Castell
13 Geu I - O Grande Detetive
Eram oito da manhã e a luz de um dia ensolarado entrava pela janela do quarto da garota que dormia em posição bastante atípica. Quando seu despertador finalmente tocou ela levantou o tronco imediatamente, olhou para os lados confusa e então tentou levantar, mas tropeçou no lençol e rolou para o lado, caindo fora da cama. Seu nome era Kamo e a rotina diária estava apenas começando.
Ela logo se levantou, olhou para os lados novamente, desta vez com desconfiança, e se deu conta de que não havia realmente ninguém ali para ver a sua gafe. Em seguida flutuou até o banheiro, escovou os dentes, tomou um banho e finalmente vestiu seus trajes costumeiros. Às oito e meia já estava com o café da manhã sobre a mesa. Enquanto os demais integrantes do castelo optavam pela comida preparada no refeitório, Kamo gostava de fazer suas próprias refeições. Naquela manhã quis comer panquecas e as devorou rapidamente.—O castelo ficou tão quieto agora que tanta gente saiu. Até o lorde, que quase sempre está em seus aposentos, resolveu sumir e não deu mais notícias. – A garota começou a monologar enquanto lavava a própria louça. – Pelo menos Er e o pessoal que foi com ela até Nadeko devem retornar hoje. Mal posso esperar para ouvir as histórias sobre a disputa entre Zen e Juca. Um pouco mais animada, ela deslizou graciosamente até uma mesa cheia de papéis e pastas e sentou numa cadeira estofada e confortável. Estava na hora de começar seus afazeres e, sendo a principal responsável pelas questões diplomáticas do castelo, Kamo realmente tinha muito trabalho. O tempo foi passando enquanto ela folheava seus papéis, estudava tratados, rabiscava algumas folhas e assinava outras. Depois de duas horas, já um tanto entediada, ela se pegou fazendo um desenho no rodapé do que haveria de ser uma declaração do lorde referente ao comércio de cartas em seus territórios. Depois de discretamente apagar aquilo com uma borracha, ela voltou para a cozinha e preparou um café para si. Carregando consigo a caneca, Kamo flutuou de um lado para o outro de seus domínios, deixando a mente divagar, até que eventualmente percebeu que um papel tinha sido deixado na soleira de sua porta.—O que é isso? – Ela recolheu o objeto e o desdobrou. – Ah, é uma carta do Sayd. “Prezada Kamo. Vou sentir saudades, mas a verdade é que já deveria ter feito isto há muito tempo. Decidi que vou parar de fugir do passado e descobrir a verdade de uma vez por todas. Por isso mesmo contratei os serviços do melhor detetive desta região para me ajudar a localizar meus pais e, depois de cruzar a minha história com as informações que levantou, ele me disse que havia uma grande probabilidade de encontrarmos pistas referentes ao paradeiro deles em Graventown. Por hora precisarei ficar um tempo longe do castelo, mas prometo que demorarei apenas o tempo que for necessário. Na dúvida, resolvi levar a Matadora de Fuinhas comigo, pois nunca se sabe quando será necessário lutar contra algum malfeitor. Espero que tudo esteja tranquilo por aí e, se por acaso minha presença for necessária, não hesite em me chamar. Estarei aí num instante. Até breve, Sayd.” Ao terminar de ler a carta, Kamo a colocou sobre sua mesa e sorriu enquanto levava a caneca de volta à cozinha.—Espero que você consiga encontrar seus pais e que eles estejam bem, Sayd. Mas agora fiquei curiosa. Quem será esse tal detetive que ele mencionou? Através da planície árida e desolada, dois homens destemidos avançavam firmes em suas velozes montarias. Uma nuvem de fumaça se erguia atrás deles, mas era algo de que não tomavam nota, pois seus olhos estavam fixos adiante, no objetivo que desejavam alcançar. Quem visse aquelas duas figuras seguindo pela estrada certamente ficaria maravilhado e provavelmente se perguntaria como poderiam manter uma postura tão dramática enquanto cavalgavam no lombo de enormes pássaros amarelos. Com efeito, as montarias usadas por eles eram dois pássaros de porte robusto, cujas asas, pequenas em comparação ao restante do corpo, não pareciam ter condições de erguê-los do chão. Em compensação, as pernas dos animais eram poderosas, seus bicos verdadeiramente ameaçadores e suas caudas repletas de penas longas. O cavaleiro que seguia mais avançado, de feições inteligentes, vestia um jaleco branco e camisa social da mesma cor, além de uma calça preta e sapatos de couro. Já o outro, dono de um bigode levemente extravagante, usava vestes igualmente inapropriadas para a situação em que se encontravam: um elegante terno preto com gravata verde, e sapatos iguais ao de seu companheiro.—Abraão, falta muito para... – O homem de terno começou, mas foi interrompido.—Já disse para parar de chamar assim, Sayd. Enquanto estiver contratando meus serviços eu não sou Abraão, o responsável pela biblioteca do castelo.—Desculpe, eu sempre me esqueço.—Não me interrompa! – Abraão fez uma careta e então prosseguiu, erguendo um dedo ao alto e declarando da forma mais pomposa que era capaz. – Eu sou o grande detetive Geu!—Tá, já entendi. Como eu ia dizendo, Geu, acho que o Piu-Piu aqui já não aguenta mais muita estrada. Quanto falta para chegarmos em Ponto Town? – O comandante das forças armadas do castelo se referia à sua montaria ao dizer aquilo.
—Sim, posso sentir que o meu Papa Léguas também está chegando no limite. Felizmente Ponto Town não deve estar a mais de meia hora de viagem no nosso ritmo atual. Depois disso, com mais dois dias finalmente chegaremos no nosso destino e poderemos procurar seus pais.—Devo admitir que estou realmente impressionado, Geu. Como foi que você descobriu que poderíamos encontrar pistas do paradeiro dos meus pais em Graventown?—Infelizmente eu não posso contar. Um bom detetive jamais pode comprometer suas fontes, entende? Alguns dias antes, na biblioteca, o homem de jaleco lia atentamente um livro em cuja capa era possível ler os dizeres: “Roteiro dos capítulos 13 a 16 de Castell”. Ao longe, as construções de madeira da pequena cidade de Ponto Town se tornavam visíveis enquanto os rapazes diminuíam o ritmo de corrida de suas aves.—Tudo o que você precisa saber é que é uma fonte confiável. Tenho certeza de que vamos descobrir alguma coisa por lá. Cerca de vinte minutos depois, eles amarraram as montarias e deram água a elas num estábulo antes de prosseguir pela rua principal. Enquanto estudavam os prédios, procurando algo que lhes interessasse, Geu fez uma pergunta.—Afinal de contas, por que você está usando um terno preto nesse fim de mundo quente pra caramba?—É que como essa é uma ocasião especial, eu imaginei que seria uma boa ideia vestir algo um pouco mais social que a minha armadura.—Ok, mas ele já está todo sujo de poeira. É assim que você quer se apresentar para os seus pais?—Olha quem fala. Você veio de jaleco e ele também está todo sujo.—Não está não. O cientista puxou o jaleco pelo colarinho com ambas as mãos e balançou. Ao fazer isso, uma nuvem de sujeira se expandiu ao seu redor e caiu no chão, deixando suas vestes totalmente limpas e impecáveis.—Contemple, Sayd! O poder da tecnologia!—Tudo bem. – Respondeu o guerreiro, de cara fechada. – Eu procuro uma lavanderia quando chegarmos em Graventown. Cerca de um minuto depois, os dois pararam diante de um saloon de aparência simpática e entraram. Estavam famintos e desejosos de experimentar uma comida que não se parecesse com ração de viagem. Enquanto esperavam pelo prato principal, pediram algumas bebidas e começaram a esvaziar os copos.—E então, como você acha que o Zen vai se sair na disputa? – Perguntou Sayd.—Vai depender dele, é claro, mas eu tenho a ligeira impressão de que ele vai se sair bem. – O cientista respondeu com um sorriso.—Por quê?—Digamos que eu dei a ele uma pequena ajuda.—Espere, mas isso não vai contra as regras?—Não se eu não ajudá-lo diretamente, mas tenho certeza de que o presente que eu dei a ele será muito útil. O comandante das forças do castelo respondeu com uma expressão neutra, que então foi tomada por feições preocupadas.—Com tanta gente fora do castelo eu penso que talvez devesse ter ficado. Deve ser difícil para a Kamo lidar com tanta responsabilidade, ainda mais agora que o Rec virou mordomo-chefe e ninguém sabe o que o Mizu pode estar planejando.—Ora, francamente. – Geu respondeu com um levíssimo tom que poderia ser de deboche ou incômodo. – Você deveria saber melhor do que qualquer um que aquela garota sabe se virar. Nem o Rec e nem o Mizu gostariam de deixar Kamo irritada, disso eu tenho certeza.—Realmente. – Sayd tomou ares mais animados, mas manteve a seriedade na voz. – E parece que o lorde também deixou o castelo, não é?—É o que dizem. – Respondeu Abrão com um olhar perdido. – E não me pergunte o motivo, que sei que você quer saber, porque eu também não sei.—Ao menos você sabe por que razão ele permanece trancado naquela torre? Até hoje as únicas que viram o rosto dele são as próprias Kamo e Er. Geu começou a balançar o próprio copo em movimentos circulares, observando o líquido dentro, enquanto se mantinha pensativo, como se escolhesse que palavras usar em sua resposta. Então, eventualmente, ele começou.—Dizem que o lorde já foi uma pessoa muito diferente do que é hoje, ou pelo menos o que Kamo e Er dizem que ele é. Você conhece o verdadeiro nome dele, Sayd?—Não faço ideia.—Julian von Karma. Talvez você tenha ouvido falar dessa família.—Ouvi algumas histórias. – Disse o guerreiro, taciturno. – Não é aquela família amaldiçoada?—A própria. E pelo que fiquei sabendo, Julian fez jus ao próprio nome durante a juventude. Mergulhou de cabeça nas trevas para adquirir dela um poder tão grande quanto seu próprio orgulho e, como bem sabemos, isso tem um preço bem elevado. O título de dragão vem dessa época inclusive, e isto porque diziam que ele era um verdadeiro monstro. Sayd já se via completamente envolvido pela história que seu amigo contava e cedeu ao suspense.—Então o que ele fez ele mudar?—Vai saber. Talvez ele tenha se dado conta de que era um tremendo babaca, ou quem sabe se apaixonou por alguém, mas na minha experiência eu diria que perdeu tudo aquilo com que se importava tentando satisfazer o próprio orgulho. E se eu tivesse de dar um palpite para explicar a razão de ele se isolar tanto, de viver escondido em seu próprio mundinho, eu apostaria que no fundo ele ainda confronta as próprias trevas todo dia. Que ainda é assombrado pelos fantasmas do próprio passado.—Não é exatamente uma história animadora.—Depende da forma como você a enxerga. – Geu deu de ombros. Neste momento o garçom chegou com a comida e ambos deixaram a conversa de lado, comendo fartamente. Depois disso, ansiosos por um descanso, eles pagaram a conta e deixaram o saloon sem se dar conta de que estavam sendo observados. Assim que a dupla se levantou, uma garota fez o mesmo em uma das mesas mais ao fundo. Sua pele era clara, seus cabelos negros e compridos, e trajava vestes pouco chamativas: calças jeans e uma jaqueta magenta fechada. Um detalhe, contudo, se ressaltava naquela figura e dava a ela um toque de beleza singular. Quem fitasse diretamente seus olhos veria, no fundo das íris roxas, uma miríade de minúsculas luzes fugazes, como se estivesse admirando as profundezas de uma galáxia. Noite. A porta se abriu e o tapete mágico flutuou para dentro do recinto inundado em escuridão. Isto não significava nada para Luke, obviamente, pois ele tinha o poder de sentir tudo ao seu redor e conseguia discernir com clareza os quadros, estátuas e outras obra de arte ao seu redor. Mas ele não estava lá para admirar arte, e sim para encontrar o homem que requisitara sua presença. Este estava no final da sala, de costas para o tapete e observando a céu noturno através de uma enorme vidraça. Embora não tivesse condições de ler as expressões no rosto dele, Luke podia sentir uma aura de descontentamento. Fosse qual fosse o motivo de ter sido convocado, certamente não era algo agradável.—Obrigado por ter vindo rapidamente. Espero que tenha aproveitado bem seu descanso, Luke, porque preciso de alguém com suas habilidades para uma missão muito sensível. – Disse Rec, virando-se para fitar o objeto mágico.—O que aconteceu dessa vez?—Talvez você esteja ciente de que Sayd saiu numa missão particular, com a intenção de encontrar seus pais. Normalmente isso não me preocuparia, sozinho ele jamais teria condições de fazer isso. Mas surgiu uma complicação...—Vá direto ao ponto, Rec.—Sayd contratou a ajuda de Geu, e isso significa que as chances do encontro acontecer são muito maiores. – O novo mordomo-chefe caminhava de um lado para o outro, inquieto.—O que você precisa que eu faça? – Disse Luke, já impaciente.—Simples. Quero que você encontre os pais de Sayd primeiro e os mate. Em hipótese alguma eles podem se encontrar com Sayd, entendeu? Em hipótese alguma!—É só matar? Então pode ficar tranquilo que eu dou um jeito.
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