Catarse.
14 Está feito.
Surreal, certamente ele sentia que tinha caído em algum tipo de mundo surreal. Apenas isso poderia explicar de forma minimamente coerente a frase que acabara de ouvir.
Shaka franziu o cenho inconscientemente chegando para a frente no banco, como se a proximidade o ajudasse a ouvir melhor o que o Espanhol acabara de dizer. Encarou-o por alguns minutos.
— Você me traiu? — Questionou com nítida incredulidade. — Shura…
— Eu sinto muito Shaka, mas… Eu não deveria ter te chamado pra viver comigo enquanto estava confuso por causa de outra pessoa. Acabei traindo você… Me traindo… Ignorando todo o senso de lealdade e honra que sempre defendi e dos quais já havia falado diversas vezes … Mas… Aconteceu. Não foi planejado e… Também não fiz muito esforço para impedir.
Shaka retomou a sua posição, ereto, o rosto impassível, o olhar julgador tentando desvendar o que se passava na mente de Shura e acima de tudo assimilar o que estava ouvindo. Como bem havia dito, ele era um homem inteligente e sempre achou um tanto peculiar os olhares do Espanhol enquanto mirava o celular. No geral, eles variavam entre o deleite profundo e a consternação. Sempre sendo acompanhados de um milimétrico sorriso. Nunca o questionou sobre aquilo, pois Shura não costumava se intrometer em suas muitas vezes intermináveis conversas com Camus pelo aplicativo de mensagem. Mesmo assim, sabia que algo dentro de si já havia soado um alarme há algum tempo, mas… Nunca acreditou que aquilo seria possível.
Umas das coisas sobre a qual aquele homem sempre se gabava era de seu senso de lealdade, dever e amizade. E agora isso.
Uma vontade absurda de gargalhar o acometeu, contudo não deixou-se levar.
Eram um magnífico par de mentirosos!
Aparentemente tinha mesmo escolhido o parceiro perfeito, não eram iguais apenas na personalidade fechada, mas também na teia de mentiras que eram capazes de construir.
Contemplaram-se por minutos que pareceram desdobrar-se em horas.
— Você está me traindo há quanto tempo Shura? Melhor… Você transou com esse cara? — Shaka questionou levantando do banco e pegando o restante do chá que havia sobrado, despejando em sua xícara.
— Isso é realmente necessário? — Respondeu, contendo o nervosismo na voz.
— Na minha opinião… — Sorriu enviesado. — Nada disso era necessário. Devia ter sido pudico antes de me trair. Agora quero saber a verdade.
— Aproximadamente três meses… e sim, eu fui pra cama com ele. — Passou a mão pela nuca.
— Depois que falou três meses, a segunda questão ficou bem óbvia. — Sentou novamente no banco. — Então começou antes de virmos morar juntos. — Cruzou as pernas fitando o Espanhol.
— Sim… Bem antes. — Shura sustentava o olhar de Shaka.
— Quem é a pessoa? — Bebeu o chá.
— Um colega de trabalho… — A voz saiu em um fio.
— E exatamente o que você espera de mim? — Sorveu o último gole do chá antes de continuar… — Qual foi o momento em que eu te negligenciei o suficiente para que ao invés de conversar comigo você tenha preferido foder com outro cara?
— Momento algum Shaka… — Suspirou. — Eu tinha sim minhas dúvidas, inseguranças, nunca engoli muito bem essa sua amizade com Camus. — Fez um gesto com as mãos pedindo para Shaka esperar. — Mas nada disso justifica, eu sei. A única coisa que posso fazer é pedir desculpas a você por ter te chamado para viver comigo e tentar desculpar a mim mesmo por ter sido desleal com as minhas convicções.
— Você não acha que isso aumenta o quão cretino você é? — Ajeitou a posição da xícara sobre a bancada enquanto sustentava o olhar.
— Acho que seria mais cretino ainda se somasse mais uma mentira as que venho contando até agora.
O tom de voz de Shura deixava claro que ele não tinha nada mais a dizer, e Shaka finalmente sentia o peso daquela informação. Um misto de decepção, tristeza e entendimento o acometia. Sim, entendimento. Não estava tão limpo naquela história quando parecia. Também havia traído, lógico que em escala menor. Dada a proporção, poderia até mesmo se dar ao luxo de se sentir isento de culpa. Contudo, não era exatamente isso que lhe importava naquele momento.
Um sentimento crescente de raiva passou a dominá-lo.
Shura conseguiu perceber o cair de ombros e a quebra da postura que evidenciava uma aura quase divina.
Sentiu um aperto no peito, finalmente era acometido pelas reais consequências de suas atitudes. Não conseguia deixar de pensar há quanto tempo deveria ter iniciado aquela conversa, mas ao ver o olhar do loiro, entendia os motivos pelos quais havia adiado aquela atitude. E no mesmo instante, a imagem do sorriso do Italiano e do toque carinhoso em suas mãos retornaram a sua mente e percebeu que enfim, estava tomando a atitude correta. Ressentia-se pelo fato de magoar Shaka no processo, mas naquele instante, só conseguia se preocupar com o brilho avermelhado dos olhos castanhos e com as promessas que havia feito ao seu Cabrón.
— Shaka, você é incrível e sabe disso, não precisa dos meus elogios. Só aconteceu… E eu não tenho nenhuma justificativa real para te dar. Não contei antes porque queria ficar contigo, aos poucos fui percebendo que... bom… Não era apenas sexo e fui me deixando ficar… Levar. Não queria trair ninguém… E tentava compensar…
— E você acha que existe compensação para isso? Acha de verdade? — Questionou rispidamente levantando do banco e aproximando-se de Shura.
— Não… Não existe. — Acompanhou a aproximação, a raiva latente. — E eu realmente não sei o que te dizer… Só não queria que me odiasse.
— Não espere que eu lhe preste homenagens. — Shaka deu um sorriso de escárnio parando em frente a Shura e levantando uma das mãos.
Em um reflexo o Espanhol fechou os olhos aguardando o que viria a seguir. Tinha certeza que o destino da mão erguida era seu rosto e sinceramente não fazia nenhuma questão de se esquivar. Aguardou pacientemente mas o golpe não veio. Abriu os olhos e encontrou Shaka ainda de pé à sua frente, os braços ao lado do corpo. O rosto com a aparência cansada, mas que trazia um certo ar de alívio. Suspirou, recebendo um sorriso triste e um olhar pétreo em troca.
— Minha vontade era deixar uma marca bem definida nesse seu rostinho bonito, Shura. — Shaka falou de forma ríspida. — Um soco também seria ótimo.
— É justo! Faça como achar melhor.
— Não vale a pena… Apenas não vale. Achei que você me conhecesse o suficiente para saber que eu seria capaz de entender sua paixão por outra pessoa. Esse tipo de coisa acontece… algumas vezes apenas não temos controle. — Shaka falou afastando-se ligeiramente. — Só não consigo entender sua deslealdade. Três meses, Shura! — Exclamou irritado.
— E você teria entendido tranquilamente se eu tivesse contado antes? — O Espanhol perguntou depois de passar a mão pelo cabelo em um gesto nervoso.
— Tranquilidade não é a melhor palavra. Mas não sou imaturo, compreendo que todos podemos nos apaixonar, mesmo vivendo bem com outra pessoa, amando… pode acontecer. Ninguém está imune.
— Alguma coisa me diz que não estou sozinho nessa questão.— Shura falou com tranquilidade. A fala de Shaka era mais elucidadora do que o Rubio poderia imaginar. — Certamente eu teria tirado um peso de ambos se tivesse iniciado essa conversa antes. Não é?
— Sim, teria. — Shaka levantou. — Temos um considerável tempo perdido para recuperar. Vou buscar minhas coisas.
— Não precisa fazer isso hoje. — Levantou do banco seguindo Shaka.
— Já está feito. — Apontou para as malas. — Eu sabia que não estávamos bem, Shura. Só não sabia que estava sendo brindado com um belo par de chifres.
— Espero que algum dia você possa deixar de me odiar.
— Não te odeio. — Sorriu triste. — Mas vou ficar muito aliviado em não ter mais que ver a sua cara. Depois te mando mensagem para combinarmos a minha mudança. Ficaria muito grato se você não estivesse em casa no dia. — Falou de forma prática olhando a tela do celular.
— Assim será. Posso te levar até o seu apartamento, será mais rápido que esperar um carro de aplicativo.
— Não vejo motivo pra isso. — Olhou para Shura — Não somos um casal e não somos amigos. Além disso, no momento, eu desejo distância de você. Apenas isso. — Olhou o celular e viu que o carro de aplicativo que havia pedido se aproximava.
— Adeus, Shura. Não te desejo mal… Só não consigo mais olhar pra você.
— Até algum dia, Shaka...Espero que em algum momento minha figura não lhe cause mais ojeriza. — Tocou levemente no ombro de Shaka. — Seja feliz! Ou pelo menos tenha mais alguma cota de felicidade real.
O loiro o olhou seriamente, mirando a mão em seu ombro, deu um longo suspiro, balançou a cabeça em uma afirmativa, abriu a porta da casa e saiu fechando-a com um baque.
Shura continuou olhando para a porta, um suspiro pesaroso saiu de seus lábios. Fechou os olhos por alguns minutos e quando voltou a abri-los, sentiu uma leveza que há muito não experimentava.
Caminhou pela casa apagando as luzes, sentindo-se finalmente à vontade. Chegou no quarto, sentou na beirada da cama jogando-se em seguida, uma mistura de alívio, melancolia e acima de tudo ansiedade. Respirou fundo caminhando até o banheiro, precisava de um banho. Lavar não apenas o corpo, mas a alma e qualquer resquício do jogo sujo no qual havia se inserido e levado outros consigo. Agora tudo estava terminado, concluído.
Entrou no box suspirando ao sentir a água quente caindo sobre seus ombros, esticou uma das mão em busca do sabonete e percebeu que os produtos de Shaka não estavam mais ali. O shampoo que comprava para o ex marido já não exalava o cheiro almiscarado, e mais uma vez não pôde conter o alívio que aquela constatação imprimia em seu âmago. Terminou o banho, saiu do banheiro com uma toalha enrolada na cintura, a casa silenciosa em completa escuridão. Percebeu-se sozinho e andou até a sala retirando o celular de dentro da mochila. Olhou alguns minutos para o aparelho, decidiu-se, digitou o número, a ansiedade correndo pelos poros.
Ouviu a voz do outro lado da linha e sentiu um arrepio se espalhar pelo corpo. Realmente tinha demorado demais.
Continua.
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