A jornada pelo grande deserto havia se iniciado antes mesmo de eu ter notado. Não sei quanto tempo ficamos ali, mas mesmo que fossem horas ou apenas segundos, ela jamais parava ou diminuía o ritmo... E o mais estranho é que Pierrot nunca tentou redirecionar o nosso transporte, era como se por coincidência a invocação fosse no sentido correto ou o templo não era tão longe. A areia saia do solo constantemente, uma vez ou outra entrava em minhas roupas, na minha boca e no meu nariz (Pierrot até disse que meu espirro é fofo), era estranho pois estávamos de uma boa distância dele.

Com o tempo, o deserto parecia tentar nos engolir, comandei a pedra para acelerar e assim fez. Agora o problema era continuar nela, era como estar em um ônibus sem barras completamente desgovernado e de ladeira abaixo. O estranho era o fato de Pierrot conseguir ficar de pé sem nenhum problema.

— A areia está agitada, será que estamos sendo seguidos? Não sinto nenhuma Aura, sabe… essa versão azul é bem chatinha.

Isso só podia indicar uma coisa, um celestial estava nos perseguindo. Pouco importava para onde estava indo, eles sempre me achavam. Como um bom preço para um "pechinchador".

— Ei Capple, pode deixar que eu mesmo batalho com esse indivíduo, não se preocupe que com certeza vamos chegar no templo

Após dizer isso, ele esfrega seus braços, gerando uma energia estática, aponta para o chão e atira no escuro um grande pulso eletromagnético.

— Palma Impulsiva

Com isso uma figura se eleva e nos céus, podesse vê-la cercada por areia. Responde o golpe formando uma mão com a areia abaixo, nos ataca tentando nos agarrar, porém as lãs de Pierrot inflam e formam um metal, em conjunto a distância da Gravitatis Lapis pode repelir o ataque.

Ele logo em seguida pula fora e de seus pés formam “nuvens”, ele cria várias que logo em seguida desaparecem, se aproximando mais do alvo. Da muralha de areia, saem quentes lâminas de vidro, tentando despedaçar as plataformas, fazendo com que Pierrot acelera-se, pude ver que a cada instante as formações ficavam menores.

— Pierrot, pare volte

— Sem chance, devo te proteger também

Me proteger… Novamente sendo um fardo como sempre, não conseguia nem me mover do meu próprio poder, a história de ser uma muralha tinha morrido. Retornei à inutilidade.

O carneiro era mais astuto do que eu poderia admirar, com as suas mãos separa a proteção do adversário, e soca o que estava escondido. Respondeu desfazendo criando um impulso retornando as partículas ao seu devido lugar, Pierrot cria uma nuvem com sua mão direita e se segura no ar.

Com isso, o agressor é revelado e é claro nunca o vi na minha vida, usava um vestido branco com uma gigantesco torso dourado, usava também um Nemé na cabeça, com listras douradas e brancas. Seu rosto tinha um inchaço.

— Mortal… Desgraçado, como ousa me distanciar do demônio. Pela vida, digo que a sua não merece continuar.

— Só soquei a sua cara, por que o estresse? Vamos, a luta apenas começou.

Pierrot então balança o seu corpo, como uma gangorra, e se joga em direção do celestial, porém a sua investida não funcionou direito, o celestial apenas voou para o lado e do chão uma mão de areia surgiu e socou o corpo inteiro dele. Deveria ter o machucado bastante, mas ele não parecia ter se abalado, esfregou suas mãos e usou outra “Palma Impulsiva”, o raio se dispersava no ar. Todavia foi repelida por gigantescas quantidades de areia, a condução intensa somente se dissipou, e escondido dentro, o celestial esmurra a barriga dele, o fazendo cuspir sangue, ele responde o abraçando e esfregando suas lãs. O seu adversário estava na frente, o cercado de areia novamente vira vidro e corta as lãs antes de endurecerem.

Eu precisava fazer algo… Quem sabe criar uma técnica a partir do nada me ajudaria? Ou tentar chamar a atenção? Não importava, eu tremia e não conseguia fazer nada, era realmente frustrante. Pierrot larga o celestial e caí… Perdi mais alguém, um estranho afeto parecia ter atingido o meu coração, não podia me contentar com isso…

O clima fica gelado, e da tormenta pode-se ver, um vulto o segurando. já tinha visto em algum lugar, ela cria uma pista de gelo e pátina até onde estou, pude ver o seu terno prata… Como? Era a Aria, meu rosto congelou ao vê-la.

— Garota… Porque está aqui?

— Você que m-me enviou a-aqui

— Droga, a benção do espaço partiu rapidamente, não pude te colocar na linha correta..

— Benção? Linha? Pode explicar a-algo… por por favor?

Ela me olha com uma cara de poucos amigos e joga o corpo de suas mãos na rocha, ele grudou muito fácil na pedra, era como se fosse um imã de ovelhas.

— Morte, espero que seja verdade o que me disse… Te explico depois, vá para um lugar seguro. Te encontrarei, e dessa vez vou te guiar da maneira certa.

Ela parou no lugar, o cristal de sua gravata agora era preto no lugar do azul. Adagas de gelo pareiam sobre o seu corpo como as luas de saturno, se virou e olhou para o outro celestial. A minha pedra, não permitiu que visse o que aconteceu. Contudo, um berro rompeu o ambiente, não foi a Aria. A voz era grossa e estava profundamente indignada.

— Um celestial da morte está aqui? E ainda deixando o demônio escapar da minha areia santa. Obsidiana pod... Espere, se fosse o caso não poderia ter sequer me ferido. A sua divindade, é imunda e impura.

O que podia se concluir nesse momento é: a pessoa que me protegeu dessa vez foi a morte, talvez para realizar o seu contrato. O detalhe não era importante, o meu companheiro não foi para outro mundo e pude escapar, fui um completo idiota em o ter deixado lutar o que era para ser a minha luta, o fardo do demôbio dos olhos carmesim. Irônico de como um anjo me auxiliou, gostaria de ter a ajudado, mas a distância de metros a quilômetros só aumentava. Com o inconsciente Pierrot ao meu lado, com meus olhos lacrimejando, seus sabores era de alívio e tristeza.

— Desculpe… e obrigado — disse em voz baixa.

Por isso, a única coisa que podia desejar era o bem estar de Aria, a fantasma das lâminas gélidas.

No amanhecer do quinto dia, acordamos em um chão ladrilhado na frente de um portão, pedras estavam espalhadas pelo chão. Parece que a viagem parou de forma bem brusca. Pierrot se levantou, reclamou de suas dores nas costas e entrou. Achava estranho como chegamos ao lugar certo sem nenhuma direção, talvez seja algo relacionado com a mana que pessoalmente não sabia, quem sabe geralmente a resposta para mistérios são sempre decepcionantes.

Fui atrás de meu companheiro, o portão estava aberto levando em direção ao labirinto que era o templo. Pierrot ficou parado olhando para os lados, com a mão direita coçando a cabeça, me perguntou o seguinte.

— Lembra onde é a sala do trono?

— Espera, você não sabe?

— Não é a minha casa, nem o deserto, é o terreno de Deus. Minha obrigação de saber é nenhuma. Ei, que tal chamarmos alguém?

— Não é legal incomodar as pessoas assim, deve ter uma campa…

— Força! Destreza! Alguém em casa? Chegamos! E minhas costas doem! — berrou de maneira tão estridente, que não seria a toa, se nem ele ouvisse mais.

— Pierrot! Se acalme

— Quem gritar estar? — a voz de Força ecoou entre as paredes, acompanhada de pesados passos

— Olha só, funcionou. Casa sem campanhia tem isso

O gigante quase caiu em nós, percebeu que éramos nós, parecia surpreso. Nos convidou para entrar. Começamos a andar pelo templo, Pierrot ficou se gabando de como tinha me treinado bem, e constantemente me elogiava falando que eu era uma prodígio. Força não parecia ter nenhuma reação, seu rosto não emitia algo como “já esperava” e sim uma preocupação inquietante, às vezes olhava para mim, podia ver o suor transpor por sua enorme e pesada máscara de pedra. O caminho que estava nos guiando, mesmo com as paredes se repetindo infinitamente, era diferente da última vez. Os batimentos de meu peito aceleraram, um mau presságio.

Juntei todas as forças para questionar, havia outras coisas me incomodando profundamente, o máximo que pude fazer era parar ali mesmo. Pierrot se calou por um momento e me perguntou se estava tudo bem, levantei a minha cabeça e firmemente perguntei ao gigante, para onde estávamos realmente indo, com uma voz rouca e sem graça, disse que para o nosso destino. Continuei parado, uma estranha determinação me pegou nesse momento::

— Você… Você está mentindo.

— Deus mentir não pode

— Então, se está nos levando para Destreza. — engulo seco, precisava continuar com a coragem em meu coração — Porque está fazendo outro caminho

— Dizer que levaria a Destreza não disse. Levar ao seu destino vou

— Mas queremos ir até…

— Não os levarei

— Por que? Por favor me diga

— Um Dragão velho visão aos meus olhos deu — posicionou suas mãos na cabeça, e arrancou a sua máscara — enganado e roubado fui, vocês também.

Revelou um rosto de gorila, seu olho direito era um dourado familiar e o outro tinha uma enorme cicatriz.

— Dourados olhos, identidade verdadeira de um Deus. Destreza não ter, então colocar máscara para não revelar. Dragão revelar, invasor entrado e esperado, uma cobra ser, momento chegou, matar o vermelho.

— Ei, Capple… Será que a Força está dizendo que Destreza é na verdade um celestial? — indaga Pierrot.

— Celestial… Fazia anos que não sou chamado dessa forma, muito menos por um carneirinho bobo. — uma voz surge do além

— A sabe sou mais inteligente do que… Espera

O templo se cobriu de um breu, o já labiríntico lugar não se podia nem ao menos contar com a visão, onde seria concreto surgiam cristais nos espionando. Ao centro surge aquele que chamamos, o dono da voz do além.

— Vermelho… te darei uma chance de apenas morrer aqui e agora.

— Me diga… Por que me deixou vivo? E quem é você?

— Minha identidade já se foi há muito tempo, são coisas que a Vida arranca de você, sem piedade alguma. Assim como você, a minha existência é apenas uma maldição, no meu caso se derramar o seu sangue, minha existência miserável poderia prosseguir.

Ele arranca a sua máscara, revelando a sua face distorcida, com um olho de um profundo azul e um outro que não encaixava no seu rosto, era grande e dourado.

— Entretanto, era impossível apenas fechar os seus olhos diretamente, a persona de “Deus da Destreza” se racharia em milhares de pedaços, enquanto estivesse em um ambiente controlado, seria mais fácil apenas te fazer desaparecer… Uma ser fraca, incompatível com a Aura… Cristais dos tolos, executem.

Os cristais das inúmeras direções brilham, se preparando para executar os seus alvos. Força corresponde elevando a sua Aura, até os incapazes de sentir podiam ver o seu gigantesco brilho verde esmeralda. Tiros refletiam de todos os lados, era praticamente uma tempestade de energia, nem mesmo a Força conseguia aguentar as investidas. Com isso Pierrot tentava formar a fortaleza como quando estávamos na neblina, porém suas lãs não conseguiam crescer e muito menos endurecer, os ataques eram muito intensos.

— Tolos, a Aura de um brutamonte jamais ganharia do talento do Psi

Psi… O termo me era familiar, meus companheiros era o contrário, percebia como ninguém desse universo falava sobre isso. Não tinha nenhuma ideia de como usar essa outra energia, mas se ela “ganha” da Aura, a aposta para essa batalha era o terceiro poder dessa roda… A minha mana.

— Gravitatis Lapis: Erga

O solo ultrapassa o piso e estraga com a escuridão, a luz foi trazida ao ambiente. O falso Deus se surpreendeu, o que o fez se distrair e temporariamente parar o ataque, dando oportunidade de meus companheiros contra atacarem. As mãos de força projetaram de seu corpo e segurou facilmente, Pierrot espalha suas nuvens pelo local, aguardando o próximo passo. Eu estava mais do que pronto para utilizar de minha técnica, porém a Força insistiu para que eu corresse e reza-se pelo dragão, Mugen.

— Capple, te prometo que venceremos dessa vez. Não subestime o mais forte do mundo e um Deus. — disse Pierrot com a voz mais séria, de uma forma que nunca vi antes

Cegamente, confiei neles, montei na Gravitatis Lapis e comandei para ir o mais longe possível. A velocidade que alcançou, quebrou completamente a escuridão e atropelou qualquer parede, o meu corpo parecia que iria cair junto, mas insisti e me segurei nela fortemente, ela acelerou ao ponto de retornar ao deserto, e da areia do local virar apenas feixes de luzes, depois retornando a escuridão, abandonando a luz, eventualmente segurava em um corpo dourado.

O dragão do infinito, ele sorriu para mim. E me disse:

— Boa Viagem, Vermelho.

O seu longo corpo se moveu se assemelhando a uma cobra, cai novamente. Revisitando o Azul, dessa vez uma mão me agarrou, era difícil ver quem era, talvez a Aria saiu da batalha? Ou era o Amor me guiando? talvez outra pessoa que eu não conheça? Já estava me acostumando a ser arrastado.

Meus sentidos captaram, um cheiro delicado e perfumado, levemente cítrico. pétalas rugosas tocavam o meu rosto, e o verde do gramado interrompido pela cor vermelha, estava em um humilde campo de lírios aranha.