Celestial Cross
13 Cadeado
Após a criação da nova técnica, um brilho azul me impregnou e Pierrot me olhou de forma torta.
— Para que o discurso?
— Que discurso?
— O “desejo faz não sei o que”, “a pedra que alguma coisa”, “será nomeada Magma”?
— Sinto lhe dizer isso, mas o que eu entendo é que essa deve ser a resposta para essa situação... eu espero
— Se me diz isso... Tenho esperança em você — pierrot sorriu inocentemente
Sai pela abertura que ele havia criado, retornando a densa neblina. De passo a passo, rumo ao desconhecido agressor, talvez a direção dos ataques pudesse me direcionar foi o que conclui. Como previsto uma pedra vinha em minha direção, veloz e sem piedade, porém a o invés de me atingir, ela flutua a centímetros de meu braço sendo coberto pela luz que eu emitia. Outra tenta me atingir pelas costas, sinto o choque do ar parando abruptamente. Em seguida, direto na minha cabeça, na minha perna esquerda, não importava a direção ou o tamanho, todas paravam antes de me tocar. Era impressionante e ao mesmo tempo assustador, não sabia por quanto tempo podia segurar ou se o responsável era realmente eu.
Conforme mais rochas preenchiam meu caminho, menos conseguia enxergar, tanto que eventualmente só via a escuridão parecia que tinha entrado em uma caverna que desabou, pensei que poderia ser a armadilha do inimigo pronta para me esmagar. Entrei em desespero, não podia morrer novamente, pelo menos não agora, precisava cumprir a promessa de derrotar o anjo dos olhos platina, para enfim encontrar com o meu irmão custe o que custar...
Meu coração bate freneticamente, recordo dele sempre chegando cansado em casa, e abrindo um belo sorriso levemente amarelado ao me ver. Não era alguém de dizer sobre o que fazia, parava para pensar sobre nunca ter perguntado sobre isso, pois a felicidade em vê-lo era maior, mesmo com os esporos pelas minhas notas e às vezes sobre a minha falta de amizades, ele estava ao meu lado para me apoiar do jeito dele... Mesmo com seu passado conturbado ele ainda estava sempre ao meu lado e me diria nesse momento.
— Chore o quanto quiser, mas a cruel realidade vai te deixar no chão. Então mesmo desse jeito levante esse rosto sujo e siga em frente, lute contra o seu medo
A voz de Zephyr grossa e calorosa tocou em meus ouvidos, como se estivesse parado ao meu lado nesse momento. Suas palavras sempre me tocam profundamente, alguém assim não poderia ter feito tudo aquilo, muito menos por uma garota. Eu precisava ir além da situação, a condição era superar esse desafio.
Ergui as minhas mãos ao alto, e disse bem baixo.
— Gravitatis Lapis Separem
Minha ordem foi ouvida, se dispersaram como a força de uma erupção, superaram a velocidade de um carro. Algumas derrubaram árvores e outras sumiram no horizonte nebuloso. O silêncio impregnou por alguns instantes, nenhum som saiu de lugar algum, a neblina lentamente cessou, e a escuridão da noite dominou. Será que foi um sucesso a tentativa? Imobilizei alguém? Fugiram?
A resposta era não, uma garra púrpura saiu das nuvens e agarrou o meu braço, instintivamente cobri o meu rosto com outro e recebi um impacto justamente ali, em seguida me soltaram. Olhei para os lados, não pude perceber nada, outro impacto parecia ter sido um chute em minhas costas, desestabilizei e quase beijei o chão. Tentei focar na audição, mas nenhum barulho, como eu poderia derrotar um inimigo que atira de longe e aparece de forma furtiva? Pensei em usar o Infernum Supplicium, afastei os braços do corpo e esperei o próximo golpe. Levei um soco no meu rosto, na queda me virei e apontei meus braços na direção e exclamei.
— Infernum Supplicium... – o calor não saiu, me recordei que não tinha conseguido executar a Gradus Stabilis, contudo pude ver o que estava me atacando, se assemelhava a uma sombra — O q-que é você?
Não recebo nenhuma resposta, seu corpo se camufla na escuridão. O que estava me atacando tinha um corpo constituído por um tipo de energia, era roxo escuro e um pouco instável, como se a composição dele pulsasse semelhante a estática de televisão. Seu rosto era quadrado e tinha como olhos glóbulos verdes bem brilhantes, parecia vestir um colar e pulseiras prateadas com cristais também verdes. Conclui, era o cara que tinha nos atacado pela manhã.
A qualquer momento ele poderia aparecer, minhas técnicas estavam fora de cogitação, decidi então apostar na nova. Juntei as mãos como reza e mandei o meu comando.
— Gravitatis Lapis Erga
O chão se rachou assim formando rochas que me cercavam. Pude ver a sombra novamente, teve o azar de ter se prendido em uma. Decidiu então falar.
— Devo dar um braço a torcer, não esperava um golpe de mana vindo de um celestial de aura. Você deve ter um grande potencial
— M-mana?
— Não sabe o que é? Se vier comigo posso te mostrar
As energias ditas pelo grande dragão desse local, se eu tivesse ido com ele, talvez os meus medos pudessem ter sido sanados, mas o desconhecido já me perseguia e me mergulhar ainda mais nessas trevas... poderia ter me feito me perder, talvez até a humanidade que me restava, principalmente por lutar por um Deus e dar a vida a alguém conceitos cheios de responsabilidade. O respondi apenas com um balancear de minha cabeça.
— Entendo... Você não é o demônio dos olhos carmesins e isso posso ver perfeitamente. Não tenho condições de continuar além disso você já me surpreendeu, derrotou as minhas filhas
— E-Era a Y-Ya e a Yu...?
— Elas ficaram bem feridas com o seu...
— Por favor, m-me deixe a-ajudá-las
— Como?
— Eu não q-quero... que crianças m-morram...
— Não são crianças, são celestia...
— Pouco importa, são uma vida... – interrompo ele, me deixando um pouco envergonhado – m-me desculpe, não quero manchar as m-minhas mãos
— Elas estão feridas, mas não mortas, porém creio que devo te agradecer por ter feito apenas isso... Mas primeiro, pode baixar essas pedras
— Como não g-garanto que isso não é u-uma a-armadilha?
— Tudo bem garota – ele se ajoelha, pega a joia do seu pescoço, suas roupas desapareceram
Cubro os meus olhos, parecia estar se humilhando para mim. Porém ele começou a rezar.
— Me chamo Morke, sou um celestial imperfeito do tempo. Pela minha deusa, juro que não farei nada contra essa pessoa, caso contrário me jogue nos confins da zona do nada como um cachorro infiel
Ele se levanta e estala seus dedos, se cobre com um robe marrom simples, e o colar volta ao seu pescoço.
— Vamos, humana
— M-Morke... porque você não rezou de de r-roupas?
— Sou um darkloid, meu corpo é feito de escuridão, mas outros seres sempre se importam. Me perdoe por minha impertinência, isso é apenas um velho e mau costume
Segui o estranho ser, seus passos eram rápidos e inaudíveis, era difícil acompanhá-lo, apesar de que não era longe o local. Se aproximou de uma moita, com suas garras, as rasga assim revelando as duas crianças cabeçudas, mas não pareciam feridas, brincavam de algo semelhante a uma que via na tv quando criança, cantavam e batiam na mão uma na outra do ritmo.
— Le peti peti polá
— Le café com... era o que mesmo Ya?
— chocolá, Yu boba
— Le café com... Morke? — a garota nota o retorno dele
— Vocês não estavam feridas? — Morke diz indignado
— Morke, a besta da Yu sabe fazer curativo
— Quando voltarmos para casa as duas estarão de castigo
— Morke, porque Yu não fez nada
— A neblina sumiu, fiquei morto de preocupação — ele pega as duas pela cabeça, estranhamente ficam tranquilas com isso.
— Desculpe humana, deixe-a preocupada sem motivo
— E-está t-tudo bem... — o respondo
— Yu, esse não é o Ca?
— Ya, não é o Ple
— Elas já te viram antes não é, por dúvida o seu nome é Pleca?
— É-é Capple, e... é q-que... s-sou um cara — digo em voz baixa
— Sério? – diz em um tom de deboche – Meninas vamos
O celestial aperta as meninas e um portal se abre, antes de entrar, as meninas levantam os braços e Morke disse não com um tom triste, mas alegre.
— Adeus Capple, que o tempo nos una novamente
Quão rápido surgiram, sumiram. O universo parece realmente gigante com tantas variadas raças aparecendo uma em seguida da outra... Humanos, animais, anões pálidos, seres feitos de energia. Tive sorte de não estar com a aparência comum, mas se qualquer um descobrir que sou “o demônio dos olhos carmesins” ... Em outras palavras, a qualquer momento poderia estar morto, esses celestiais me assustavam, podiam simplesmente aparecer nas condições mais bizarras possíveis com habilidades tão estranhas quanto.
Precisava tomar um banho...
Era o raiar de um novo dia, com a caverna sumida dormimos na própria floresta e dessa vez sem fogueira. Estava bem cansado, não fisicamente o meu corpo tinha uma regeneração estranha, temo dizer que nem precisava dormir as típicas oito horas, era algo mental. Não tinha a mínima ideia do que ia ou não aparecer e ainda tinha quatro dias aqui, ao menos era o que eu pensava.
— Bom dia, flor do dia — disse Pierrot, estava no futon ao lado do meu, porém não colado, tinha um sorriso meio bobo na cara.
— B-bom dia... — tinha esquecido completamente dele, o abandonei por causa de um banho — D-desculpe por...
— Já começa o dia pedindo perdão? Relaxa, sou bem mais velho que você, posso me virar sozinho, quem deveria se desculpar sou eu por deixá-la ir direto ao inimigo
— N-não precisa... Consegui, derrotá-los, quero dizer espantá-los, n-não não, e-expulsá-los? Não
— Convenceu eles a ir embora?
— Acho que é algo mais como... d-decidiram parar?
— Decidiram... — ele olha para cima um pouco reflexivo, se senta no fúton e disse animado — Seu treino está oficialmente acabado
— O que? — me surpreende
— Ora, fez o inimigo recuar, como um grande sábio disse tipo “a batalha pode ser ganha apenas com a aparência”. Além disso, aquela aura estranha era incrível, não parecia ser uma técnica proibida... Vou nomeá-la como... a aura azul
— A-aura azul? — mesmo que eu soubesse a verdadeira face, mana, nem saberia como explicar — é um nome bacana...
— Que bom que gostou, será que a Destreza ou a Força pode nos ensinar? Estou ansioso para voltar
— Não seríamos t-teletransportados?
— Sim, foi o que me disseram, porém... Vamos voltar andando, não quero ficar esperando todo esse tempo
— Por todo a-aquele d-deserto? — me desesperava
— O que? Nunca andou por ele? O grande deserto, se estende ao infinito onde as almas podem se perder ou encontrar o seu destino?
— Só conheço o deserto da África... — falo em uma voz distante
— África? Esse era o nome da pedra que você morava embaixo? Vamos, arrume o fúton, conheço bem o mundo além dessa pedra então não precisa se preocupar
Esquecia o fato de não estar em meu universo, era estranho, apesar disso ele aparentar ter um certo interesse, só esperava que ele jamais me solicitasse dar mais informações. Não sei como seria a reação de saber que sobre estar falando com um viajante novato, ali era somente uma passagem. Me levantei e enrolei o fúton e o entreguei, ele apenas guardou em suas lãs.
— Me siga e não tema nada — exclamou Pierrot, antes de começar a correr
— E-espera — fui atrás dele
Era muito rápido, como uma onça, não importava a velocidade de minhas pernas, a distância apenas aumentava. Até tinha uma forma de alcançar usando a minha aura, o único problema era não conseguia usá-la, era como se acidentalmente tivesse a selado, se perdendo nos confins de minhas memórias. Talvez, a ‘versão azul’ fosse uma alternativa peculiar, o custo de não tentar e ser largado era bem mais alto.
— Gravitatis Lapis erga
O chão nos meus pés se despedaça e forma uma plataforma, não conseguia me equilibrar em pé, me fazendo me sentar. Esse poder concedido a mim era mais versátil do que pensei na hora.
— Gravitatis Lapis siga Pierrot — nenhuma resposta
— Gravitatis Lapis lance — ela se propulsiona
A pedra seguiu em linha reta furiosamente, era difícil me manter em cima dela, nada podia impedir, as árvores eram derrubadas como se fossem palitos de dente, pareciam constantemente ameaçar me derrubar de lá, segurei com tanta força a pedra para não cair, que meu sangue manchou onde segurava. Quando menos notei as investidas da floresta sumiram e estava no deserto. Tentei olhar aos lados, não via Pierrot em lugar algum, precisa então parar, do que adianta ser rápido se posso acidentalmente machucar alguém ou perder de vista. Sinto um cutucão em meu cotovelo, me direciono para as minhas costas... E lá estava o carneiro.
— Não era isso que eu esperava, em segundos saiu da floresta. Você me surpreende bastante... quer saber, estou feliz em não ter me chamado de ‘mestre’
— De onde voc...
— Não esquenta, deixa eu terminar... A sim, Capple, eu gosto de você, não de forma amorosa já superei isso. Quero evoluir junto, te superar e ser superado
— Ser o meu rival?
— Rival? Não, somos amigos jamais poderia te xingar ou algo assim
Amizade? Só ficamos uns dias, não entendia como poderia ter desenvolvido algo, continuei fechado esse tempo todo... Não me conhece direito, e nem o conheço, e só faz quatro dias... por qual motivo me chamaria de amigo? É pouco tempo... Nem sei se vai me machucar... nem conversamos muito ele só me deu lições, e apenas compartilhamos o ambiente... Amigo, o que é isso? Sempre vivi os meus dias solitários, não importava o que eu tentasse, meus dias na escola eram revestidos por cobertura de solidão. Ninguém me notava, não importava o que, nunca conseguia falar com alguém, não entendia o motivo... A minha irmã sempre conseguia, parecia ser tão fácil... Qual era o meu problema? Era a minha face de garota? O que poderia falar depois do oi? Não sou interessante, já que não saio com ninguém e ao mesmo tempo... Quem se interessaria em alguém que desaparece nos cantos escuros?
Então por que agora? Uma pessoa habitante de um mundo completamente diferente sente uma amizade? Gostaria muito de entender a lógica dele, não é algo como deixar os corações abertos e estar ao lado do outro? Logo logo, esses momentos serão apenas lembrança em nosso cognitivos. A presunção de nos classificarmos assim, mas não o odiava ou algo assim, apenas o admirava. Era um cara tagarela e parecia ter uma pretensão intelectual grande, sua síndrome de mestre, ao menos sua presença era quente... Parecia alguém que poderia contar para qualquer coisa, um tipo de irmão mais velho...
Apenas tenho um irmão, não tenho espaço para outro... Não precisava me ferir uma vez mais. A corrente da minha alma, não gostaria de ser rompida, o seu cadeado não era simples... Das sete chaves deve passar antes de qualquer coisa.
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