Catarse.

6 Eu não vivo de talvez.


Suspirava dentro do beijo tentando controlar a respiração e as sensações que aquele homem lhe causava. Tinha a camisa aberta assim como a calça que repousava no meio de suas pernas. Pendeu a cabeça pra trás e não conseguiu conter o gemido alto que saiu de sua boca ao sentir o orgasmo indescritível que o abateu. Teria caído no chão, devido a fraqueza que sentia nas pernas, se não estivesse sendo segurado pelo companheiro de trabalho. Permaneceu de olhos fechados por algum tempo, sendo amparado, quando ouviu a voz rouca e excitante em seu ouvido:

— Achei que nós tínhamos parado.

Abriu os olhos e apertou os lábios ao mirar o olhar divertido e o sorriso sacana que Máscara da Morte ostentava. Afastou-se o necessário para puxar as calças e fechar a camisa. Arrumou as roupas da melhor maneira possível, seus olhos cruzaram com o do Italiano e ele desviou o olhar vendo que o outro possuía a mão melada de sua semente e um volume invejável entre as pernas. Suspirou.

— Podemos… — Olhou para o membro do outro — Bom…

—Fica tranquilo Espanhol. Depois resolvemos a minha questão. Por hora, precisamos voltar ao trabalho.

Shura passou a mão pelos cabelos e tirou um pacote de lenços de papel da gaveta estendendo ao colega de trabalho.

— Ao menos se limpa um pouco… mesmo que a sala seja distante... seria problemático alguém te ver com a mão assim.

— Ora eu tenho outras formas de me limpar.

Levou a mãos aos lábios sendo impedido por Shura, que o segurou e começou a passar o lenço de papel nas mãos do Italiano. Máscara da Morte acompanhou o rosto corado, que não sabia precisar se era pelo orgasmo ou por estar embaraçado com a situação, talvez as duas coisas. Olhou com cuidado para ver se não havia nenhum resquício de seu prazer e desviou o olhar para a ereção do “amigo”.

— Prometo que te recompenso por isso.

Máscara acompanhou o olhar do outro e abrindo um largo sorriso depositou um beijo rápido nos lábios dele.

— Teremos tempo depois. Agora vou passar uma água no rosto e já volto. A impressora 01 já está pronta e já habilitei ela na terceira máquina.

Shura balançou a cabeça afirmativamente, e ao ver o homem sair da sala se jogou em sua cadeira e suspirou. O retrato do namorado em cima da mesa parecia o olhar e indagar o que estava fazendo consigo e com o outro. Começava a achar o apelido muito pertinente, pois o que o Italiano fazia era o jogar em um abismo de prazer, culpa e morte de todos os sentimentos de lealdade e honra que sempre julgou importante.

Quando retornou a sala Máscara viu um pensativo e enigmático Shura, com o olhar perdido na foto do belo homem no porta retrato. Tencionou dizer algo, quando ouviu a voz de June:

— Aqui está a primeira parte da documentação. No máximo em trinta minutos trago a segunda.

— Vai ficar aqui com a gente, June? — Shura perguntou cordial, saindo de seus devaneios.

— Não, não. Só se vocês precisarem.

— De forma alguma. Vai pra casa dar uns amassos naquele seu namorado franguinho. — Máscara gargalhou recebendo um olhar fulminante de June.

Shura disfarçou o riso e ligando o monitor começou a organizar as impressões e agilizar o serviço.

Passado algumas horas, Máscara estava de pé, utilizando a máquina de furar papel, enquanto Shura permanecia sentado passando a espiral pelo documento já furado, fazendo com isso a encadernação. Percebeu que o Italiano analisava seriamente a foto em cima de sua mesa.

— Bonitão, né? — Perguntou sorrindo.

— Muito! Você está de parabéns! — Falou sinceramente.

Shura ficou desconcertado, não esperava aquela sinceridade. Estava acostumado ao deboche e sarcasmo do outro.

— Soube que sua namorada também é muito bonita.

— E coloca bonita nisso. A desgraçada também é muito gostosa. — Gargalhou sendo acompanhado por Shura no riso.

— Ela é italiana, não é?

— Mais está sabendo muito da minha vida.

— Na verdade, Seiya sabe muito da sua vida.

— Aquele garoto... O que tem de baixinho tem de enxerido.

— Coisa de jovem. Vai dizer que você não lembra como era ser jovem.

— Shura… eu sou jovem. Você fala como se tivesse oitenta anos. — Riu adicionando mais papel a máquina.

— Você entendeu. E ela é italiana ou não?

— É sim. Da mesma região que a minha família.

— Imagino que seja mais fácil…

Ângelo parou o que fazia e olhou para o homem com uma expressão interrogativa.

— Família italiana tradicional, imagino que seja mais fácil apresentar alguém que seja… bom... Italiano. — Riu sem jeito.

— E como sabe que minha família é tradicional? — Levantou uma sobrancelha — Já sei. Seiya?

Shura sorriu e balançou a cabeça afirmativamente. Máscara fechou a cara, não gostava que ficassem falando da sua vida, ainda mais de sua família.

— E a sua família? Espanhóis tradicionais que comem paelha e vão a touradas?

Para sua surpresa Shura soltou uma sonora gargalhada e parou de passar a espiral pelo papel.

— De forma alguma. Nada tradicional. Eles tem um filho assumidamente gay e me arrumaram um nome nada Espanhol. A última coisa que tem ali é tradição.

— Hum… então não teve problemas para apresentar o marido a família? — Sorriu sarcástico.

— Não. — Voltou a passar a espiral — Problema algum. Não seria problemático levar nenhum namorado a casa dos meus pais. E como sua família recebeu sua namorada?

Máscara desviou o olhar voltando a furar o papel. Shura aguardou a resposta por alguns minutos, mas percebendo que ela não viria, deu de ombros.

— Você poderia me apresentar a sua família?

Máscara falou baixo, quase que para si mesmo. A voz sendo abafada pelo barulho da máquina. O Espanhol ponderou sobre a pergunta olhando o homem que permanecia manuseando a máquina e respondeu antes de pegar uma tesoura.

— Poderia. Já disse que não teria problema em apresentar nenhum namorado… — Cortou o excesso da espiral e fez a dobra. — Você poderia me apresentar a sua família? — Repetiu a pergunta.

Máscara parou de vez o que fazia. Desligando a máquina e virando de frente para Shura.

— Talvez… eu não sei.

— Eu não vivo de talvez, Ângelo.

O Italiano sentiu alguma coisa se remexendo em suas entranhas, como se alguém estivesse puxando todas elas com o intuito de o tornar oco, quem sabe assim deixasse de sentir o pesar que aqueles olhos verdes colocavam sobre si.

— Não é tão fácil quando se vem de onde eu venho. — Falou cabisbaixo.

— Imagino. — Levantou da cadeira. — Precisamos de mais espirais. Você pode pegar?

Máscara balançou a cabeça e se dirigiu à sala de materiais. Quando voltou encontrou Shura de pé, movimentando os ombros e o pescoço em um nítido sinal de estafa.

— Está cansado Bello? — Colocou as mãos no rosto dele e sorriu.

Não soube precisar quanto tempo ficou preso naquele olhar e no sorriso bonito e caloroso. Suspirou colocando a mão por cima da de Máscara e fechou os olhos. O Italiano enlaçou as mãos e beijou o torço da de Shura.

— Vem, vamos comer alguma coisa. Shion deixou uns sanduíches e coisa do tipo na geladeira da copa.

Encaminharam-se para a copa e lá Máscara dispôs os sanduíches e o suco, enquanto Shura permanecia sentado observando os movimentos dele. Começaram a comer em silêncio, quando o celular do Italiano tocou. Shura o olhou disfarçadamente e viu um nome na tela. Ângelo se afastou e a única coisa que pôde ser ouvida foi uma conversa em italiano, que pelo tom parecia bem intensa. Terminou de comer seu sanduíche e esperou o outro voltar. Máscara estava vermelho, com as mãos tremendo e nitidamente irritado.

— Maldita mulher ciumenta…— Jogou o sanduíche no lixo e passou a mão pelos cabelos.

— Não podemos tirar a razão dela… — Shura falou baixo olhando para o outro.

— Sim… — Suspirou — Não podemos.

O Espanhol viu o rosto consternado e triste do homem que aparentava ser sempre uma rocha. Ele gostava da tal garota, caso contrário não estaria assim. Aquela constatação despertou algo, sentimentos que ele preferia ignorar naquele momento. Levantou parando na frente de Máscara e antes que ele pudesse dizer algo, foi beijado. O Italiano abraçou o outro homem e suspirou. Shura parou o beijo olhando com desejo e algo mais que Máscara da Morte não conseguiu identificar.

— Vamos voltar pra minha sala. Ainda tenho que te compensar por mais cedo.

— E você acha que isso vai me ajudar?

— Talvez.

— Achei que você não fosse um homem de talvez.

— Depois de você Cabrón, minha vida virou um grande talvez.

Máscara puxou Shura pela nuca e reiniciou o beijo sedento. Voltaram para a sala entre beijos, mordidas, lambidas, suspiros e sorrisos. Naquele momento, o talvez não parecia algo ruim.

Continua.