Cavalos Selvagens

19 19 "À beira do abismo"


Notas iniciais
Opa! Olha o último capítulo de 2018! Eu tardo, mas não falho! Vamos aos agradecimentos ♥ Agradeço a todos que estão me apoiando e que sempre me motivam a continuar. Todo mundo que favorita, lê e comenta; Sairenjii, Ghost, Alexandro, JuhLucena, Gabriela Michaelis, Persephone Oleander, Nilla, Ariane Munhoz, Madame Górgona, ShalaNala, VSPinheiro, Deby Costa, princesa de jade e larryfantasia. 'Cêis são demais! Obrigada mesmo por todo o apoio. Agradecer a bff que sempre surta comigo e que leu o cap pra me tirar as neuras ^^ Luna Valdez ♥ Vamos ao capítulo, perdoem os erros, eu dei uma passada de olho pelo texto, espero que isso não atrapalhe muito a leitura, mas tô cansada (olha a desculpa safada) e queria postar logo XD Espero que gostem! Boa leitura!

Capítulo 19 — À beira do abismo

Quando Victor abriu os olhos, preguiçoso e ainda letárgico pelo sono, não encontrou o travesseiro a apoiar a cabeça, mas sim algo que o deixou com o coração aos pulos e o rosto em ebulição.

Logo se deu conta de que dormiram juntos. Juntos! Com ele bem confortável sobre o peito nu do cowboy e uma das pernas entrelaçadas na dele. Tudo o que fizeram na noite anterior escorreu feito água e, se fosse possível, o rosto esquentou ainda mais.

Jackie ainda dormia, confortável. Um braço em sua cintura e as feições leves. Tão atraente que teve vontade de espancá-lo. Como era possível? A barba desenhada, a pele morena, os músculos bem trabalhados e aqueles cabelos. Tinha fixação por aqueles fios lisos e castanhos. Quase suspirou com a visão, a visão que foi descendo e… E… Oh! Sentiu o coração acelerar, por vários motivos os quais ainda não havia parado para pensar. Certo! Era melhor acordá-lo.

Poderia despertá-lo com um tapa, um empurrão, um beijinho no pescoço. Havia muitas possibilidades. E enquanto pensava em qual delas usaria, porque era simplesmente impossível conseguir se decidir, sobressaltou-se com a movimentação ao lado e corou feito um morango ao se dar conta de para onde exatamente estava olhando. Não era um maldito pervertido, não mesmo!

— Bom dia. — A voz rouca pela falta de uso e o sorriso charmoso fizeram os pelinhos da nuca de Victor se arrepiarem. — Desculpa por tudo isso. — Soou um pouquinho culpado, embora ainda sorrisse.

— Tu-Tudo isso? — Victor tropeçou nas palavras, virou o rosto e puxou os lençóis. Pronto, agora estava seguro, porque um lençol era capaz de proteger a todos de qualquer maldade e… Certo, o que raios estava pensando? O cérebro ainda estava lento pelo sono, era isso.

— Tudo isso, loiro. — Jackie acabou rindo do jeitinho adorável e acanhado de Victor. Depois do tornado da noite anterior, ele voltava a ser o garoto tímido de sempre. Interessante. — Sobre ter dormido aqui, sabe. Acabei pegando no sono depois—

— É! Eu também. — Até as orelhas estavam coradas e ele acabou mordendo o lábio inferior. Toda a coragem da noite passada, transformando-se em receio. As coisas mudavam no dia seguinte. Dolorosamente.

— Sobre ontem. Nós—

— Se arrependeu? — Mais uma vez ele cortou a frase do cowboy, impaciente e temeroso de uma resposta positiva. O rosto virou para o lado e se deu conta de como estavam próximos. Os olhos chegaram a tremular, apreensivos em expectativa. — É isso?

Jackie poderia entrar na questão sobre a falta de confiança que Victor nutria por ele. Tinha sido e era sincero em cada gesto ou palavra e achava que não sobrava espaço para desconfianças, mas se colocou no lugar dele e o entendeu. Estar em um relacionamento era compreender o parceiro. E bem, estavam juntos.

— Não. — Os dedos afastaram os fios loiros do rosto apreensivo, mas tão bonito, e os lábios tocaram a bochecha corada. — Eu não me arrependo de nada. — Não era homem de se arrepender dos atos, mas teria tempo para mostrar e provar os sentimentos que, mesmo repentinos, eram verdadeiros.

A resposta negativa, o sussurro, a boca quente em sua pele, todo o contato e clima o aqueceram. Jackie parecia saber exatamente como acalmá-lo em poucas palavras e gestos, que eram sempre tão carinhosos, quentes e tão espontâneos. Mas insistia em pensar que era tudo rápido e que o arrependimento podia surgir, afinal, aquilo não era um conto de fadas, e ainda não era mais forte que as inseguranças.

— Desculpa. — Murmurou envergonhado ao esconder o rosto no pescoço do cowboy. Pareceu um filhote de gato pedindo por carinho, aninhando-se em um abraço. Abraços eram tão bons, tão reconfortantes. Jackie era caloroso, protetor. Tinha tudo para deixá-lo seguro. — Não é que eu queira desconfiar de… De tudo, mas eu prometo não deixar a insegurança estragar esse início de... A nossa relação. — Acabou se envergonhando novamente, por cogitar usar uma certa palavrinha, o que soaria bobo, bobo demais, porém, foi só ver o sorrisinho implicante naquele rosto bonito para entender que lá vinham mais pérolas. E para sua surpresa, Jackie ficou quieto quanto a esse detalhe.

— Eu vou conquistar a sua confiança também. — Piscou um dos olhos e entortou mais o sorriso, fazendo o loiro corar novamente. Em poucos minutos, Victor tinha corado para uma vida inteira!

— Também…? — Pareceu presunçosa aquela fala, e os olhos verdes se estreitaram.

— Precisamos mesmo entrar nesse assunto? — Jackie escorregou as mãos para os quadris de Victor assim que ele fez menção de se afastar e o trouxe para o colo, colando o peito às costas do loiro. — Porque 'tá bem óbvio pra mim.

— Quem foi que se interessou primeiro? — Victor atacou, embora a fala tivesse saído da garganta frágil e trêmula com o toque que recebeu.

— Culpado se apresentando. — O sorriso que se estendeu pelos lábios percorreu a nuca arrepiada até o lóbulo da orelha, onde deixou os dentes brincarem na região. Se Victor tinha aquela fixação por seus cabelos e braços, ele adorava as orelhas que ele tanto insistia em esconder e o desenho sinuoso do pescoço. Pescoço que no momento tinha uma marca bem evidente na pele clara. Victor era tão branquinho, que só de relar já ficava marcado. — Acabei me empolgando. — Tocou o local com o polegar e sobressaltou o companheiro.

— Não acredito! — Victor correu para o banheiro, tropeçando nos lençóis que deixou para trás, esquecendo-se que estava sem roupas. Precisava ver o estrago que a empolgação de Jackie havia feito. Acabou bufando, frustrado. Seria impossível esconder aquilo sem que percebessem. Logo ele que era tão discreto. Sebastian certamente teria algumas dicas, mas teria que aguentar as provocações do amigo e não parecia muito inclinado a esse detalhe. — Eu dormi com um cão, só pode! — Constatou, ainda ressabiado com o que faria quanto ao chupão.

— Pensei que eu fosse um cowboy, não um cão.

Como é que aquele homem chegava de maneira tão sorrateira? Victor se pegou pensando se era distraído ou se Jackie era mesmo tão silencioso com todo aquele tamanho.

— Um pouco dos dois. — Respondeu afogueado ao ter o corpo novamente envolvido por aqueles braços. — Agora… Agora eu preciso tomar banho e me vestir. — Sentenciou ao tentar afastá-lo com o cotovelo. Uma tentativa não mais que inútil.

— Eu sou bem preocupado com o meio ambiente. — Jackie ignorou a evasiva de Victor e o puxou para dentro do box. — Desperdício de água, essas coisas. E — Acrescentou quando o viu abrir a boca para contestar. —, se compartilharmos esse banho, vamos economizar. — O sorriso não poderia ser mais cara de pau, mas a lógica era válida.

— Economia de água, sei… — A fala arrastada veio pouco antes de o registro ser aberto. A água os envolveu, fria nas peles quentes. — A sua sorte é que eu também abomino esses desperdícios, cowboy. E assim, apagamos esse teu fogo matinal. — Os braços envolveram o pescoço de Jackie e ele rolou os olhos ao ver o sorrisinho sacana se desenhar nos lábios que fez questão de logo beijar, evitando uma possível provocação.

E tinha deixado claro que iriam com calma, mas ficava difícil levar a sério a própria frase quando era praticamente atacado com todo o vigor de uma manhã bem desperta.

* * *

As mãozinhas de Denver se apertaram nas barras da bermuda.

Por qual motivo uma criança ficaria preocupada?

Talvez por algum brinquedo quebrado, alguma briga com os irmãos ou amigos, a promessa de uma bronca…? Talvez.

Ele não era o irmão mais aplicado no colégio, não sabia ler como Dilan e não era sensível e amoroso como Daniel, mas era o mais apegado ao pai. E esse era o motivo da preocupação… Não quis perguntar nada aos irmãos, afinal eram somente crianças, mais espertas, mas ainda crianças. Não quis perguntar ao avô, pois Tulipa o alertara sobre não deixá-lo nervoso com muitas perguntas. Não perguntou ao tio e nem ao Jackie, eles ainda nem tinham se levantado, mas havia alguém que talvez soubesse.

Ouviu dizer que Sebastian não era tão adulto quanto os outros, e sempre ouvia os mais velhos o chamando de “garoto”, mas se era ainda só um garoto, ele era bem alto para fazer parte do trio.

Ele devia saber o significado daquela palavra estranha e que não soava nada bem.

Sentiu a euforia tomar conta quando o viu se aproximar, saberia a tão desejada resposta, mas então, os gêmeos correram até ele, antes que pudesse se pronunciar.

Mas o garoto índio trazia uma coisa, ou melhor, uma casa! E ele logo se animou também.

— Nossa é uma casa de verdade! — Daniel se mostrou ainda mais animado que os irmãos com a novidade. Mas era sem graça, não tinha cor alguma. — A gente pode pintar! — Bateu palmas, era uma ideia brilhante.

— Você não sabe pintar. É péssimo nisso. — Denver empurrou o gêmeo para o lado e observou a casa de madeira, esquecendo-se momentaneamente da preocupação. — Podemos usar azul. Todo mundo gosta de azul.

— Mas ele não gosta! — Daniel apontou para o cãozinho que… Bem, não era tão cãozinho assim. O canino abanava o rabo e fazia festa para o recém-chegado.

— E como é que 'cê sabe?

— Porque ele não é todo mundo! — Não era óbvio? A mãe sempre dizia isso, mas também, como é que alguém poderia ser todos ao mesmo tempo?

Dilan foi o único que ficou calado, constrangido com a briga ridícula dos irmãos.

— Primeiro de tudo, qual é o nome dele? — Sebastian agora apontava para o cão de pelagem clara, ou talvez, ele fosse mesmo aquele tom de terra e barro. Estava um horror! O pobrezinho precisava de um banho.

O trio se entreolhou e perceberam que não tinham encontrado um nome para o novo amigo. Que péssimos donos eles eram. Encolheram os ombros, culpados. Era a primeira coisa que deviam decidir.

— Vamos pensar em algo legal. — Sebastian se abaixou e foi logo atacado pelo cão com lambidas e aquelas unhas que mais pareciam garras de urubu. Preferia os cavalos, mas podia se acostumar com a presença de um animal que não relinchava. — Que tal Blue? — Perguntou ao observar os olhos brilhantes e pedintes. — Tudo em inglês fica mais legal. — E ele era um poço de criatividade! Ficava impressionado com a capacidade que tinha em ser tão criativo…

— Blue é legal! — Daniel sorriu e correu para acariciar o amigo canino.

— É melhor que ficar sem nome. — Dilan deu de ombros. Era mais respeitoso com o bichinho também. Viver sem nome devia ser algo triste.

— Tá, então pode ser. — Não que Denver discordasse, ele só nunca se mostrava muito empolgado quando a ideia não era sua.

— Já fiz a minha boa ação do dia. — Sebastian inspirou o ar e afastou Blue pelas patas, batendo as mãos para espantar a terra. O que não deu muito certo. — A babá de vocês já vem aí, se comportem e tentem não explodir a casinha. Tentem não se explodir também. Melhor! Nem respirem! — Porque era bem sensato usar a palavra explodir com aqueles três pirralhos. Quando se afastou, porém, sentiu algo se agarrar em sua perna e encontrou os olhos redondos de um terrorista mirim. — Olha, garoto, não precisa ficar emotivo por isso, desgruda que eu tenho que trabalhar. — Tentou retomar a caminhada, mas Denver continuou ali. — O que você quer?

— Você é adulto, né? — O loirinho perguntou ao soltar a perna do mais velho e se afastar um pouquinho. Sebastian não era lá muito paciente.

Talvez aquela fosse a pergunta mais conflituosa de todas as perguntas conflituosas existentes. Pensou em algumas atitudes adultas, mas não conseguiu se lembrar de nenhuma no momento.

— Depende. — E essa era a melhor resposta, claro. — Por quê?

Denver se abaixou e moveu os dedinhos na terra, fazendo Sebastian franzir o cenho para a mão imunda com a qual ele coçou a bochecha.

Oras, ele não tinha o dia todo!

— O que é “assinar um divórcio?” — O rostinho tocado por uma curiosidade genuína, embora houvesse um brilho de apreensão pairando nas orbes.

Certo. Talvez Sebastian não fosse tão adulto assim para lidar com aquele assunto.

* * *

A mesa era sempre farta, não podiam reclamar dos quitutes e muito menos da cozinheira, mas a mesa pareceu especialmente maior naquela manhã.

— Parece que estão todos atrasados pro café. — Ivan comentou assim que Tulipa alcançou a mesa. Ele até havia conferido as horas no relógio, certificando-se de que estava mesmo tarde. Nem mesmo Sebastian estava ali. O que era, no mínimo, surpreendente.

— Eu não vou reclamar. — Tulipa sorriu faceira, enrolando uma mecha do cabelo nos dedos. — Assim passamos mais tempo juntinhos. — O que era ótimo.

Ivan sempre acabava rindo com a ousadia daquela mulher. Não negava que a companhia dela era sim, muito agradável, mas também nunca havia externado o pensamento. Talvez devesse se deixar levar mais pelo entusiasmo dela.

— Então por que não se senta? — Puxou uma cadeira e arqueou umas das sobrancelhas. Um sorriso despretensioso nos lábios. Tulipa sempre era convidada para desfrutar das refeições junto da família, até porquê, ela estava ali há tanto tempo que era mesmo da família, não havia o que contestar. Se não se sentava junto a eles, era simplesmente por não conseguir ficar parada mais que cinco minutos. Ela era uma explosão de energia. Algo que Ivan invejava, ao passo que também admirava.

Tulipa observou a cadeira por uns instantes, mas logo se sentou. Então aquele era o momento em que Ivan confessava seu amor de eras? Oh! Malditas novelas melodramáticas que a deixavam esperançosa e mais romântica.

— Acha que eu deveria subir e bater à porta? Sabe, talvez perderam a hora… — Acabou se preocupando com a ausência de Victor e Jackie. Eram tão pontuais que chegava a ser estranho.

— Pensei que quisesse um momento a sós. — Ivan comentou, parecendo estranhamente divertido com o repentino nervosismo de Tulipa. Ela era mesmo bonita, embora isso fosse evidente desde quando ainda era só uma menina.

— É você quem nunca quer esse momento. Foge de mim como o diabo foge da cruz. — Soou ressentida. Estavam naquela de gato e rato a tanto tempo… Não que fosse desistir. Só pararia quando tivesse um anel no dedo e fossem em direção ao altar. O que deveria estar muito, muito próximo de acontecer.

— Está exagerando. — Como sempre. Ele custaria a admitir que sim, fugiria para as colinas se pudesse. Certo, ele estava exagerando.

— Sabe que não. — Tulipa respondeu, afiada. — Mas com aquela magricela lá, pareceu muito à vontade. — E agora estava alfinetando sem delicadeza alguma.

Ivan arqueou então as duas sobrancelhas. Quem era a tal da magricela?

— A mãe do Sebastian. — Ela respondeu ao ver o questionamento pairando nas feições do patrão. — Ficaram bastante tempo conversando. — E ela ainda teve que servir a fulana que nem disfarçou o interesse em Ivan. Adorava o filho da magricela, mas não tinha simpatizado nem um pouquinho com ela.

— Ah. — Ivan balançou a cabeça. Algo assim só poderia vir mesmo de alguém ciumenta como Tulipa. — Conversamos sobre o Sebastian. Eu ajeitei o terreno pra ela. Assuntos de família são sempre sérios, você sabe.

— Ouvi claramente quando ela o elogiou. Que abusada! — Cruzou as pernas para descruzá-las e cruzá-las novamente. Talvez estivesse nervosa? Talvez. — Minha vassoura e panelas estão doidinhas pra conversarem com ela. — Não somente esses utensílios, mas começaria por eles.

— Eu sabia que era ciumenta, mas não extremista. — A xícara com café foi levada aos lábios enquanto enchia-se de vaidade por todo aquele ciúme.

— Eu não bateria nela, quer dizer, talvez sim, mas não seria tão forte. Claro, se ela parar de elogiar os seus olhinhos lindos. — Imitou a Mercedes, rolando os olhos em seguida.

Era um fato que pareciam e muitas vezes agiam, como se fossem casados, mas também era um fato que nenhum deles percebia esse detalhe.

— Vamos mudar de assunto. — Era preferível desconversar ou encontrar algo mais interessante para falar. — Espero que tenha se decidido quanto ao jantar.

Tulipa ainda estava emburrada com a lembrança de Mercedes, mas mudou rapidamente a expressão ao ouvir a palavra “jantar”.

— E eu espero que esse seja um convite formal. — Empertigou-se. Ela que não o deixaria só em meio a um bando de peruas emperiquitadas. Aqueles olhinhos faziam sim, muito sucesso. Não só os olhos, claro.

— É um pedido formal. Quer que eu me ajoelhe? — Fez um gesto emproado que lembrava muito uma mesura.

— Eu não me importaria, bonitão. — O sorriso veio leve, assim como a mão que tocou a de Ivan por baixo da mesa. Não, ela queria mesmo era tocar em outra coisa.

Que belo jeito de começar o café da manhã. Uma pena que todo o clima foi quebrado por uma dupla de atrapalhados que tardaram em acordar naquele dia.

— Bom dia, pai. Lipa. — Victor cumprimentou, ligeiramente sem graça.

— Bom dia, povo! — Jackie, por outro lado, parecia mais que bem disposto e era só sorrisos. — Eu 'tô morto de fome. — Tratou logo de se servir, alheio aos olhares curiosos que pairavam sobre ele.

— Não vai sentar, filho? — Ivan indicou a cadeira, curioso sobre o fato de ele usar uma blusa de gola alta em um calor daqueles.

— Ah, é… Eu também estou com muita fome. — Sorriu amarelo e imitou o cowboy. Jackie tinha um apetite daqueles em qualquer hora do dia. E não falava somente do apetite dele por comida. Acabou sentindo as orelhas aquecerem com a constatação e enfiou um bolinho de abóbora na boca. Talvez desmaiasse de calor, mas a marca no pescoço estava horrível. Uma coisa de outro mundo.

— Não 'tá com calor, menino? — Tulipa resolveu perguntar. Jackie estava todo calorento com a camisa entreaberta e sem o chapéu, mas o loiro parecia desconfortável nas próprias roupas.

— Não! Eu… Eu gosto tanto dessa blusa, aí eu quis vestir. — Comentou exasperado. Se a vida dependesse de atuação, ele jamais levaria um Oscar.

— Fica bem em você. — Jackie pareceu a pessoa mais inocente do planeta ao comentar aquelas palavrinhas, mas estava sim, implicando. E sorriu quando recebeu o olhar estreito que deveria ser ameaçador, mas que na verdade, era muito sexy.

— Qualquer coisa fica bem em mim. — Retorquiu azedo. O espírito de Sebastian estava no ar. E por falar no amigo… — E o Sebby? Geralmente ele disputa com o Jackie sobre quem come mais bolinhos. — E sempre empatavam.

— Com as crianças lá fora. Algo sobre uma casa pro mascote. — Ivan comentou com um sorriso bobo. Ainda teria que levá-los para caçar e ensiná-los a atirar… Ser avô era esplendoroso. — Mas e vocês? Dormiram mais que a cama hoje.

O comentário despretensioso fez com que os “dorminhocos” engasgassem com o suco de frutas. Claro que Jackie era muito melhor em disfarçar, mas aquilo o havia pego de surpresa. Ivan já tinha jogado um papinho sobre ele também ser do lado cor-de-rosa da força, mas daí descobrir que ele tinha dormido com seu filho caçula, não parecia muito com algo que o agradaria.

— 'Cêis 'tão estranhos… — Tulipa sondou. Qualquer um notaria o clima entre aqueles dois.

— Ficamos assistindo filme até tarde. Foi isso. — Victor se recuperou do engasgo e deu de ombros. — Mas estamos atrasados. — Deixou o guardanapo sobre a mesa ao limpar os lábios e se ergueu.

— É. Atrasados. — Jackie virou o copo de suco e o acompanhou, menos desajeitado.

— O que deu neles? — Tulipa piscou algumas vezes, olhando para a porta da cozinha, por onde o par de esquisitos saiu.

— São jovens. Foi isso o que deu neles.

Tulipa concordou, mesmo que em silêncio. Jovens eram muito mais que estranhos. Suspeitos até.

— Mas e então? — Debruçou-se sobre o patrão. — Onde nós paramos?

* * *

— Onde foi que ouviu essa palava? — Sebastian puxou o pequeno monstrinho para a mureta e o colocou sentado sobre ela. Agora estavam cara a cara. O que era importante para uma conversa séria como aquela. Uma conversa séria com alguém que ainda nem alcançava seu umbigo.

Denver novamente olhou para baixo. Ele não era a típica criança tímida, mas parecia especialmente receoso com o teor da conversa.

— Então…? — Sebastian reforçou a pergunta, mas sem a impaciência de antes. Talvez porque tivesse acabado de sentir uma pontinha de afeição pela miniatura de Simon.

Denver mordeu o lábio, apreensivo. Ele e os irmãos tinham pedido o telefone para Tulipa e discado o número da mãe. Queriam contar sobre Blue quando ele ainda nem tinha um nome. Estavam felizes com o fato de terem finalmente um bichinho de estimação e queriam compartilhar com os pais. Denver foi quem pegou o telefone e ficou correndo com ele na orelha, impedindo que os gêmeos o alcançassem. E foi então que ouviu a voz do pai.

Parecia zangado com alguma coisa, e falou alto sobre um tal de divórcio. Eles estavam discutindo… De novo. Por que os adultos discutiam tanto?

— Meu pai. — Encolheu os ombros. — Falou essa palavra em uma briga com a minha mãe. — Balançou os pés em inquietação. Já começava a desistir de buscar por uma resposta. Nem devia ser nada tão ruim ou importante.

Sebastian acabou suspirando e apoiou os cotovelos no murinho. Os olhos se perderam por alguns instantes entre o verde e os tons de marrom que compunham o chão de terra. Pareceu tão nostálgico aquilo. Pais em conflito, prestes a se separarem. Ainda era doloroso como não havia superado aquela parte da vida.

— Você não sabe? — Denver insistiu, conseguindo a atenção dos olhos puxados.

— O meu pai também pediu o divórcio pra minha mãe… — Comentou vago, mergulhado em memórias de um passado cinza.

Então o tal do divórcio devia ser algo normal! Denver chegou a se animar, mas era perceptível que Sebastian não parecia muito feliz com a conversa. Talvez tivessem uma idealização diferente do significado daquela palavra estranha.

— E o que aconteceu? — Perguntou receoso, porém a curiosidade ainda era o maior dos sentimentos.

A resposta demorou um pouco para chegar. E quando veio, não agradou em nada ao garoto.

— A gente nunca mais se viu.

* * *

As unhas sempre tão bonitas, estavam com o esmalte descascado e curtas, roídas. A ansiedade a fez roer as unhas e a deixou inquieta. Estava sem sono, com olheiras, com medo e com vontade de beber.

Parecia estar a um passo do precipício e não haveria uma mão amiga para impedi-la de se jogar, pois a única capaz de impedir a queda, era ela mesma. E estava perdida em conflitos, em ser uma boa esposa ou boa mãe, em pedir perdão e se redimir, em largar o vício e voltar a ser como era antes, antes de tudo acontecer. Era sempre como uma eterna ciranda, pensava sempre igual, mas nunca fazia nada para mudar.

Se ao menos se parecesse um pouco com a mãe. Se tivesse a força e o empenho dela, não estaria naquele casamento, não seria uma mulher cega e surda para o que de fato havia acontecido. O remorso a consumia, assim como a insegurança e os novos modos de vivência; retraída, longe da alegria e prosperidade que imaginou ao formar uma família.

Trocaria toda a fortuna, por alguém que a amasse como era, uma mulher de 31 anos, que não tinha um corpo magro como o de uma modelo e nem o corpo atraente como o de uma atriz, que estava um pouco acima do peso, que usava roupas formais e não era tão carinhosa em demonstrações, mas que amava a seu modo, quieta, observadora, preocupada. Que tinha seus momentos de crises, que precisava de apoio, de elogios, de sentir que atraía ao marido ainda como na primeira vez.

Precisava sentir que era boa.

E que precisavam dela.

Na parede do quarto, a decoração era composta por quadros. Diversos quadros com os filhos e o marido, como a típica família perfeita. Não eram, estavam longe de ser, e enquanto não mudasse as atitudes, seriam sempre assim. Mas como mudaria? Por onde começar? Como deixar para trás tudo o que havia idealizado e se empenhado?

Olhou para o lado, Jean dormia já há algum tempo, afinal era madrugada e ele acordaria cedo para trabalhar. Teve vontade de levar a mão até os cabelos castanhos e acariciá-los, mas enterrou a vontade ao sair da cama e buscar por algo dentro de uma caixa de madeira decorativa. De dentro, tirou um cantil de lata em detalhes dourados. Ainda havia um pouco de bebida ali dentro e serviria por ora. O marido havia jogado todas as garrafas e deixado claro que não permitiria que ela se afundasse como havia acontecido antes, mas… Era mais forte do que ela. Porque apesar de tudo, ainda era fraca.

Apertou o objeto com a mão trêmula e deu às costas ao marido, caminhando em direção a porta, na ponta dos pés.

Ansiosa por uma gota de álcool.

— Se não parar com isso. — A voz baixa e grave no sotaque francês, a impediu de girar a maçaneta e concluir a ação. Sentiu-se como uma criança que era pega em alguma travessura. Sentiu vergonha do próprio ato. — Além do divórcio, vai perder a guarda dos nossos filhos.

Foi como um choque de realidade ouvir aquelas palavras, e o cantil com a bebida foi ao chão, ficando aos pés descalços, jazendo como a certeza de que precisava urgentemente de ajuda.

Notas finais
Vamos avisar ao cowboy e a senhorita que isso aqui é fic de família? Vamos né! XD Gostaram? Espero muito que sim. Ivan e Tulipa são um casal, gente, vamos avisar pra eles aheuheuh Sebby e o menino Denver, amei escrever, porém, alguém aí acha que a frase do nosso índio não vai dar em coisa boa? Poisé. E tivemos a Cecília, gente, ela quer mudar, mas tá tão perdida minha filha :/ Bom, é isso! Desejo a todos vocês um fim de ano incrível e que 2018 nos traga muitas alegrias e realizações ♥ Bjuss! E já chego pra responder vocês!