Castell

9 Zen I - Duquesa


A sala do trono, o ponto mais elevado do castelo, era adjacente à torre do relógio e inacessível, exceto por meios mágicos. Não havia nenhuma luz acesa no comprido recinto e a única iluminação era proveniente do luar prateado que atravessava a enorme janela atrás do trono, feito de ébano, e da estátua de mármore representando um dragão cujas patas se apoiavam sobre a parte superior do assento. De frente, além das garras, era possível ver apenas as grandes asas e a cabeça no final do pescoço serpentino.

No recinto não existia nada mais que pudesse chamar a atenção, exceto por outra estátua dracônica no lado oposto, esta de porte muito menor, ao redor da qual uma aura roxa dançava tremulante. Sem aviso, ela se tornou um turbilhão que envolveu a escultura num breve instante, ao mesmo tempo em que um círculo de runas reluziu no chão imediatamente à frente e, no interior dele, surgiu uma garota de vestes brancas que flutuava e parecia emanar uma luz pura e gentil do próprio corpo.

Devagar, ela se deslocou pelo ar, observando a figura sentada no trono. O homem, que mantinha os braços apoiados sobre laterais e os olhos fechados, despertou de seu devaneio. Apesar da expressão cansada, seus olhos castanhos eram afiados e um pequeno sorriso se formou no rosto.

—Você se saiu muito bem, Kamo.

—Não foi tudo mérito meu. – A menina agradeceu o elogio com uma ligeira reverência.

—É verdade, Sayd também merece os devidos agradecimentos. Infelizmente não creio que teremos tranquilidade por aqui tão cedo, considerando que Luke foi sequestrado. Terei de pedir ao comandante que descubra o paradeiro dele.

—Isso não será necessário. Er pediu que eu aproveitasse para lhe avisar que acabamos de receber uma mensagem do Condado de Nadeko.

—Não me diga que isso é coisa da Akane!

—Precisamente. Ela está desafiando você a enviar seu melhor guerreiro para enfrentar o campeão dela, Juca, numa série de disputas.

—Mesmo assim, sequestrar o tapete que ela mesma me deu me parece ser um pouco de exagero! E eu nem ao menos tenho tempo de lidar com isso agora, precisarei me ausentar por um tempo para concluir uma pesquisa importante...

—Se é assim, sensei, então eu gostaria de indicar alguém para competir com o Juca. Akane prometeu devolver Luke se o desafio for aceito.

—Muito bem, conto com você, Kamo. Não faço ideia de que tipo de prêmio ela vá pedir de mim caso saia vitoriosa nessa aposta, então prefiro não perder.

—Não há nada com que se preocupar.

O rapaz soltou um suspiro de alívio. Muito lhe confortava poder contar com a ajuda de seus amigos e ele sabia que, dentro os muitos residentes do castelo, Kamo era quem tinha a melhor intuição.

—Até porque você me ajudou não faz muito tempo, então será uma boa oportunidade de retribuir o favor. – Disse a menina.

—Longe disso, eu é que fico contente que tenha escolhido permanecer neste mundo mais um pouco. Para ser honesto, eu me preocupo com nossos companheiros aqui no castelo. Apesar de terem boas intenções e serem esforçados, eu posso sentir que sofrem com dores do passado e incertezas do futuro. Sem a sua luz tranquilizante para guiá-los, eu temo que possam se perder nas trevas.

—Não se esqueça que a sua luz também é muito forte, sensei.

—Pode até ser, mas elas são diferentes. A sua luz é mais forte que a minha, é uma luz pura.

A princípio a menina tomou um semblante de apreensão, mas depois de alguns segundos pensando o que deveria dizer, ela sorriu e balançou a cabeça para os lados.

—Não combina com você falar essas besteiras, sabia? Agora trate de descansar direito, que eu sei que você está precisando.

O lorde ficou desconcertado com a intrepidez de sua amiga, mas aceitou o conselho de bom grado. Realmente, não seria correto deixar toda a responsabilidade sobre os ombros dela. Ele tinha de fazer sua parte também.

—Está bem, não vou discutir.

—É bom mesmo. Como é que você vai ficar bancando o herói se está acabado desse jeito?

—Você não tem nada melhor para fazer? – O rapaz fingiu aborrecimento em sua resposta, mas não foi sequer de longe convincente.

—Sim, eu tenho. Com sua licença, sensei, vou me retirar. – Jocosa, a celestial retornou para perto da estátua, mas antes que pudesse sumir dentro do portal, o lorde se apressou a dizer:

—Espere um momento, Kamo, há uma última coisa que preciso lhe pedir. Sobre a missão do Sayd...

Vestindo roupas comuns, Sayd alcançou o final da escada da torre do relógio e entrou no corredor conhecido como bifurcação do destino. Caminhou em direção à porta que levava aos aposentos de Er e bateu três vezes, ouvindo do outro lado a permissão para entrar. No interior do recinto avermelhado, ele viu que a mulher responsável por gerenciar o castelo estava conversando com um homem.

O indivíduo tinha um ar galante e ao mesmo tempo perigoso. Usava um chapéu que cobria seus cabelos negros, exceto a parte de trás, em que vários fios lisos desciam até a altura das escápulas. Sua barba era mais curta que a de Sayd e terminava de forma angular no queixo. Trajava roupas elegantes: um lenço logo abaixo do pescoço, camisa cinza de botões, um paletó aberto com ombreiras de metal dourado, completando a indumentária com calças e sapatos escuros. Era uma pessoa que o comandante não via há bastante tempo.

—Rec! É você mesmo?! Eu ouvi dizer que você tinha sido capturado por um pistoleiro caçador de recompensas chamado God.

—É verdade que fui capturado, mas é uma longa história e agora não tenho tempo para explicar. Acabo de me tornar mordomo chefe e vou ter muito trabalho, ainda mais porque a Er resolveu que vai sair para passear.

—Espere um pouco, você disse mordomo chefe? Mas e o...

Dan surgiu pela porta que ficava na parte superior da escadaria dupla, carregando consigo uma mala enorme. Quando finalmente alcançou o grupo reunido no centro da sala, colocou o objeto no chão e esfregou a testa.

—Pronto, Er, já está tudo pronto como você pediu.

—Bom trabalho. Nós devemos partir amanhã cedo.

—Dan, o que aconteceu? Que história é essa do Rec ser o mordomo chefe? – Perguntou Sayd, estarrecido, mas o rapaz de óculos apenas desviou o olhar.

—Digamos que ele andou fazendo coisas sem a minha permissão. – Respondeu Er. – Então como punição voltou a ser apenas um serviçal.

—Viu só, Dan? Eu disse que o crime não compensava! – Rec sorriu.

—Isso vai ter troco. O lorde não vai aturar você andando livre por muito tempo.

—Dan, não seja assim. Quantas vezes eu já lhe disse que a vingança nunca é plena? – Interveio Sayd.

—Mata a alma e envenena. Sim, eu sei disso, mas esperava que você fosse usar uma poesia mais elaborada. Se bem que não dá pra esperar muito de alguém que nunca venceu o Poetas e Poetisas.

O comandante pigarreou, então mudou de assunto.

—Enfim, a Er vai tirar férias? Nunca a vi sair do castelo...

—Parece que a Akane decidiu envolver o lorde em mais uma aposta. Ela o desafiou a enviar seu melhor guerreiro para enfrentar o campeão dela numa série de desafios e a Er decidiu que não quer perder essa treta. – Explicou Rec.

—Puxa vida, justo agora que eu precisava resolver alguns assuntos pessoais fora do castelo? – A expressão de Sayd tomou um aspecto de preocupação. – Mas não vou deixar o lorde na mão.

Nisto, mais uma pessoa entrou na sala, desta vez pela mesma porta por onde veio o comandante. Era Kamo, com suas costumeiras feições que irradiavam alegria.

—Já falei com o sensei, Er. – Então ela tomou nota dos outros presentes. – Ah, que bom que você está aqui, Sayd. Sabe a matadora de fuinhas que você recuperou? O lorde disse que agora você tem o direito de empunhá-la.

—É sério isso? – Ele sentia que poderia dar pulos de alegria capazes de alcançar o teto. – Agora sim é que ninguém me derrota!

—A propósito, alguém pode me dizer onde está o Zen? – Perguntou a menina que acabara de chegar.

—Zen? Eu pedi para o Abraão ajudar ele a conhecer melhor o castelo, mas a essa altura provavelmente já deve ter voltado para o quartel. Por quê?

—O sensei disse que eu poderia escolher quem vai participar da disputa contra o campeão da Akane, então eu decidi que será o Zen.

—Espera um pouco, isso é brincadeira, não é? – Toda a alegria do comandante desabou no mesmo instante.

—Parece que agora você terá tempo para resolver seus assuntos pessoais, Sayd. – Comentou Er, rindo. – Não se preocupe, você tem a minha permissão.

—O-Obrigado...

—Bem, então se já está tudo decidido, posso preparar a carruagem? Estou ansioso para conhecer o condado de Nadeko. – Disse Dan.

—É mesmo? Por que todo esse interesse? – Questionou Rec.

—É que se eu conhecer a duquesa mais de perto vou ter condições de avaliar se meu ship favorito realmente tem fundamento.

Diversos trovões retumbaram e relâmpagos iluminaram o céu noturno por breves momentos. Então tudo cessou, tão subitamente quanto havia começando. Apreensivo, Dan foi o primeiro a falar.

—O que foi isso?

—Acho que o lorde escutou você e não gostou nem um pouco, Dan. – Argumentou Er.

—Droga, não se pode nem mais fazer brincadeiras agora?

Er, Zen e Dan partiram cedo no dia seguinte. O ex-mordomo seguia sozinho na parte da frente, conduzindo os cavalos, enquanto os outros dois observavam, de dentro do veículo, a paisagem através das pequenas janelas quadradas nas laterais. Como de costume, o garoto de duas personalidades ainda usava seu manto de andarilho.

A viagem se desenrolou com tranquilidade, sendo que a única parada se sucedeu às duas horas, quando o trio alcançou a Birosca do No Rank, lugar famoso pela comida e pelas obras de arte à venda.

Somente às oito horas eles finalmente alcançaram as muralhas do castelo de Akane. A construção se estendia por uma área menor que a do castelo do dragão, mas se elevava a praticamente o dobro de altura. Postes com lampiões iluminavam o caminho que levava até o pátio principal. Er notou que Zen se mostrava cada vez mais inquieto.

—Está tão ansioso assim para enfrentar seu adversário? – Perguntou a dama, em tom de brincadeira.

—Isso foi um erro! Deveriam ter trazido o Sayd ou qualquer outra pessoa. Eu não vou dar conta disso.

—É mesmo? Foi a própria Kamo que indicou você, Zen. Eu não acho que ela faria isso se não acreditasse no seu potencial.

—Verdade?

—Com certeza! – Exclamou Er com um sorriso radiante, mas isto logo deu lugar a uma expressão sádica enquanto um chicote negro surgia do nada em suas mãos. – E se você não se esforçar vai descobrir porque Dan e Sayd temem tanto o meu chicote. É como dizem, se não for pelo amor, será pela dor.

—Aahhhn... – Zen engoliu em seco, tentando encontrar palavras para sua resposta. – Eu farei meu melhor.

—Ótimo, esse é o espírito. – Ela respondeu, voltando a sorrir enquanto dispensava magicamente o chicote.

Nisto, a carruagem parou e os cavalos relincharam de alívio. O som dos pés de Dan batendo no chão foi a certeza final de que haviam chegado ao destino. O ex-mordomo se apressou em abrir a porta do lado esquerdo, ajudando Er a descer. Zen, por sua vez, apenas pulou, fechando a porta atrás de si.

Enquanto o rapaz de terno retirava as bagagens da parte traseira, os passageiros contornaram a carruagem até a frente para enxergar melhor o esplendor do castelo. No centro do pátio havia um chafariz e, no topo deste, duas estátuas femininas. Uma representava uma feiticeira de capuz e manto, erguendo seu cajado, e a outra uma guerreira de elmo e armadura, com um rabo de cavalo elevado que saía da parte de trás do capacete. A segunda estátua também portava duas lâminas compridas e de formato incomum, uma delas baixada e a outra cruzando o cajado da primeira no alto.

Em seguida seus olhares desceram para encontrar o jovem que viera recepcioná-los. De pele morena, cabelos raspados e olhos castanhos, ele usava, por cima de vestes azuis claras, um conjunto de armadura de metal leve, composto por peitoral, braçadeiras, tornozeleiras e um cinto, sem qualquer tipo de protetor na cabeça. Sua expressão era firme e confiante, mas também cortês, ao que ele fez uma reverência para os recém-chegados.

—Sejam bem-vindos, espero que a viagem tenha sido tranquila.

—Foi sim, e é um prazer sermos recebidos aqui. – Respondeu Er.

—Vai ser um prazer ainda maior se você ajudar a carregar esses trambolhos. – Disse Dan, sofrendo para conseguir levar as três malas.

—Ah, não precisa se preocupar com isso, eu levo a minha. – Prontificou-se Zen, deixando o ex-mordomo com apenas duas. – A propósito, quem é você?

—Meu nome é Juca, sou o principal cavaleiro do ducado. E pelo visto você deve ser o meu adversário. É um prazer conhecê-lo.

—Zen, eu me chamo Zen.

—Excelente. Agora vamos subir, Akane já está à espera.

Os três adentraram pelo portão do castelo e então subiram vários lances de escada na elegante construção iluminada por lustres e candelabros. Dan se viu aliviado quando alguns serviçais surgiram para levar as malas aos quartos e, pouco depois, eles chegaram ao salão de jantar, no qual havia uma grande mesa de madeira repleta de iguarias. Dos vários assentos, apenas dois estavam ocupados, um por Luke e o outro por ninguém menos que a duquesa em pessoa.

—Boa noite, Akane, como vai? – Er a cumprimentou calorosamente.

—Muito bem, obrigada. E pelo que posso ver, além de ele não ter vindo, como a chatice que é, ainda por cima mandou dois manés para lutar. A menos que seja você a adversária do meu capacho, Er.

—Eu não sou capacho, caramba! Só estou fazendo isso porque fui demitido da fábrica de balas! – Protestou Juca.

—Na verdade quem vai lutar é o Zen. Foi a Kamo que escolheu, então acho que ele deve ter algum poder misterioso escondido. – Ponderou Dan.

Enquanto a conversa seguia, Luke arrancou um pernil e o lançou para o alto. Quando a carne caiu sobre sua superfície, o tapete se enrolou ao redor dela e, depois de voltar à posição normal, já não havia mais nada. Em seguida ele fez seu próprio comentário.

—A comida daqui é uma delícia, viu Akane? Ah, e se fosse eu, teria mandado o Sayd.

—Deem um desconto para o rapaz. Tenho certeza de que o Zen vai ser um adversário digno. – Disse Juca, encorajador.

Dito isto, o rapaz de manto agradeceu e todos se sentaram à mesa. Os convidados não puderem deixar de notar que a duquesa era, de fato, uma mulher deslumbrante, permeada por uma aura de nobreza. Ela tinha cabelos castanhos cortados na altura do ombro, olhos de tom amarelado parecido com mel, lábios vermelhos e um porte físico esbelto. Em termos de indumentária, ela poderia muito bem ser comparada a uma valquíria, cobrindo-se com um conjunto completo de armadura prateada flexível e resistente, enfeitada com detalhes em vermelho que ressaltavam um aspecto de ferocidade. Uma faixa de tecido vermelho descia a partir da peça da cintura, dividindo-se ao meio na frente para não restringir os movimentos. Por fim, embora não usasse nenhum adorno sobre a cabeça, ela tinha um alargador dourado na orelha esquerda.

—Descansem bem hoje. – Akane falou. – Começaremos as disputas amanhã cedo.

—S-Sim senhora! – Zen engoliu em seco novamente.