Castell
4 Sayd IV - Eu sou Nez
Longe do centro de Pacata, poucos eram os sons que alcançavam o viajante que levara as moedas de Sayd. Os últimos ruídos do festival morreram na distância até que passou a ouvir apenas o barulho de seu calçado sobre o chão pavimentado, e então algo mais. Algo que parecia mato sendo esmagado, e conforme se tornava mais claro, também era possível sentir um odor rústico. Curioso, ele entrou por uma rua adjacente, desviando-se do caminho que levava ao portão, e deu a volta ao redor de uma casa, para encontrar um pequeno estábulo atrás dela. Entre as duas construções, preso por uma tira de couro a um palanque de um metro e meio de altura, um cavalo pastava calmamente.
–Ora, ora, você está com fome, cavalinho? Depois de um rápido reconhecimento dos arredores, os olhos do rapaz encontraram um cesto cheio de cenouras apoiado sobre uma tábua presa à parede do estábulo. Imaginou que o dono do animal as usasse para alimentá-lo e caminhou lentamente até lá, recolhendo um legume. Em seguida, postou-se diante do equino.–Aqui, cavalinho, você quer a cenoura? O quadrúpede relinchou e ergueu a cabeça, sem se fazer de rogado. Contudo, antes que pudesse sequer tocar a língua no vegetal, o viajante puxou sua mão esquerda para trás e estendeu rapidamente a direita, onde havia algo parecido, mas muito mais avermelhado. Em sua inocência, o cavalo engoliu aquilo, começando a sofrer os efeitos quase que imediatamente. Erguendo-se nas patas traseiras, o animal grunhiu de sofrimento e começou a se debater com tanta violência que a tira de couro que o prendia arrebentou, tamanha era a força da pimenta que havia comido. Ele então disparou num galope que durou apenas um breve instante, interrompido ao se chocar contra a parede do estábulo. O cavalo caiu e permaneceu derrubado enquanto a risada de seu malfeitor se sobrepunha ao que seria, na sua ausência, um silêncio solene. Sayd corria em velocidade máxima pelas ruas desertas, seus olhos fixos na direção do portão de saída e seus pensamentos todos direcionados ao combate. Não haveria diplomacia quando encontrasse aquele ladrão, somente luta. E ele não era a única figura a atravessar o ar frio da noite e as construções silenciosas iluminadas apenas por lampiões presos em postes. Kamo seguia ao seu lado deslizando graciosamente sem que seus pés tocassem o solo.–Já estamos quase chegando, mas será que vai dar tempo? – Disse a garota que já havia enjoado de caminhar.–Tem que dar! Eu não posso deixar aquele bandido escapar com as minhas moedas de ouro!–Pensei que ele tinha roubado a loja de doces. Desde quando aquelas moedas eram suas? – Ela questionou com um toque sutilíssimo de desconfiança.–É jeito de falar, Kamo. Aquelas moedas estavam sob os meus cuidados, foi isso que eu quis dizer. Se sua meia-verdade havia convencido a amiga ou não, o soldado jamais saberia. Ao virar a última esquina, ele viu seu alvo deixando o quintal de uma casa e retornar à rua. Seus passos ruidosos rapidamente chamaram a atenção do viajante, mas se ele pretendia fugir, não demonstrou tal intenção.–Finalmente achei você, desgraçado!–Quem é você? Por acaso eu dormi com a sua namorada? Se for o caso a culpa não é minha de você ter nascido com essa cara de imbecil. Sayd controlou sua ira por tempo o suficiente enquanto sacava sua espada. Por maior que fosse seu desejo de ensinar uma lição àquele rufião, lhe desagradava ainda mais que o roubo o fato de ele não reconhecê-lo.–Eu vim recuperar as moedas que você tomou de mim!–Ah, você é aquele garçom inútil? Eu não reconheci você sem o avental ridículo. Se bem que agora você até parece um pouco com um homem. Aquela foi a gota d’água e o comandante das forças militares do dragão impulsionou-se adiante com um corte rápido e preciso. Seu adversário reagiu com a mesma velocidade, desembainhando sua espada katana e segurando-a na diagonal, com a ponta voltada para baixo, a fim de concretizar o bloqueio. Sayd já suspeitava e agora tinha sua certeza: estava lidando com alguém possivelmente tão habilidoso quanto ele no manejo de uma espada. Não seria uma luta fácil, mas tanto melhor, afinal que graça haveria em recuperar seu dinheiro sem se exercitar um pouco? Não fosse isso o bastante, a situação ganhou um novo contorno de seriedade no instante em que Kamo reconheceu a arma empunhada pelo viajante e exclamou seu nome.–Essa espada... é a lendária Matadora de Fuinhas!–É sério? Então quer dizer que ela estava nas mãos desse patife o tempo todo? – O rapaz de bigode agora definitivamente tinha toda a motivação do mundo para vencer aquela luta. Se fosse derrotado e falhasse na missão de recuperar a espada, Er jamais o perdoaria. Porém, tal reforço em sua determinação vinha com uma pequena dose de curiosidade. – Afinal de contas, quem diabos é você?–Tudo bem, já que insiste vou me apresentar, assim pelo menos você saberá o nome de quem o mandou para o inferno. Eu sou Nez, o maior espadachim que o mundo já viu!
–O mais modesto também, pelo visto. – Comentou Kamo.–Modéstia nunca foi uma das minhas maiores qualidades, mas eu tenho outras que você certamente vai gostar, garota.–Nada disso, a sua conversa é comigo, Nez! – Sayd voltou a atacar, mas outra vez sua tentativa foi bloqueada. – E quando tivermos terminado você vai precisar rever esse título de maior espadachim. A garota que flutuava observou com atenção e interesse o duelo que se desfraldava diante de seus olhos. A perícia de ambos os combatentes era inegável, evidenciada pela troca de golpes certeiros, mas incapazes de derramar sangue. A despeito disso, ela podia perceber claramente que a impaciência aumentava, tornando o ritmo dos movimentos mais feroz e impreciso. Assim a graça da luta se degenerava aos poucos, pois tanto Sayd quanto Nez se irritavam ao constatar que estavam praticamente equilibrados. Isso os tornava mais propensos a arriscar, a agir impetuosamente e realizar manobras que os colocavam em perigo, mas também que poderiam criar uma chance de desferir um corte decisivo. O clamor do metal se sobrepunha a tudo e os poucos ruídos que os alcançavam vindos do festival distante sequer eram captados pelos sentidos dos três ali presentes. E mesmo sob o frio da noite, os dois combatentes já estavam com os rostos ensopados de suor após cinco minutos de troca quase incessante de ataques. Então eles abriram uma pequena distância, ofegando e analisando um ao outro.–Hmpf, nunca pensei que um garçom pudesse lutar tão bem.–Aquilo era apenas um disfarce para ocultar meus planos secretos nesta cidade! Nisto, Kamo flutuou para perto de seu amigo e, falando baixo para que viajante não pudesse ouvir, fez uma pergunta.–Que história é essa de planos secretos? O que você está inventando sem que eu saiba?–Ssshh, é só uma história que inventei para enganar esse babaca. O que vai ser do meu orgulho se ele souber o verdadeiro motivo de eu estar trabalhando de garçom?–Pouco me importa o que você pretende ou não fazer aqui, mas é melhor que vá embora antes que eu fique realmente furioso. – Ameaçou Nez.–Ok, eu vou embora sim, mas com a condição de que você devolva minhas moedas e essa espada que não te pertence.–Agora vai dizer que é sua? Não estou vendo “garçom retardado” escrito nela.–É que essa espada também não pertence ao Sayd. – Explicou Kamo. – Mas se você olhar na parte de baixo do cabo dela vai notar que o nome do verdadeiro dono está escrito lá. Movido pela curiosidade, Nez automaticamente virou a lâmina para baixo a fim de ver o que estava escrito na base arredondada do cabo, lendo com dificuldade as letras entalhadas no metal devido à fraca luminosidade.–É, você tem razão. Mas dane-se, achado não é roubado! Essa espada agora é minha e se você encostar um dedo sequer nela eu corto suas mãos fora! O comandante das forças de segurança do castelo estava honestamente admirado com a audácia e confiança de seu oponente. Como era possível que ele ainda se mostrasse tão certo de que sua vitória era iminente, mesmo ambos tendo lutado em pé de igualdade até ali? Independente do motivo, a atitude de Nez apenas alimentava o desejo de vitória de Sayd. Aquela era uma luta para a qual ele jamais viraria as costas.–Alguém como você, que não demonstra respeito ou honra, não merece ter tanto poder. Eu juro que vou derrotá-lo, nem que seja a última coisa que eu faça!–Realmente não existem limites para a sua tolice, não é mesmo? Que seja, será um prazer retalhar você, garçom! Os dois se engajaram novamente no confronto, trocando golpes com ainda mais ferocidade do que antes. Nez sedento de sangue, Sayd sedento de justiça. Ou, pelo menos, da noção que tinha de justiça. O som das lâminas se chocando se tornava cada vez mais alto, como se pudesse envolver o mundo. Tal qual uma música incorporando a própria noção do suspense, cada nota era mais alta, até que finalmente a melodia metálica se encerrou com metade de uma espada girando no ar e sangue respingando no chão.–Sayd! – Gritou Kamo, consternada. O rapaz de bigode foi ao chão antes que sua lâmina partida fizesse o mesmo. Tinha um corte leve no braço, de onde escorriam filetes de sangue. Ainda estava inteiro, mas isto claramente não duraria por muito tempo. Triunfante, Nez se aproximava, preparando um golpe derradeiro.–Olha só para você! Não disse que ia me derrotar? Ou será que finalmente percebeu que eu sou invencível?–“Droga! Essa espada é poderosa demais! Como eu vou enfrentar alguém assim?” – Pensava Sayd, tentando desesperadamente encontrar uma saída. Uma solução. Mas a única coisa que veio de encontro à sua cabeça era a Matadora de Fuinhas.–Morra, garçom! Então, um relincho. O viajante deteve seu golpe ao ouvir aquele som e rapidamente assumiu uma instância defensiva, mas já era tarde demais. Atingindo pelas duas patas traseiras de um cavalo, ele foi arremessado de encontro a uma parede, deixando cair a espada que portava no meio da rua.–V-Você...? Cavalo... desgraçado... Nez lutava para se manter consciente e tentava se levantar, mas a dor intensa tornava tal tarefa difícil. Aí estava a oportunidade perfeita para Sayd, que rapidamente recolheu a Matadora de Fuinhas do chão e então fixou seu olhar no inimigo. Mas antes que seu corpo avançasse, a voz de Kamo o segurou.–Espere, Sayd! Eu sinto que esse homem possui uma grande força benigna. Nós não devemos matá-lo!–Então o que eu devo fazer?! – Protestou o comandante, virando o rosto para encarar a garota.–Atravesse o peito dele com a Matadora de Fuinhas!–Você não acabou de dizer que não deveríamos matar? A jovem angelical estendeu a mão e dela saiu um feixe luminoso como a aurora. A lâmina se impregnou com tal energia, emanando uma forte radiância como resultado.–Confie em mim, Sayd!–Bom, tanto faz! Isso é por me chamar... – O soldado correu e então saltou, apontando a lâmina da lendária arma para baixo. – ... de garçom retardado!! Perfurado certeiramente no coração, Nez soltou um grito horrendo que se estendeu por breves segundos enquanto uma aura negra explodia, abandonando seu corpo. Quando a espada foi retirada, a expressão no rosto do viajante estava totalmente alterada, agora num semblante de paz, como se dormisse tranquilamente.–Eu não sei o que você fez, Kamo, mas parece que deu certo. O garoto caído abriu os olhos devagar e esfregou o rosto. Sua aparência demonstrava cansaço, como se houvesse acabado de despertar de um longo sono. Certificada de que a maldade havia sido realmente exorcizada, a menina sorriu.–Não se preocupe, agora vai ficar tudo bem. Como é seu nome?–Eu... eu sou Zen... – Foi a resposta que ele deu enquanto se levantava com alguma dificuldade. – Por favor, me perdoem por tudo que eu fiz. Eu não consegui evitar...–Eu sei, mas agora você está livre daquela influência maligna. Inclusive, se quiser nos ajudar, certamente poderíamos usar a força de alguém como você a favor da justiça.–Ei, é sério isso, Kamo? – Interveio Sayd, desagradado. – Está certo que faltam soldados lá no castelo, mas será que dá para confiar mesmo nesse cara? Zen manteve-se calado, pensando na proposta. Diferente de Nez, ele possuía um coração generoso e sentia-se no dever de reparar os crimes que havia cometido. No fim das contas, sua resposta era evidente.–Eu prometo que vou me esforçar, então por favor, me dê uma chance!–Ah, já vi que não tem jeito! Mas chega de bagunça por hoje, agora só quero voltar para o hotel e dormir. – O soldado se deu por vencido.–Venha conosco, Zen! Amanhã vamos continuar nossa viagem e gostaríamos muito que viesse conosco.–Espere Kamo, eu só reservei dois quartos, e duvido que a essa hora ainda seja possível conseguir vagas! A cidade está lotada! Um silêncio constrangedor tomou conta do ambiente, cortado apenas pelo leve ruído que o cavalo fazia enquanto pastava. Era evidente que Zen não tinha lugar onde se hospedar, mas ele não queria causar mais problemas para seus dois novos amigos. No fim das contas foi Sayd, a contragosto, quem resolveu decidir a questão.–Ok, vocês dois vão e durmam no Hotel da Iguana Cangaceira. Eu dou um jeito, nem que tenha que acampar do lado de fora da cidade. Mas quero que devolva as minhas moedas.–Não precisa se dar a esse trabalho todo, eu é que deveria dormir ao relento. – Argumentou o viajante enquanto retirava a caixa de colheres de sua bola de viagem e entregava para o ‘legítimo dono’.–Não se preocupe com isso, eu já estou até acostumado.
Antes de ir embora, o rapaz de bigode acariciou o cavalo como um pequeno agradecimento por ter salvo a sua vida. Então, quando decidiu que finalmente estava na hora de procurar um lugar para passar a noite, ele ouviu o som de passos que se aproximavam rapidamente e logo reconheceu Nathalia vindo em sua direção.–Finalmente encontrei você, Sayd! Onde esteve esse tempo todo?–Desculpe Nathalia, eu confrontei o ladrão e consegui recuperar as moedas que ele tinha roubado. Claro, eu também tive um pouco de ajuda dos meus amigos aqui.–Olhe só para o seu braço! Você se feriu enquanto enfrentava o bandido? Eu falei que não deveria fazer isso!–Eu não podia deixar ele se safar numa boa.–Seu idiota! Já que é assim, então pelo menos aceite um gesto de agradecimento. Diante de Kamo e Zen, Nathalia deu um passo sem hesitação à frente e beijou o soldado num contato que se estendeu por um breve momento.–E com esse agradecimento tudo valeu ainda mais a pena. – No fim das contas, Sayd percebeu que seria melhor devolver mesmo as moedas para não se meter em mais encrencas naquela noite. – Agora vamos voltar para que eu possa entregar o dinheiro para o seu pai. Depois ainda tenho que procurar um lugar para dormir.–Não precisa se preocupar com isso! Tenho certeza que depois de ouvir o que você fez, meu pai deixará que passe esta noite na nossa casa!–Se não for incômodo eu aceito. – Antes de partir, o comandante das forças de segurança virou-se uma última vez para seus amigos. – Vamos partir amanhã às nove horas, pode ser? Nos encontramos no portão que fica aqui perto.–Então está combinado. Até amanhã, Sayd. – Concordou Kamo.–Desculpe pelo transtorno, meu amigo. – Falou Zen. No dia seguinte, Kamo e Zen chegaram pontualmente às nove horas, apreciando o ar fresco da manhã e observando as pessoas que iam e vinham. O tempo passou e os minutos se tornaram horas, até que finalmente, ao meio-dia, uma figura de armadura se aproximou correndo.–Que ideia é essa de nos deixar esperando três horas, Sayd? – Reclamou a garota angelical, frustrada.–Por favor me perdoe, Kamo, eu acabei dormindo demais. Sabe como é, ontem foi uma noite cheia de ação. Mas não vamos mais perder tempo, ainda falta um longo caminho até nosso destino! Com um grande sorriso no rosto, ele deu o primeiro passo adiante, seguido de perto por Zen, que não compreendia bem o que estava transcorrendo. A menina, que também seguiu com os dois, notou que parecia haver algo de diferente com seu amigo.–Sayd, aconteceu alguma coisa boa? Você parece bem mais contente que o normal.–Ah, nada não. É só que o pai da Nathalia deixou que eu ficasse com as moedas que recuperei. – O soldado soltou uma pequena risada que nem mesmo Kamo soube dizer se era nervosa ou sincera. Fosse como fosse, decidiu não insistir no assunto. Ela também estava bastante feliz, pois apesar da confusão, sua estadia em Pacata havia sido muito proveitosa.
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