Catarse.

12 Te vejo em breve.


Demorou mais tempo do que gostaria para tomar alguma atitude. Ainda ecoava em sua mente as últimas palavras do Espanhol. Puxou uma cadeira colocando-a em frente a de Shura, analisou brevemente o semblante perdido, os olhos opacos, a boca crispada e o estalar de dedos. Já havia decorado os trejeitos daquele homem e sabia que aquela mania refletia um estado de completo nervosismo. Sentou na cadeira.

Shura apertava os dedos e olhava para as próprias mãos com claro interesse, parecia extrair dali todas as respostas e a completa solução para a sua vida. Levantou os olhos ao sentir o calor do toque de Máscara da Morte sobre as suas mãos, aquela sensação se espalhando por todo o corpo e finalmente deu um sorriso tímido, após um longo suspiro.

— O que houve, Bello? — Máscara apertou levemente as mãos dele.

Shura alargou o sorriso fraco ao ouvir aquele apelido e correspondeu a intensidade do toque.

— Sabe Ângelo, eu odeio esse trabalho! Essa empresa é uma zona. Os prazos não são cumpridos, os funcionários só entregam os relatórios de última hora, o gerente é o primeiro a atrasar tudo. — Bufou — Tirando o Mu e… sei lá você, acho que ninguém aqui percebe que o trabalho em equipe e a organização ajudariam na produtividade.

— Não sei se fico lisonjeado pelo seu reconhecimento do meu profissionalismo, ou ofendido pelo seu tom de voz que nitidamente demonstra sua surpresa com isso. — O tom sarcástico acompanhado de um meio sorriso.

— Nunca duvidei do seu profissionalismo. — Riu baixo. — Nunca duvidei de você de uma forma geral… — Mirou os olhos castanhos — Mas parece que o mesmo não se aplica a mim.

— Shura, eu realmente aprecio o som da sua voz e diria até que gostaria de continuar te ouvindo infinitamente, mas agora realmente preciso que você me diga, sem mais delongas, o que aconteceu na sala do Shion. Ou eu mesmo posso ir até lá e perguntar.

— Não precisa de tanto… — Suspirou — Eu fui demitido Ângelo. Hoje é o meu último dia. Amanhã passarei aqui apenas para juntar as minhas coisas e assinar os papéis no RH. Acabou.

Máscara da Morte engoliu seco, sabia que aquele não era o momento para inquiri-lo sobre a situação dos dois e muito menos empreender a conversa que haviam concordado que precisavam ter, mas aquele “Acabou” soou tão ambíguo, assim como boa parte das atitudes de Shura, que ele não sabia se conseguiria permanecer impassível.

— Por mais que eu odiasse, isso aqui era o que pagava minhas contas. Acabei de financiar uma casa… — Abaixou a cabeça olhando para as mãos de ambos — Eu sou um fracasso mesmo… em tudo…

— Ei… — Chamou a atenção de Shura entrelaçando os dedos em seguida — Você é muitas coisas, mas fracasso não é uma delas. Shion justificou a demissão?

— Sim. Ele disse que a empresa já está há algum tempo com problemas financeiros, por isso a urgência daquela licitação que fizemos a noite… — Corou levemente com a lembrança recebendo um sorriso lascivo. — Parece que o dinheiro dela poderia segurar por mais algum tempo, porém não conseguimos o projeto. Sendo assim, por mais que ele tenha alegado que gosta muito do meu trabalho e desempenho, não tem como me manter já que o Mu pode cumprir essa função. Ele vai ficar mais atribulado, mas consegue levar as coisas, além disso, ele é sobrinho do Shion. Acho que sou a única pessoa que trabalha aqui sem envolvimento familiar.

— June e Aldebaran também. Ele vai efetuar seu pagamento corretamente?

— Vai sim… Por isso tenho que vir amanhã assinar os papéis. — Suspirou — Preciso pensar no que fazer.

— Tem alguma ideia?

— Nenhuma… Por hora, vou pra casa. Preciso pensar em como vão ficar as minhas contas, até onde aguento com o auxílio desemprego… quem sabe vender o carro, não sei. Mas por enquanto só quero sair daqui. — Soltou as mãos de Máscara.

— Entendo… — Permaneceu sentado olhando os movimentos do outro.

Shura levantou da cadeira, abriu a porta de um dos armários suspensos que tinha na sala e de lá retirou sua mochila. Abriu o compartimento principal pegando a capa do óculos de leitura, que permanecia sobre a mesa. Depois recolheu alguns livros, um estojo e ao abrir a primeira gaveta da mesa deu de cara com o porta retratos que tinha guardado. Pegou o objeto e suspirou pesadamente observando o sorriso do loiro emoldurado.

Máscara da Morte acompanhava todos os movimentos do Espanhol em silêncio, a angústia e a incerteza se fazendo presente. Sentiu um embrulho no estômago e suprimiu a vontade de esmurrar a mesa ao ver o porta retrato. Olhou para Shura a tempo de o ver murmurando “Preciso falar com ele…”. Seu peito se comprimiu e podia jurar que sentia algo quente e desconfortável se formar em seus olhos, balançou levemente a cabeça, não queria se entregar tanto.

O movimento captou a atenção do Bello que pousou os olhos verdes na figura amargurada de Máscara da Morte. Aproximou-se colocando umas das mãos no rosto de Ângelo fazendo um carinho na bochecha com o polegar, levantou o rosto bonito que transmitia tanto desalento e fez com que ele o encarasse. Os olhos castanhos ganharam um leve brilho avermelhado e ele sorriu, o primeiro sorriso sincero que destinava a alguém desde o casamento de Aiolos.

— Meu tempo aqui acabou, Cabrón, mas não o nosso. Ainda precisamos ter aquela conversa… Na verdade acho que precisamos conversar com muita gente — Olhou de relance para o porta retrato que mantinha em uma das mãos. — Mas agora, preciso resolver outras coisas…

— Resolva suas coisas e quando estiver pronto resolvemos as nossas… — Levantou da cadeira aproximando-se de Shura, o rosto a poucos centímetros.

— Prometo não demorar muito… Não mais. — Fechou os olhos dando um beijo leve nos lábios de Máscara da Morte.

O Italiano não pretendia aprofundar o beijo em virtude da situação, mas a saudade, a sensação de ter aquele corpo tão desejado, a pessoa tão querida perto de si, nublou o pouco controle que ele possuía e quando deu por si estava com uma das mão na nuca de seu Bello e a outra em sua cintura. Shura por sua vez deixou o porta retrato cair no chão assim que sentiu a língua sinuosa de Ângelo passando por seus lábios e enlaçou o pescoço dele. Nenhum dos dois se preocupou com o barulho do objeto partindo-se ao chegar ao chão. O vidro quebrado, as laterais da moldura lascada. A ironia. Aquele singelo objeto que sempre esteve ali, reinando sobre aquela mesa, assistindo e julgando a todos os deslizes daqueles dois, finalmente jazia partido, um ciclo finalizado.

Apartaram o beijo encostando as testas, os rostos ainda próximos, as respirações se mesclando.

— Você vai ficar bem Bello?

— Vou sim… — Shura suspirou. — Mas preciso ir…

— Eu sei… Você sabe que pode contar comigo não é?

O Espanhol sorriu e balançou a cabeça positivamente. Trocaram um último beijo e juntos recolheram o vidro do porta retrato. Máscara pegou o objeto e entregou a Shura que retirou a foto, colocando-a dentro da mochila. Olhou brevemente para a moldura antes de jogar no lixo.

— Quem sabe na próxima vez você não coloca uma foto minha na sua mesa… — Máscara falou em tom de pretensa brincadeira.

— E você vai colocar a minha na sua? — Riu

— Uhrum… já até escolhi qual. — Piscou um olho.

Corou meneando a cabeça e avaliando as atitudes do Cabrón que permanecia com o sorriso sacana.

— Ah Ângelo…— Balançou a cabeça sorrindo, fechando a mochila em seguida.

— Quer companhia até o ponto de ônibus?

— Eu agradeço, mas hoje não. Preciso pensar e seria uma caminhada muito silenciosa.

— Tudo bem. Mas vou descer contigo, quero fumar um cigarro.

Saíram da sala, Shura apagou as luzes e fechou a porta. Máscara foi um pouco mais na frente para pegar o maço de cigarros que estava em sua sala. Desceram juntos, em silêncio no elevador.

Na entrada acenaram para o porteiro e assim que saíram Máscara da Morte encostou na parede do prédio, acendeu o cigarro e tragou, sendo observado por Shura que aproximou-se e tirou o cigarro da mão dele tragando em seguida:

— Não oferece mais? — Perguntou com o fumo entre os dados.

— Da última vez você disse que não achava uma boa ideia. — Sorriu divertido.

— E você respondeu que nem por isso deveríamos deixar de fazer... — Tragou mais uma vez soltando a fumaça e devolvendo o cigarro. — Você não faz ideia de como estava e sempre esteve certo Ângelo. Você pode esperar só mais pouco?

— Já disse que aguardo o tempo que precisar Bello… — Sorriu sacana — Só não me deixa esperando mais três meses. — Riu.

— Não… Não vou. Te vejo em breve. — Apertou uma das mãos do Italiano sorrindo, em seguida virou as costas.

Máscara da Morte sorriu acompanhando o afastamento de Shura, um sentimento caloroso tomando seu peito. Ainda possuía suas inseguranças, apesar das palavras de seu Bello, suas promessas não tão veladas, nada era garantido, ele sabia. O Espanhol podia muito bem voltar atrás no momento em que precisasse confrontar o namorado. Não dispunha de nenhuma certeza, só restava aguardar.

Deu um longo suspiro em seguida e terminou de fumar o cigarro voltando para dentro do prédio. Ainda precisava conversar com Shion.

Shura chegou ao ponto do ônibus e conseguiu entrar no veículo poucos minutos antes que ele saísse. Sentou no fundo da condução e suspirou pesadamente. O gosto do beijo e do tabaco ainda presente em seus lábios. De uma coisa tinha certeza, algo precisava acabar para que o novo começasse. Fechou os olhos… Ainda teria que lidar com Shaka

Continua.