Notas iniciais
Achei interessante usar duas narrativas nessa historia, mesmo sendo curta, então não confunda...

“....Sidney Spethmann...Responda a chamada....”

“....Kentaro Himura no sinal...”

“...Navio baleeiro 3-A78...Recebemos as coordenadas....”

“........Captamos o sinal.....”

“...Repetindo...”

“....Captamos o sinal....”

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Para começar, existe um ótimo motivo para eu ter escolhido esse “emprego”. O mercado de trabalho do meu país sempre foi muito concorrido, e para quem não possui a profissionalização exigida por eles, as opções são bem limitadas. Suponho que não seja tão ruim assim, afinal é o que eu sei fazer desde pequeno, porém o risco não vale muito a pena. Sim, risco por aqui é o que não falta, seja pelos acidentes de trabalho, ou quando aparecem “aqueles caras”, mas não protesto muito sobre isso; é normal. Mas e daí? É o mais rentável e disponível para o momento...

Partimos do porto de Nagoya já faz três semanas e estamos nos dirigindo ao sul, um pouco afastados da Nova Zelândia. Durante a viagem, tratei de me alojar em um dos dormitórios do navio para ninguém vir me encher o saco. Lá balançava demais e tinha cheiro de peixe e pólvora. O espaço é quadrado e meio baixo, porém consegue comprimir duas camas de dois andares mofadas e um armário de ferro enferrujado. Durmo com outros dois homens no local, mas fora isso nada me incomoda além do balanço da água. Enquanto os caras do outro navio fazem o trabalho de localização, que demora semanas, não preciso mover um músculo. Suponho que eles devem estar a umas dezenas de quilômetros a frente de nós. A fragmentação do trabalho é realmente eficiente.

Me enrolo num lençol fino que havia em minha cama e tento retirar um cochilo. Lá não tem aquecedor, por isso você tem que se virar. O chacoalhar da embarcação faz alguns de meus livros caírem sobre o chão de metal. Meu nariz está praticamente congelado e minhas luvas não fazem o trabalho que deveriam. “Por que o ártico tem que ser tão frio?”, penso enquanto prego lentamente meus olhos.

Após um cochilo conturbado, ouço um grito do lado de fora da porta. Reconheço a voz de Hiroki, nosso imediato e meu companheiro de quarto:

– Kentarou! Acharam o cardume! Venha logo pro convés!!

– É mesmo? – digo, pulando da cama. – Esses caras são muito cegos, Hiroki! Podem ser Azuis de novo. Não dá pra pegar essas!

– Já garantimos que na verdade são De-Bryde agora! – ele dá um soco na porta e se afasta. – Tira esse cú daí e se junte aos arpoadores!

Não ousei desobedecer Hiroki. Como um experiente pescador, possui um corpo forte e marcado das mais várias coisas; vai demorar muito até eu chegar a esse ponto. Sigo um tanto cambaleante e sonolento até os armários e pego minhas galochas e um agasalho adequado. Saio da cabine e sigo pelos corredores mal iluminados até chegar às escadas e subir para o lado de fora.

O céu estava repleto de nuvens escuras e pesadas; nevava um pouco e o mar estava muito agitado. Sobre o convés negro, algumas aves marinhas disputavam restos mortais das pescas passadas. Aparentemente, ninguém queria limpar aquilo. Observo meus companheiros carregarem os materiais até perto da proa, onde estava o atirador e o alçapão inclinado para a água. Eles pegam dentro de uma caixa de madeira pequenas cápsulas de explosivos e ás acoplam na ponta de um enorme arpão. A neblina dificulta a visualização, mas consigo avistar o navio de observação atrás de nos, recuando até o de produção, bem maior, que estava mais ao longe. Hiroki me chama de um lado do navio e me aponta alegremente para algo que fervorosamente se movia na superfície da água.

Eram cerca de seis ou sete, De-Bryde, com certeza. Percebi que em deles era filhote, o que seria preciso mais cautela: não dá pra perder tempo com pouca mercadoria. Kaozu, um de meus colegas, me chama a atenção:

– Kentaro-kun, você tem a melhor mira daqui e tem um filhote no meio. – ele fala. – É bem na cabeça, você sabe, não?

Sim, eu sabia o que fazer. Hiroki fez um sinal para a cabine superior, e mudaram o curso para esquerda. Seguro o arpoador perto da proa para não cair e espero o melhor momento. Paramos atrás do cardume. Uma delas, num momento de sorte, de desprendeu dos outros e do filhote e esteve praticamente grudada no casco do navio. Aponto a arma pontiaguda para seu crânio. A maré e o movimento que ela fazia me atrapalhavam um pouco, mas eu tinha uma reputação a zelar: era o melhor arpoador daquela merda.

Achando o momento certo, descarrego a arma com explosivos na lateral da cabeça da desgraçada, que começa a se debater desesperadamente, mas uma corda não a deixa escapar. O sangue que sai pela ferida turva a água de tal maneira que se espalha por um raio considerável. Em dado momento, ela para de se mover, e sinto grande satisfação por mim mesmo. É isso o que sei fazer.

No entanto, ouço Hiroki gritar desesperado para um dos nossos, enquanto os outros começam a puxar a pesca desesperadamente, o que é incomum: temos três dias até entregar. Ele aponta para a neblina sobre o mar, onde pude ver o que caras como eu mais temem.

Um navio branco e preto parou praticamente entre nós e a rota até o navio-fábrica. Mais dois aparecem á direita de nosso navio, aproximando-se rapidamente. Enquanto puxavam a carga para dentro do alçapão, possivelmente um explosivo ficou com defeito, e saiu carne para todo o lado, espalhando-se na água. Perdemos um pouco de “material de pesquisa”, e aqueles almofadinhas da Academia iam brigar conosco por isso, mas não me importo: no fim, o objetivo principal não era esse, era o dinheiro.

Hiroki corre pelo convés:

– Como não viram aqueles filhos da puta!!? Estamos longe da Oceania! Teremos que fazer aquela manobra...

“A organização não governamental Sea Soldiers...”, dizia uma voz feminina pelo alto-falante do navio inimigo e o rádio da cabine, “... pede educadamente que vocês parem de ser cuzões e partam pra casa! Deixem as baleias em paz!”

“Piratas”, concluo...