Castell

11 Zen III - Paladinas da Liberdade


Zen acordou no mesmo quarto em que havia dormido na noite anterior. Estava todo enfaixado e ainda sentia dores pelo corpo, mas nenhum de seus ferimentos era grave. Ao seu lado estavam Dan e Luke, que abriram sorrisos ao notar que o amigo despertava. Ainda grogue, o ninja estava prestes a retribuir quando, subitamente, sua memória retornou e seu grito foi ouvido até do lado de fora do castelo.

–Se eu pego aquele desgraçado do Juca!!!

Akane e seu cavaleiro, que almoçavam numa mesa de pedra ao ar livre, no jardim da fortaleza, olharam para o alto ao ouvir o berro, mas logo voltaram a comer.

–Acho que ele não ficou muito contente. – Comentou Juca.

–O que você esperava? Agora ele com certeza vai querer se vingar, é bom ficar esperto.

–Assim que é divertido. Não teria graça se não fosse desafiador.

Enquanto isso, a porta do quarto de Zen se abriu e por ela passou Er, que trazia uma maçã semidevorada na mão esquerda. Ela se mostrou aliviada ao constatar a situação de seu subordinado.

–Vejo que já está bem melhor, confesso que fiquei preocupada quando Dan trouxe você desmaiado da floresta.

–Eu fui descuidado e acabei perdendo a primeira rodada, mas isso não vai acontecer de novo. – Jurou Zen.

–Foi tudo culpa nossa, Zen, sentimos muito pelo que aconteceu. – Disse Dan.

–É, e muito obrigado por salvar nossa pele. Nem sei o que teria acontecido se você não tivesse chegado naquela hora. – Completou Luke.

–Se querem se desculpar vocês podem fazer isso me trazendo uma bandeja de comida. Preciso repor as energias para o próximo confronto.

–Pode deixar conosco!

O rapaz e o tapete responderam juntos e então deixaram o recinto, correndo em direção à cozinha. Er, que queria deixar o ninja descansar, resolveu deixar uma última mensagem de motivação antes de partir.

–A propósito, derrotar uma paca mortífera não é algo que qualquer um seria capaz de fazer. Acho que Kamo estava certa em indicar você, então vou confiar que vai se sair melhor na próxima.

–Na verdade eu nem sei o que aconteceu comigo naquela hora, nunca pensei que teria coragem para lutar com aquele monstro. Mas seja como for, uma coisa é certa agora: não quero perder de jeito nenhum. O Juca ainda vai me pagar por aquela sacanagem!

Satisfeita com o espírito de luta do jovem, a assistente do lorde se foi, fechando a porta atrás de si. Zen, contudo, não teria tempo para descansar, pois logo chegaram os outros dois moradores do castelo do dragão trazendo um monte de comida consigo.

Pontualmente à uma da tarde, os desafios reiniciaram. O primeiro após o recesso envolveu passar uma pilha de roupas lavadas, disputa em que Juca saiu vitorioso novamente, tendo conseguido passar cinco peças a mais que seu adversário. Ainda mais determinado a vencer, Zen entrou na seguinte pronto para mostrar do que era feito, aceitando o desafio de fazer mais flexões de braços em cinco minutos. No final deste terceiro desafio o cavaleiro da duquesa tinha feito um total de cem, perante cento e vinte e cinco do rival.

Depois disso foi realizada uma breve pausa, em particular porque Juca estava reclamando de dores nos braços, e logo na sequência os dois competidores partiram para a quarta rodada. Dessa vez se depararam com uma corrida de obstáculos em uma pista de gelo, disputa em que as habilidades ninjas de Zen vieram muito a calhar, garantindo a ele uma vitória que os deixou empatados.

Em seguida, contudo, Juca abriu novamente a vantagem num confronto de pebolim. Para o desespero do guerreiro que defendia o dragão, ele se viu completamente dominado pelas habilidades do oponente e a partida terminou em 7 a 1. O cavaleiro de Akane se recusou a entrar em muitos detalhes, mas mencionou que havia treinado em um reino estrangeiro a fim de afiar suas habilidades naquele jogo.

Mais uma vez todo o grupo estava reunido nos arredores do coliseu. Akane não conseguia esconder um minúsculo sorriso de satisfação por ter seu cavaleiro na vantagem, e mesmo mantendo uma postura digna da responsável por organizar a disputa, ainda assim, sua expressão tomava feições que demonstravam ainda mais contentamento em face do desafio que viria a seguir.

–Muito bem, espero que os dois estejam preparados para uma prova bastante difícil. Se acham que encarar a paca mortífera foi complicado, vocês não fazem ideia do que lhes espera a seguir. – Disse a duquesa.

–Ah, eu nem achei tão difícil assim o desafio da paca. Sequer cheguei a suar. – Afirmou Juca, com um sorriso enorme.

Zen quis retrucar, mas decidiu que seria melhor ficar calado por hora. Não precisaria de palavras para se justificar quando estivesse vencendo e, para alcançar esse objetivo, não mediria esforços.

–Olha só para a cara do Zen, acho que ele realmente está levando isso tudo a sério. – Comentou Dan em um murmúrio, para que apenas Luke pudesse escutar. – Nem parece que ele estava dizendo ainda ontem que era melhor terem chamado o Sayd.

–Eu acho que isso tudo acabou despertando a competitividade dentro dele. Se o jogo continuar acirrado desse jeito, vai pegar fogo no final. – O tapete respondeu.

–Para a próxima disputa vocês deverão ir até o Monastério das Paladinas da Liberdade. – A nobre prosseguiu, mas foi interrompida.

–Espere um pouco, Akane, essas não são aquelas guerreiras conhecidas por permitirem que apenas mulheres se juntem à organização? – Questionou a assistente do lorde.

–Precisamente, Er.

–Mas então como é que eles vão conseguir cumprir a missão? As paladinas não deixam homens sequer entrar na fortaleza.

–Esse é o ponto, Er. O objetivo dessa missão é entrar no monastério e roubar uma vela ritualística com aroma de lavanda. Como eles farão isso não me importa, mas quem trouxer o objetivo primeiro vence.

–Realmente isso vai ser muito complicado! – Exclamou Luke. – Derrotar uma paca possuída pelo capiroto é uma coisa, mas invadir uma fortaleza cheia de guerreiras poderosas é loucura!

–Não se preocupem que eu mostro como é que se faz! – Afirmou Juca, confiante.

–Essas paladinas moram bem longe daqui, perto dos limites do ducado, não é verdade? – O ex-mordomo ponderou. – A uns trezentos quilômetros de distância, se não me engano. Como iremos até lá?

–Ah, quanto a isso vocês não precisam se preocupar. – Uma voz familiar para muitos ali foi ouvida, embora seu dono não estivesse visível. Então, em meio a um turbilhão reluzente, surgiu a figura sorridente de Cleber.

–Ei, espera um pouco! Você é aquele cara do outro dia! – Exclamou Zen.

–Sim, e eu sabia que Akane precisaria da minha ajuda mais ou menos a esta hora, então vim assim que pude.

–Como assim, sabia que ela precisaria de ajuda? Ela não te contratou? – Perguntou o cavaleiro da duquesa.

–Não, nós mal nos conhecemos, para falar a verdade. Mas eu previ que seria necessário aqui e agora, então preparem-se que a viagem pode ser um pouco turbulenta.

Tudo ao redor foi envolvido por uma luz cegante e, quando o grupo pôde novamente abrir os olhos, todos estavam diante de uma paisagem montanhosa e uma estrada íngreme que levava até a imponente fortaleza murada.

–Bom, por enquanto é só. Se precisar de mais alguma coisa nem precisa chamar que eu já saberei com antecedência, Akane. Foi um prazer ajudar.

A garota não respondeu, apenas manteve os braços cruzados e uma expressão neutra. O silêncio se estendeu por um momento enquanto todos os olhos estavam focados no sábio.

–Ehr... gente... será que vocês poderiam olhar para trás um momento? Acho que é o Julian passando lá embaixo. Com certeza vocês querem saber como é a descrição do personagem dele em Castell, certo?

Ninguém se moveu e todos continuaram a observar Cleber, deixando-o um tanto desconcertado. Foi Daniel quem explicou o motivo.

–Na verdade nós estamos mais interessados em saber como é que você some sempre que olhamos para o outro lado. Não vai escapar sem explicar essa.

–Droga, vocês não vão me dar mesmo outra escolha, não é? Mas tudo bem, farei esse sacrifício.

O sábio retirou do bolso um papel e ergueu sua mão para que todos pudessem ver do que se tratava. Nisto, a duquesa exclamou, empalidecendo.

–Isso é o que penso que é?!

–Sim, é um ingresso exclusivo para o show dos Arctic Monkeys.

Então o homem lançou o ingresso para o alto. Sem perder um segundo qualquer, todos se aglomeraram, tentando capturar o pedaço papel ainda em pleno ar. Depois de breves instantes de confusão e algumas pancadas, Akane era a única que restava em pé, triunfante, com seu prêmio na mão.

–Droga, não tem como competir com esse monstro. – Disse Juca enquanto passava a mão na própria nuca.

–Ei, cadê o Cleber? – Perguntou Dan.

–Ele deve ter fugido enquanto estávamos distraídos. Droga, ele nos enganou! – Falou Luke.

–Bem, pelo menos eu consegui o ingresso. Agora chega de moleza, vamos continuar com o desafio!

A imensa construção de pedra que se erguia imponente diante de todos se encontrava na parte mais alta do monte e existia apenas um caminho seguro que levava até ela. Barrancos íngremes e escarpados tornavam o desafio de escalada perigoso, e se isso não fosse o bastante, muros de mais de quatro metros cobriam toda a fortificação. Era um lugar legitimamente impenetrável, à exceção de uma possível entrada pelo ar, mas algo assim certamente seria notado pelas guerreiras.

–E aí, Zen, o que você pretende fazer? – Questionou Dan.

–Honestamente eu ainda não sei. Talvez consiga dar um jeito de escalar os muros por trás com meus equipamentos de ninja, mas preciso considerar outras alternativas.

–Nem precisa esquentar a cabeça com isso, meu amigo, basta ficar aqui assistindo enquanto eu mostro como se faz.

Dito isso, Juca seguiu sem vacilar pela estrada que o levou até o portão de entrada e, diante deste, bateu algumas vezes e esperou até que alguém viesse verificar do que se tratava. Em menos de um minuto algumas sentinelas observaram do topo das muralhas e, depois de identificado o visitante, o portão se abriu para dar passagem a cinco mulheres trajando armaduras reluzentes.

–Você sabe que lugar é este, estranho? – Perguntou uma delas.

–Aqui é o quartel-general das Paladinas da Liberdade, certo? Todos da região conhecem seus feitos heroicos! – Foi a resposta.

–Por acaso você tem interesse em buscar nosso auxílio? Temos que eliminar uns oito dragões só essa semana, mas se não for nada muito complicado acho que podemos agendar algo para a próxima terça.

–Não, não, nada disso, senhoritas. Na verdade eu sou um admirador do seu trabalho e também um menestrel viajante. Ficaria lisonjeado se me permitissem conhecer o interior do monastério e escrever sobre suas batalhas lendárias!

–É muito legal da sua parte, mas a resposta é não.

–Esperem, eu-

Antes que Juca pudesse continuar o portão se fechou e ele lá permaneceu, estarrecido, por um longo momento, até que finalmente deu as costas e desceu, arrastando os pés.

–Nossa, mandou bem mesmo. Não sei como ela não pediu seu número de telefone. – Debochou Luke.

–Maldito Clube da Luluzinha. Mas não importa, se eu não consegui, que chance tem o Zen?

–Bom, só tem um jeito de saber, né? De um jeito ou de outro, é óbvio que vou ter que me infiltrar nesse lugar sem ser notado, senão vão me chutar de lá na mesma hora.

Tão logo quanto disse aquelas palavras, Zen se viu envolvido em fumaça. Quando finalmente saiu de lá, cobrindo os olhos, balançando um dos braços e tossindo, já não se via mais um rapaz e sim uma moça de longos cabelos encaracolados.

–Quem é essa garota? – Perguntou Akane.

–Espere um pouco, não me diga que... Zen, é você?! – O ex-mordomo estava pasmo, incrédulo.

–Quem é que vocês estão chamando de... – O entendimento então veio à mente do não-mais-ninja. – Por favor, não me digam que não aconteceu o que estou pensando que aconteceu.

–Nossa, ficou linda mesmo. Se eu jogasse no outro time até chamava para sair. – Disse Er.

–Eu mereço! Juro que quando voltar para o castelo vou ter uma conversa muito séria com o Abraão. – Zen suspirou, visivelmente irritado. – Mas já que chegamos a esse ponto, vamos ver se assim eu consigo me infiltrar.

Enquanto o competidor subia em direção ao monastério, Luke se aproximou de Dan, falando baixo para não chamar atenção.

–É impressão minha ou ele mencionou o Abraão?

–Sim, no mínimo ter virado um ninja e agora uma garota tem algo a ver com uma invenção dele. O pessoal do castelo não percebe porque Abraão está sempre enfurnado naquela biblioteca ou no laboratório, mas na verdade se trata de alguém muito perigoso. Eu mesmo já o enfrentei uma vez.

Alguns meses atrás. Daniel caminhava pela biblioteca, trazendo consigo livros debaixo do braço e sendo acompanhado por um dos tradicionais fantasmas que carregavam lampiões. Quando finalmente encontrou Abraão e depositou os volumes em cima de uma mesa, o então mordomo chefe olhou de relance para cima expressando desconforto.

–Eu nunca vou me acostumar com essas coisas me perseguindo pela biblioteca.

–Não posso fazer nada, não foi ideia minha. – Retrucou o cientista.

–Realmente o lorde tem um senso de humor estranho. Enfim, aí estão os livros que eu peguei emprestado e estou devolvendo todos dentro do prazo. Não há nada para você reclamar dessa vez.

–É mesmo? Porque estes livros estão me dizendo que você não os tratou muito bem. – Disse Abraão, seríssimo.

–Como é que é? Você bateu a cabeça ou o isolamento está começando a deixá-lo maluco?

Sem pestanejar, o rapaz de jaleco puxou um livro do meio da pilha e o abriu exatamente no ponto em que uma das páginas tinha uma pequena mancha escura na parte inferior.

–Como você explica isso? Essa mancha de café?

–Foi um acidente, ok? Essas coisas acontecem!

–Como protetor dos livros aqui reunidos não posso permitir isso, Dan! Você terá que ser castigado!

–Ah é? Então eu exijo um julgamento por combate!

–Muito bem, já que é assim, nos encontraremos à meia-noite no cemitério e acertaremos nossas diferenças. Mas é bom que saiba que eu não pegarei leve.

–Por mim tudo bem. Acho que já passou da hora de mostrar quem é que tem mais autoridade nesse castelo.

De volta ao presente, Daniel continuava a contar o ocorrido para Luke.

–Resumindo a história, depois de cinco minutos de luta a Er apareceu reclamando que estávamos atrapalhando o treino de dança dela com o barulho da luta e castigou nós dois. Agora, o pouco que vi foi suficiente para ter certeza de que o Abraão pode ser bastante perigoso quando quer.

–Peraí, eu pensei que íamos ver a luta nesse capítulo! Por que você resumiu? – Reclamou o tapete.

–É que o autor já está estourando o limite de espaço, então não vai dar para mostrar.

–Que droga, por mim poderia ter mais umas mil palavras!

Enquanto isso, Zen já estava diante do robusto portão. Engolindo em seco, estendeu o punho fechado adiante e bateu três vezes na madeira, esperando que alguém viesse falar com ele.