Catarse.

7 Tudo está bem, quando acaba bem.


Como toda criança, gostava de ouvir as histórias que sua Abuela tinha para contar e uma em especial sempre chamava a sua atenção devido a mensagem. Por mais que não fosse uma história típica da terra natal daquela senhora, comumente ela repetia o conto que trazia como moral: “Tudo está bem, quando acaba bem.” E fazendo valer esse ensinamento, o Espanhol suspirava aliviado por ter consigo cumprir a missão de entrega da licitação.

Claro que não tinha conseguido sozinho. Máscara da Morte havia passado a noite com ele, e em mais de um sentido diga-se de passagem. Sentiu um frio na espinha ao lembrar da voz sussurrando em seu ouvido. Recostou-se na cadeira e olhou o monitor, apertando os lábios. Faltavam cinquenta páginas, mas não era nenhum trabalho urgente. Podia se dar ao luxo de divagar sobre a vida ao invés de correr os olhos insanamente pelas páginas sempre mal escritas e cheias de erros tão grotescos.

O que fazia com que se perguntasse diariamente: Como aquele povo conseguiu um diploma?

Tinha suas teorias, que preferia não externalizar, simplesmente por precisar do dinheiro. Xingou mentalmente ao ouvir o telefone de sua mesa tocando, o som era do ramal interno. Esperava que não fosse mais um pedido de virada. Não almejava passar mais uma noite no trabalho longe de seu esposo e perto do Italiano. Há muito sabia que aquela situação estava fugindo do controle. Amava seu esposo. E não existia engano nisso, mas não podia negar que sentia algo pelo protótipo de Don Corleone. E aquilo o quebrava de uma forma inimaginável.

Ignorava sem pudor o telefone tocando estridentemente. Não queria falar com ninguém naquele momento. Nem sequer ser ele mesmo. Acaso lhe oferecessem uma troca de vida aceitaria no primeiro segundo. Queria ser como um de seus amigos que tinha um irmão gêmeo, assim quem sabe poderia trocar de lugar com ele por apenas um dia e fugir de si mesmo. O telefone parou de tocar, percebeu que tinha parado de respirar, contendo o ar nos pulmões enquanto olhava a foto do namorado e sentia a culpa transbordando de seus poros.

O que eu estou fazendo? Questionou a si mesmo em busca de respostas que nunca vinham.

Por mais que racionalmente tivesse a convicção de que não tinha nada a oferecer a Ângelo, não saia de sua cabeça a voz grossa e carregada de um sentimento que nunca sabia identificar sussurrando rente aos seus lábios antes de iniciar o beijo “Repete isso mais algumas vezes… em algum momento você se convence”.

Apertou os lábios com raiva. O telefone tinha voltado a tocar. Não podia sequer agonizar em seu martírio sem interrupção. Ah, como odiava aquele trabalho! Atendeu a ligação em um misto de irritação e cansaço:

— Edição, Shura.

— Ei Espanhol, não atende mais essa merda de telefone?

Shura fechou os olhos. Não tinha paz, aquele sentimento abstrato já não mais fazia parte de sua vida.

— Você não está falando comigo, Máscara da Morte? Sendo assim, eu atendo telefone.

— Está nervoso? Falta de sexo isso. — Gargalhou.

— E você quer o quê mesmo? — Tirou os óculos de leitura colocando em cima da mesa.

— Hum… essa pergunta tem várias respostas. Ser rico seria uma delas. Você de joelho, em plena devoção, me pagando aquele boquete gostoso seria outra. — Gargalhou mais alto .

O Espanhol gostaria de se exaltar, replicar com os xingamentos mais escabrosos que conhecia e em todos os idiomas que tinha fluência, contudo, a proposição não lhe parecia ruim e podia lembrar claramente de já ter satisfeito esse desejo inúmeras vezes. Gostaria de se dar um peteleco mental, mas o máximo que fez foi pigarrear e tentar manter uma conversa profissional, mesmo que seu corpo e sua mente correspondessem de outra forma.

— Precisa de alguma coisa do meu setor? Algo de trabalho, pelo amor de Deus! — Exasperou-se.

— Na verdade não. Só quero saber se você quer sair pra beber hoje? Você nunca responde minhas mensagens. — Máscara falou com indisfarçada chateação.

— Ângelo… — Suspirou — Eu já te pedi um milhão de vezes para não me mandar mensagem. Quando eu morava sozinho já era complicado… imagina agora.

— Ué… achei que seu marido fosse do tipo tranquilão.

— E ele é. Mas o que eu digo caso ele veja uma rola pipocando na tela do meu celular no meio da madrugada?

— E vai me dizer que você não gostou? Consegui um puta ângulo. — Riu.

— A questão não é essa… — Suspirou — Você sabe bem do que eu estou falando. Ao menos… tente ser discreto no que escreve e envia. — Shura bufou — Não desgosto das suas mensagens, apenas seja discreto. Ok?

— Ok, Espanhol… Serei discreto. — Sorriu — E então, vamos beber?

Shura ponderou por alguns minutos olhando a foto do namorado. Passou uma das mãos pelo retrato, fechando os olhos em seguida, sentindo uma pontada aguda no peito.

— Vamos… mas preciso estar em casa antes da meia noite. — Deu um sorriso triste.

— Sem problemas. Não posso demorar muito também, a Helena vai fazer lasanha hoje. E meu querido Espanhol, como aquela mulher cozinha bem.

Percebeu o tom de voz animado do colega de trabalho e mais uma vez se questionou sobre os motivos daquilo tudo. Teve vontade de perguntar, mas ele já tinha desligado o telefone. Sairia em dez minutos, e sabia que ele estaria na esquina o esperando, como sempre. Iriam beber, conversar, rir e fuder, como sempre. Ao chegar em casa seria recepcionado com amor, dedicação e uma quase devoção, e como sempre, seria o esposo dedicado, compreensivo e dissimuladamente perfeito, em sua ânsia de compensar seus erros, mesmo que não soubesse mais ao certo se eram mesmo erros.

Somos covardes com os nossos sentimentos, lembrava de ter ouvido certa vez um amigo dizer.

E respirando fundo, começou a organizar suas coisas para ir embora, afinal tudo está bem, quando acaba bem.

Continua.