Catarse.
8 Será que eu quero saber?
Notas iniciais
Não sabia precisar há quanto tempo estava apenas acompanhando os movimentos do outro: a caneca de chopp zero grau sendo levada aos lábios, o movimento da garganta ao engolir o líquido, as mãos que passavam de forma grosseira pelos lábios limpando resquícios da espuma e em seguida o sorriso. Por mais que não gostasse de admitir, tinha plena consciência que desde o começo havia sido desarmado por aquele sorriso. Mesmo que o conjunto fosse tão sedutor quanto, sabia que tinha algo naquele erguer de lábios que deixava tantas possibilidades no ar, que sentia necessidade de desfrutar de cada uma delas.
Estreitou os olhos e mordeu os lábios ao perceber que Máscara cantarolava partes da música que tocava no bar. Respirou fundo e virou de uma única vez a caneca de cerveja, recebendo um olhar sacana do outro.
— Está com sede, hein… — Máscara debochou.
— A noite está quente… Dá sede.
— Muito quente… — Aproximou o rosto de Shura passando a língua pelos lábios do outro.
O Espanhol apenas soltou o ar pela boca e engoliu seco. Máscara pendeu a cabeça para o lado sem no entanto se afastar.
— Não vai dizer nada? — Sussurrou próximo aos lábios de Shura.
— Eu deveria dizer algo? — Passou a ponta da língua pelos próprios lábios ao sentir a mistura de cerveja e tabaco no hálito do outro.
— Algumas das suas frases clássicas repreendendo meus atos… Ou algo mais... — Deu de ombros — Sabe como é: “ That the nights were mainly made For saying thing you can’t say tomorrow day…” — Repetiu parte do refrão da música que tocava.
Shura respirou fundo e rompeu o pequeno espaço entre eles beijando Máscara da Morte que levou uma das mãos a sua nuca fazendo com que os pêlos da região ficassem eriçados e ele soltasse um gemido em meio ao ósculo.
Não era a primeira vez que faziam aquilo e pelos Deuses, ele não sabia dizer se queria que fosse a última. E essa dúvida o atormentava dia e noite. Não existia um único momento de sua existência em que sua mente não se dividisse entre Ângelo e Shaka.
Acordar ao lado do esposo era uma benção e uma maldição, pois corroborava sua certeza de que amava o indiano e queria fazê-lo feliz, ao mesmo tempo em que trazia à tona a convicção de que sentia falta do Italiano sempre que ele não estava por perto. A ausência não era apenas dos beijos, do toque e de todo o prazer que consumavam juntos, mas também da voz rouca, da gargalhada sonora e expansiva, dos olhos que pareciam oscilar entre o castanho e o vermelho, o desprezo profundo e o desejo aterrador.
Sempre se gabou de ser um homem de convicções inabaláveis, e uma delas era exatamente a de que não se podia amar mais de uma pessoa. Seria impensável para o Shura de poucos anos, ou até meses atrás acreditar nisso. Nossas bases se desfazem como castelos de areia…
E por quê? Talvez essa sim fosse a pergunta mais importante. Por quê?
— Ainda bem que me convidou — Shura falou assim que apartou o beijo.
Ambos permaneceram de olhos fechados, os lábios em um roçar leve, as respirações entrecortadas. A química entre os dois era quase palpável e quando abriram os olhos, qualquer um poderia perceber que não era só desejo que existia entre eles, mesmo que ainda não estivessem dispostos a admitir.
— Olha só… Você sempre parece indiferente aos meus convites. — Ângelo sorriu beijando de leve os lábios de Shura.
— Não sou indiferente a nada que vem de você… Acho que nunca fui.
Máscara da Morte arregalou os olhos, a expressão suavizando em seguida. Suspirou, deslocando a mão que estava na nuca do Espanhol, pousando-a em seu rosto.
— Você devia dizer essas coisas com mais frequência, Bello. — Sorriu mirando os olhos verdes de tom camaleônico.
— Talvez… — Fechou os olhos sentindo o calor da mão em seu rosto. — Parece que as noites foram feitas principalmente para dizer coisas que não se pode dizer no dia seguinte. — Sorriu abrindo os olhos ao se referir ao trecho da música que Máscara havia cantado.
— E o que mais podemos dizer essa noite? — Roçou os lábios nos de Shura.
— Acho que tudo aquilo que não conseguiremos dizer amanhã. — Mordeu o lábio inferior de Máscara, sorrindo em seguida.
— Tenho um conjunto dessas e você? — Arrastou ruidosamente a cadeira ficando mais próximo ao Espanhol.
— Você não faz ideia Ângelo… — Shura suspirou mediante a proximidade dos dois e das palavras que começavam a despontar em sua mente.
Cada um a seu modo parecia preparar-se para enunciar seus segredos mais bem guardados, era possível notar a ansiedade e a expectativa. Shura abriu a boca para verbalizar a pergunta que o estava atormentando há algum tempo, quando ouviram o celular de Máscara da Morte tocar.
O Italiano torceu o nariz soltando um palavrão em seguida, Shura afastou-se e começou a mirar o porta guardanapos que estava na mesa.
— Desculpa mas eu preciso atender. — Falou com nítido pesar.
O Espanhol balançou a cabeça afirmativamente e pegou um dos guardanapos, sentindo seu estômago embrulhar. Voltou ao seu estado inicial, observando as atitudes de Máscara da Morte, só que dessa vez, não gostou nem um pouco do que estava lendo naquele gestual.
Encarou um ponto indefinido na parede do bar e uma pergunta formou-se em sua mente: Será que eu quero saber?
Continua.
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