mas só sinto dor em algum lugar bobo. Tento esvaziar o meu coração, mas não consigo... Ao olhar ele vejo a farsa que troquei pela vida, quando me distraio por esses pensamentos sou atingido novamente e perco a concentração, seria um ciclo vicioso entre realidades distintas.

— Concentrar a energia, focar o seu coração. Se nesta rocha este único ponto for partido, significa que isso foi um sucesso. Tente usar alguma técnica

Quando ele me solicitou isso, só tinha duas técnicas conhecidas, a Gradus Stabilis, essa iria me cansar muito para executá-la, e o Infernum Supplicium era bem perigosa para executar, porém podia ser usada parada, ao posicionar as mãos, não foi apenas o calor, um incômodo estranho que podia ser quantitativo é estranho descrever o que emanava delas, além disso meu olho direito brilhou rosa durante o seu uso, ao lançar devido à distância segura não me afetou mas pulverizou a pedra... Pierrot adorou o golpe, só me avisou que faltava controle e não era bom para o treino dele, algo sobre ela ser especial. Continuei na destruição de ainda mais pedras, aos poucos os pedregulhos restavam das cinzas, e por consequência as minhas mãos ficaram queimadas devido ao calor.

— Mesmo se o seu corpo quiser desistir com os impactos da cachoeira, deve-se manter o equilíbrio inabalável.

Ele me deixou sentado enquanto a água caia violentamente no meu corpo, era difícil se manter parado. Meu corpo ficava todo dolorido e eu caia no lago, tinha que voltar e tentar novamente.

— Mostre-me a força de seu coração

Repeti tudo isso, de novo e de novo, o dia todo repetia e intercalava as atividades. Nos momentos nos quais aparentava que eu entendia a atividade, ele me fazia trocar, finalizei o dia cansado... E com fome. Com isso capotei logo ali, Pierrot me levou para trás da cachoeira, aparentemente lá tinha uma caverna. O lugar era frio e minha barriga roncava...

— Yu. É essa a humana que é a celestial bruta?

— Ya. O mestre disse que tinha olhos vermelhos... Ei já te disse que era imperfeita, idiota

A madrugada é interrompida por vozes fofas e finas, lembravam crianças falando, mencionaram celestiais assim como aquele casal, será que a mulher disse algo a eles?

— Yu, bruta ou imperfeita tanto faz, o que quero saber é como vamos ver os seus olhos?

— Ya. Claro que importa se é bruta ou imperfeita! Bobona!

— Yu. Me diga por quê? Só temos que olhar os olhos... e eu sei que é imperfeita

— Ei eu sou um garoto – olho para trás levemente irritado

Com isso vejo as duas criaturas, eram pequenas do tamanho de um bebê de 3 anos, suas cabeças lembravam melancias, seu corpo era todo branco, tinham grandes olhos azuis cinzentos, usavam vestidos das cores roxo e rosa, ambas tinham anéis de bronze com joias verdes. Eles se assustam, se abraçam e choram.

— Yu. Faz alguma coisa! – diz a de rosa

— Ya. O que? Faz você, sua idiota! – diz a de roxo

— C-calma, e-eu q-que de-deveria estar a-assustada aqui – percebo que errei meu próprio pronome – digo assustado c-com vocês a-aparecendo assim...

— Yu. Ele disse que está assustado, o que a gente faz?

— Ya. Para de chorar sua imbecil

— Yu. Então tá bom

Elas simplesmente pararam de chorar e começaram a olhar para o meu rosto.

— Ya burrinha. Olhos verdes e rosa, garota errada

— Yu. Olha quem fala, é um garoto

Meus olhos brilham ao ver que alguém acertou. Noto que perdi completamente o foco, elas falaram de bruto e imperfeita, o que será isso quer dizer?

— Ei... V-vocês... – seria grosseria começar direto no assunto – Q-qual o nome de v-vocês? Eu me c-chamo C-Capple.

— Ca... Pple – a de rosa parece ter dificuldade em pronunciar – Ca. Te chamarei de Ca, prazer eu sou Ya.

— Ya retardada, não consegue nem falar o nome dele... Ple, meu nome é Yu e sou bem mais inteligente que essa daí

— T-tudo b-bem, sei que t-tenho um n-nome e-estranho... Poderiam... me... dizer o q-que é ‘bruto’ e ‘imperfeito’?

— Ya sabe! Ya sabe! — repete Ya

— Ya não sabe! Ya não sabe! – repete Yu

— P-por f-favor, m-me respondam

— Yu. Essa garota fala estranho, né?

— Ya. Fala melhor que você

Fico tímido com a situação, tenho dificuldade em falar com estranhos.

— Ca. Isso é só pra dizer se alguém bate forte ou um forte só que focado

— Ple. A Ya falou demais, ignora — Yu diz em uma voz firme e dá um leve soco em Ya – Ya, vamos embora

As duas desaparecem na mesma velocidade que apareceram, era uma visita estranha no meio da noite, talvez um sonho. E os nomes delas só confundiram a minha cabeça juntos com mais informações...

— Bruta e Imperfeita... O que seria isso? – digo para as paredes, retorno a dormir no chão rochoso, a motivação era baixa demais para almejar conforto.