Catarse.

9 Enquanto ainda há tempo.


Com alguma frequência se pegava pensando em todas as decisões que havia tomado em sua vida e como elas o haviam encaminhado ao momento atual.

Tinha plena consciência que remoer o passado não tinha utilidade nenhuma, mas gostava de imaginar os caminhos alternativos que trilharia caso tivesse acesso a uma máquina do tempo.

Conhecia as diversas teorias implicadas na viagem ao passado e preferia acreditar na que lidava com a ideia de realidades alternativas. Dessa forma, jamais teria cursado uma faculdade por amor, sem pensar nas consequências financeiras, não teria começado a trabalhar naquele maldita empresa e em momento algum teria cruzado olhares com o aquele italiano sedutor.

Ao mesmo tempo, tinha consciência de uma outra teoria que postulava a imutabilidade do tempo. Sendo assim, por mais que você volte ao passado, tudo sempre acontece do mesmo jeito. Todas as variantes já estavam escritas e se repetiam ciclicamente. Portanto, nada que fizesse mudaria o desfecho atual, que consistia em sua palpável apreensão ao ouvir Máscara da Morte falando ao telefone com a namorada, enquanto virava canecas de chopp zero grau com a mesma facilidade de quem bebe um copo de água. Não entendia muito bem o que ele falava, já que a conversa se desenrolava em italiano, mas pelo tom de voz, não parecia ser nada agradável.

Pegou um guardanapo e começou a dobrar o papel, imaginando como seria agradável fazer um origami com tudo que andava sentido e jogar em um dos bueiros da cidade. Não aguentava mais aquela incerteza.

Será que na realidade em que ele conseguia mudar tudo, poderia procurar o jovem Ângelo e iniciar uma amizade? Mostrar àquele Italiano teimoso que não existia problema em desejar outro homem e quem sabe amar. Talvez retrocedesse menos e não tivesse sugerido o compartilhamento de uma vida com o namorado. Seria menos complicado! Amassou o papel.

Nunca havia se sentindo tão atormentado!

Suspirou começando outra dobradura e percebendo que era mesmo um ser desprezível. Queria os dois e ao mesmo tempo nenhum. Estava cansado de se sentir fora de si, de não ter o controle de suas atitudes e de acordar todos os dias dizendo que não iria ceder, para acabar escondido em algum canto aos beijos e abraços com aquele homem. O prazer era magnífico com ambos, só não aguentava mais o lixo que se tornava a cada orgasmo e a cada carinho trocado. Precisava tanto de uma máquina do tempo.

— Preciso ir embora, Espanhol!

— Oi?! — Shura saiu de seus devaneios ao ouvir o pesar na voz do outro.

— É… As coisas embaçaram com a Helena e eu tenho que ir embora. Sinto muito…

— Não tem nem trinta minutos que estamos aqui. — Olhou confuso para o relógio.

— Eu sei Shura… Mas preciso ir. Já disse que sinto muito.

Não respondeu nada. Apenas fez um gesto para que o garçom trouxesse a conta e pagou tudo em silêncio, indicando que o outro fosse resolver seus problemas. Percebeu o olhar vacilante do Italiano sempre tão seguro de suas atitudes e apenas sussurrou um “Vai logo…” Ainda conseguiu ouvir um “Perdão”, dito em um tom sofrido. Que bela ópera estavam encenando. Provavelmente seria uma daquelas de final trágico, estilo Pagliacci. O palhaço triste acometido pela traição e pelo ciúme.

Olha só… Ciúme!

Essa era uma novidade quase insana. Em que momento se julgou no direito de sentir ciúmes? Não sabia e nem queria precisar. Era ele mesmo que gritava aos quatro ventos que não deviam nada um ao outro. Andou cabisbaixo até o ponto do ônibus. Entrou no transporte que felizmente já estava parado, sentou no fundo do veículo, reclinando o banco do ônibus executivo. Fechou os olhos se recostando e suspirou pesadamente. Sentiu o celular vibrar no bolso da frente da mochila, e com um amargor na boca olhou o aparelho. Ponderou se deveria atentar.

— Fala, Ângelo! — Voltou a fechar os olhos ao ouvir a voz do outro lado.

— Você está chateado comigo?

— Por que estaria?

— Me diz você.

— Não estou chateado. Só acho que poderia ter me avisado que não ficaríamos nem uma hora naquele bar.

Ouvia apenas o som da respiração do outro lado.

— Viu... Você está chateado.

— Não estou, Máscara. Olha… Não somos nada um do outro para que eu me chateie por você encontrar com a sua namorada.

— Não somos e ainda sim, eu preferia ter ficado lá com você. Mas como não somos nada, eu tenho obrigações a cumprir.

O Espanhol não saberia definir a dor que sentiu ao ouvir aquelas palavras, que permanecem ecoando em sua mente, dando a sentença que tanto buscava. Suspirou.

— Não tenho como refutar isso. Apenas… Fique bem. Aproveite sua noite. Está tudo certo..

— Desculpa mesmo, Shura. Prometo que te compenso depois. Tudo que puder beber, por minha conta.

Sorriu minimamente, despedindo-se com um “até logo” e guardando o aparelho. Recostou no banco do ônibus, como se quisesse ser consumido por ele. Olhou a paisagem urbana pela janela do veículo em movimento, não pôde conter a vontade avassaladora de fazer parte de um filme de ficção e conseguir uma máquina do tempo, enquanto ainda tinha algum.

Continua.