Catarse.
17 Eu quero.
Definitivamente não havia dormido a quantidade de horas a qual estava habituado, mas isso não importava nem um pouco, pois tinha passado a noite entre beijos, sussurros, carinhos e a alternância entre se sentir preenchido e preencher o corpo de Shura. Abriu devagar os olhos castanhos, identificando que estava sozinho na cama.
A bem da verdade, já estava acordado há algum tempo, mas se recusava a sair do lugar. Aquele quarto havia sido o cenário da noite de luxúria, prazer e carinho, que havia compartilhado com seu Bello, e que culminou na declaração que há tempos sonhava em ouvir. Suspirou sentindo uma alegria impossível de conter. Seus receios iam se desfazendo aos poucos, mesmo assim, ainda precisava conversar com Shura. Nem tudo estava esclarecido, a constatação trouxe um breve desânimo.
Ignorou aquele pensamento e sentou na cama espreguiçando-se. Sentiu o cheiro forte de café e sorriu. Levantou dirigindo-se ao banheiro. Certamente precisava de um banho. Observou com um sorriso de canto que havia uma toalha de banho dobrada em cima da pia. Entrou no box, sentindo a água quente e percebendo as marcas de tamanhos e cores diferenciadas que se espalham pelo seu corpo. Suspirou ao relembrar as sensações, as palavras e os olhares da noite anterior. Não pôde evitar o arrepio que o dominou e a certeza de que não queria se separar daquele maledetto Espanhol.
Terminou o banho e enxugou-se com a toalha, tentou pentear os cabelos da melhor forma possível, desistindo em seguida, eles nunca ficavam arrumados mesmo. Passou um pouco de pasta de dentes nos próprios dedos e tentou “escová-los", em seguida usou o enxaguante bucal.
É o que dá pra fazer agora… Pensou dando de ombros e voltando para o quarto.
Vestiu a cueca e a calça jeans, manteve a toalha de banho sobre os ombros e caminhou em direção ao cheiro de café. Chegou na cozinha e identificou Shura vestindo a mesma bermuda preta da noite anterior, sem camisa, um avental preso na frente do corpo e cantarolando baixo a melodia que conhecia bem. Sorriu.
Mais sou mesmo um bobo apaixonado!
— Bom dia, Bello. — Aproximou-se.
— Bom dia, Ângelo. — Sorriu beijando-o. — Gostinho bom de pasta de dente.
— Bem… Eu fiz o que pude… — Coçou a nuca sem jeito — Improvisei.
— Vou comprar uma escova de dentes para você e deixar lá no banheiro. Mas o improviso foi bom. Panqueca?
Piscou algumas vezes olhando para Shura, assimilando as possibilidades contidas no que ele havia dito. Meneou a cabeça aceitando o alimento oferecido e sentou em um dos bancos altos que margeavam a bancada. Colocou as mãos na toalha que mantinha no pescoço olhando em volta, sem saber muito bem onde colocá-la. O anfitrião estendeu a mão, após depositar um prato à sua frente, juntamente com a caneca de café. Ele pegou a toalha levando-a para a lavanderia que ficava anexa a cozinha.
Voltou em seguida pendurando o avental. Sentou ao lado de Ângelo e o observou comer, enquanto bebia uma xícara de café.
— Está bom? — Questionou.
— Muito. Sabia que você cozinhava, mas não que era bom nisso. — Riu, mirando em seguida os olhos verdes, o rosto sério. — Shura… Eu terminei com a Helena.
O Espanhol pareceu honestamente surpreso, em parte porque havia esquecido completamente da jovem e em outra por saber que Ângelo já havia tomado uma atitude.
— Há quanto tempo? — Perguntou depois de beber demoradamente o café.
— Uma semana… Na verdade, hoje completa oito dias.
— Então, nessa semana em que ficamos afastados…
— Sim, eu já era um homem solteiro há uma semana Bello, mas preferi te dar um tempo.
Shura encheu novamente sua xícara de café, colocando mais da bebida na caneca que havia ofertado a Máscara da Morte. Não sabia muito bem como lidar com notícia de que ele estava mesmo empreendendo esforços para que ficassem juntos.
Percebeu mais uma vez, que o Cabrón sempre se apresentou mais aberto e de certa forma disposto do que ele. Mesmo que Ângelo tivesse suas questões, nunca havia lhe negado carinho e palavras que indicassem a vontade de algo mais. Enquanto ele, por sua vez, o tão bem resolvido, continuou afundando e levando outras pessoas junto durante seu período de indecisão.
Tanto tempo perdido… Lamentou-se sem no entanto dizer nada. O Italiano parecia entretido na tarefa de terminar o prato de panquecas.
— Você está atrasado! — Shura exclamou olhando para o relógio de parede.
Máscara acompanhou o olhar do outro dando de ombros.
— Estou. Eles vão superar. Quer carona?
— Aceito. Não devo demorar muito lá… — Olhou para o chão — Ainda preciso pensar no que vou fazer.
— Uma coisa de cada vez… — Levantou do banco aproximando-se de Shura dando um beijo leve em seus lábios. — Primeiro você vai até lá... — Desceu o beijo pelo maxilar. — Depois assina seus papéis… — Chegou ao pescoço passando os lábios em cima da marca levemente arroxeada produzida na noite anterior, causando um arrepio. — Me avisa quando acabar tudo. Eu te trago para casa... — Chupou a região ouvindo um gemido abafado. — Fazemos amor... — Fez com a língua o trajeto de volta à boca. — E eu te ajudo a pensar em algo. — Sorriu ao sentir as mãos de Shura em sua nuca o puxando para um beijo.
— Você vai me enlouquecer sabia?
— Tenho alguma noção… — Sorriu. — Acho um ótimo plano. Você não?
— Excelente plano, mas você vai sair mais cedo?
— Vou. Tenho uma quantidade absurda de horas extras e hoje é sexta feira, Bello. Você sabe como são as sextas lá.
— Sei… Vou me vestir então.
— Quer ajuda com isso? — Sorriu sacana.
— Máscara, se você for me ajudar, não saímos daqui hoje. — Franziu o cenho. — Inclusive pode me explicar o motivo desse bendito apelido?
A gargalhada alta do Italiano ecoou pela casa trazendo um calor gostoso ao corpo de Shura.
— Outra hora Bello, outra hora. — Piscou um olho.
Shura deixou a cozinha ouvindo a risada alta do seu Cabrón, que com mais duas garfadas terminou de comer.
Por mais que estivesse feliz, Máscara da Morte não podia deixar de sentir um certo desconforto arranhando sua mente. Haviam se entendido, inclusive Shura havia confessado que o amava. Não existia mais nada que os impedisse, mas ainda faltava algo, só não sabia dizer exatamente o que era. Olhou o prato vazio à sua frente, colocou um dos braços em cima do balcão apoiando o rosto em uma das mãos.
Parece que a Nonna estava certa quando dizia que sou dramático.
Preparava-se para levantar do banco quando sentiu-se abraçado por Shura, permaneceu na mesma posição, sentindo o calor daqueles braços, o perfume que desprendia do corpo do outro e mordeu os lábios contendo um gemido ao ouvir a voz rouca em seu ouvido.
— Eu sei que acabamos não conversando… Não que tenha sido ruim o que fizemos… Mas acho que preciso esclarecer algumas coisas. — Shura mantinha a fisionomia séria de sempre.
Máscara girou o corpo, ainda sentado no banco, manteve-se dentro do abraço e deixou que Shura se encaixasse melhor ao corpo dele.
— Pode parecer meio óbvio, mas… Eu quero ficar com você Ângelo. Só com você. Não sei mesmo se isso precisa ser dito… Mas… — Suspirou — Você quer ficar comigo?
— Não me parece óbvio. Algumas coisas precisam ser ditas com todas as letras. Sabe… A incerteza gera muita angústia… — Riu sem jeito. — E eu quero ficar contigo Bello, é o que eu mais quero. Porém… — Desviou brevemente o olhar.
— Porém? — Shura questionou levantando o rosto do outro.
— Você vai precisar ter paciência comigo… Entre nós dois e dentro de mim já está tudo resolvido. Gosto de rola no final das contas, especificamente da sua... — Gargalhou vendo o rosto corado de Shura. — Mas minha família não é fácil, e isso de forma geral. E por mais que eu tenha... — Fez um gesto de aspas — Cara de poucos amigos, como diz o Seiya, sou apegado a famiglia. — Sorriu sem jeito — Você entende?
— Claro que entendo Cabrón, não se preocupe com isso. Sou um homem paciente.
— Você não precisa se preocupar com uma coisa, eu não vou desistir. Amo aqueles malditos, mas também… — Parou de falar suspirando antes de voltar a falar. — Ti amo.
Shura sorriu puxando-o para um beijo, impedindo-o de continuar. Apartaram o ósculo e mantiveram-se de olhos fechados, as testas coladas.
— Pode ser que eles nunca aceitem… — Máscara falou baixo, rente aos lábios do Espanhol.— E… Pode ser que eu fique triste e irritado por isso. E bom… Talvez não seja um cara legal nessas horas… Mas não quero que você esqueça que eu quero. Entendeu? — Abriu os olhos encarando-o. — Eu quero!
Shura apenas meneou a cabeça em concordância, é claro que entendia, os deuses eram testemunhas do quanto ele também queria.
Continua.
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