Notas iniciais
Não, eu não trabalho pro Greenpeace, mas eu gosto muito de baleias e queria ser a Moby Dick, portanto pode parecer meio idealizado.
Dedicado as pessoas, que em vez de querer ser um panda, queriam ser baleias...

“.......Buscando o sinal......”

“....Contatando a Marinha....Embarcação à deriva...”

“...Nome...Sydney Spethmann....Atividade....Ativista do Sea Soldiers...”

“...Perdendo o sinal.......Dadas as coordenadas.....”

“....Urgente.....Resgate em alto mar....Alguém....”

“....Mandaremos um sinal...”

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Para começar, eu não sei por que eu aceitei esse “emprego”. Eu tinha um futuro promissor como bióloga. Estudei em Harvard, faria doutorado no Canadá, trabalharia em um aquário qualquer da Austrália e... Bem, teria uma vida medíocre que, no fim das contas, acharia que teria valido a pena. Esse é o futuro dos biólogos: Trabalhar em um zoológico qualquer ou, no pior dos casos, montar uma panelinha no Greenpeace. Claro, o que eu escolhi não fora muito diferente da segunda opção, embora possa considerar que essa é mais “divertida”. Eu não recebo um salário, mas sei lá. Vamos nos foder mesmo...

Nós estávamos à dezenas de milhares de quilômetros da Nova Zelândia; Para a época e o local, naturalmente o céu estava com nuvens pesadas e negras em quantidade numerosa e o oceano, arisco. Logo, percebi que um minúsculo pontinho branco e gelado pousara sobre meu nariz.

A cabine de nosso navio (de médio porte, um pouco maior que um navio de pesca, e branco com manchas negras) estava cheia de buracos e desgaste na madeira, devido ao tempo e outras coisinhas que posso citar mais à frente. Aquela manhã, tive o imenso desprazer de descobrir que nosso rádio principal quebrara. Não temos tempo para comprar novos equipamentos de localização, e minhas gambiarras não são definitivas nem satisfatórias. Aperto meu casaco verde-escuro mais contra meu corpo e ponho minha touca. Decido me aventurar fora da cabine. Os flocos começam a cair com mais intensidade sobre o convés.

Desvio das cordas e equipamentos espalhados pelo navio. Tropeço em um pequeno arpão e tento pegá-lo. O metal estava frio de tal forma que uma fina camada de gelo se formara sobre ele. “Merda, esqueci as luvas”, penso. Algumas gaivotas pousam sobre a cabine; o canto é extremamente irritante. Fito o horizonte do mar, tomado por uma densa neblina, e avisto uma massa disforme e colorida, boiando livremente enquanto aves marinhas desajeitadas disputam seu conteúdo. Lixo. Uma pequena ilha de dejetos e plástico pútrido. O ser humano é asqueroso, concluo. Frederick me chama da proa.

- Não se preocupe, Sidney. – Ele grita, enquanto observa a neblina com seus binóculos. – Temos um rádio reserva e internet.

- Não é isso que está me preocupando. – respondo, enquanto dou outra volta pelo convés cheio de tralhas. – Estamos no encalço daquele navio à semanas, e não temos uma localização exata! Onde estão nossos apoios?

- 30° estibordo... – Fred grita – e 36° bombordo... Eles sabem o que fazem, Sidney.

- Menos consertar um rádio direito...

Frederick é um excêntrico escandinavo de meia idade que conheci nos EUA. Seu cabelo loiro desbotado pelo sal e a pele meio enrugada não o impediram de continuar aqui, na solidão do mar. Imagino que eu seja uma espécie de refúgio pro cara, pois estava enlouquecendo com tudo o que via por aí.

Paro atrás dele e largo o arpão aos seus pés. Ele se vira para mim e levanta as sobrancelhas brancas.

- Céus, um arpão! Onde arrumou?

- Entre o nosso equipamento. – respondo secamente por causa do frio. Sento em uma caixa ali próxima e procuro meu isqueiro no bolso. – Deve ser de um de nossos botes.

Ele apenas confirma com a cabeça e continua a observar o horizonte. Começo a aquecer minhas mãos com o isqueiro.

- Ah, achei eles. – ele abaixa os binóculos e aponta para a neblina. Um borrão grande e negro começa a se aproximar de nós. – É o de caça, pegamos no flagra! Não vamos deixar ele chegar ao navio-fábrica!

Ele começa a chamar nossos parceiros no rádio portátil. Retorno á cabine e trato de mover o controle do barco para a esquerda do navio. Ligo o motor e começamos a nos mover mais rápidos. Avisto a direita de nosso navio um de nossos parceiros. Eles mandam um sinal luminoso vermelho para mim, e apontam para um objeto enorme e curvo, que se movia lentamente sobre a superfície do mar escuro.

O grande peixe exibe sua cauda pontuda para fora d’água, e pelo orifício localizado próximo ao torso sai uma fina mistura de ar e água. Pela coloração e formato da cauda, suponho ser uma Baleia-de-Bryde ou um Cachalote errante. Outros três ou quatro a acompanham, enquanto entoam uma melancólica e profunda sinfonia.

Fred esta aprontando os botes de ataque. O arpão foi guardado. Ele se vira para mim e faz um sinal. O navio-fábrica e o de caça possuíam uma pintura negra e vermelha, e estavam bastante próximos de si. Os arpões do menor (de caça) estavam ocupados, alçando uma grande massa cinzenta e branca que não se debatia mais. Suas feridas e cortes profundos expunham as vísceras e sangue muito forte, de tal forma que já alcançara nosso navio pela maré. O cheiro metálico atrai as gaivotas, que pescam os pedaços pequenos de carne.

Sim, eu sabia o que fazer. No canto inferior da cabine, pego um alto-falante e ligo o rádio. Fred alça em nosso mastro uma bandeira branca e azul, com nosso símbolo. Nossos navios parceiro tentam impedir a aproximação dos dois navios grandes e mudam o curso das baleias sobreviventes. Levanto o alto-falante e ligo o rádio. Abro a minha boca e me encho de ar...

“A organização não-governamental Sea Soldiers pede educadamente que parem de ser cuzões e partam para casa. Deixem as baleias em paz”

Na verdade, acho que até gosto deste trabalho...

Notas finais
O resto dos capítulos vão ser lançados ao longo da semana (ou não).