Castell

12 Zen IV - Uma Escolha


Até aquele ponto estava tudo correndo melhor até do que o planejado, e isto não deixava de ser uma surpresa. As paladinas se mostraram inesperadamente amistosas diante da perspectiva de ter uma nova companheira de armas, tanto que Zen chegava a se sentir um pouco culpado por enganá-las daquela forma. Contudo, não havia outra forma de conseguir a vela cerimonial que lhe concederia a vitória e, desta vez, Juca não teria como roubá-la no último instante. Bastava ele não cometer nenhum erro e teria a disputa garantida, empatando com seu rival.

Ele seguia três guerreiras por um corredor no interior da fortificação, prestando muita atenção nos seus arredores enquanto buscava seu objetivo e possíveis rotas de fuga. Não escondia uma pontada de admiração, pois o lugar era bastante impressionante, mas infelizmente seu tempo estava prestes a se esgotar.

A parte do corredor onde ele estava se cobriu de fumaça e, de alguma forma, ele soube que algo estava prestes a dar errado. Não esperou sequer a névoa se dissipar e imediatamente correu na direção oposta à que vinha seguindo. Porém, incapaz de enxergar, bateu em algo e caiu, mantendo-se consciente apenas por um fio.

Quando se deu conta do que estava acontecendo, já era tarde demais. Havia trombado com outra paladina que seguia logo atrás e as três que o conduziram até ali estavam ao redor, tentando entender o que significava a súbita aparição de um homem vestido de ninja no interior do castelo.

–Quem é você? E o que fez com a Fabiana? – Disse uma das mulheres, mencionando o nome que Zen escolhera como disfarce.

–Ai caramba... – O rapaz suava frio, sem saber o que fazer na situação em que se encontrava. Um único pensamento martelava incessantemente sua cabeça: “Agora ferrou”.

Do lado de fora, o restante da comitiva do dragão, Akane e até mesmo seu cavaleiro jogavam Uno, na falta de algo melhor para fazer enquanto esperavam o retorno do ninja. A partida seguia tranquila, até que Daniel levantou um ponto relevante.

–Só queria saber como é que vamos voltar. Depois do que aconteceu, duvido que o Cleber vá nos ajudar uma segunda vez.

–E realmente não vai. – Respondeu Akane. – Está escrito atrás desse ingresso que a magia de transporte dele tem duração limitada e que após três horas será dissipada. Quando isso acontecer, voltaremos ao meu castelo.

–Mas e quanto ao Zen? Ele ainda não voltou. – Lembrou o tapete.

–Desconfio que ele seja devolvido também, independente de onde estiver. – A duquesa completou.

–Então significa que ele só tem mais dez minutos. Eu me pergunto o que está acontecendo para ele demorar tanto... – Comentou Er, preocupada.

–No mínimo elas devem ter descoberto que ele não é exatamente uma garota. Só espero que não tenham matado o coitado, vai ser muito sem graça vencer por WO. – Falou Juca.

O som do portão sendo aberto levou todos a deixar as cartas de lado. Estavam ansiosos para saber o que se sucederia a seguir e, para a surpresa generalizada, Zen, em sua forma original e com os trajes de ninja, saiu tranquilamente pela porta, acenando com uma mão e carregando uma vela com a outra. O grupo reunido logo abaixo poderia jurar ter ouvido um “Venha mais vezes” antes da passagem se fechar e o rapaz começar a descer.

–Ei gente, olha só! Eu consegui a vela que a Akane pediu! – Disse o competidor, balançando no alto o objeto que arriscou a vida para conseguir.

–Espere um pouco, você tinha entrado lá disfarçado de garota. Como é que agora está de volta ao normal? – Perguntou o ex-mordomo chefe, confuso.

–Acho que esse dispositivo ainda não foi aperfeiçoado. Minha transformação reverteu do nada enquanto eu ainda estava lá dentro.

–Mas e como foi que você conseguiu sair numa boa? Pensei que fossem te perseguir com tochas e espadas assim que descobrissem a verdade! – Protestou Juca.

–Olha, infelizmente isso eu não vou poder revelar. São segredos do ofício, ok? – Zen sorriu e não disse mais nada.

Quando o grupo finalmente retornou para o Ducado de Nadeko já era noite e todos se deram conta de que estavam famintos. Não comeram de imediato, contudo, pois Akane tinha algo diferente planejado para a noite. Após preparar rapidamente duas carruagens, ela levou seus convidados para um pub na cidade mais próxima. O estabelecimento, cujo dono se chamava Kalls, era conhecido por servir a cerveja de maior qualidade nos arredores dos domínios da duquesa.

Uma vez lá, a dama de armadura revelou suas verdadeiras intenções. Naquele recinto seria realizada mais uma disputa entre Zen e Juca, e nada menos do que um drinking game. Kalls, que já estava ciente de antemão, preparou um estoque de vodca para os participantes e a batalha não terminaria enquanto um deles não estivesse caído no chão e incapaz de continuar bebendo.

Nenhum dos dois guerreiros hesitou ao saber disso e, depois de uma breve refeição, começaram a virar os copos que Kalls enchia com presteza. As doses iam se acumulando num clima de tensão enquanto os demais clientes assistiam e gritavam fazendo torcida.

Até mesmo Akane e Er observavam inquietas, pois era evidente que as forças de Zen e Juca estavam equiparadas neste sentido. Desta forma, o confronto se arrastou por longos quarenta minutos, ao final dos quais os dois rapazes se apoiavam sobre os ombros um do outro enquanto cantavam e soluçavam.

–Kalls é um bom companheiro, Kalls é um bom companheeeeeeeiro. – Esgotados, eles caíram para trás e disseram uma última frase antes de perder completamente a consciência. – Ninguééééém pode negaaaaar.

–Caramba, os dois desmaiaram! E agora? – Exclamou Dan.

–Empate técnico, eu acho. – Propôs Luke.

–Realmente, nessa situação não tenho outra escolha senão declarar que eles empataram. Isso significa que vou ter que pular a prova da corrida de pôneis amanhã e partir direto para a última disputa. – Disse a duquesa.

–E que disputa seria essa? – Perguntou Er, embora já tivesse uma boa noção de qual seria a resposta.

–Ah, você logo vai descobrir. Mas mudando de assunto, já que esse drinking game terminou de forma tão decepcionante, o que acha de nós duas assumirmos daqui? Obviamente, não valerá pontos na disputa, faremos isso só para nos divertir.

Diante do sorriso levemente debochado e extremamente confiante de Akane, a mulher de vermelho não podia simplesmente recusar. Se era esta a vontade da senhora de Nadeko, então naquela noite ela conheceria a derrota pelas mãos da maior consumidora de álcool do castelo do dragão.

–Só não vá reclamar da ressaca amanhã, minha cara.

–Se você me fizer beber a ponto de ter ressaca então vai ganhar meu respeito e levar esse pub à falência.

Com os olhos em chamas, as duas se posicionaram em lados opostos da mesa, colocaram seus copos de lado e puxaram garrafas cheias, virando-as sem titubear. Ambas terminaram praticamente ao mesmo tempo e bateram com os recipientes vazios na madeira antes de repetir a dose.

Subitamente a disputa se tornara ainda mais ferrenha do que antes e a torcida se inflamou da mesma forma que o espírito competitivo das duas damas. Ninguém, nem mesmo o próprio dono do pub, era capaz de acreditar que um ser humano pudesse consumir tanto álcool, mas de alguma forma as duas continuaram firmes em pé até a madrugada, quando, finalmente, começaram a demonstrar sinais de fraqueza.

–Como você é persistente... – Disse Akane.

–Digo o mesmo. Na verdade eu até queria que a disputa tivesse durado um pouco mais. – Respondeu Er, sorridente.

–Como assim?

–Da próxima vez pode ter certeza que eu vou vencer. – A assistente do lorde caiu, desmaiada. Restava apenas uma tonta e levemente confusa duquesa em pé, que foi rapidamente cercada pelas pessoas que assistiram o embate. Elas aplaudiam, assoviavam e gritavam seu nome, comemorando a vitória.

–Dá para acreditar nesses monstros? – Comentou o ex-mordomo.

–Eu já desconfiava que Er era diferente, mas não faço ideia de como a Akane conseguiu vencer. – O tapete falou. – Seja como for, isso parece divertido. Por que nós dois não fazemos uma disputa também?

–Depois de tudo que eu vi? Nem ferrando!

No fim das contas, Luke acabou desafiando a duquesa, mas foi derrotado também.

Pela manhã, Akane foi a última a entrar no salão para tomar o café da manhã e, tão logo quanto o fez, instruiu um serviçal a lhe trazer café, dando ênfase fato de que queria um bem forte. Depois disso ela sentou e se deparou com uma expressão de contentamento no rosto no Er.

–Tudo bem com você, duquesa? Espero que não esteja de ressaca.

Mas embora a dama do chicote tenha tentado parecer durona, uma forte pontada de dor a fez inconscientemente levar uma das mãos à cabeça por um breve instante.

–Olha quem fala. Mas tenho que admitir, nunca tive uma rival à altura antes de você.

–Rival? Do que elas estão falando? – Questionou Zen.

–Meu amigo, pena que você desmaiou de bêbado. Acabou perdendo a disputa do século. Akane e Er beberam cada uma álcool suficiente para matar dois elefantes. – Explicou Luke.

–Façam silêncio! Não consigo nem pensar direito, muito menos com vocês berrando desse jeito. – A garota de armadura reclamou antes de tomar um longo gole de seu café.

–Caramba, nunca vi você desse jeito. Tem certeza de que não vai colocar a comida para fora depois? – Disse Juca.

–Preocupe-se mais consigo mesmo. Não pense que eu esqueci a história da casca de banana. – A duquesa respondeu em tom ameaçador. – É bom se prepararem, porque a última batalha começará assim que terminarmos essa refeição.

–Depois da paca e das paladinas, aposto que é algo ainda mais medonho. O que eles terão que fazer dessa vez, encarar um leão mitológico? – Falou Dan, exasperado.

–Não, não precisamos chegar a esse ponto, mas acredito que será a disputa mais interessante de todas.

–Então fala logo, está me matando com todo esse suspense! – Disse novamente o mordomo.

–Nós dois vamos ter que cair na porrada, é claro. E isso é ótimo, eu ficaria muito chateado se não tivesse a oportunidade de enfrentar o Zen a sério. – Explicou Juca.

–Eu estava pensando a mesma coisa. – O ninja o encarou e a tensão tomou conta do ambiente no mesmo instante. Os espíritos de luta se elevavam e arrebatavam a todos como se colocassem as almas num turbilhão de apreensão. Então Luke arrotou e estragou o clima.

–Ei, por que todos vocês estão me olhando assim? Eu só elogiei a comida!

Zen e Juca se viram em lados opostos na arena no interior do coliseu, enquanto os demais observavam, aglomerados em um ponto da extensa arquibancada circular. Finalmente era chegada a hora de combater e, embora já tivesse adivinhado há algum tempo que a duquesa decidiria concluir assim a série de disputas e viesse se preparando para tal, o representante do dragão não podia negar que sentia um quê de apreensão.

Novamente as incertezas se agitavam em seu âmago e ele se perguntava se realmente deveria estar lá. Parte de si desejava desistir, não porque tivesse medo de lutar, mas porque não queria decepcionar as pessoas que torciam por sua vitória. Tais preocupações eram inexistentes em Juca, que já empunhava suas lâminas gêmeas e estava pronto para o combate.

Finalmente, Akane deu o sinal para que a luta começasse. Zen permaneceu estático, incerto sobre como agir, e isso deu ao oponente a chance de tomar a iniciativa. Puxando seus nunchaku para se defender, o ninja não encontrava brecha para revidar enquanto o guerreiro despejava uma saraivada de ataques velozes e precisos.

Não demorou para que Juca percebesse o quanto seu rival estava se esforçando para evitar as lâminas que dançavam ameaçadoramente, e isso lhe deu uma ideia. Em meio aos golpes de seu combo, desferiu uma joelhada, atingindo em cheio o abdômen de Zen. Em seguida conectou com uma cotovelada no rosto e, ainda usando golpes de espada como distração, completou o assalto com um chute no peito, forte o bastante para lançar o garoto para trás.

Este rolou três vezes pelo chão e só então se levantou, devagar, dando-se conta de que todo o espírito de luta que reuniu desde o dia anterior já havia se esvaído. Daquele jeito certamente não tinha a menor chance de vencer, mas jamais se perdoaria se desistisse. A única solução que via para seu dilema era deixar Nez vir à tona, mas a que preço? Mesmo que conseguisse derrotar Juca assim, não desejava colocar seus amigos em perigo.

Nisto, seu rosto virou na direção da plateia e ele sentiu um alívio ao lembrar que entre os espectadores estavam dois monstros de poder imensurável. Nem mesmo seu lado maligno seria capaz de combater Er e Akane ao mesmo tempo. Com isto não tinha nada a temer, bastava tomar a própria vida e deixar que Nez viesse à tona. Zen então empunhou uma kunai e a aproximou do próprio pescoço, mas congelou ao ouvir uma voz desconhecida e familiar ao mesmo tempo.

–Por que está levando isso tão a sério? Você não estava se divertindo ontem, mesmo nas vezes em que perdeu?

Todos o observavam com um olhar curioso, preocupado até. Nem mesmo Juca esboçava reação, relutante em atacar um inimigo completamente indefeso. Os rostos confusos deixavam claro para o ninja que ele era o único ouvindo aquela voz. Ela o lembrava da figura azulada que encontrou em seu sonho.

–Não se preocupe com o resultado ou com o que os outros vão pensar. O importante é como você se sente a respeito. O que realmente importa é que você consiga se divertir, mesmo quando estiver diante de um desafio aparentemente impossível. Se conseguir isso, a derrota nunca será o fim da linha.

A kunai escapou da mão e tilintou ao cair no chão. Subitamente, Zen começou a gargalhar, fechando os olhos e colocando uma das mãos sobre a própria cabeça. Era uma risada honesta de alívio e, quando terminou, esfregou o próprio rosto. Diante dos olhares incrédulos de todos, ele abriu um sorriso enorme.

–Por que está me olhando com essa cara de paspalho, Juca? Nós temos uma briga para terminar!

O cavaleiro ficou sem reação, a princípio, mas logo se viu obrigado a concordar que o rival estava certo. Antes que percebesse, também estava sorrindo, pois tinha a impressão de que agora finalmente teria a luta que desejava. Uma luta em que poderia conhecer o verdadeiro potencial de Zen.

A disputa se acirrou diante dos olhares atônitos da plateia. Já não era mais possível afirmar com certeza quem seria o vencedor, pois ambos combatiam com grande perícia e ferocidade. Mas com o passar o tempo, o fôlego começava a faltar.

Arfando e quase sem energias para continuar, eles se encararam uma última vez, buscando a melhor brecha possível. Então avançaram, num esforço derradeiro.

Quando a distância entre ambos se reduziu a dois metros, Juca lançou a espada que carregava com a mão direita, ao que o ninja deu um passo para o lado e evitou a lâmina, sem deter seu próprio avanço. Ao se encontrarem novamente à distância do combate corpo a corpo, o cavaleiro desferiu um corte horizontal com a arma que lhe restava, na altura do tórax.

Diante desta ameaça, Zen saltou e contra-atacou com um chute, mas era algo já esperado pelo oponente, que se abaixou a tempo e então impulsionou o corpo para cima, atacando com um gancho e atingindo o abdômen. A despeito da dor e do cansaço, o enviado do dragão não se deu por vencido e segurou com firmeza o braço de Juca antes de fazer o movimento de retorno com sua perna que anda estava esticada, golpeando em cheio a nuca do rival com seu calcanhar.

Os dois então foram ao chão e lá permaneceram, recuperando o fôlego, até que um deles encontrou forças para se colocar em pé de novo. Apenas um, Zen, que, mesmo apoiando as mãos nos joelhos, ainda demonstrava espírito de luta. O guerreiro da duquesa, por outro lado, já tinha alcançado seus limites.

–Tudo bem, dessa vez eu vou deixar você vencer. – Disse Juca, resignado, mas satisfeito. Ao ouvir isso o ninja retribuiu com um aceno de sua cabeça e depois desabou sobre os próprios joelhos, sendo rapidamente ajudado por Dan, que correu até o centro da arena.

–É isso aí, nós vencemos!

–Eu sabia que você ia conseguir, Zen, nunca duvidei por um instante sequer! – Exclamou Luke. – Quer dizer, talvez eu tenha duvido uma ou duas vezes, mas o que importa é que no fim das contas você conseguiu.

Naquela noite, Akane organizou um banquete e parabenizou Zen pessoalmente pela vitória. O próprio Juca não demonstrou ressentimentos, contente pela oportunidade de enfrentar alguém por quem tinha adquirido respeito, mas garantiu que da próxima vez sairia vitorioso.

Por fim, a comitiva do castelo do dragão partiu, levando Luke consigo, ansiosos para contar a respeito de tudo que havia acontecido aos demais moradores do castelo. Enquanto observava a carruagem partir, Juca fez um comentário para si mesmo.

–Bem, até que foi divertido. Nem me sinto mal por ter perdido no final.

Nisto, ele sentiu algo estranho no ar, uma aura que o enchia de calafrios. Quando olhou para o lado, reparou que tratava-se da duquesa, cujos olhos reluziam com um brilho avermelhado.

–Eu avisei o que aconteceria se você perdesse, não avisei?

–Calma, Akane, foi uma batalha emocionante até o fim e todos gostaram. Tenho certeza de que até a Er ficou impressionada.

Tomando ares de tranquilidade, a mulher respondeu.

–É, nisso você tem razão.

–Viu só? No fim das contas todos rimos e nos divertimos. Não tem necessidade de brigar comigo por causa de uma brincadeira boba.

–Na verdade, tem sim.

Quando acordou, uma semana depois, no hospital, Juca ao menos ficou contente ao reparar que havia recebido uma mensagem de melhoras em nome de Zen e seus companheiros.