Catarse.
19 O destino é inexorável.
Ao que tudo indicava não importava o transcorrer do tempo, sempre se surpreenderia com o quão expressivos eram os olhos de Shura. Por mais que o homem ostentasse na maior parte do tempo a compleição séria e os modos contidos, os olhos do Espanhol faziam jus a expressão: “espelhos da alma”, por mais piegas que ela fosse.
Sendo assim, Máscara da Morte percebeu de imediato que algo tinha acontecido, só não sabia mensurar o quê. Da última vez que o observou, seu Bello estava em meio a uma animada conversa com Mu, Aldebaran e Seiya. Julgando pela mensagem que havia lido minutos atrás, a notícia responsável por trazer claro desconforto, tinha ocorrido há poucos instantes.
Ângelo entrou na sala, fechou a porta atrás de si e recostou na mesa de Shura. Cruzou os braços e analisou o rosto a sua frente.
— Minha Nonna costuma dizer que: “O destino é inexorável”. Provavelmente tirou a frase de algum livro ou ouviu em algum lugar. De todo modo, é uma boa frase e acho que também se aplica à vida.
— Acredito que sim…
— Por isso, só nos resta viver e ir ajeitando o que dá.
—Talvez você tenha razão… Ou melhor, sua Nonna tem razão.
— Ela sempre tem… — Sorriu. — Pode me contar o que houve?
Shura olhou para a tela do celular novamente, ponderando sobre o que dizer, ou como dizer. Viu Máscara da Morte arquear uma das sobrancelhas enquanto aguardava a resposta.
— Posso. Acabei de receber uma mensagem do Shaka. — Colocou o celular em cima da mesa.
— E? — Olhou de relance para o aparelho.
— Ele quer fazer a mudança dele nesse final de semana, mais especificamente amanhã.
— Ao menos é rápido o farabutto. — Deu de ombros colocando as mãos no bolso da calça.
— Sim. — Sorriu sem jeito.
— E você está com essa cara porquê?
— Bom… Ele não quer que eu esteja lá durante a mudança.
— Mais vejam só, ousado esse loiro. Quer dizer que você não pode estar na sua casa quando ele for lá? — Falou de forma sarcástica.
— No fundo eu entendo ele, Ângelo. Não sei se no lugar dele eu agiria de forma diferente. Shaka está longe de ser uma pessoa desagradável. Consigo imaginar o quão ofendido ele está com a minha atitude. Com a traição.
Shura conseguiu identificar a confusão no rosto de Máscara, aproximou-se e pegou umas das mãos dele beijando o dorso e mantendo-a entre as suas.
— Não tem a ver com ele em si. Não pense que ainda nutro algum tipo de intenção com o Shaka. Eu tenho sim carinho, quero que ele seja feliz, quem sabe um dia ele consiga me desculpar. Na verdade, eu me sinto desconfortável por ter sugerido o casamento a ele. Meus motivos estavam completamente corrompidos naquela época. E encarar a consequência das minhas atitudes me deixa sem fôlego, afinal, não afetei apenas o meu futuro. O resultado de parte das minhas escolhas mostra o quão hipócrita eu posso ser, mesmo que no fim, elas tenham me levado a você. E quando penso nisso, não sinto arrependimento. Mas quando lembro de Shaka, percebo que poderia ter agido de outra forma.
— Entendi, Bello. Então por qual motivo você está com essa cara? Ao que parece a ideia é boa para ambos.
— E é… A mensagem dele apenas me lembrou que ainda tenho muitas coisas para resolver. Estou sem emprego, não sei como vou pagar minhas contas e preciso facilitar a mudança do meu ex, que só foi morar comigo porque eu insinuei. A mensagem dele só me lembrou de toda a bagunça que eu mesmo criei. Só isso. — Deu um sorriso cansado. — Bom… Preciso responder. — Soltou a mão de Ângelo e pegou o celular.
— Ele mandou o horário aproximado?
— Mandou. Shaka é muito organizado.
Máscara da Morte revirou os olhos sem que Shura percebesse.
— O frete vai chegar na minha casa às 9:00, antes disso preciso sair. — Mordeu o interior da bochecha concentrado em escrever a mensagem.
— Shura. — Ângelo tirou o celular da mão dele colocando-o novamente na mesa, passou a mão pela cintura do companheiro puxando-o para um abraço, prontamente retribuído. — Vou fazer uma sugestão então: mantemos a ideia inicial do meu excelente plano que era irmos para a sua casa… — Sorriu. — Mas chegando lá você pega umas duas mudas de roupa, ou o que achar necessário e vamos para a minha casa. Assim, não precisamos acordar cedo amanhã, você não se preocupa com qualquer bagunça que possa ser detectada pelo seu ex e eu não me sinto um amante fugindo escondido logo cedo. — Riu.
Shura ponderou brevemente estreitando o abraço.
— Não vou incomodar?
— Claro que não. Caso contrário eu nem convidaria. Além disso, eu precisaria passar em casa de qualquer forma, então você acabaria indo lá comigo. A gente só inverte a ordem.
— Gostei da sugestão, Cabrón. — Sorriu depositando um selinho nos lábios dele. — Vou responder logo a mensagem.
Máscara da Morte sorriu e Shura passou a digitar rapidamente a resposta, confirmando as informações sobre a mudança e o pedido de Shaka. Em seguida, abriu as gavetas da mesa conferindo se estavam vazias, repetiu o mesmo procedimento com os armários e demais gaveteiros. Constatou que havia apenas um livro e uma camisa oriunda de alguma noite que havia passado na empresa terminando algum projeto. Corou ao perceber o olhar de Ângelo, afinal, eles basicamente estiveram juntos em todas essas noites. Percebeu a aproximação e já se preparava para mais uma vez se deixar enlaçar por ele, quando ouviu batidas na porta. Shura concedeu a entrada e Mu abriu a porta.
— Parece que vou me mudar pra cá… — Falou um pouco sem jeito.
— É melhor mesmo, Mu. Assim você não precisa ficar andando de um lado para o outro para fazer as impressões, encadernações, enfim… É uma boa sala.
— Diria que é a melhor sala… — Ângelo falou em um tom sacana.
Shura corou levemente olhando sério para Máscara. Despediu-se novamente de Mu e saiu do local, sendo seguido por Ângelo que piscou um olho para o colega de trabalho e desejou um “bom serviço” em seguida. Mu conteve o riso e começou a guardar suas coisas, recebendo posteriormente a visita de Aldebaran que pareceu curioso sobre a tal sala.
Pararam novamente em frente ao elevador, Shura com o semblante sério, o livro e a camisa em mãos. Máscara da Morte ostentava um meio sorriso. Caminharam lado a lado até chegarem ao carro. O Italiano destravou o veículo e ambos entraram.
— Você sempre foi tão cara de pau ou está se superando? — Shura questionou sério.
— Sempre fui, Bello.. — Sorriu.
— Ora Cabrón… — Puxou-o pelo gola da camisa, beijando-o em seguida. — Ao que parece não preciso mais me preocupar que alguém nos veja ou suspeite.
— Não mesmo. Estamos juntos não é?
— Sim… — Sorriu largamente — Estamos.
A vida é realmente inexorável, mas agora, sentiam-se renovados para enfrentar seus percalços e sua implacabilidade, afinal estavam juntos. Finalmente.
Continua.
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