Catenae
5 Capítulo V: Salvatio
Notas iniciais
How can blood be your salvation
And justify the pain
That we have caused throughout the times
Will I learn what's truly sacred
Will I redeem my soul
Will truth set me free*
Henry soube imediatamente que sua mãe adotiva tinha algo muito maquiavélico em mente quando percebeu o sorriso que ela tentava disfarçar como amável em seu rosto enquanto servia seu jantar. Regina não vinha sorrindo muito nos últimos tempos, preocupada com Emma e as repercussões da solução do caso de Kathryn Nolan; Henry sabia que Sidney Glass confessara ser o responsável pelo desaparecimento, mas também sabia que tudo aquilo era a respeito da vingança da Rainha Má sobre Snow White, que naquele mundo era Mary Margaret Blanchard.
Ele sabia que Emma saíra a procura de Rose French naquela tarde, e que aquele homem amigo de August sabia muito bem onde procurar. Embora Henry soubesse que o escritor fora, em outra ocasião, Pinocchio, não conseguia entender quem era aquele outro homem amigo dele. No livro não havia qualquer referência a respeito dele, mas o menino sabia que era alguém importante, uma peça-chave tão importante quanto Emma ou August.
De todo modo, Henry sabia que existia uma chance bastante significativa de sua mãe biológica ter descoberto onde estava Rose French — quem Henry desconfiava fortemente ser Belle, do conto da Bela e a Fera de seu livro. Onde Belle estava nunca ficara explícito pelo livro, também: a Rainha dissera a Rumpelstiltskin que ela morrera, mas aquela não parecia ser uma informação verdadeira, e o menino sempre desconfiara que Regina a teria trancafiado.
Se Emma tivesse descoberto Rose French, isso explicaria o olhar maníaco de sua mãe. Ela provavelmente estaria com medo das repercussões disso, pois certamente Rumpelstiltskin não gostaria de saber que a mulher que amava estivera por tantos anos sob a posse da Rainha.
"Coma a sua lasanha, Henry," disse Regina, sua voz aparentemente calma. "Ela vai esfriar se você continuar encarando-a, e você vai ter que comer de qualquer maneira, fria ou quente."
Henry assentiu e obedeceu a mãe, ansioso para que ela o deixasse em paz por tempo o bastante para que ele pudesse entrar em contato com Emma de alguma maneira, avisá-la de que sua mãe estava planejando algo e que provavelmente não seria coisa boa.
O jantar naquela noite foi muito silencioso e, quando Henry finalmente terminou de comer, ele pediu licença e foi até o seu quarto, onde esperou até que a sua mãe o colocasse para dormir.
Quando percebeu que a mãe já havia se retirado para o seu quarto, o menino furtivamente foi até a cozinha e pegou o telefone, discando o conhecido número da casa que Emma dividia com sua mãe, Mary Margaret. Foi sua mãe biológica que o atendeu com a voz cansada.
"Emma," disse Henry, no tom mais baixo possível. "Minha mãe está planejando alguma coisa, ela não para de sorrir de um jeito esquisito."
"Henry? Você sabe que horas são, garoto?" Perguntou Emma. "Com certeza já é hora de você estar na cama."
"Emma, por favor," disse Henry, com a voz trêmula. "Tome cuidado com a minha mãe, ela não parece nada feliz, mas continua sorrindo. Ela está disposta a fazer qualquer coisa para se livrar de você."
"Hei, garoto, não se preocupe," disse Emma, e Henry pode sentir seu sorriso através das palavras que ela dizia. "Se a sua mãe vier me confrontar, eu vou estar aqui esperando por ela. Então, vá dormir, amanhã você tem escola e, se sua mãe te pegar conversando comigo às escondidas depois de seu horário para dormir, vamos estar nós dois encrencados."
Henry sorriu, pois Emma dissera que estaria preparada. Ele nem sabia porque se preocupava tanto, a sua mãe biológica estava predestinada a ser a Salvadora. Não havia nada com que ele precisasse se preocupar, tudo se resolveria.
E, com isso em mente, Henry rumou para a sua cama e esperou deitado até que o sono o vencesse, levando-o para uma terra de sonhos onde Regina desistira de sua vingança e ele estava feliz com ambas as suas mães e seu pai — um homem cujo rosto ele nunca era capaz de ver.
O dia seguinte amanheceu ensolarado, e o humor de Henry permaneceu muito bom. Felizmente para o menino, Regina andava tão ocupada com seus esquemas que se esquecia de vigiar o filho e se certificar de que ele não estava se encontrando com Emma. Isso abria a possibilidade de Henry visitar a mãe biológica todos os dias após a escola, e hoje ele tinha coisa importantes para perguntar a Emma sobre a questão relativa à Rose French.
Ele tentou perguntar a Mary Margaret a respeito do caso durante o intervalo para o almoço, mas a professora não quis lhe dar detalhes, dizendo apenas que Emma chegara em casa muito cansada após um longo dia de trabalho e o mandando para o pátio da escola. Henry ficava irritado com o fato de que continuassem tratando ele como se fosse quebrar.
De todo modo, ele resolveu não discutir com Mary Margaret, temendo que a professora o deixasse de castigo após a aula por desobediência.
Quando finalmente o sinal tocou indicando o final das aulas, Henry rumou rapidamente para a estação de xerife, onde esperava encontrar Emma. E lá estava ela! E ele se sentiu feliz por vê-la bem, embora ela parecesse um pouco triste e preocupada.
"E aí, Emma?" Perguntou Henry, deixando a mochila em uma cadeira e se aproximando da mãe biológica. "Como foi ontem? Eu perguntei a Miss Blanchard, mas ela se recusou a me contar."
A mulher sorriu e, quando Henry se sentou diante dela, contou como ela própria, Ryan e August haviam resgatado Rose French ainda no dia anterior. O menino ficou feliz em descobrir que Miss French estava bem e segura, embora um pouco fraca.
"Emma, você sabe quem é aquele homem com o August?" Perguntou Henry, intrigado. "Quero dizer, August te contou alguma coisa sobre ele?"
"O nome dele é Ryan Greenley, e ele é amigo de infância do August," disse Emma. "Só não sei qual é a história por trás dessa amizade, Henry."
"E por que ele queria encontrar Rose French?" Perguntou o menino, e ele olhou para Emma como que esperasse que ela lhe desse todas as respostas.
"Não sei garoto, mas sei que os dois tem algum grau de parentesco, pois são muito parecidos." disse Emma, com a voz cansada. "De todo modo, nós realmente precisamos conversar."
Emma, então, começou a contar a Henry algo que ele não gostou nem um pouco de ouvir: a respeito de como a relação dos dois não estava sendo muito saudável e como ela conversara com Regina a respeito disso e as duas haviam entrado em um acordo de dividir a custódia dele.
Henry sabia que a Rainha nunca abriria mão de nada que fosse dela tão facilmente, portanto sabia que aquilo só podia ser uma armadilha. Ele tentou explicar a Emma, mas sua mãe não o escutava, dizendo que a maldição era uma fantasia dele e que ele precisava começar a pensar na realidade. O menino, entretanto, já avistara algo que quase fizera seu coração sair pela boca.
"O que é isso?" Ele perguntou, exasperado. "Quem lhe deu isso?"
"Sua mãe passou por aqui hoje," disse Emma, lentamente. "Nós conversamos e entramos em um acordo, e Regina me deu um pedaço dessa torta de maçã que ela fez hoje para o jantar. Você deve fazer cara de surpresa quando vir a torta, garoto; para ela não desconfiar que esteve aqui."
Henry não queria saber das brincadeiras de Emma. Uma torta de maçã! Regina estava tentando envenenar a mãe biológica dele como fizera com Snow White, tantos e tantos anos atrás, e Emma estava caindo como boba porque não era capaz de acreditar.
Ele tentou fazer a loira jogar a torta fora, mas ela só fez balançar a cabeça negativamente e se adiantar para comer a torta, dizendo que faria provar que não havia qualquer feitiço naquilo. Henry, entretanto, se adiantou: Emma era a Salvadora, ela não podia comer aquilo. Se ela não acreditava, ele deveria comer e provar a ela, acreditando que ela quebraria a maldição e o salvaria.
Conforme esperava, assim que a torta desceu por sua garganta, ele sentiu uma forte tontura enquanto o mundo desaparecia e o chão parecia não mais existir. A última coisa que escutou foi os gritos desesperados de Emma chamando o seu nome.
Tudo ficaria bem, ele estava certo. Tudo ficaria bem porque Emma era a Salvadora e o salvaria. E salvaria a todos.
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Quando Maurice rumou para seus afazeres vespertinos e deixou Rumpelstiltskin e Gwenaël sozinhos na sala onde haviam almoçado, o feiticeiro passou algum tempo tentando se decidir a respeito do que faria a seguir.
Ele não compreendia o que fizera Maurice interferir no relacionamento dele com Gwenaël, mas estava agradecido pelo soberano de Avonlea ter feito aquilo, pois lhe poupara um gasto de energia exorbitante tentando se forçar a fazer aquela aproximação inicial.
A princípio, ele achara que aquele dia seria extremamente desconfortável e que Gwenaël talvez ficasse com raiva do avô por sua interferência. Descobrira, entretanto, que o relacionamento entre Mauurice e seu filho era ainda melhor do que havia suposto à princípio: o almoço ocorrera de modo muito mais agradável do que havia esperado.
Portanto, Rumpelstiltskin estava muito feliz e aliviado pelo pequeno que dera rumo a um entendimento com o filho, mas também estava preocupado que isso retrocedesse durante as aulas de magia, quando talvez precisasse ser mais duro com Gwenaël.
Ser pai e simultaneamente professor, ele percebeu, não era tarefa fácil. Não pela primeira vez na vida — mas pela primeira vez em muito tempo -, Rumpelstiltskin ficou feliz que seu relacionamento com Cora não tivesse dado certo. Se Regina fosse sua filha, ele dificilmente teria conseguido manipulá-la como precisara fazer.
Tendo isso em mente, ele encarou Gwenaël e o convidou a ir até seus aposentos, onde as aulas costumavam ser ministradas. O menino assentiu e o acompanhou em silêncio, falando apenas quando eles finalmente alcançaram o quarto.
"Eu não quero ser um feiticeiro, pai," disse Gwenaël, com um suspiro. "Por que eu não posso ser, em lugar disso, um herói como nos livros de história?"
Rumpelstiltskin encarou o filho sabendo que aquela pergunta era, na realidade, um pequeno teste. Gwenaël queria saber o quanto a conversa durante o almoço mudara as coisas entre eles e comparar as respostas para uma mesma pergunta era uma jogada inteligente que fez com que o feiticeiro se sentisse orgulhoso do filho.
"Gaël, diga-me: você que nasceu com a pele brilhante e os olhos azuis," disse o homem, encarando o filho com seriedade. "Nós conseguimos mudar a sua aparência para sempre?"
"Não, só conseguimos por um tempo, porque a magia para isso tem um custo de energia," disse Gwenaël, e Rumpelstiltskin assentiu com um sorriso. "Mas não é a mesma coisa!"
"Para alguns, talvez não seja mesmo," disse o feiticeiro, balançando a cabeça negativamente. "Eu conheço certas pessoas que precisaram estudar magia exaustivamente antes que pudessem lançar mesmo um pequeno feitiço. Mas você, meu caro Gaël, você nasceu com a magia, assim como nasceu com a pele brilhante e os olhos azuis."
Gwenaël, então, fez algo que o pai não o via fazer desde o dia que Belle desaparecera: ele começou a chorar copiosamente, as mãos segurando o rosto como se o peso do novo conhecimento pesasse mais do que seu pescoço podia agüentar. Rumpelstiltskin repentinamente se recordou de si mesmo, tantos séculos atrás, quando seu pai o deixara, e se sentou ao lado do filho, puxando-o para perto de si.
"Venha, Gaël. Não chore," ele disse, tentando transmitir calma em seu tom de voz. "Magia não precisa ser uma coisa ruim, pode ser algo muito bom, pode salvar mais vidas do que qualquer herói guerreiro de suas histórias conseguiria."
"Não, não pode!" Disse o menino, se afastando com violência do pai e o encarando, os olhos repletos de pura raiva. "Foi por causa da magia que você ficou longe quando eu era menor, e foi porque todos têm medo da sua magia que eles levaram a minha mamãe."
Rumpelstiltskin olhou para Gwenaël com incredulidade enquanto pensava na melhor maneira de respondê-lo. Aquilo que o filho dissera, entretanto, estava próximo demais da verdade para ser negado em uma conversa honesta — como o feiticeiro esperava que fosse aquela.
Belle estava desaparecida — talvez mesmo morta, embora ele tentasse não pensar daquela maneira — porque aquele era um modo de enfraquecer e dominar o feiticeiro mais temido de todo aquele mundo. Mas também porque ele estivera muito preocupado em encontrar um meio mágico para transportar Belle e Gwenaël para outro mundo que não ficara no castelo o bastante para protegê-lo, e os feitiços em torno dele começaram a enfraquecer sem que Rumpelstiltskin percebesse.
Ele sabia, entretanto, que era demasiado cedo para contar ao filho tudo o que havia para ser dito a respeito daquela questão. Não podia falar sobre Baelfire e não podia falar sobre a maldição — o que provavelmente só intensificaria o ódio do menino por magia.
"Gaël, magia raramente é boa ou má. Magia das trevas, por exemplo, é só um termo usado pelos ignorantes que temem qualquer mágica que não seja a das fadas e a do verdadeiro amor," disse Rumpelstiltskin, por fim. "A bondade ou maldade é de quem conjura o feitiço. Você, Gaël, nasceu da única magia puramente boa que existe nesse mundo, o amor verdadeiro, então pare de pensar em sua magia como algo mal."
"Mas você não negou que é culpa da magia que eu não esteja em casa com a minha mamãe," disse Gwenaël, sempre observador — e Rumpelstiltskin se sentiu abençoado e desgraçado ao mesmo tempo, pois sabia que aquilo ele herdara dele. "Você não negou porque é verdade!"
"Não, filho. Não foi a magia quem te roubou a sua mãe," disse o feiticeiro, sua voz falhando enquanto sentia o coração pesado pela culpa. "Nunca a magia, mas o feiticeiro. No caso, a culpa é minha e da pessoa que a levou."
Gwenaël encarou o pai sem reação. Adultos — especialmente Rumpelstiltskin — nunca admitiam quando estavam errados. Pelo menos, na pouca experiência que o menino tinha a respeito.
"Você é muito especial, Gaël. Talvez a pessoa mais especial desse mundo. Você sabe por que?" Perguntou Rumpelstiltskin, suavemente, e o filho balançou a cabeça negativamente. "Você e a magia nasceram como irmãos. Ela te vem facilmente porque é parte do que você é, e se não controlá-la, será a magia que o controlará."
Gwenaël assentiu tristemente, esforçando-se para conter as próprias lágrimas. Ele tinha esperanças que, com a falta de prática, a magia fosse desaparecer lentamente. Ao que o pai estava dizendo, entretanto, não praticar magia era ainda mais perigoso do que praticar, no caso dele, e o menino achou o mundo muito injusto.
A verdade era que ele tinha muito medo que a magia dele machucasse as pessoas que ele amava como a magia do seu pai machucara a sua mãe.
Ele não podia, entretanto, confessar aquilo a ninguém. Primeiramente, porque sabia que o achariam um covarde por causa disso, e também porque tinha conhecimento de que aquilo seria o mesmo que admitir que culpava o pai pelo desaparecimento da mãe, o que o machucaria. A despeito de tudo que acontecera entre os dois, Gwenaël não queria ver Rumpelstiltskin machucado.
"Você sabe, o conhecimento e a aceitação a respeito de si mesmo é uma dádiva, e é isso que eu quero que você aprenda nessas aulas de magia," disse Rumpelstiltskin, com um pequeno sorriso. "Você conhecer a si mesmo torna difícil das pessoas te machucarem, porque faz com que você saiba as suas próprias fraquezas e não as deixe à mostra. E isso vai fazer com que ninguém possa machucar alguém que você ama te machucando."
"C-como você sabe?" Perguntou Gwenaël, estupefato. Seu pai estaria, agora lendo a sua mente?
"Como eu sei que você tem medo de machucar as pessoas que você ama sendo quem você é?" Perguntou Rumpelstiltskin em resposta, sorrindo tristemente, e o filho assentiu. "Isso é porque eu me senti assim por mais anos do que qualquer um poderia contar, meu filho."
Naquele momento, espantado, Gwenaël descobriu que não era apenas o conhecimento de seu próprio eu que tinha poder. Compreendendo que seu pai tivera temores tão parecidos com os dele que fora capaz de reconhecê-los sem que o menino tivesse que dizer qualquer coisa, Gwenaël finalmente percebeu que perdoara Rumpelstiltskin pelo desaparecimento de sua mãe.
Talvez, ele pensou, apenas talvez, nós não estejamos tão perdidos assim, afinal.
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Gold soubera que algo grande estava por vir no mesmo instante em que Gwenaël ligara na noite anterior para informar que haviam encontrado Belle e ela se encontrava em segurança.
Regina sabia que ele iria atrás dela agora que tinha conhecimento de que fora a responsável por prender sua esposa por tantos anos. Portanto, ela estava muito inclinada a fazer coisas estúpidas e precipitadas, que provavelmente levariam Emma a quebrar a maldição.
Gold não podia sair de sua loja naquele momento, por mais que quisesse se encontrar com Belle. Ele precisava estar ali, porque, embora não tivesse previsto como exatamente a maldição seria quebrada, sabia que teria um papel a desempenhar e que isso o levaria direto à poção do amor verdadeiro que escondera em Maleficent.
Por volta de meados da tarde do dia seguinte, Gold recebeu a visita de um Ryan muito decepcionado, confuso e irritado. Ele chegou batendo a porta com força e chamando pelo pai, que estava nos fundos da loja.
"Ela continua perguntando o tempo todo por você, e estou ficando sem desculpas para explicar o seu sumiço," falou ele, furioso. "Você não sente falta dela? Por que ainda não foi vê-la? O que está acontecendo, e você não está nos contando, pai? Se for algo errado, mamãe não vai gostar."
Gold saiu calmamente dos fundos da loja. Seu filho podia muito bem aparentar calma e paciência quando desejava, mas claramente tinha problemas para conter emoções próximo às pessoas que ele amava. Eles precisariam trabalhar isso, no futuro, Gold estava certo.
"A maldição está mais enfraquecida do que nunca, e Regina está apavorada por causa da nossa querida Salvadora e por minha causa," ele disse, o rosto franzido enquanto encarava o filho mais novo. "Ela vai fazer um movimento estúpido em breve, Gaël, e preciso estar pronto para reagir rapidamente."
"O que está pensando em fazer, pai? Você está tramando alguma coisa, não está?" Disse Ryan, parecendo um pouco mais intrigado e calmo, embora ainda estivesse corado e respirando rápido.
"Apenas direi que vou precisar de algumas ferramentas para achar Baelfire e precisarei conquistá-las no exato momento em que a maldição for quebrada," disse Gold, com um sorriso enigmático.
Gold observou enquanto se formava no rosto de Ryan uma careta de desgosto. O prestamista se perguntou se havia alguma coisa que o filho não estava lhe contando a respeito do assunto, mas achou que provavelmente não quereria saber.
"A respeito do Baelfire…" começou Ryan, olhando para o chão.
Ele foi interrompido, entretanto, quando a porta da loja de penhores voltou a ser aberta, e Regina e Emma entraram juntas parecendo apavoradas. Gold as encarou com um olhar calmo e calculista. Ele não sabia ao certo o que ocorrera para juntar as duas, mas já tinha alguma ideia do que poderia ter causado aquilo.
"Os meus olhos estão me enganando, ou esse é o olhar de alguém que acredita?" Perguntou Gold, com um pequeno sorriso surgindo nos lábios.
Ryan encarou Emma com espanto enquanto a loira falava sobre como Regina tentara envenená-la com uma torta de maçã e que Henry a comera apenas para provar o seu ponto. Gold permaneceu sorrindo durante toda a narrativa, e Ryan se perguntou se ele previra a morte do garoto — e se continuaria sorrindo caso soubesse que Henry era seu neto.
"Henry não devia ser a pessoa a pagar o preço da magia que eu fiz, Gold," disse Regina, olhando para o homem com um olhar ferido que Ryan nunca esperara ver em seu rosto. Então, a Rainha era capaz de amor, apesar de seus crimes!
"A magia da maldição cria um buraco em seu coração," disse Ryan, para a surpresa de todos os outros presentes. "Você não devia ter esperado que seria tão simples preenchê-lo. O preço para que a maldição permaneça é que o buraco permaneça, portanto, quando você começou a amá-lo, o preço se tornou a vida de Henry. O único modo de salvá-lo de modo definitivo é, de alguma maneira, quebrando a maldição."
"Então, é a maldição ou Henry?" Perguntou Regina, as lágrimas em seus olhos fizeram com que, por um segundo, Ryan se sentisse mal por ela. Depois, ele se lembrou do que a Rainha fizera com sua mãe e a pena desapareceu de seu coração.
"Espere um pouco, quem é ele? Como ele sabe?" Perguntou Emma, confusa. "Como saberemos que podemos confiar nele?"
"Vocês podem confiar em mim, eu odeio a Rainha ainda mais do que a maior parte das pessoas dessa cidade, mas não quero a morte do garoto," disse Ryan, incerto se deveria responder à primeira pergunta de Emma — sua existência fora segredo por tempo demasiado. "Sim, a maldição ou o seu filho, majestade."
Regina olhou de Ryan para Gold por um momento e o mais novo soube imediatamente que a Rainha sabia quem ele era, embora o mais novo não tivesse enunciado. Ela pensou por um momento — e Ryan a odiou ainda mais por isso.
"Muito bem," disse com resignação a Rainha, por fim. "O que precisamos fazer para salvar o Henry?"
"A magia mais poderosa do mundo, amor verdadeiro," disse Gold, sorrindo. "A única mágica capaz de transcender mundos e quebrar qualquer maldição, é a única coisa que salvará o garoto. E, para a sorte de vocês, eu tenho um pouco engarrafado."
Gold explicou como fabricara aquela poção enquanto Ryan ouvia fascinado e Emma e Regina, espantadas. Ele contou como coletara os fios de cabelo de Snow White e Charming e, depois, como pingara uma única gota na maldição, fornecendo-lhe uma válvula de segurança.
"Você está com sorte, eu não usei toda a poção, guardei um pouco para um dia de chuva, vocês sabem," disse Gold, e Ryan encarou o pai com espanto. Ele daria mesmo uma poção tão poderosa para aquelas duas mulheres salvarem Henry?
Isso parecia errado. Primeiramente, porque não devia ser a maneira correta de lidar com a maldição. E, depois, seu pai raramente abria mão de algo tão valioso sem algum ganho pessoal, em troca.
"Bom, onde está a poção?" Perguntou Emma, exasperada.
"Onde está definitivamente não é a pergunta com a qual você deveria estar mais preocupada, xerife," Gold sorria de modo misterioso, o que fez com que Regina e Emma se sentissem cada vez mais nervosas. "Com quem está, esse é o verdadeiro problema."
"O que você quer dizer com isso?" Perguntou Emma, os olhos e o tom de voz transmitindo sua insegurança e seu medo crescente. Ryan a compreendia: ela estava enfrentando um mundo que não conhecia, e a vida de seu filho podia ser o preço por não se adaptar rapidamente.
"Diga-me, majestade, como vai a sua amiga no porão?" Disse Gold, voltando-se para Regina. O seu sorriso ficou ainda mais largo enquanto observava o terror na expressão da Rainha.
"Você guardou com ela!" A cada palavra, a voz de Regina demonstrava mais pavor.
"Não com ela, querida, nela!" Respondeu Gold.
Emma olhou para os dois confusa e perguntou de quem eles estavam falando. Gold a encarou, e Emma teve vontade de socar o rosto dele até que o prestamista lhe desse respostas satisfatórias. Será que ele não compreendia que elas não tinham tempo!
"Você devia ter lido melhor o livro do Henry, Emma," disse Ryan, tentando transmitir calma à mulher que tanto o ajudara no dia anterior. "A poção está sendo guardada dentro de Maleficent, e foi o seu pai que a colocou lá, em troca de um meio para achar a sua mãe quando ela estava sob a maldição do sono. Creio que te devo uma por ter me ajudado a achar a minha mãe ontem, portanto, vou com você."
"Sua mãe!" Emma exclamou, exasperada. "Aquela jovem é a sua mãe!"
"Gaël passou por algo parecido com você, xerife. Exceto que a mãe dele era mais jovem do que a sua no momento da maldição," disse Gold, e se voltou para o filho. "Por mais que eu admire sua nobreza, Gaël, deve ser Emma a pessoa a recuperar a poção, pois é a poção do amor verdadeiro dos pais dela. Você deve voltar para a sua mãe agora, ela não deve permanecer desprotegida em um momento tão crítico."
Ryan abriu a boca para responder, mas percebeu que Gold dissera a verdade: sua mãe precisava dele mais do que Emma naquele momento. Ele observou, portanto, o pai abrindo a caixa diante de si e revelando uma bela espada — como a dos mais nobres e valentes cavaleiros, que ele sempre admirara.
Emma era a guerreira, ela era a heroína. E, não pela primeira vez na vida, o rapaz sentiu inveja da mulher diante dele. Ele balançou a cabeça negativamente para afastar os pensamentos negativos — cada um nasceu por um motivo, e eu não nasci para ser herói!
Ryan saiu da loja alguns minutos depois acompanhando Regina e Emma. A Rainha o encarou longamente quando eles se separaram, e o outro se perguntou no que ela estaria pensando. Assim que as duas mulheres voltaram as costas para ele, entretanto, Ryan rumou para o hospital.
Gold permaneceu cerca de quinze minutos em sua loja, esperando que fosse a hora certa de se encontrar com Regina e Emma na biblioteca, onde as enganaria para pegar a poção. O prestamista sentia muito pelo filho não ser capaz de realizar seu sonho de ser herói naquele momento. Deverão haver novas oportunidades para você se provar para o mundo, Gaël, mas você será sempre um herói para mim e para a sua mãe.
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Nos meses que se seguiram, Rumpelstiltskin permaneceu ministrando aulas de magia para o filho enquanto preparava o terreno para o momento em que a maldição seria lançada. A despeito da falta que sentia de Belle e do futuro escuro que se aproximava, aqueles foram tempos felizes.
Para seu espanto, após aquela primeira conversa sincera, Gwenaël ficou mais aberto aos ensinamentos de magia, progredindo rapidamente sob a tutela do pai.
Rumpelstiltskin descobriu que o filho tinha a magia em seu formato mais puro, o que era belo e perigoso, pois podia ser facilmente corrompido para a luz ou as trevas. Temendo que viver em um mundo sem magia sozinho por vinte oito anos pudesse transformar o coração de Gwenaël, o feiticeiro começou a ensinar ao filho os preceitos básicos de filosofia, ética, moral e civilidade com o auxílio de Sir Cogsworth.
Tendo herdado o apetite voraz por conhecimento de ambos os pais, Gwenaël era rápido em todas as suas lições. Por isso, o feiticeiro passou a recompensar o filho ensinando-lhe como manejar uma pequena espada de madeira — fazendo com que ele sentisse como se estivesse a caminho de realizar seu sonho.
Para a surpresa de Rumpelstiltskin, o menino o fazia se lembrar muito de si mesmo: se prendendo a cada mínima manifestação de afeto. O feiticeiro, entretanto, não se sentia muito feliz em ver no filho algo que lhe causara tantos problemas, e ele se esforçou para deixar claro a Gwenaël o seu ponto de vista a respeito.
O menino, entretanto, parecia incapaz de compreender o problema de se confiar rapidamente nas outras pessoas, prendendo-se à primeira manifestação de afeto. Quando Rumpelstiltskin lhe contava sobre suas decepções, o filho se limitava a dizer que as pessoas em que ele confiava não seriam assim. O maior temor do feiticeiro, entretanto, era que ele fosse a pessoa a decepcionar Gwenaël — uma perspectiva muito provável, levando em conta o que previra para os meses seguintes.
"Você não vai me abandonar como seu pai te abandonou, papai," disse o menino, com um sorriso confiante e tranquilizador. "Você não vai, porque já me abandonou uma vez e se arrependeu de verdade. Então, não vai fazer de novo!"
Rumpelstiltskin desejava que assim fosse do fundo de seu coração, mas sabia que nem sempre era tão simples. Ele compreendia que, às vezes, a segurança da criança está em jogo quando ela está junto de seus pais, e nesses momentos o abandono era um gesto de amor.
Foi quando Rumpelstiltskin soube a respeito do casamento de Snow White que decidiu que era o momento apropriado para deixar Sir Maurice ciente a respeito da maldição e do que aguardava Gwenaël. Por mais que odiasse depender de outras pessoas, sabia que precisaria que o homem entregasse o menino à Blue Fairy quando ela aparecesse para buscá-lo, já que o feiticeiro planejava permitir a própria prisão em breve.
Ele descobriu Maurice sentado junto com dois de seus conselheiros conversando sobre a reabertura da transação comercial entre Avonlea e o reino agora governado por Snow White e seu Charming. Rumpelstiltskin pigarreou para chamar a atenção dos homens, que ergueram os olhos instantaneamente.
"Sir Maurice, há um assunto de grande importância que devo discutir com você," disse o feiticeiro, aproximando-se dos homens.
Maurice encarou o feiticeiro por alguns segundos, avaliando a seriedade da situação, antes de finalmente assentir e se erguer de sua cadeira. Pedindo que seus conselheiros continuassem sem ele por alguns minutos, o governante deixou a sala, acompanhado por Rumpelstiltskin.
"Vamos fazer uma caminhada até os jardins, Rumpelstiltskin," disse Maurice, com seriedade. "No caminho, você poderá me contar o que há de tão importante a ser discutido. Eu espero que não seja nenhum problema com o meu neto."
Rumpelstiltskin balançou a cabeça negativamente, perguntando-se como começaria a contar a Maurice que a vida como ele conhecia estava prestes a ser transformada de modo irreparável. Ele sabia que o outro ficaria assustado e temeroso a respeito, mas tinha esperanças de que ele entendesse a necessidade de tal plano — tendo em vista que o próprio se encontrava separado de sua filha amada.
Ele começou contando a história de como se separara de seu filho pouco depois de se tornar o Senhor das Trevas — deixando de lado toda a história da adaga, pois não confiava tanto no pai de Belle a ponto de contar esse detalhe. O homem o olhou com um misto de compreensão e reprovação enquanto ele dizia que deixara o filho cair em um portal para um mundo sem magia.
Quando ele chegou nesse ponto da história, os dois homens chegaram aos jardins do castelo, onde Maurice convidou Rumpelstiltskin para se sentar em um dos bancos e se sentou diante dele.
Nesse momento, o feiticeiro começou a falar sobre como passara duzentos anos procurando uma maldição que o possibilitasse se transportar para o mundo onde seu filho mais velho se encontrava. Ele previra, usando o seu dom da visão do futuro, que uma de suas alunas, a Rainha Regina, seria a responsável por lançar uma maldição que transportaria todos aqueles daquele mundo para o mundo sem magia.
"O que eu não previ foi a sua filha, Sir Maurice, e o nascimento de um segundo filho tão querido e especial quanto o primeiro," disse Rumpelstiltskin, por fim. "E eu não podia deixá-los ser amaldiçoados, ficando à mercê de Regina, que faria qualquer coisa para ter poder sobre mim."
"Mas você não desistiria de um plano que precisou de duzentos anos para concretizar, não é mesmo?" Perguntou Maurice, e o feiticeiro ficou satisfeito ao ver de onde Belle herdara a sua perspicácia.
Rumpelstiltskin balançou a cabeça negativamente, e contou como começara a procurar desesperadamente por um meio de enviar suas duas pessoas mais queridas ao mundo sem magia antes que a Rainha lançasse sua maldição, mas fora forçado a interromper sua busca quando Belle foi sequestrada. Depois, falou sobre seu encontro com a Blue Fairy e que ela lhe prometera transportar Gwenaël usando um guarda-roupas mágico.
"A maldição será lançada no mesmíssimo dia em que a filha de Snow White e do príncipe James nascerá, e a Blue Fairy virá buscar Gaël," disse Rumpelstiltskin. " Eu não vou estar presente, e você deverá receber a fada e entregar o menino a ela, para a segurança dele."
Maurice não respondeu o feiticeiro instantaneamente. Ele passou algum tempo tentando se decidir a respeito do que dizer ao outro. Sabia que era seu dever para com a segurança de Gwenaël deixá-lo partir, mas isso não tornava as coisas menos dolorosas.
Não havia sentido, o governante de Avonlea sabia, em começar a discutir com Rumpelstiltskin a respeito das responsabilidades dele com Gwenaël e com Belle. Provavelmente, sua filha já havia tido aquela conversa com ele, e, se ela não fora capaz de convencê-lo, Maurice não tinha esperanças de ser.
"Muito bem, eu entregarei Gaël à Blue Fairy quando o momento for mais propício," disse Maurice, por fim.
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Henry abriu os olhos lentamente enquanto sentia uma estranha energia percorrendo o seu corpo. A primeira coisa na qual reparou foi em Emma, seu rosto encharcado de lágrimas e um sorriso de alívio e amor. A única coisa capaz de quebrar a maldição do sono da Rainha Má: um beijo de amor verdadeiro.
"Eu te amo também," ele disse em resposta ao gesto de sua mãe, a voz mais forte do que imaginara que sairia. "Você me salvou!"
"Você fez isso," falou Regina, confusa e, para a surpresa de Henry, também aliviada. Talvez houvesse esperança para a Rainha Má, afinal de contas — a perspectiva deixou Henry muito alegre.
Ele não pensou muito no assunto, entretanto, pois, quando encarou o rosto das pessoas ali presentes percebeu que, mais do que quebrar a maldição do sono, Emma quebrara a maldição escura da Rainha. Henry se sentou na cama muito lentamente Emma lhe perguntava o que estava acontecendo, ainda temendo que o sono encantado causado pela torta de maçã que comera pudesse ter algum efeito colateral em seu corpo, enquanto.
"A maldição," disse Henry, já completamente sentado, a alegria transbordando dentro de si. "Você a quebrou, Emma, com o beijo de amor verdadeiro."
Todos os presentes se voltaram para Regina, que começava a sentir o horror a tomando. Agora, ela estava à mercê dos cidadãos daquela cidade — e, mais especialmente, de Rumpelstiltskin -, completamente desprovida de sua única grande defesa, a sua magia. Sua sentença de morte estava selada. Pelo menos, Henry está bem e à salvo! Eles cuidarão bem dele.
"Henry," ela se adiantou, olhando dentro dos olhos de seu filho. "Seja o que for que você pense, o que as pessoas lhe digam, saiba que eu realmente te amo. Nunca se esqueça disso."
Então, a Rainha saiu rapidamente, e Henry muito confuso a respeito do que sentir ou o que fazer. Ele sabia que Regina corria um perigo real, e o menino sentiu que precisava convencer Emma a ajudá-la — afinal, aquela mulher fora a pessoa que o criara com amor por muitos anos.
Whale e a Madre Superiora pediram licença e saíram logo em seguida, ansiosos por procurar as outras pessoas e comparar histórias — Henry supôs -, deixando Henry e Emma sozinhos no quarto. Por um momento, o menino não soube o que dizer, e sua mãe parecia estar sofrendo do mesmo problema, de modo que ficaram em silêncio.
"O que faremos agora, Henry?" Perguntou Emma, por fim. "Eu realmente não pensei muito no assunto, mas imagino que o natural seria que tivéssemos retornado ao mundo de que viemos agora que a maldição foi quebrada."
Henry pensou por um momento a respeito, a verdade é que ele imaginara algo muito diferente quando pensara em Emma quebrando a maldição. O menino estava feliz por sua mãe sentir amor verdadeiro por ele, mas uma parte dele sabia que ele se encontrava decepcionado por não ter havido uma grande batalha épica. Ele não pensara muito, entretanto, a respeito do que aconteceria quando a maldição fosse quebrada; se fosse sincero consigo mesmo, admitiria que provavelmente pensara no mesmo que Emma.
"Não é exatamente assim que ele queria a maldição," disse uma voz, vinda da porta. "Afinal, qual teria sido o propósito se ela servisse apenas para nos trazer a esse mundo enquanto estivesse em curso? Não, não. Ele se certificou de que continuaríamos aqui quando a maldição fosse quebrada."
Henry observou o homem misterioso chamado Ryan entrando no quarto com um sorriso travesso nos lábios. O menino sabia que conhecia aquela expressão de algum lugar, embora não conseguisse ao certo se lembrar onde a vira.
"Do que você está falando, Greenley?" Perguntou Emma, com a voz irritada. "Se bem me lembro, você disse que me devia um favor e queria me ajudar, portanto, pare de falar em enigmas."
"Se suas dúvidas se resumem à quem é ele, você deve perguntar ao seu filho, estou certo de que ele saberá responder," sorriso de Ryan cresceu em seu rosto. "Eu vim aqui, na verdade, para pagar a sua dívida com uma informação muito mais valiosa, a qual você não terá acesso por outra pessoa. Algo a respeito de certo Neal Cassidy. "
Neal Cassidy. Henry se perguntou quem seria essa pessoa, e sua curiosidade cresceu ainda mais quando ele reparou que Emma empalidecera ao som daquele nome. O menino se perguntou como uma pessoa do passado de sua mãe — que vivera durante toda a vida no mundo sem magia — podia ser significativa naquele momento.
"O meu pai, você o conhece por Mr. Gold, está procurando por Neal há quase trezentos anos," disse Ryan, olhando nos olhos de Emma, e Henry estava certo de que havia mais naquela conversa do que ele estava captando. "Ele criou essa maldição e deu à Rainha apenas com o objetivo de ser transportado para esse mundo a fim de procurá-lo."
"Neal Cassidy," falou Henry, sobressaltando Emma, como se ela temesse que ele soubesse de quem estava falando — teria que se lembrar de perguntar a ela sobre o assunto mais tarde. "Você está falando de Baelfire? Você o conhece? Ele está vivo? Por que não o trouxe com você? Afinal, se o Mr. Gold é o seu pai, vocês dois são irmãos."
"Sim, garoto, nós somos irmãos, mas não poderíamos ter opiniões mais diferentes a respeito de nosso pai," disse Ryan, com um sorriso enigmático que intrigou Henry. "August foi até ele, pedindo que viesse conosco para Storybrooke, mas ele recusou. Cassidy vem fugindo de nosso pai há muito tempo e preferiu continuar fugindo a se reencontrar sua família."
"O Neal é do mesmo mundo que todos os outros?" Emma perguntou, estupefata. "Isso não é possível! Quais seriam as chances- quais seriam as chances disso acontecer? Não podem haver tantas pessoas do mundo de que viemos aqui, podem?"
"Eu não sei, mas em toda a minha vida, você, August e Neal são as únicas pessoas que eu encontrei de lá," disso Ryan, com o rosto franzido. "Minha família tem uma história muito complicada, xerife. Não creio que você precise se preocupar com um possível retorno de Neal Cassidy, mas achei que seria correto avisá-la. Ele vai procurá-lo."
"Mr. Gold," disse Emma lentamente quando Ryan voltou as costas para ela, a caminho da porta. "Ele é o Rumpelstiltskin, certo? Henry me falou sobre o filho dele que caiu em um portal, mas nunca me falou sobre um segundo filho."
"Eu não sabia," disse Henry, achando que era uma boa hora para se defender. "Ele não está no livro. Por que você não está no livro? Aqui deveriam estar todas as histórias."
Ryan se virou novamente e encarou Henry nos olhos por um segundo, e o menino viu algo ali muito peculiar que não era foi capaz de decifrar. A troca de olhares não durou sequer dois segundos antes que Ryan fechasse os olhos e se voltasse para a janela.
"Eu não sei o motivo exato pelo qual a minha história não está no livro," disse Ryan, sua voz com um quê de curiosidade. "A minha existência não foi amplamente divulgada e, até ontem à tarde, apenas a minha mãe, o meu pai, o meu avô, a Blue Fairy e alguns criados mais confiáveis do meu avô sabiam que Rumpelstiltskin teve um segundo filho com Lady Belle de Avonlea. Posso presumir que a pessoa que escreveu o seu livro, seja ela quem for, possa não saber que eu exista ou ter optado por proteger esse segredo."
Henry não estava muito satisfeito com aquela resposta, mas imaginou que era sincera e não pressionou o outro. Havia algo que Ryan não estava contando — o menino estava certo disso -, mas parecia estar dizendo tudo o que sabia a respeito do livro, em si.
"Gold sabe?" Perguntou Emma, repentinamente, fazendo com que Henry se voltasse para ela — e ele ficou surpreso em constatar que sua mãe estava pálida e tremia. "Gold sabe que Neal e eu nos conhecemos?"
Para o evidente alívio de Emma, Ryan balançou a cabeça negativamente. Henry se perguntou como a sua mãe biológica havia conhecido o filho de Rumpelstiltskin. Se não soubesse a verdade, teria achado que esse tal de Neal Cassidy era seu pai — mas Emma lhe contara tudo sobre como o seu pai era um herói e ele não via motivos para não confiar na palavra dela.
"Eu não tive coragem de contar a ele que me encontrei com o Baelfire dele nesses últimos anos," disse Ryan, olhando para os próprios pés. "Ele deve procurá-lo, e vai descobrir a respeito, portanto, esteja preparada para isso."
Ryan, então, virou as costas e saiu antes que Emma e Henry tivessem a oportunidade de fazer novas perguntas. Definitivamente, o menino tinha que a conversar com sua mãe sobre esse Neal Cassidy, mas agora era o momento de reencontrar o restante de sua família e se certificar que sua mãe adotiva permanecesse viva. A partir daquele momento, ele e Emma teriam muito tempo para conversar.
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Rumpelstiltskin soubera que os momentos felizes estavam chegando ao fim quando a tola Cinderella fizera o seu primeiro acordo com ele para ir a um baile. Pouco tempo restava, ele tinha conhecimento, para contar a Gwenaël tudo o que precisava a respeito de Baelfire e do Mundo Sem Magia antes que ele fosse preso por seus crimes.
Era claro que sua presença não seria necessária para o transporte de seu filho até o outro mundo e, embora não tivesse visto como aquele acordo com Cinderella o ajudaria, tinha a sensação de que seria fundamental em um momento futuro. Apesar disso, entretanto, ele continuava pensando em não refazer o contrato com aquela mulher, não se permitir ser preso.
Sabia, entretanto, que não seria capaz de desviar o curso dos acontecimento em um momento tão crítico e que devia dar a informação final a Gwenaël o mais rápido possível. Ele nunca me perdoará por abandoná-lo à própria sorte, mas que escolha eu tenho?
Ele se lembrava de que, após contar tudo a Maurice, o homem ficara dias sem conversar com ele. Mandar uma criança sozinha para um mundo diferente era claramente um crime aos olhos do homem, e ele não fizera segredo do seu modo de pensar. Com o passar dos meses, entretanto, Rumpelstiltskin percebeu que Maurice se tornava cada vez mais afável na medida em que o feiticeiro ficava mais nervoso e com mais remorso.
Naquele momento, o governante de Avonlea já se encontrava conformado com o que o destino reservava a todos eles e se esforçava para permanecer o máximo de tempo possível ao lado do neto que ele aprendera a amar. Gwenaël parecia suspeitar que algo estava por vir por causa do comportamento estranho de seu avô, mas Rumpelstiltskin era incapaz de pedir ao homem que parasse — ele compreendia bem demais o sentimento de que, em breve, perderia uma pessoa muito amada dos tempos em que Baelfire estava por ser recrutado para a guerra contra os ogros.
Foi em uma tarde chuvosa que o feiticeiro resolveu ser finalmente sincero com o seu filho mais novo.
Os dias chuvosos eram sempre os mais difíceis para Gwenaël, pois o faziam se lembrar dos bons momentos em que ele e sua mãe se encolhiam juntos diante da lareira lendo um livro ou simplesmente conversando. Naquele dia, entretanto, ele se encontrava feliz, pois seu avô lhe propusera ensinar a cavalgar assim no dia seguinte, caso não fizesse.
Por que ele escolheu aquele dia? Essa era uma pergunta que Rumpelstiltskin possivelmente nunca conseguiria responder ao certo. Ele apenas observou Gwenaël esboçando o seu sorriso mais sincero e inocente e se lembrou de Belle.
Ele entenderia, Rumpelstiltskin tinha esperança. Entenderia porque era filho de Belle, a pessoa mais altruísta, despretensiosa e bondosa que ele já conhecera. Fora Belle que o educara durante seu primeiro ano de vida, fora ela quem lhe ensinara seus primeiros valores. Talvez, Gwenaël não aceitasse a princípio, mas o perdoaria, e o feiticeiro desejava que estar ali para ganhar a confiança dele novamente antes da maldição.
A honestidade provavelmente seria dolorosa, mas ele queria ter algum tempo com Gwenaël antes de ser preso para fazê-lo entender tudo corretamente. Definitivamente, Rumpelstiltskin não mandaria outro filho para o Mundo Sem Magia o odiando.
"Gaël," ele chamou o filho, que tagarelava incessantemente sobre cavalos com a mulher que costumava ficar com ele durante as manhãs, Miss Potts.
Gwenaël correu até ele e lhe deu um abraço, coisa que Rumpelstiltskin sabia ser um comportamento que o menino tinha exclusivamente com ele. Os dois já haviam compartilhado muito para que o gesto simbólico de fazer a reverência fosse necessário. Já nos braços do pai, o menino acenou em despedida para Miss Potts.
"Precisamos conversar, Gaël," disse Rumpelstiltskin, segurando o filho com força contra o seu peito.
O feiticeiro percebeu que algo em seu tom de voz despertou a curiosidade e o temor de Gwenaël, pois ele ficou imediatamente muito inquieto. Eles seguiram, entretanto, em silêncio até os aposentos de Rumpelstiltskin, esperando estar em um lugar privado onde pudessem conversar com mais liberdade.
"Você vai me abandonar de novo, papai?" Perguntou Gwenaël com a voz entrecortada, e Rumpelstiltskin soube que sua tarefa seria ainda mais difícil do que pensara — se isso era possível. "A única vez que você usou esse tom comigo foi quando você saiu para procurar a mamãe e desapareceu por meses."
Rumpelstiltskin encarou Gwenaël por alguns segundos e começou a contar a história de como, um dia, perdera o seu filho mais velho, Baelfire.
"Eu me arrependi de deixá-lo ir no momento em que o portal se fechou e ele já se encontrava inalcançável, Gaël," disse o feiticeiro. "Procurei por muito anos por um modo de chegar até ele, viajar para o mundo sem magia e acabei por encontrar uma terrível maldição que transportará todos nós para lá."
"Toda magia tem um preço," disse Gwenaël, repetindo o que o pai lhe dizia todos os dias incansavelmente. "Qual é o preço de uma magia tão horrível, papai? O que isso tem a ver comigo e com a minha mãe?"
Perceptivo, muito perceptivo, esse nosso filho, Belle. Ele se deixou sorrir levemente ao notar o quanto aquele menino o deixava orgulhoso. Inteligente e perceptivo, como a mãe dele.
"Não serei eu a lançar essa maldição, Gaël," disse Rumpelstiltskin, suavemente. "Nem mesmo para reencontrar Baelfire eu gostaria eu pagaria o preço exigido. Não, alguém lançará para mim, alguém que eu venho treinado há muito tempo para fazê-lo."
"Quem?" Perguntou Gwenaël, curioso. Ele andara suspeitando que não era o primeiro aluno de seu pai, mas, a despeito das circunstâncias, ficou interessado em saber mais sobre esse outro aluno.
"Uma mulher que tem muito a me agradecer, mas também tem muitos motivos para me odiar e temer," disse o feiticeiro. "Ela daria tudo para ter uma arma contra mim, e você seria o alvo perfeito."
Gwenaël engoliu seco. Sabia que seu pai tinha inimigos, ele já havia deixado muito claro — assim como o destino de sua mãe o fizera -, mas a ideia de que uma dessas pessoas fosse lançar uma terrível maldição o amedrontava. Como seu pai podia deixar alguém ter tanto poder assim.
"A maldição vai durar vinte e oito anos, Gaël, nos quais nós ficaremos congelados no tempo, o relógio vai parar, e nossas memórias vão ser temporariamente apagadas," falou Rumpelstiltskin. "Mas você não vai estar conosco. Seria perigoso demais ficar à mercê de Regina por tanto tempo. Não, não. Você precisa ser protegido, menino."
"O-o que v-você vai fazer pa-ra me proteg-ger?" Perguntou Gwenaël, temendo a respeito do pai. Ele estava usando o tom de feiticeiro dele que sempre o aterrorizara: estranho, inumano e distante.
"Vou te enviar para o mundo sem magia antes," disse o feiticeiro. "Haverá uma mulher, ela ainda não nasceu, mas é a pessoa que vai nos salvar, Gaël. A mulher vai ser transportada através de um guarda-roupas mágico, e você também, porque é igualmente importante que fique protegido da maldição."
"Então," disse Gwenaël, e ele engoliu seco novamente, fazendo esforço para não chorar. "Então, você vai me abandonar de novo?"
"Gaël," disse Rumpelstiltskin se ajoelhando e segurando os ombros do menino com firmeza. "Não, não, não. Gaël, não como da última vez. É um mal necessário para a sua proteção, meu filho, e me dói muito ser forçado a te mandar para esse mundo. Mas é necessário, você precisa entender, por favor!"
Gwenaël olhou nos olhos do pai, os seus olhos cheios de lágrimas e seu cenho franzido. Ele estava sendo sincero, o menino sabia disso: pela primeira vez em toda a sua vida, o seu pai estava sendo completamente sincero com ele. Isso tinha que ter um valor, não é?
"Eu não entendo, papai," disse Gwenaël, por fim. "Mas mamãe me disse uma vez que, quando a gente ama uma pessoa, a gente ama mesmo o que não entende. Agora, eu descobri que ela estava certa sobre isso."
Rumpelstiltskin precisou de um momento para absorver o que o filho dissera. Quando as palavras finalmente fizeram sentido em sua cabeça, o feiticeiro abraçou Gwenaël com força contra seu peito, chorando copiosamente.
Ele não entendia, mas o perdoava. Que filho maravilhoso você criou, minha Belle!
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*Como o sangue pode ser a sua salvação/E justificar a dor/Que causamos ao longo dos tempos?/Vou aprender o que é verdadeiramente sagrado?/Será que vou resgatar minha alma?/A verdade me libertará? (Música: The Truth Beneath The Rose – Within Temptation)
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