Catarse.
11 O fim.
Recostou na cadeira tirando o celular do bolso, desbloqueou o aparelho e olhou uma das fotos de sua galeria. Não pôde conter o sorriso ao divisar o rosto quase sempre sisudo do dono dos olhos esmeraldinos ornado por um meio sorriso e admitiu que aquele homem realmente ficava muito bonito em um terno, por mais que tivesse certeza que ele sempre ficaria melhor tendo apenas suas mãos como única vestimenta.
Respirou fundo e observou com desgosto a chegada de um e-mail. Abriu o correio corporativo e viu que Aldebaran havia iniciado um chamado para a manutenção de seu computador. Colocou o celular em cima da mesa e digitou a resposta, indicando que resolveria o problema o mais rápido possível, mesmo que naquele momento não fizesse nenhuma menção de sair daquela sala.
Incomodava-o profundamente ser evitado por Shura, mas depois da última vez que saíram as coisas pareciam ter se encaminhado para um acordo de distanciamento mudo. Não sabia precisar os motivos do Espanhol, de sua parte, apenas queria dar espaço a ele. Por mais que doesse admitir, agora, tinha a consciência de que se submeteu às vontades dele durante todo esse tempo e que agia de tal forma, por não saber o real desejo do homem de olhos verdes. Desde que podia se lembrar, demonstrava de forma aberta, mesmo que sutil, o carinho e a sinceridade em suas atitudes, contudo, o receio do outro recuar mediante uma investida mais direta o atormentava. O jeito ambíguo de Shura acabava por abalar toda a confiança característica de sua personalidade e acrescentava mais uma camada ao imbróglio em que havia se metido.
Praguejou baixo respondendo outro e-mail e lembrando da última noite em que estiveram juntos. O clima de sedução, cumplicidade e romance, sim porque não romance, era tangível entre os dois. E Ângelo acreditou que aquele seria o momento oportuno para colocar em xeque os sentimentos do outro e os próprios. A interrupção de Helena parece não apenas ter cortado o laço que se estreitava, mais do que isso, ela deixou claro que haviam trilhado um caminho sem volta e que a tentativa de afastamento só estava servindo para causar sofrimento e angústia aos dois.
O Italiano não sabia dizer com relação a Shura, mas de sua parte nunca foi apenas sexo. Mesmo no começo, quando tudo era mais simples e seu corpo parecia apenas querer se deliciar com os gemidos gostosos que saiam da boca carnuda de seu Bello. Já naquela época, ele sabia que não era apenas a pele do sério companheiro de trabalho que almejava, por mais que a princípio se esforçasse para demonstrar o contrário.
Tinha tal convicção pois jamais arriscaria sua relação com Helena, uma amizade de mais de quinze anos que se transformou em um compromisso. De qualquer forma, excetuando o fato de ser um homem comprometido, Máscara da Morte tinha outras questões para lidar. Até segunda ordem, era indubitavelmente heterossexual e jamais se imaginou apaixonado por um homem. Justiça seja feita, caso puxasse pela memória, não seria difícil encontrar momentos em que se pegou analisando corpos masculinos com certo interesse, porém em nenhum instante o sentimento evoluiu para algo que o fizesse empreender maior atenção ao reparo que dedicava. Além disso, sempre que se percebia desejando um homem, no momento seguinte saciava sua ânsia em um corpo feminino e assim se sentia satisfeito. Até o fatídico dia em que foi apresentado ao novo funcionário da empresa e viu todas as suas certezas sendo rompidas uma de cada vez.
Talvez, em um primeiro momento tenha sentido raiva, sim muita raiva daquele homem irritamente gostoso e bem resolvido. O maledetto Espanhol ostentava uma foto do namorado em cima da mesa do trabalho e não tinha receio algum em denunciar suas preferências. E ele advindo de uma tradicional família italiana e tendo aprendido desde a tenra idade que deveria contribuir para a perpetuação das próximas gerações, só conseguia pensar em como nada disso importava desde que conseguisse sentir o gosto daqueles lábios que viviam crispados.
Não atestou de imediato essas considerações, mas sim na medida em que convivia com o Espanhol e se encantava pelo jeito certinho, sério e como dizia Aldebaran “caxias” do colega de trabalho. Na mesma medida em que compreendia que desejava a companhia de Shura, percebia que detinha imenso carinho e apreço por Helena, além de um deturpado senso de obrigação, não mais do que isso.
Com o passar do tempo, conforme se descobria progressivamente ao ser possuído por aquele homem e ao se enterrar cada vez mais no corpo dele, percebia que estava condenado e que já não conseguiria mais se sentir pleno com outra pessoa. Na primeira vez que sentiu o Espanhol dentro de si, foi lançado em um abismo profundo e sombrio, tamanha foram as sensações inéditas que acometeram seu corpo. Dentro desse abismo ele encontrou dor, cuidado, calor, paixão, desejo e depois de tudo, finalmente luz. Pegava-se constantemente analisando a diferença entre o toque, a pele, o beijo, o conflito entre dominância e submissão, e acima de tudo, como essas noções perderam o envelopamento estático que sempre atribuiu a elas.
Jamais confidenciou a Shura que ele foi seu primeiro em muitos aspectos, mesmo que tivesse clara noção que ele deveria suspeitar ao menos de alguns. Suspirou colocando o cotovelo sobre a mesa e apoiando o rosto nas mãos. No fim, tinha protelado suas atitudes pelo claro receio da rejeição e não sabia qual conduta seguir com relação a distância que se interpunha aos dois.
Já não era mais um homem comprometido, após a noite em que precisou ir ao encontro de Helena teve uma difícil, porém sincera e reveladora conversa com a ex namorada. Fechou os olhos sentindo-se desconfortável ao relembrar o semblante triste e ao mesmo tempo decido da moça.
— Você poderia ter sido sincero comigo, Ângelo. Achei que acima de tudo éramos amigos. — Pronunciou em um tom nitidamente magoado, passando a mão nos fios castanho escuro que estavam presos em um rabo de cavalo.
— E somos Helena. — Tentou aproximar as mãos do rosto dela.
— Pois fico muito curiosa sobre a forma como trata suas amizades... — Desviou a mão de Máscara da Morte. — E suas noções de lealdade.
— Helena… — Sentou no sofá dando-se por vencido — Eu não fui leal nem comigo mesmo. Como eu poderia ser sincero com você se antes de tudo não conseguia ser comigo? Diga-me. Você melhor do que ninguém sabe de onde eu venho, conhece minha família e minha criação. Meu pai não concebe filhos, mas sim garanhões procriadores. É diferente da sua família, dos seus pais, de você. Como eu poderia ter dito algo, se passei boa parte do meu tempo convencendo a mim mesmo que estava errado e que não passava de pura ilusão ou uma curiosidade grotesca?
Abriu os olhos desanimado olhando mais uma vez a tela do computador piscar, indicando a abertura de mais um chamado. Conferiu o relógio de pulso, empurrou a cadeira e levantou. Pegou uma pequena caixa de ferramentas e foi em direção a baia na qual Aldebaran trabalhava. O simpático colega que parecia não concatenar o comportamento gentil e juvenil, com seus mais de dois metros de altura, deu espaço ao Italiano e indicou que ficaria conversando com Mu, caso precisasse dele para alguma coisa.
Máscara da Morte apenas anuiu e passou a abrir a parte traseira da CPU. Empenhou-se por algum tempo naquela tarefa, imaginando as palavras que poderiam ter trocado caso não tivessem sido interrompidos e ao mesmo tempo agradeceu por aquilo ter acontecido, pois só assim tinha começado a percorrer um caminho que o levava a seu Bello, mas sem a insegurança e parte da problemática que os cercava.
Estava há uma semana sem sentir a alternância entre o toque suave e a pegada certeira que somente Shura era capaz de imprimir em seu corpo. E há exatamente uma semana, além de não possuir mais namorada, havia percebido que tinha a resposta para a pergunta que o Espanhol o fez na noite em que precisaram entregar uma licitação às pressas. Sim, ele o apresentaria a sua família, porque não importava o quanto os Tomazo D’Oro poderiam ser preconceituosos, estava disposto a arriscar tudo para ficar com ele e acima de tudo, para finalmente empreender um real senso de lealdade consigo mesmo e se aceitar da melhor maneira possível.
Terminava o serviço quando viu Shura passando pelo pátio da empresa, cabisbaixo, distraído, o peso do mundo sobre os ombros. A visão o impactou de tal forma que não pôde construir nenhuma de linha raciocínio que não fosse a de seguir aquele homem e o tomar em seus braços, assim o fez. Conseguia enxergar a dúvida, a culpa, mas também o carinho e… Algo mais, nos olhos do outro. Infelizmente foram mais uma vez interrompidos e ele decidiu aguardar o retorno de Shura na sala do Espanhol.
Observou com certo júbilo que a foto belo loiro com quem o outro namorava não reinava mais sobre a mesa e recostou-se ali, um sorriso discreto ornando seu rosto, a ansiedade dando as caras e a vontade quase incontrolável de arrancar seu Bello da sala do gerente o mais rápido possível. Olhou o relógio de pulso no momento em que ele abriu a porta da sala, o largo sorriso que planejava dedicar ao outro morreu na intenção. Franziu o cenho ao ver o rosto normalmente sério retorcido em um misto de tristeza e desalento.
— Shura… O que houve? — Sentiu o peso dos olhos verdes sobre si e prendeu a respiração quando ouviu as palavras que saíram da boca do espanhol antes dele se jogar na cadeira em completo abandono.
— O fim.
Continua.
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