A sensação estranha retorna, mas dessa vez consigo ouvir vozes parecia ser uma mãe se despedindo de seu filho.

— Ei mãe. Por que você tem que ir embora? – diz uma criança chorando

— Meu filho, tem coisas que somente nós podemos fazer, isso é uma questão de responsabilidade – responde uma mulher pacientemente

— Digo, embora sem mim... – a criança aumenta o tom — Não quero que me abandone

— Quer vir comigo? Infelizmente, só quando você for mais velho... que tal fazer um favor para mim? – a mulher diz preocupada — Cuide do Pauvre, Lu...

— Capple, acorda aí – uma voz familiar interrompe

Estranhamente tinha lágrimas em meus olhos, me viro em direção da voz e vejo Pierrot com uma cesta cheia de frutas

— Bom dia flor do dia, que tal uma maçã para uma maçã?

— ...

— Não foi efetivo? Tudo bem, só queria te dar um agrado...

Demorei um pouco para processar aquilo, fui engatinhando até a cesta e peguei uma maçã, com isso ele pode ver minhas mãos.

— Suas mãos... não estão queimadas? – diz ele assustado

Queria falar sobre os estranhos seres que entraram lá, mas alguém de fora sentindo-se preocupado por mim... Nunca tinha visto isso na minha vida...

— É-é mesmo n-nem t-tinha parado pra pensar n-nisso, e minhas costas também não d-doem

— Nossa, os humanos têm umas habilidades estranhas – disse ele surpreso – Parece que vocês são compatíveis com as técnicas proibidas

— M-meu g-golpe é i-ilegal?

— Não é bem ilegal... é mais um tabu, não quero que pense muito nisso por agora... Se os humanos podem usar bem, então posso adaptar melhor isso, vamos coma bem tá?

Após terminar a refeição, o treino reinicia... Impactos invisíveis, pedra explodindo, água caindo, impactos invisíveis, pedra explodindo, água caindo, impactos invisíveis, pedra explodindo, água caindo... Uma das vezes que resisti a tormenta da água, avistei grandes olhos azuis brilhando no meio do mato me observando, conseguia ouvir sussurros de “Ya, sua idiota” e “Yu”. Era claro quem era, ao mesmo tempo que queria falar com elas, todavia não parecia que iam me falar nada a mais, eram semelhantes a crianças. Infelizmente o meu foco se quebrou e com consequência a violenta tormenta me derrubou.

Ao anoitecer, Pierrot me avisou sobre o término das atividades do dia e pediu para entrarmos na caverna, caminhei até lá, já imaginava ter que dormir novamente naquele chão duro, porém ele tinha colocado umas coisas a mais, tinha o que parecia ser dois fútons feitos de folhagens e uma fogueira no meio, fiquei impressionado, era algo bem inesperado.

— Legal, né? — disse Pierrot orgulhoso de si mesmo – Passei a noite de ontem toda fazendo isso, o enchimento é a minha própria lã... Foi mal ter deixado dormir aqui, ela demora um pouco pra crescer

— N-não p-precisava s-se p-preocupar, q-quero d-dizer... o-obrigado

— Você é bem tímida, não é? Nem sei do que falar com você... – Pierrot olhou para cima pensava em algo para dizer, ao organizar suas ideias – Como é ser humano?

— C-como vou responder, i-isso? l-limitado, eu a-acho

— Limitado? mas a sua regeneração é impressionante, poder levar impactos tão potentes e depois não um único machucado, além disso queria poder me queimar e em pouco tempo não ter marcas ou nem precisar de pomadas

— N-Não...C-Como posso e-explicar... Bem, antes... não e-era a-assim

— Então o que os humanos podem fazer?

— Pensar? N-Não vejo n-nada d-de extraordinário sobre n-nós...

Desanimei um pouco e meus pensamentos se predominaram em meu consciente, talvez a minha humanidade já tenha sido perdida, conheci pessoas tão exóticas, meu corpo age de maneira estranha mesmo com ferido ele se regenera ou vai contra a minha vontade, palavras simplesmente saem da minha boca uma vez ou outra, e nesse momento conversava com um animal.

— Cultura – Pierrot fala do nada interrompendo o meu programa dos pensamentos intrusivos – Conhece a história de como os céus nasceram?

— Por acaso, você é cristão?

— Isso mesmo que eu queria ouvir... uma palavra completamente estranha, então relaxe dama, essa história é extraordinária, e pense em algo ‘cristão’, ao finalizar aqui, será a sua vez

— A muito tempo atrás, a noite era eterna, o mar se estendia e uma grande fera morava no fundo, comia qualquer coisa que tentasse viver. Quando as violentas ondas trouxeram um guerreiro, voluntariamente se jogou nos intestinos, arrancou os órgãos e jogou-os nos céus escuros. Lá iluminaram os céus... Criou as estrelas usando tripas, quando deu o golpe de misericórdia o sangue da besta espirrou pelo universo, as constelações nasceram e da carne surgiu as terras... – Pierrot diz emocionado — Assim Deus criou o mundo, matando a destruição e ocupando a noite coma as constelações que regem as nossas vidas.

— I-isso parece um filme...

— Tem várias adaptações disso em filmes e peças de teatro, o meu favorito é ‘A noite mais escura’ se quiser te empresto a cópia

— Existem TVs nesse lugar? Será que as minhas fitas funcionam aqui? – pensei

— Voltando, saiba que independente da sua crença desse tal de ‘cristão’, essa é a verdadeira história do mundo – Pierrot cruza os braços – Pois conhecemos o guerreiro desta lenda, apesar que...

— A-Algo errado?

— Nenhuma versão conta com dois guerreiros... Sempre só houve um, será que com a passar do tempo ela se distorceu? – ele percebeu como se desviou do assunto e retorna, não deixou transparecer sua vergonha consigo mesmo – E-Então, era a Força e a Destreza... Estamos sendo treinados pelos deuses, legal né?

Observava as chamas e pensava, uma simples conversa, com uma palavra impactante: “Deuses”. Aquele rapaz estranho, o Aqua tinha mencionado sobre lutar por uma, estranhamente não tinha visto nenhuma ao lado dele ou será que eram aqueles animais? Além disso, a morte? E o espaço? Existia a possibilidade de o panteão ser um pouco maior ou apenas mentiras... Queria continuar pensando sobre isso, porém...

Meu histórico com fogo... Comecei a chorar...

— Ele só queria me ajudar... E simplesmente ceifei a sua vida... Por quê? – balbucie essas palavras, fiquei ofegante

— Capple... o que foi? Está pálido? Falta de ar? – Pierrot dizia isso preocupado enquanto se aproximava

— Q-quero f-ficar sozi...

— Respira, relaxa – ele chega mais perto

A pressão me deixa desnorteado, coloco as mãos na cabeça e um impulso vermelho lança Pierrot contra a parede o deixando inconsciente, eu não queria ter que arcar com outros sangues em mãos, não entendi por que isso aconteceu... Corro da caverna, atravessei facilmente a cachoeira e desapareço novamente na floresta, os gritos de Pierrot me chamando passavam retos como se fossem apenas o barulho do vento. Os galhos das árvores batiam em rosto e mesmo os buracos não me impediam, falei comigo mesmo, notei que não estava mais na floresta, retornei ao deserto, pensando bem a cidade era cercada por areia também, como se esse universo fosse formado por ilhas cercadas por areia no lugar de água

— Ele só queria me ajudar... E simplesmente o queimei com brasas... Por quê? Não se tinha uma alternativa? O matei... Por qual razão? O depois daquilo, aonde ele me levaria ... era tão confortável naquele ambiente... eu podia viver feliz com a minha ir... – parei, me ajoelhei, e meu choro se intensificou — A vida é mesmo cruel... Isso é algum tipo de punição ou piada para esses tais "Deuses"? As chamas que consumiram ela, depois as usei para matar... Por que não fui levado? Nunca tive um futuro...

— Não deixe o ódio dominar o seu coração

A voz era bem alegre e inocente, mas não me era estranha, parecia com a daquela mulher, será que foi ela que fez aquilo com Zephyr... Era uma noite escura, podia-se ver a sombra devido a uma luz rosa, era de uma garota com maria-chiquinha, se sentava com as pernas cruzadas em um cetro com um coração na ponta, voava acima de mim.

— V-veio z-zombar de mim e d-do m-meu...

— Vermelho, se guie pelo amor e se acalme, como está agora? – sou interrompido

— V-vá e-embora, por favor... Q-quero ficar sozinho...

— Que palavras grossas, mas entendi... O ódio já te atingiu, mas não se preocupe lhe garanto que o amor logo virá — ela dá uma risada – Opa, já está aqui

Nenhuma palavra saia da minha boca, estava quase sem ar. A sombra do passado retornando, o que sempre temi saiu do metafórico e apareceu para meus próprios olhos, apesar da familiaridade causada por ela... era ao mesmo tempo diferente. Antes mesmo de concluir uma boa ideia ou pronunciar mesmo com o nervosismo, ela pega o cetro, jogou em minha direção e acertou a minha cabeça, via um brilho vermelho caindo em meu rosto antes de tudo escurecer...

Dessa vez desperto naturalmente, estou de volta na caverna com o teto familiar, porém estranho, o futon era realmente macio apesar das folhas incomodarem um pouco, o que me deixava encucado era o sonho que tive, parecia ser a continuação da história da noite anterior, mas dessa vez somente a voz de um jovem podia ser ouvida, talvez tenha sido a criança do outro, pelo que me recordo ele falou isso.

— Mãe, voltei para a casa depois de tanto tempo, isso são flores aranhas, sei que são as suas favoritas... – a voz suspirou — Me desculpe, não pude cumprir a nossa promessa, Pauvre está morto... A vida também o tirou de mim... Aliás, passei aqui para avisar, vou ficar mais um tempo aqui no plano mortal já que estou prestes a fazer uma das maiores besteiras que se pode imaginar, mas saiba que pouco me importa a persona que você use ou o que aconteça comigo, sempre te amarei

Por que sonhei com essa história? Apesar que simpatizo um pouco com isso... Perder a família e se deparar com a casa vazia é realmente bem doloroso, as memórias de infância passando, coisas doces como a primeira vez que andar, quando fazer arroz na panela de pressão e ela explodiu, ou quando minha mãe trouxe o meu irmão pela primeira vez para casa... Tudo se tornará uma memória, não importa o que façamos, o tempo passa... Mesmo com o peso em mente, necessitava retornar à realidade. Dobrei a coberta do futon, e sai da caverna... já tomando um banho, me deparo com o Pierrot fazendo bolas de lã, me aproximo e ele fala comigo com um sorriso assustado estampado no rosto.

— Bom dia flor do dia, que belo colar esse

— ...B-bom dia...

Noto o objeto em meu pescoço, era um pequeno cristal vermelho, era conectado ao cordão por um anel de ouro com escrituras em sua volta que liam “Veritas vos liberabit”, ele apareceu da noite para o dia, será que foi a sombra de ontem que colocou? Naquele momento, essa pergunta não parecia interessante.

— Nossa, que desânimo mesmo depois de um elogio? Espero que não fique assim no treino de hoje. Esse é o terceiro dia, então aprenda bastante tá?

— ... sim

Ele vendou o meu rosto e começou a atirar as bolas, sinto a energia, era eletrizante com isso consegui rebater uma.

— Meus parabéns, vou acelerar um pouco continue nesse ritmo

Dessa vez, o que poderia ser umas dez bolas eram jogadas em minha direção, mas consegui rebater três, continuou jogando mais quantidades absurdas e pouco a pouco rebatia uma a mais. Com isso ele me pediu para ficar novamente na cachoeira, a gravidade propulsionando o meu corpo não teve tanto efeito quanto antes, então pude aguentar, ele bateu palmas para mim, porém quando chegou na hora das pedras. Me recusei a usar o Infernum Supplicium, ao invés disso trotei no lugar e pulei com tudo na pedra, rachei somente um pequeno pedaço graças ao meu Gradus Stabilis, porém no lugar dele ter ficado orgulhoso com isso, ficou preocupado.

— Você tinha essa técnica? Então por qual motivo usava a outra?

— P-porque... é-é que e-eu n-não... – não consigo responder, pequenas lágrimas saíram de meus olhos

— Não... Quem te ensinou a usar?

Me ensinou? Não fazia ideia, somente aprendi a executá-las, não sabia dos efeitos dela ou nem sequer como eu fazia isso, elas somente apareceram em minha mente e meu corpo fazia suas tarefas sozinho, algo tão natural quanto respirar... Como eu poderia não parecer um louco ao responder isso?

— Não vai me responder? – ele se acalma um pouco ao perceber a minha alteração – Foi mal, se quer proteger o seu mestre, tudo bem. Ao menos você parou de usar aquilo, não quero que você se assuste ou algo assim... Vou te dizer o porquê você jamais deve utilizar aquele tabu, fique só nos seus chutes elétricos, beleza?

Balancei a cabeça como resposta.

— A aura é manipulada por nós os seres vivos, conforme aprendemos a controlar o nosso corpo, mais em comunhão entramos com ela, com a intenção de transcender..., com isso o dia em que viemos para terra rege a forma que nascemos e devemos entender o que somos, permitindo o controle dos átomos de nosso corpo, a eletricidade, endurecer, manipular o vento em nossas mãos..., mas existe a forma sobrenatural... Como controlar o sangue, as sombras, e até mesmo os poderes causadores de deformidades no corpo... Aquele golpe queima as suas mãos, se por exemplo eu usasse isso deformava o corpo e quem sabe você não pudesse controlar... Poderia acabar morto ou cruelmente arrancando uma vida

— I-isso parece um po-pouco ... d-deixa pra lá

— Pessoal? Porque é... Saiba que, foi minha ganância e curiosidade que ceifaram a vida de minha esposa – ele fica sem graça – Isso não é uma história para agora... Já estou à procura de outra

— M-meus p-pêsames, espero que essa p-pessoa seja legal

— Ela é bem fofa, tem um gaguejo bem doce, usa um casaco que eu mesmo escolhi — ele olha pra baixo — e agora pude ver melhor as belas pernas dela, em ação são tão firmes apesar de aparentarem delicadas

— E-Espera... c-como? – vejo que era para as minhas pernas, tento às esconder esticando a blusa sem sucesso

— Esse mesmo, seu rosto vermelho enquanto tenta falar, aquece o meu coração, seria tão bom se tivessem me deixado te dar uma saia

— E-eu a-té que p-prefiro s-sai... – parei por um momento, pois percebi qual era sua real intenção — T-tão... d-de...

— Exatamente isso que chamou a minha atenção, você toda tímida ao falar que vi por baixo teria sido bem melhor..., mas o importante é o agora. Claro que não precisa corresponder agora, e se quiser que tal me chamar de ‘mestre’? esse poder aí é elétrico que nem o meu

— P-por favor p-pare, não v-vou t-te...

— Vamos, seu “mestre” está esperando uma resposta...

— E-eu n-não gosto de h-homens desse j-jeito – o interrompo

— Então... você gosta de outra fruta? — A dura realidade caiu em Pierrot – Quer dizer que jamais tive uma chance?

— T-tipo i-isso...

— Faça como quiser, preciso esfriar a cabeça... Se precisar de mim, vou estar ali na caverna refletindo sobre os meus gostos – se retira cabisbaixo

— É melhor não ir atrás dele, mas isso foi meio esquisito – falei para mim mesmo

Friamente quebrei o seu coração, como um copo sendo trucidado pela gravidade, independente do que se faça irá continuar rachado. Infelizmente não consegui esclarecer qual era o exato problema, então posso dizer que ele inverteu a confusão de minha mente. Esse é somente mais uma entrada para a “coleção de momentos em que não consegui expressar o meu gênero”, essa seria a número 1290.