Todos usam máscaras. Leu certa vez em algum lugar. Ao que parece, mesmo que de forma metafórica, todos escondem-se atrás de uma persona, alimentando e enaltecendo a mitologia acerca do alter ego. Ao que tudo indica, apenas na frente de poucos, ou só em momentos de extrema intimidade é que torna-se possível retirar a máscara e apresentar ao mundo a verdadeira face. Aparentemente, algumas pessoas passavam tanto tempo dentro da fantasia, que já não conseguiam mais se dissociar e acabavam perdendo sua essência.

Shura refletia que esse não era o caso de Ângelo, mesmo que gostasse da alcunha de Máscara da Morte, o Italiano estava longe de ser a criatura assustadora que o apelido evocava. Por mais que ostentasse aquela aura de mafioso, que ele admitia achar extremamente charmosa, tinha consciência que por detrás do rosto carrancudo e dos braços cruzados em postura defensiva, existiam abraços calorosos, sorrisos iluminados, toques gentis e palavras de carinho. O Cabrón, pelo que podia observar, era um bom representante das máscaras metafóricas, contudo, largava mão por completo de seu personagem quando estava ao lado de seu Bello, despindo-se literal e figurativamente.

Em contrapartida, Ângelo observava que Shura era mesmo um homem sério e sucinto. Não havia equívoco nisso. Porém, mostrava-se mais sorridente e comunicativo quando estava ao seu lado. E aos poucos, pôde notar, ele foi se revelando mais aberto e carinhoso. Sorriu ao sentir uma das mãos do Espanhol em sua coxa, enquanto ele dedicava sincera atenção a ouvir o relato que Ângelo fazia da última desventura de um dos primos.

— E agora ele está com ódio da sogra. Colocou até um apelido curioso nela. Alguma coisa como Conde Olaf, ou algo do tipo... — Riu.

— Não tem como tirar a razão dele. Presunto estrago foi o cúmulo! — Deu de ombros balançando a cabeça.

Máscara da Morte riu alto, olhando de esguelha para o companheiro que sorria minimamente. Todo o trajeto até a casa de Shura transcorreu com tranquilidade e foi permeado pelo clima divertido e apaixonado que dominava os dois homens.

Chegaram a casa do Espanhol relativamente rápido, uma vez que pelo horário não havia trânsito. Shura dirigiu-se ao quarto, indicando antes que Ângelo ficasse à vontade e que ele não demoraria, seria o tempo de pegar apenas duas ou três mudas de roupa.

Máscara da Morte aguardou na sala e assim que percebeu-se sozinho afundou-se no sofá e se deixou carregar pelo fluxo de lembranças que o acometeram. Foi transportado para aproximadamente três meses antes e viu-se entrando pela porta aos beijos com Shura.

Ali, naquela casa, tinha acontecido a segunda vez deles, e consequentemente a de Ângelo. Todo o imbróglio teve início em uma das intermináveis festas da empresa de Engenharia Ambiental na qual trabalhavam. E alterados pela bebida e pelo clima de tensão sexual que rodeava ambos, encerraram a festividade em um motel barato. Contrariando as expectativas, ao invés de pairar uma atmosfera de incerteza, foram surpreendidos pela legítima curiosidade. De sua parte, o Italiano queria confirmar para si mesmo que não tinha sido efeito da bebida, e Shura queria comprovar que as sensações que desfrutou com o Cabrón eram reais. Cada um a seu modo, havia criado um efetivo argumento para justificar aquele encontro. Ou como chamaram na época: “A derradeira”.

E assim encaminharam aquela segunda vez, que diferente da primeira, desenrolou-se no ambiente sóbrio e tranquilo de uma Livraria/Café. Imersos em uma conversa animada, pontuada por uma série de assuntos em comum, perceberam-se em uma sedução mútua e em pouco tempo Máscara da Morte gemia e proferia uma diversidade de palavrões ao se ver de quatro na cama de Shura. Era tudo novo e delicioso, Máscara lembrava de ter pensado.

A bem da verdade, ambos sabiam que aquilo tudo não passava de uma grande desculpa. O objetivo real daquele encontro era satisfazer a vontade que despontava aos poucos, o desejo quase agonizando que passaram a sentir de estar juntos.

Infelizmente, assim como procedeu até a noite anterior, após chegarem ao ápice precisavam encarar a realidade na qual ambos eram comprometidos, e Máscara da Morte nunca tinha se envolvido com um homem. O Italiano recordou o banho rápido que tomou, sentindo no corpo o prazer e a culpa, e o “Até logo”, que direcionou ao colega de trabalho ao perceber que ele mantinha-se sério, acompanhando seus movimentos. Não podia ficar naquela casa, primeiro pois o dono não parecia disposto a acatar sua permanência, segundo pois o namorado dele poderia chegar a qualquer momento e terceiro porque ainda não tinha entendido a grande máxima que passou a norteá-lo pouco tempo depois: estava irremediavelmente apaixonado.

Respirou fundo soltando o ar aos poucos e encarando a ironia da vida. Aquelas lembranças não seriam esquecidas, mas neste momento, o que realmente importava era que tinham se acertado. Não pairava mais entre eles a insegurança, a angústia ou o medo, e estava inclusive levando seu Bello para sua casa, para conhecer mais de sua vida, sua intimidade.

As coisas mudam, não é? Levantou do sofá sorrindo ao notar que Shura voltava com a mochila pendurada nas costas e o que parecia ser uma foto em mãos.

Acompanhou os movimentos dele, notando-o pegar um post it que estava na mesa na qual o telefone residencial ficava, olhar alguns minutos para o nada e depois escrever, deixando o papel preso a foto. Aproximou-se devagar, sabia de qual foto se tratava, era o maldito retrato do loiro inquisidor que reinava sobre a mesa de seu Bello. No bilhete estava escrito: “Pode não ter sido o melhor final, mas foi o nosso. Desde o começo, sempre foi sobre nós e de certa forma, continuará a ser. Seja feliz, Rubio.”

Shura ajeitou a mochila nas costas e sorrindo esticou uma das mãos para Ângelo que observava seus movimentos com um misto de interesse e ciúmes.

— Vamos? — O Espanhol chamou.

— Sim… — Máscara da Morte desviou o olhar da bancada.

— Estou devolvendo. — Shura explicou ao notar o olhar do outro. — Tenho certeza que ele vai passar pela cozinha. É uma bela foto… — Deu de ombros. — Acho que faz mais sentido ele entregar a outra pessoa.

— Pode ser… — Aceitou a mão estendida, entrelaçando os dedos — Estou só esperando o dia que você vai escolher uma foto minha. — Sorriu piscando um olho em seguida, tentando não aparentar o desconforto. — Agora vamos que ainda precisamos passar na farmácia antes de ir pra casa.

— E quem garante que não escolhi? — Shura falou apertando a mão de Máscara. — Farmácia?

— Sim Bello… — Arqueou uma sobrancelha. — Farmácia.

Shura permaneceu por alguns segundos confuso, até entender o que precisavam comprar e corar levemente.

Saíram da casa e Shura olhou com carinho para as inúmeras plantas que decoravam sua varanda e que brevemente não mais estariam ali. Sorriu, ao pensar no resgate das plantinhas e seu pensamento fluiu em direção ao ex.

Até logo, Shaka! Espero que encontre o que procura.

Sentiu o toque das mãos do Italiano de encontro a sua e mais uma vez entrelaçou os dedos enquanto caminhavam para o carro. Não pôde evitar o sorriso ao divisar o perfil de Ângelo. Agora ele estava sem sua máscara, ambos estavam, e ao que tudo indicava nenhum dos dois precisaria voltar a usá-las.

O caminho que os levou até ali tinha chegado ao fim, o que começou com um inconsequente ato de deslealdade, resultado de uma incontrolável atração, se metamorfoseou no mais verdadeiro e singelo dos sentimentos.

Não haviam protagonizado a simples história de uma traição, mas a de dois homens que finalmente se reconheceram, no momento em que se encontraram nos braços um do outro.

Fim.

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