Catarse.
10 Uma canção
Notas iniciais
A efemeridade é a única certeza que permeia todos os aspectos da existência humana. A vida possui um prazo de validade desconhecido, e dentro desse tempo impreciso cada um tenta fazer aquilo que acredita ser melhor. Shura não era diferente da maioria das pessoas no que dizia respeito a essa questão. Passou a maior parte de sua vida tentando fazer o que era certo, mesmo que essa noção estivesse muita mais manchada de cinza do que de preto ou branco.
Lógico que existem alguns aspectos em que o senso comum e a sociedade trabalham de forma mais enfática e elencam bem os conceitos de moralidade, e dentro dele, estão o que seria o correto e o errado. As atitudes do espanhol até o momento, caso fossem julgadas poderiam ser interpretadas de diversas formas. Uma parcela diria que ele era um grande mentiroso e traidor, outra que estava apenas seguindo seus instintos e existiriam até aqueles que defenderiam que ele deveria apenas correr atrás de sua felicidade. Na teoria, nenhuma das proposições está errada. Mas quem seria capaz de realmente entender o que se passa com o outro? Julgar é sempre mais fácil quando se está de fora e acredita-se ter todas as respostas.
E na ânsia de tentar fazer o que acreditava ser o certo, mesmo que tardiamente, havia entrado em um acordo tácito com o motivador de seu comportamento teoricamente errático e tinham cessado os encontros escondidos. Pelo que podia lembrar já estava há uma semana sem sentir o gosto dos lábios e a rigidez do corpo do italiano. Contudo, o que lhe causava mais saudade era ouvir a risada exagerada que ele dava cada vez que percebia o rubor em seu rosto e de identificar o tom doce que ele aplicava à palavra cada vez que o chamava de “Bello”. Suspirou olhando para caneca de café vazia e mirando a tela do computador que permanecia desligada.
Em uma velocidade ímpar havia terminado o trabalho e agora via-se preso em meio ao tédio e a auto comiseração. Após a noite em que se admitiu enciumado e mais do que isso percebeu-se verdadeiramente apaixonado pelo Italiano, entendeu que já não conseguiria manter nenhum de seus mantras, ou como dizia Máscara da Morte “Suas frases clássicas”. Ao bem da verdade, o dono dos fios grisalhos parece sempre ter tido razão ao enunciar que Shura deveria repetir cada uma de suas certezas até chegar ao pleno convencimento sobre elas. Parece que a repetição não surtiu o efeito necessário e havia concluído que já não conseguiria ter apenas uma parcela da presença de Ângelo em sua vida. Ainda mais quando sua fatia era aquela que deveria ser deixada de lado em prol de outra.
Não culpava o Italiano, ele fez o que deveria ser feito, em seu lugar também teria seguido em direção a Shaka, mas mesmo assim, doía saber que aquela situação poderia se repetir sempre que estivessem juntos. Olhou a foto do namorado que permanecia sobre a mesa e no lugar do olhar apaixonado que sempre devotou ao indiano, a íris esverdeada refletia apenas culpa e pesar. Entendia agora que o amor que sentia por Shaka havia sido manchado pelos sentimentos que nutria por Ângelo, e que na ânsia de fazer o indiano feliz e de se sentir novamente no controle de suas ações, o havia convidado a partilhar a vida.
A convivência diária e o clima caseiro, apenas serviu para acentuar a máxima que antes conseguiam manter disfarçada, algo sempre esteve errado. Acreditava que sendo um namorado compreensivo conseguiria compensar seus atos e acima de tudo desfazer o desconforto que sentia com a relação entre Shaka e seu problemático amigo, Camus. Talvez, de forma egoísta tenha convidado o indiano para morar com ele em uma tentativa infantil de mantê-lo sobre seus olhos. Acima de tudo, admitia que fez aquilo porque precisava fugir do que sentia por Ângelo. Ao contrário de si e do próprio Shaka, o Italiano não era assumido em sua orientação sexual, na verdade, ao que tudo indicava, Shura havia sido o primeiro homem a despertar o desejo de Máscara da Morte, ou pelo menos o primeiro que o desconcertou de tal forma a ponto dele engolir seu orgulho, preconceito e se jogar violentamente nos braços do Espanhol.
Shura tinha consciência que engatar em um relacionamento com o colega de trabalho seria doloroso de várias formas, para ambos. E no fim, não tinha certeza se o Italiano aguentaria toda a pressão e acima de tudo, se ele nutria sentimentos por si que fossem o suficiente para fazer com que ele empreendesse aquela jornada. Lembrou da vez em que ele havia questionado Ângelo sobre apresentá-lo a família e a resposta vaga que tinha recebido.
Não sabia se teria forças para uma segunda vez adentrar em uma relação que estava fadada ao fracasso, e por isso, tentou fechar a todo custo seu coração para o dono do par de olhos castanhos mais sensuais que já havia contemplado e viu em Shaka a forma perfeita de erguer uma barreira ao seu redor. Percebeu que todo seu esforço tinha sido em vão ao chegar em casa depois da noite do bar e sentir um vazio tão grande que nem mesmo a presença do esposo conseguia preencher.
Ponderou que mesmo que mantivesse a postura atenciosa e cuidadosa, já não era mais o homem que levantava mais cedo calculando o horário em que o namorado acordaria só para preparar um bolo pra ele. Já não sentia a necessidade e acima de tudo, o prazer ao dedicar esses pequenos cuidados. Suas atitudes eram mais mecânicas do que naturais. Observou que da parte de Shaka também parecia ter algo estranho. Apreciava de sobremaneira o jeito prático e organizado do namorado, nunca mentiu sobre isso, mas percebia que ele parecia analisar minuciosamente cada uma de suas atitudes, e que andava mais pensativo que o normal. A mente daquele homem estava sempre em movimento, porém, ela parecia se movimentar de forma a ampliar a distância entre os dois e ele jamais poderia o culpar por isso.
Em um gesto impensado pegou o porta retrato e colocou dentro da primeira gaveta de sua mesa. Olhou durante algum tempo para o local agora vazio e respirou aliviado. Já não suportava mais o peso do olhar de Shaka e aquela foto só fazia com que se sentisse pior, pois ela o lembrava que mais do que trair o namorado, estava traindo a si mesmo e esse era o grande motivo de todo seu tormento. A culpa por estar enganando o Rubio, não era maior do que a de estar se enganando, traindo suas convicções, sua honra, seu senso de justiça e lealdade. A grande deslealdade estava sendo empregada a si e quanto a isso, já não sabia mais o que fazer.
Empurrou a cadeira pra trás e levantou sentindo automaticamente o corpo pesar. Olhou o relógio de pulso verificando que sairia em pelo menos meia hora, não era tanto tempo assim, mesmo que tenha passado a conceber o tempo como algo relativo. Calculou que pelo horário Máscara da Morte deveria estar fechado em sua sala, resolvendo alguma pendenga de última hora, era sempre assim naquela empresa, portanto seria minimamente seguro arrastar seu corpo até a copa e consumir todo o café que a firma tinha a oferecer.
Deixou os óculos em cima da mesa e munido de sua caneca caminhou quase cabisbaixo. Preso em seus pensamentos, não notou o par de olhos castanhos acompanhar seu movimento, enquanto se mantinha agachado em uma das baias do salão da empresa fazendo manutenção em um dos computadores. Inconscientemente o Italiano suspirou e terminou de fechar a CPU da máquina. Permaneceu agachado e fechou os olhos, precisava de um cigarro. Autocontrole nunca foi uma de suas características, muito pelo contrário, o apelido trevoso não tinha sido dado de forma leviana. Não sabia precisar quantas vezes tinha ouvido que era passional demais e agia de forma impensada, contudo, no que dizia respeito ao Espanhol de olhos esmeraldinos e compleição seria, tudo que fazia era pensar. Talvez, devesse começar a agir também.
Shura encheu a caneca de café e contemplou a fumacinha que saía da bebida com um olhar triste e quase melancólico. Segurou o copo com as duas mãos e encostou no armário que ficava próximo a bancada da copa. Observava a bebida fumegante como se pudesse tirar dali todas as respostas que buscava. Inconscientemente começou a cantarolar trechos de La barca.
Máscara da Morte ficou parado na porta da copa observado as costas do espanhol. O cabelo escuro, os ombros largos, desceu os olhos para o traseiro bem modelado e as pernas fortes. Aquele corpo em nada possuía delicadeza e era exatamente isso que o deixava mais instigado. Preparava-se para dizer algo quando ouviu a voz grossa cantarolando a melodia conhecida. Sorriu ao constatar o que há muito suspeitava, estava com saudade. Não apenas daquele corpo, mas do rosto sério e impassível, que fazia questão de manchar de rubro sempre que tinha oportunidade. Da voz grossa, quase rouca, que raramente era ouvida, já que ele era um homem de poucas palavras, e que tinha o poder de tirar seu rumo.
— Supiste esclarecer mis pensamientos… Me diste la verdad que yo soñé… — Shura suspirou ao final da frase fechando os olhos em seguida.
— E qual é a verdade com a qual anda sonhando, Bello? — Máscara da Morte entrou na copa e abraçou Shura falando em seu ouvido.
— Ângelo! — Assustou-se mas não saiu do abraço. — Há quanto tempo está aí?
— O suficiente para saber que precisamos conversar.
Shura colocou a caneca de café dentro da pia e girou o corpo ficando de frente para o Italiano sem no entanto sair do abraço. Encarou o rosto de traços fortes, passou os braços ao redor do pescoço dele e se perdeu na imensidão de sentimentos que conseguiu identificar nos olhos castanhos, percebendo que provavelmente seu olhar refletia aquele mesmo turbilhão de emoções.
— Precisamos. Vamos pra onde?
— Podemos ir…
Máscara da Morte interrompeu sua fala ao ouvir um pigarrear atrás de si. Estavam tão absortos na presença e presos um no outro, que sequer perceberam que Aldebaran estava parado na porta da copa. Nem mesmo Shura que estava de frente para a entrada tinha notado a presença daquele homem, o que parecia quase impossível considerando o porte do colega de trabalho.
Sorriu sem jeito, já não importava. Apenas queria ficar perdido naquele Italiano maldito.
Cabrón dos infernos!
— Desculpe interromper mas o Shion está chamando o Shura na sala dele.
— Algum problema? — Questionou com tranquilidade.
Máscara da Morte postou-se ao lado do homem de olhos verdes e cruzou os braços. Nenhum dos dois parecia preocupado por terem sido flagrados naquele abraço.
— Não sei dizer, Shura. Só sei que o Mu parece preocupado. Acho melhor você ir logo.
— Tudo bem… — Olhou para o Italiano e sussurrou — Me espera?
— O tempo que for necessário. — Sussurrou de volta sorrindo em seguida.
Shura retribuiu o sorriso contendo a vontade absurda que sentia de beijar seu Cabrón.
Vejam só… Agora ele é meu?
Riu com o pensamento sendo observado por Aldebaran que seguia ao seu lado desde que havia saído da copa.
— Boa sorte! — Aldebaran falou sentando em sua baia.
Shura seguiu para a sala de Shion e respirou fundo antes de bater na porta.
— Pode entrar. — Ouviu a voz do gerente.
— Com licença, o senhor quer falar comigo? — Entrou na sala ficando de pé em frente a mesa de Shion.
— Sim… Sente por favor… O assunto é delicado.
Não pôde deixar de notar a fisionomia preocupada e o ar inquieto do gerente. Remexeu na cadeira incomodado. Alguma coisa lhe dizia que deveria ter marcado logo o encontro com Ângelo. Parece que o tempo não era tão relativo assim e agora ao notar o olhar de Shion, sabia que o seu certamente estava esgotado.
Continua.
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