Cavalos Selvagens
21 21 "A primeira de todas as noites"
Notas iniciais

21 — A primeira de todas as noites
Por que ficar em um hotel se tinham aquela mansão como hospedaria?
Era uma pergunta que, de início, não havia sido pensada pelos moradores de Flor de Ouro. Eles cogitavam um hotel no centro da cidade para uma noite após o jantar, quem sabe duas, afinal, não era sempre que se davam ao luxo de passear pela saudosa capital. Mas então, o filho do meio do seu Ivan, ofereceu, e de muito bom grado, valia ressaltar, a humilde casa naquele bairro modesto entre árvores frondosas e grama bem verde.
Por que não?
E depois de poucas horas de viagem com a família Green e uma Tulipa muito mais que animada com o que via pela janela, chegaram ao destino.
Tudo era muito diferente e causava certo deslumbre a quem nunca havia pisado em uma cidade grande e era somente acostumado com as paisagens bucólicas do interior. Em Santa Luz, não tinham prédios nem grandes empresas, nem ruas abarrotadas de carros ou trânsito lento. A última parte, seria bem-vinda por ali também, mas a fila de carros pareceu interminável naquele quase início de tarde.
E Sebastian pensou que não chegariam nunca na casinha do loiro bonitão e não via a hora de descolar a bunda do assento e dar uma espreguiçada por aí. O que demorou um pouquinho mais do que seu humor estava disposto a tolerar. Talvez fosse por esse motivo que não tinha o costume de sair de Santa Luz.
Mas no fim, havia compensado. A vista era linda e o quarto mais que agradável e, segundo uma das camareiras, arrumado especialmente para ele. Vejam só se ele não era alguém importante por aquelas bandas…
Quase riu ao imaginar a preocupação de certo loiro ao pedir para as camareiras que cuidassem daquele quarto em especial. Como se alguém simples como ele, se deixasse seduzir por todo aquele luxo. O que o seduzia, de fato, não tinha nada a ver com mansões, piscinas e ostensivos jardins de inverno, mas, quem sabe, o dono de todos aqueles itens não obtivesse um maior sucesso em seduzi-lo.
Quem sabe.
* * *
Passava das oito quando o Audi RS7 negro estacionou frente a mansão após os portões serem abertos por controle. Todas as pendências na empresa e a correria com o evento da noite seguinte, acabaram monopolizando o tempo que ele passaria com a família recém-chegada do interior.
A pasta foi abandonada no banco ao lado e ele se certificou apenas de carregar o celular ao apalpar o bolso do paletó. A gravata foi logo afrouxada e os cabelos despenteados quando os dedos se enfiaram entre eles ao rumar para dentro da casa.
— Demoram pra servir o jantar...
A voz conhecida se pronunciou, não muito contente, mas a postura logo mudou e Sebastian também mexeu nos cabelos, como se tivesse sido pego no flagra. Não era a cozinha de Tulipa ou da casa da avó. Era um lugar cheio de empregados que não o deixaram em paz desde o momento em que pisou ali, algo irritante para quem não estava acostumado a ter gente servindo até mesmo um copo d'água que fosse. Mas acostumar-se com o que era bom, não era lá muito difícil.
E quando os empregados se dispersaram para a sala de jantar, ele pensou em acompanhá-los.
— Eu não estou atrapalhando. — Deixou claro ao vagar os olhos pela expressão idiota do loiro.
— Não estou te acusando. — Simon dispensou o terno para um lado do sofá e dobrou os punhos da camisa branca. Sequer havia notado que estava sorrindo da maneira que somente fazia na presença do garoto do interior. — Aconteceu alguma coisa? — Afinal, não era para ele estar ali, na cozinha, já que era um convidado e não um empregado.
— Aconteceu que eu estava esperando você chegar. — Uma sobrancelha arqueada e um riso debochado acompanharam a fala, embora nem precisasse, já que era óbvio que ele estava sendo sarcástico. Ácido, talvez.
O que esperar de Sebastian? Docilidade é que não poderia ser.
— Não consigo imaginar uma recepção melhor. — Simon também forçou o sarcasmo, mesmo que falasse sério. — Na verdade, o que poderia ser melhor do que você na minha cozinha e me esperando?
Dessa vez, as duas sobrancelhas de Sebastian se arquearam. Simon era tão absurdamente convencido, que um dos maiores motivos para aquela casa ser enorme, é porque se fosse menor, não comportaria o ego gigantesco daquele loiro metido. Era óbvio que ele não havia descido aquele lance de escadas somente para esperá-lo. Imagina, aqueles degraus todos para ficar feito um mocinho apaixonado, aguardando a entrada triunfal do idiota engravatado.
— Eu na sua cozinha, mas sem todas essas roupas. — Provocar era grátis e não fazia mal a ninguém. E era um pouco hipócrita de sua parte falar de autoestima elevada, quando a sua também mal cabia naquela espaçosa e equipada cozinha. — Mas eu preferi me manter vestido, claro, você não merece essa maravilhosa visão do meu corpinho nu.
Filho da mãe! Mas verdade seja dita, Simon não andava merecendo muita coisa.
— Não mereço nem mesmo as suas respostas nas mensagens ou ligações. — O ar leve de antes se tornou mais sério e os braços se cruzaram sobre o peito. — Leu a última mensagem. — Não era uma pergunta, somente uma afirmativa.
— Eu li…? — Sebastian fez ares falsamente pensativos. — Qual delas? São tantas. — Ainda queria ouvi-lo dizer, afinal, via o intenso brilho de insistência nos malditos olhos verdes que não deixavam os seus por nada.
Mas antes que Simon pudesse responder, a família surgiu para cumprimentá-lo e se prepararem para o jantar.
* * *
Victor estava como o sol, como Jackie gostava de compará-lo; radiante e dourado.
O sorriso não o deixava durante o jantar, embora não estivesse com a família toda reunida, estavam em maior parte e isso já era o suficiente para fazer um calorzinho gostoso aquecer o peito. Era parte do sonho ali.
Simon e Ivan não deixavam o assunto morrer, trazendo coisas do passado que todos os familiares gostavam de discutir. Era divertido, leve e aconchegante, embora seus olhos retornassem sempre ao mesmo ponto. Para alguém em especial.
Alguém o qual ele realmente desejava ter algumas horas de conversas e a tão prezada reconciliação.
Claro, caso houvesse algum retorno entre eles.
Desde que saíra da empresa, um pouco mais cedo para encontrar os parentes e amigos ainda acordados, que seu olhar foi cativo de saudosos olhos negros e puxados de um jeitinho adorável e atraente. Teriam tido aquela conversa na cozinha, mas não era o momento e lugar para algo assim.
Passara parte do dia pensando em como seria chegar em casa e encontrá-lo. Provavelmente ficaria ainda mais ansioso, já que talvez se cumprimentariam com palavras ou um polido aperto de mãos. O que estava longe de querer fazer, mas se comportaria e não correria o risco de levar um soco ou de chocar a família.
Ao menos, não ainda.
E como pensado, depois das poucas palavras trocadas, abraçou os mais chegados e fez festa com os sobrinhos, e embora estivesse sim, imerso nas conversas com o pai e em toda a afetuosidade recebida, os olhos eram sempre atraídos para os de Sebastian.
O alvo de seus olhares furtivos, não mostrava-se afetado por nada, no entanto. Não era como se estivesse à vontade, já que não estava em sua casa e nada por ali era simples.
A sala de jantar, certamente era do tamanho de toda a casa que deixara em Santa Luz, tão cheia de adereços e com um lustre que garantiria uma vida longe de problemas financeiros com os quais se acostumara. Nesses detalhes, via o quanto pertenciam a mundos diferentes.
Todo aquele luxo, causava certo receio ao pensar que, justamente o dono daquela mansão, o egocêntrico senhor de uma renomada empresa e de nome reconhecido, estava, evidentemente, interessado em sua pessoa. Bem, evidente era eufemismo, devia haver uma palavra que melhor expressasse o que aqueles olhares significavam.
E Simon ainda estava com o seu colar.
E se tudo estivesse realmente certo e não restasse mais dúvidas, o pegaria de volta.
O loiro embonecado podia dar muito nas vistas, mas ele não era o único impaciente ou de dedos e lábios nervosos para tocar e beijar partes específicas do corpo que mal podia ver devido as roupas que ele usava.
Aquele ar casual e bagunçado. Céus! Era uma visão e tanto vê-lo com os cabelos úmidos e usando camiseta estampada e calças jeans. Mas também era muito sexy quando ele usava terno e gravata. O infeliz era sexy até mesmo usando um saco de batatas.
— Eu adorei o jantar, mas ainda prefiro a minha comida. — O comentário veio de Tulipa. Não que estivesse desdenhando da artilharia pesada que Simon tinha na cozinha, mas ao ouvir os elogios de Ivan para com a cozinheira, não conseguiu manter a língua quieta. — Não concorda, Ivanzito?
A vida de Ivan estava dependendo daquela resposta, pois o olhar e tom de Tulipa, deixavam claro que ela não o deixaria esquecer aquela desfeita com seus dotes culinários. Jamais!
— Não há nada como a sua comida, Lipa, mas o patrãozinho ainda não experimentou as outras coisas. — Sebastian jamais perderia a oportunidade de implicar com o casal que não era casal. E como sempre, recebeu um olhar reprovador do patrão, mas Tulipa pareceu concordar com sua fala. Ela era sua mãe que não era sua mãe.
— Que outras coisas? — Foi Daniel quem perguntou. Os olhinhos brilhando em curiosidade. — A gente pode experimentar também?
— Se for doce, eu quero. — Denver jamais dispensaria um doce feito pela dona Lipa. Ele havia começado uma guerra de comida com os irmãos, mas lembrou-se de Blue e ficou ressabiado quanto a ter deixado o amigo tão longe. Ao menos ia ver o pai e impedir que ele fosse embora.
— São coisas de adultos. — Dilan estava com um bigode de suco, mas a costumeira expressão que deixava clara que era o irmão mais inteligente e preocupado com isso. — Eles demoraram pra responder. — E não precisava ser nenhum gênio para ver nos rostos de cada um, que as crianças não deveriam se intrometer naquele assunto. Como sempre.
— Mas o senhor, só não experimentou as outras coisas, porque ainda não quis. — Tulipa fez questão de ser inconveniente como Sebastian. Oras, era mesmo verdade. Estava para nascer homem mais difícil que aquele.
E a partir desses comentários, surgiu uma pequena discussão entre os adultos e não havia família mais unida que aquela e permaneceram entre tapas e beijos até a hora de dormir.
— Espero que se comportem. — Foi o que Simon disse ao ver Tulipa indo para o quarto com Ivan. Para serem mesmo um casal, só faltava assumirem o relacionamento e marcarem a data do casamento.
— Não posso garantir nada quando estou com o patrãozinho. — Lipa cantarolou, fazendo Ivan suspirar pelos abusos dela. Oras! Ele já devia ter se acostumado.
— Tão espirituosos. — Victor tinha aquele olhar de quem pegaria o buquê da noiva no tal do casamento.
— Eles são, mas eu vou ficar de olho em vocês. — Simon avisou ao ceder um olhar cauteloso aos pombinhos. E sim, estava falando sério.
— A noite toda? — Jackie decidiu provocar. Claro, como se tivesse idade para que alguém precisasse observar e colocar regras em seu relacionamento. Era bem crescidinho e Victor também. — Tipo um cão de guarda?
— Vocês dois… — O tom de Victor soou em alerta ao ver aqueles dois rosnando um para o outro. — Nada de brigas.
— Só estamos conversando como gente civilizada. — O cowboy ironizou e aproveitou para enlaçar Victor pela cintura e estalar um beijo nos lábios gostosos dele. — Mas agora a gente vai dormir. De um jeitinho bem civilizado.
Victor sentiu o rosto queimar e desejou um boa noite atrapalhado ao irmão ao puxar Jackie para as escadas. Não tinha como esporte implicar com ele, mas o cowboy pareceu mais que satisfeito com a ceninha que tinham protagonizado. E foram cada um para um quarto diferente, é claro. Mas talvez, depois que todos estivessem dormindo...
Quando Simon se viu sozinho na sala de estar – Sebastian havia escapulido em algum momento –, decidiu ir para fora em busca do ar fresco da noite. Não costumava jantar com toda aquela cerimônia, era sempre ele, algum amigo ou a ex-noiva.
Pamela.
Não havia conversado com ela depois de tudo. Ela pareceu muito segura quanto ao término e disse que ele não precisava se desculpar. Não tinha sido ruim para ela, ao menos, não como ela costumava enxergar, de um jeito distorcido.
Mas ele era bem mesmo um canalha.
Estar com alguém somente para fazer acreditar que poderia esquecer outra pessoa, tinha sido uma das piores ideias. Tão estúpida quanto abrir mão de uma vida mais livre e sem se importar com o que iriam dizer ou cochichar quando caminhasse pela empresa. Se não desse tanta importância às aparências, não estaria àquela hora da noite, perdendo sono quando no dia seguinte, teria um importante jantar e precisaria se mostrar bem-disposto aos sócios e convidados.
Precisava ir descansar. Era a única conclusão depois de tudo.
— É mesmo uma casa modesta.
A voz conhecida a qual tanto desejou ouvir, causou uma maior onda de ansiedade em seu estado deplorável de nervosismo com o prenúncio de um encontro a sós. Poderia encontrá-lo pela manhã, tomando o café e comentando trivialidades à mesa, mas havia a possibilidade de encontrá-lo ainda naquela noite, caso ele descesse em busca de água ou simplesmente de vê-lo. Pensava muito na segunda opção, embora ele jamais fosse admitir.
— Você disse uma vez — Ele continuou ao descer os degraus e ganhar a visão do céu noturno ao descer para a área comum. Havia poucas estrelas no manto negro, e ele sabia que os céus eram diferentes lá no campo. Preferia os pontinhos prateados e o sorriso cínico da lua, mas podia tolerar a falta de brilho por um ou dois dias. —, que me levaria pra morar com você nessa sua casa modesta.
O vento fresco bagunçou os fios lisos que contornavam o rosto e Simon se sentiu nos dias mais simples de Flor de Ouro ao lado do garoto que cuidava dos cavalos. Sebastian sempre tivera um brilho natural, fosse no sorriso ou no cintilar das íris negras, ele brilhava com sua luz própria, mas talvez não percebesse esse grato detalhe.
— Eu disse muitas coisas naquela época. — O tom era pesado de quem não gostaria de falar do passado, embora ele estivesse tão vivo quanto o presente. E ainda tinha medo das consequências.
— Eu me lembro. De todas elas. — Ao contrário do peso que o loiro parecia carregar, Sebastian estava leve como aquela brisa. Não queria brigar, não queria se martirizar ou esfregar na cara do mais velho o quanto ele havia errado, só queria conversar e não sentir aquela melancolia dos infernos e o nó na garganta. — E então, mesmo depois de ouvir da sua boca todo o seu arrependimento, ainda não sinto que deveria confiar naquela mensagem.
A mensagem sobre ele não ser mais um homem comprometido. E quem poderia culpá-lo por simplesmente não dar um voto de confiança em sua sinceridade quando o havia magoado com mentiras naqueles dias passados? Os dedos buscaram pelos dois pingentes que carregava no pescoço e o colar com a ferradura foi retirado. Lembrava-se do dia em que o havia presenteado com a joia.
Por uns momentos, deixou a realidade e voltou no tempo.
— É para dar sorte. — O colar fino foi fechado no pescoço de Sebastian, momentos depois de tirá-lo da caixa de veludo vermelho. Receber aquele olhar cheio de fascínio, foi sua maior recompensa do dia. Ele tinha um sorriso lindo, que deixava os olhos ainda mais pequenos. — E você gosta tanto de cavalos. — Achou que nada poderia combinar melhor com ele.
Sebastian deu a ele um sorriso descrente e rolou os olhos ao se pegar corado. Aqueles momentos de timidez eram tão raros, que Simon os guardava todos na memória.
— Eu não disse que ia aceitar. — Sebastian falou ao tocar a pequena ferradura dourada e com vários pontinhos luminosos.
— E por que não aceitaria? Estou retribuindo o presente. — O lembrou do cordão negro com pingente de pena que ele o havia dado na semana passada.
— Eu só espero que seja sorte no amor. — Murmurou ao suspirar, ainda admirando a delicadeza da joia. — É muito bonito, mas não posso ficar com algo assim. Isso aqui deve valer mais do que a minha casa. — Exagerou ao tentar retirar o colar.
Gesto que ele logo impediu.
— Foi feito pra você. — Enfatizou. Combinava com o presente que havia recebido dele. E antes que ouvisse mais algum motivo para que ele recusasse, pousou as mãos no rosto dele e o beijou.
As coisas eram bem simples naqueles dias.
Ma agora...
— Eu quero, mas não é fácil.
E talvez nunca chegasse a ser, mas Simon precisava recuperar aquela confiança e resgatar o sentimento que compartilhavam. Sebastian não era do tipo que dizia palavras bonitas ou de carinho, ele não se declarava, não ligava com frequência e não respondia suas mensagens, mas ele não precisava fazer nada disso para que soubesse que ele também o amava. E que mesmo depois de tudo, a chama ainda permanecia acesa e esperançosa.
— Se… Ficar um tempo aqui, comigo, eu posso te mostrar que é real. — Assim como tudo o que havia dito dentro do carro na estrada de terra em Santa Luz. — Nós podemos ficar juntos, se você ainda quiser.
Os olhos puxados e pretos feito tinta, miraram os verdes claros por alguns momentos após o convite. Nada era fácil entre eles, mas havia o palpável sentimento ondulando no ar, nas respirações alteradas, nos olhares conectados e nos lábios que ansiavam pelos beijos dos quais foram privados durante aquele tempo.
Soava poético.
Eles eram uma mistura excêntrica de duas almas completamente opostas, mas que completavam-se de várias maneiras estranhas e confusas.
Sebastian amava falar, Simon era reservado e só falava com quem conhecia. Sebastian amava lugares cheios, Simon preferia ficar atrás de um computador no conforto da casa. Sebastian era o centro das atenções, Simon era o cara antissocial que cruzava os braços e não via a hora de ir embora. Sebastian era a simplicidade do campo, Simon era a extravagância da cidade. Sebastian amava o garoto da capital, Simon amava o garoto do interior. E como toda a pureza de um sentimento despertado há anos, não precisava ser explicado, apenas sentido.
Talvez, estivessem ocupados demais sendo um do outro, para se apaixonarem por outras pessoas.
Os dedos frios de Simon encontraram os dedos quentes de Sebastian, e até aí eram opostos. E quando a mão dele se dispersou da sua, o peito doeu com uma provável rejeição. Seria merecido, ficar sozinho no fim, por ter sido tão estúpido naqueles dias, mas não era o que esperava.
E depois daquele gesto, seria precipitado o próximo passo? Não que fosse sua última tentativa, afinal, havia esperado tanto tempo, em conflitos, em pensamentos fantasiosos e na certeza de que ele era a pessoa certa, não seria agora que desistiria. Não seria o cara chato e insistente que sequer deixa o par respirar, mas tinha em mente que deveria reconquistá-lo em gestos e palavras diárias. Mostrar que sim, que estava mudado e realmente sério quanto àquela decisão.
— Eu posso? — Perguntou ao se reaproximar. A joia pronta para ser fechada ao pescoço dele, mas precisava de uma confirmação verbalizada, não somente do olhar úmido e negro ainda cheio de conflitos.
Poucos centímetros o separava de ter os lábios junto aos dele. Sentia a respiração aquecida de encontro ao rosto, o cheiro suave do sabonete, o calor tão convidativo da pele que possuía o tom mais bonito e atraente em sua opinião, e os cabelos ainda úmidos, com o mesmo saudoso aroma de shampoo. Quis tocá-lo, mas controlou-se para não estragar o momento. Ou o que achava que era o momento certo entre eles.
— Sem dúvidas?
A voz demorou um pouco a surgir, deixando o loiro apreensivo com uma possível e temida resposta negativa. Não saberia o que fazer caso ele não o permitisse devolver o colar. Significaria tantas coisas que sequer tinha se preparado para ouvi-lo negar e vê-lo se afastar e sumir em definitivo de sua vida. Doeria da maneira que doera ao dar-se conta do que havia feito; negando o que sentia e colocando palavras tão estupidamente ridículas e infantis para alegar a separação.
— Nenhuma.
O suave e o cítrico envolveram ainda mais o ar quando os cabelos longos foram afastados e ele se virou de costas, permitindo que fizesse o que desejava. O pingente voltou para o lugar onde pertencia, repousando sobre a pele avermelhada. Tinha sido feito para ficar ali. Tinha sido feito para ele.
E se em algum momento não teve a certeza de que o sentimento ainda era recíproco, agora não restariam mais inseguranças.
A despeito de sentir que deveria se afastar e deixar que ele se pronunciasse e externasse o que seriam deles, os dedos não se abaixaram, pousaram no pescoço exposto e experimentaram a temperatura no tato, percorrendo um caminho até o ombro sobre a camiseta lisa e descendo para os braços, unindo as mãos em um caloroso enlace.
A respiração deixou os pulmões com um som pesado, como se ele ainda não estivesse certo sobre o que fazia. No entanto, não se afastou, não o repeliu, permitiu o contato entre os dedos e permitiu que seus lábios o tocassem. A boca trilhou um caminho de carícias do ombro até o pescoço, onde mordeu sedutoramente e sorriu contra a pele arrepiada, provocando Sebastian que o afastou sutilmente para virar de frente e encará-lo nos olhos.
Estavam bem. Estavam juntos.
— 'Tá rindo, bonitão? — A voz mais baixa e sensual acariciou os ouvidos do loiro, que não perdeu o sorriso. O momento era lindo, de reconciliação, com uma trilha sonora dramática – que estava apenas em sua cabeça – e de palavras românticas com a promessa de um futuro juntos até que ficassem velhinhos, um ao lado do outro. Tudo maravilhoso e azul... Mas deixando um pouco da baboseira melodramática de lado... — Isso aqui — Os dedos envolveram o pingente. — me dá o direito de quebrar a sua cara, caso você surte e seja o filho da puta de antes, certo?
As sobrancelhas claras de Simon se arquearam com a pergunta que não podia pertencer a mais ninguém se não ao garoto de brilho afiado naqueles olhos estupidamente sedutores.
— O que você quiser. — As mãos rumaram para o pescoço de Sebastian e os dedos mergulharam nos fios negros, trazendo-o novamente para perto. E novamente a um suspiro de tocar os lábios aos carnudos e atraentes. Sempre a um passo de querer beijá-lo. — Eu pensei em você todas as noites durante esses dias, meses, anos... — A testa se apoiou a dele. Um contato terno que exprimia o desejo e a sinceridade dos sentimentos. — Vai ser diferente agora. Do jeito certo. Da maneira que era para ter sido antes.
— Você é ridículo dizendo essas coisas. — Mas não era ridículo de ouvir. As noites eram feitas para dizer aquelas coisas. Coisas que não precisariam dizer no dia seguinte.
— Pode ser ridículo, mas eu preciso dizer que você é importante e o quanto eu te amo. — Quem diria que falaria assim de amor? E de maneira tão sincera e aberta. Quem o conhecia, sabia o quão reservado ele era em assuntos envolvendo sentimentos, mas com Sebastian, as reservas não tinham espaço. Tornava-se tão piegas quanto os amigos os quais ele costumava implicar.
— Ah, cala essa boca! — Os olhos negros rolaram, embora ele não quisesse realmente que o outro se calasse. Simon podia dizer quantas vezes quisesse que o amava, mas nem por isso ele ia ficar se derretendo e pedindo para que ele repetisse. Ao menos, isso jamais aconteceria em voz alta.
E para variar, estava com as bochechas coradas e nem havia bebido.
— Tem um jeito melhor de me fazer calar.
Sebastian conhecia várias maneiras de fazer aquele loiro deixar de cantar floreios e declarações aos seus ouvidos. Poderia fazer uma lista, caso ele solicitasse. Sabia onde beijar, tocar e morder para fazer com que ele perdesse aquele riso bobo e toda a compostura de mocinho engravatado.
E como sentiu o desafio no tom de voz e nos olhos verdes e felinos, não se fez de rogado ao desviar os lábios da boca dele e ir sentir o perfume do pescoço pálido. O cheiro de gente importada, trazendo lembranças e enchendo-o de excitação, afinal, era o cheiro dele.
As mãos subiram para tocar as dele quando Simon segurou seu rosto. As mãos dele eram tão pálidas e macias em contraste com as suas. Suaves, embora o toque fosse forte e proporcionasse arrepios e calor por sua pele nua.
Tiveram novamente aquele contato saudoso entre os olhares e peles. As respirações acariciando as faces e o calor do desejo elevado pelo momento.
Eram como fogo e gasolina, ficando próximos... Entravam em combustão.
O findar da pouca distância trouxe os lábios de Sebastian aos de Simon; sem pesar, sem confusões, dúvidas ou receios. Foi um beijo que exprimia bons sentimentos e desejos futuros. Agora era uma confirmação.
Livres. Ambos mais maduros e dispostos a tentarem uma segunda vez.
O gosto era de promessa. Não era doce como os clichês faziam parecer, era melhor. Era apaixonado, sensual, mas era sincero. Era quente, e logo a necessidade de partilhar outros toques além dos lábios, fez-se necessária.
Como fogo de rastilho, os dedos se espalharam pelo corpo um do outro, adentrando as peças de roupas e trilhando caminhos fervorosos pelas peles descobertas.
O calor envolvente, embalando-os em suspiros, afagos e beijos úmidos. Reivindicando cada pedacinho um do outro até se fazer necessária a separação, mas foi somente para recomeçarem.
Afinal, as noites não serviam apenas para as palavras não ditas pela manhã, para eles, aquela era a primeira de todas as noites que estavam por vir.
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