Castell

5 Dan I - Encrenca em Dobro


A pesada porta da torre do relógio se abriu com um leve rangido e o homem de terno que passou por ela logo a fechou. Uma escada se elevava rente à parede de pedra, contornando seus cantos pela parte interior. Havia uma tocha acima de cada lance iluminando o caminho que conduzia a um dos lugares mais restritos do castelo. Após um suspiro de inquietação, o mordomo-chefe começou a subir, arrumando sua gravata e alinhando o terno. Seus olhos, por trás dos elegantes óculos de armação quadrada, estavam focados, combinando com a expressão de grande seriedade.

Depois de cinco lances, ele finalmente encontrou o final da escada e uma porta, esta com a gravura de uma placa apontando em direções opostas. Um sinal adequado para o local que chamavam de encruzilhada do destino. Dan seguiu adiante e viu diante de si o longo corredor de piso de madeira e paredes brancas de alvenaria. No meio havia duas portas de carvalho, uma com entalhes representando uma figura angelical, a outra algo um tanto mais diabólico.

Com passos curtos e certos ele avançou, tirando um momento para fitar a estátua ao final do corredor: um dragão esbelto e de pescoço alongado com a bota aberto, de onde saíam vapores roxos que cobriam a figura inteira como uma aura. O mordomo desejou que sua superior o permitisse usar os poderes daquela estátua, assim como ele já fazia com as demais espalhadas pelo castelo, mas sabia que isso era pedir pelo impossível.

Ao alcançar a passagem da esquerda, Dan entrou sem cerimônia no recinto que se encontrava do outro lado da porta e piscou rapidamente quando sua visão foi inundada pelo ambiente avermelhado. O suntuoso salão tinha os toques de uma imensa sala de estar e incontáveis almofadas de tecido carmesim espalhadas por todo o lado, assim como uma miríade de outros objetos. Estantes de livros, uma bola de cristal e pequenas pilastras com esqueletos presos a elas, segurando taças entre os dedos rubros. No canto oeste também havia uma lareira, mas o rapaz dirigiu seu olhar para o oposto, onde se encontrava piscina de formato irregular com líquido borbulhante.

–Bem, se ela não está tomando um banho quente, só pode estar em um lugar.

Caminhando reto até o outro lado do recinto, o mordomo se aproximou de uma escada em arco acima da qual havia uma magnífica porta com moldura intimidadora. Porém, a passagem que lhe interessava era a que ficava abaixo, com adornos mais simples. Atrás dela era onde se encontrava a dona dos aposentos infernais, a própria Er, com seus cabelos amarrados, sem óculos e vestindo um traje de dança. A nova sala tinha paredes espelhadas e barras de ferro, assim como um armário no final.

–Bom dia. – Disse Dan, secamente.

–Você está atrasado. Será que preciso pegar meu chicote?

–Não será necessário. Garanto que terei cumprido com todas as tarefas antes do final do dia.

–Pois bem. Eu o chamei aqui porque tenho uma missão especial para você hoje, preciso que fique de olho no Mizu. Ele tem agido de forma estranha ultimamente e desconfio que esteja pensando em fazer alguma de suas brincadeiras.

–Será que ele não consegue ficar nem uma semana inteira quieto? Demorei dois dias para tirar os restos de lã do salão principal da última vez que ele teve uma de suas ideias mirabolantes! Que tipo de idiota pensaria que uma rinha de ovelhas seria divertido?

–Realmente, uma rinha de ovelhas parece estranho. De cara eu já consigo pensar em pelo menos quatro outras criaturas que tornariam uma rinha bem mais interessante...

–Bem, vamos deixar esse assunto de lado, sim? Voltarei ao final do dia com meu relatório.

Dan saiu antes que Er falasse qualquer outra coisa, pois temia que pudesse ter lhe dado alguma ideia. A última coisa de que precisava era mais alguém criando confusão no castelo, coisa que podia acontecer a qualquer momento, considerando quem eram seus ocupantes. Ainda assim, Mizu certamente era merecedor do prêmio de maior encrenqueiro, mas, por se tratar do irmão do lorde, não podia simplesmente expulsá-lo.

–Ele que se atreva a me tirar do sério. Ninguém vai zoar o castelo enquanto eu for o mordomo-chefe.

Os passos familiares ecoaram pela prisão no subsolo do quartel general e, por baixo de seu capuz, Rec sorriu, mantendo-se sentado na posição mais confortável que conseguiu encontrar até que a figura de Dan se tornou visível do outro lado das grades rodeadas por padrões mágicos.

–Bom dia, mordomo. – Pronunciou-se, zombeteiro.

–Rec. – O rapaz de terno fingiu arrumar os óculos, franzindo a face numa expressão incomodada ao mesmo tempo em que corava de forma quase imperceptível. – Eu terminei o caça-palavras que você fez no seu longo tempo livre e devo dizer que estou profundamente decepcionado.

–É mesmo? Tem certeza que não gostou nem um pouquinho? – O prisioneiro não fazia questão de olhar diretamente para a pessoa com que falava, mas o tom de voz traía o sorriso ainda maior que se formou em seu rosto.

–É óbvio que não! Nunca vi uma coleção maior de palavras abjetas! Se bem que não deveria esperar muito vindo de você...

–Você diz isso, mas eu sei bem que sua mente é tão distorcida quanto a minha. Aliás, se duvidar você é ainda pior. Só posso imaginar as coisas sinistras que você apronta à noite, quando a Er não está vendo. Ou mesmo quando ela está.

Rec soltou uma breve gargalhada, mas se conteve ao notar que Dan tinha compostura o suficiente para não se deixar levar por provocações. Não apenas isso, ele próprio retrucou na mesma moeda.

–Pelo menos eu me divirto à noite, diferente de certas pessoas que acabaram presas na masmorra.

–Hmpf, touché. Mas não se engane, eu ainda me divirto muito, mesmo aqui.

–Sendo assim então aproveite que hoje eu trouxe algo que vai te deixar mais contente.

Dan tirou de dentro de seu paletó um charuto de dez centímetros e o lançou através da passagem entre duas grades. Assim como as revistas que trouxera na ocasião anterior, o objeto passou sem causar qualquer distúrbio na magia protetora. Rec, ainda fitando a parede de sua cela, estendeu o braço e capturou o cigarro em pleno ar. Com apenas um momento de manuseio, ele já sabia exatamente do que se tratava.

–Ora, um charuto do Ducado de Nadeko. Desta vez você caprichou mesmo, esses são os melhores do continente.

–Se está tão feliz então é melhor você se comportar, eu já tenho problemas demais para resolver.

–Tem fogo? – Pela primeira vez, Rec virou a cabeça e Dan pôde enxergar seu rosto sorridente. – Heh, é só brincadeira.

O prisioneiro criou uma chama escura na palma da mão esquerda e acendeu seu fumo para então dar uma longa tragada e deixar escapar a fumaça numa forma que irritou levemente o mordomo.

–Mas diga, o que está tirando o seu sono, meu amigo? Além das governantas do castelo, é claro.

–Mizu, é óbvio.

–Sério? Não sabia que você cortava do outro lado também. – O homem de capuz gargalhou antes de ser interrompido.

–Não é nada disso, imbecil! Ele pensa que é dono do castelo e pode fazer o que bem entender sem qualquer tipo de consequência. E o pior de tudo é que Er colocou como minha responsabilidade mantê-lo na linha.

–Só isso? Você sabe muito bem que alguém como eu conseguiria facilmente controlar o Mizu.

–Talvez, mas acho que você está se esquecendo da sua posição aqui, Rec.

O prisioneiro desfez o sorriso e se ergueu, dando passos lentos adiante até que ficou a apenas centímetros de distância de seu interlocutor, embora não ousasse tocar nas grades.

–Na verdade eu me pergunto é por ordem de quem estou aqui. Não pense que eu sou tolo, garoto. Vocês podem ter me prendido na cela rúnica projetada pelo próprio lorde, mas eu sei que ele jamais ordenaria que fizessem algo assim comigo. Alguém andou aprontando e eu vou me divertir bastante quando souber quem foi.

–O lorde é muito ocupado, tanto que quase não o vemos fora de seus aposentos. Ele precisa dedicar sua atenção a coisas mais importantes, portanto é natural que as pessoas que administram o castelo tomem as decisões que acharem necessárias para manter o lugar em segurança.

Rec riu, mas era uma risada falsa.

–Tudo bem, se é assim que você quer brincar, então boa sorte cuidando do Mizu sozinho.

–Não me subestime, eu sei me virar.

–Sei que sabe.

O prisioneiro voltou a fumar seu charuto, retornando à posição confortável de antes. Dan então fez menção de sair, mas a voz do homem encapuzado o deteve.

–Espere, antes que você vá, quero lhe dizer uma última coisa.

–E o que é?

–As revistas que você me trouxe já perderam a graça, trate de arrumar mais.

–Você está me achando com cara de quê?

–De mordomo, oras! Agora pare de fazer corpo mole e volte a trabalhar. Você não tinha que vigiar o irmão do lorde?

Dentre os lugares que os habitantes mais prezavam no castelo, a biblioteca indubitavelmente se destacava como um dos principais. Três andares de estantes gigantescas que se erguiam até o teto, todas repletas de livros com os mais variados tamanhos, assuntos e estados de conservação. Tão logo quanto abriu a porta que dava acesso ao recinto, Dan enxergou apenas a penumbra de um lugar sem qualquer iluminação, exceto a que vinha de fora, mas bastou colocar os pés para dentro e fechar a porta que uma luz azulada surgiu acima de sua cabeça, permitindo que enxergasse com facilidade tudo ao redor num raio de quatro metros.

Ele perambulou silencioso pelo labirinto de estantes até encontrar a escada de acesso ao segundo andar e, uma vez lá, continuou sua busca. Depois disso não demorou muito para que encontrasse outro foco de claridade. Abaixo de um fantasma pequenino e encapuzado que segurava um lampião azul, exatamente igual ao que pairava sobre a cabeça do mordomo, estava o homem que ele procurava.

O bibliotecário lia um livro de capa verde intitulado “Estudos Biológicos Sobre Monstros do Pântano”, sentado diante de uma mesa quadrada rodeada de cadeiras estofadas. Era alto e pálido, talvez por passar tanto tempo sob a luminescência fantasmagórica, e vestia um jaleco branco sobre uma camisa social de mesma cor e uma calça preta. Seus cabelos pretos eram curtíssimos nas laterais, com a parte central, mais robusta, penteada para trás e para a esquerda.

–Abrãao.

–Dan. – Respondeu o homem, sem tirar os olhos do livro.

–Encontrou o livro que pedi?

–É evidente que sim. – O bibliotecário finalmente deixou sua leitura de lado, repousando-a sobre a mesa, para então se levantar, aproximando-se do mordomo. – Você se esquece de que é comigo que está lidando. Inclusive, eu já o havia localizado ontem à noite mesmo e pedi para um lacaio deixar no seu quarto. Provavelmente teria visto se não insistisse tanto em dormir em camas que não são suas.

–Será possível que todo mundo resolveu implicar comigo por causa disso hoje?

–Andou visitando o Rec de novo, foi? Não sei se Er aprovaria esse contato tão próximo.

–Como você sabe disso?

–Eu já lhe disse, Dan, você se esquece de que é comigo que está lidando.

–Muito bem, espertalhão. Mas não pense que é o único indivíduo talentoso por aqui, afinal de contas eu também tenho algo que você precisa.

–Realmente, a sua habilidade de conseguir objetos incomuns e perigosos é inigualável.

Satisfeito com o elogio, ou pelo menos o que ele considerou que fosse um, o mordomo-chefe retirou de dentro de seu terno um frasco fechado e o entregou para Geu.

–Bem, com isso poderei retomar minha experiência científica.

–Acho que ciência é um nome bonito demais para explodir e derreter coisas.

–Não há nada com que se preocupar, Dan. Depois que o último dragão quase destruiu meu laboratório inteiro, eu decidi parar de fazer alterações genéticas nos embriões.

–Fico feliz em saber, mas para que você precisa desse frasco de pimenta?

–Omeletes. Afinal de contas, eu tenho que dar um jeito em todos aqueles ovos que você me arranjou.

–Se é assim então ofereça para o Mizu quando terminar, tenho certeza de que ele vai adorar. Agora se me dá licença.

–Antes de ir embora, satisfaça minha curiosidade. O que você pretende fazer lendo um livro sobre como criar plantas carnívoras gigantes?

–E precisa perguntar? Pensei que você já soubesse.

Sem dizer mais nada, Dan seguiu em direção às escadas, retornando ao andar inferior enquanto seu fantasma continuava a flutuar sem fazer qualquer tipo de ruído. Ainda tinha muito que fazer e uma preocupação em particular o deixava bastante inquieto.

–“Até agora nem sinal do Mizu e eu não faço ideia de onde ele possa estar. Estou com um mau pressentimento a respeito disso...”

Quase sempre trancado nos recônditos mais elevados da torre do relógio, o dragão era uma figura conhecida por poucos integrantes do castelo. Aqueles que já o viram falam de uma figura de altivez ímpar. Mas há quem diga que não é tão ímpar assim.

Se por um lado o rosto do lorde é largamente desconhecido, pelo outro não existe uma única pessoa no castelo que não reconheça o de seu irmão mais novo, Mizu. De pele bronzeada e olhar castanho beirando o âmbar, era indubitavelmente a pessoa mais alta daqueles domínios, alcançando a marca dos dois metros de alturas. Sempre com seus cabelos curtos impecavelmente arrumados, tratava-se de um homem cuja imponência não tinha comparação. Seu traje favorito era um sobretudo sem mangas, de cor azul marinha com botões ao longo do peito, dividindo-se ao meio na parte frontal logo abaixo da cintura. Isto revelava a gola dobrada e as mangas de sua camisa de tom safira e também suas calças de tecido branco. Completando a figura, sapatos escuros e polidos.

Sua infâmia o precedia. Embora fosse dono de uma beleza incomum, aumentada ainda mais pelo sorriso reluzente, quem o conhecia de verdade agia com cuidado. Pouco confiável e com uma sede enorme por poder, Mizu se via facilmente entediado e constantemente buscava novas formas de se distrair quando não estava planejando ações ainda mais escusas.

Naquele dia ele estava justamente iniciando mais uma de suas ideias duvidosas, decidindo por adentrar o quartel e descer em direção às celas. A pequena quantidade de soldados sequer poderia ser considerada um facilitador, mesmo sob vigilância cerrada ele tinha convicção de que conseguiria atingir seu alvo sem ser detectado. E certo estava, pois Rec somente notou a presença de alguém diante de sua cela quando o homem de azul resolveu bater de leve nas grades.

–Está dormindo, Rec?

–Mas se não é meu velho amigo Mizu. Faz tempo que não vem me visitar, a que devo a honra?

–Ao tédio, é claro. Pelo menos você sempre foi uma pessoa que sabia se divertir, é uma pena que tenha terminado aí.

–Não conte muita vantagem. Pelo que tenho ouvido é bem capaz que um dia desses você se torne meu vizinho, sabia?

–Como se alguém fosse capaz de me prender. Mas vamos direto ao ponto, sim? Não passei aqui só para perguntar como você tem passado.

O prisioneiro levantou. Mais do que nas vezes em que tinha a companhia de Dan, aquele encontro em particular despertava e muito o seu interesse. Sabia muito bem que Mizu tinha algum plano malicioso em mente e desejava conhecer cada detalhe.

–O que você me diz de uma partida de pôquer, meu amigo? Ouvi dizer que você era o melhor jogador da sua terra natal. – Disse o irmão do lorde, com um enorme sorriso.

–Não só era como com certeza ainda sou. Mas não vejo como vamos fazer isso comigo trancado aqui. Ou será que por acaso você sabe como desfazer o encantamento rúnico dessa cela?

–Infelizmente para você essa prisão foi projetada de forma tão minuciosa que nem eu saberia como desfazer a barreira mágica. – Mizu estava claramente desapontado ao dizer isso, admitir suas limitações era algo que muito o desagradava. Contudo, ele rapidamente tomou um tom provocativo em seguida. – Bom, mesmo que eu soubesse não pretendo tirá-lo daí. Nada pessoal, mas até eu posso me meter em encrencas libertando o prisioneiro número 1 do castelo.

–Bom saber que até você respeita meus talentos, mas isso nos devolve ao problema. Como quer jogador pôquer comigo sendo que eu nem sequer consigo encostar nas grades?

–Tenho certeza de que você lembra bem que sou um feiticeiro bastante poderoso, assim como você. Se juntarmos nossos poderes podemos criar uma dimensão alternativa temporária para nos divertirmos por algumas horas.

–Nunca pensei que alguém teria uma ideia maluca dessas, mas admito que é bem a sua cara, Mizu. Tudo bem, eu aceito, vamos sincronizar nossas magias.

Os dois fecharam os olhos e estenderam os braços para os lados. O corpo do homem de maior estatura foi envolvido por uma corrente de água que formava uma espiral esférica. Já o do prisioneiro foi engolido por uma névoa negra que se expandia rapidamente. Em poucos segundos, ambos haviam desaparecido para então se reencontrar no vácuo.

Lá, onde havia apenas uma escuridão profunda em qualquer direção que se olhasse, sequer era possível enxergar o solo. A única coisa que podia ser distinguida, além dos dois jogadores, era uma mesa redonda com duas cadeiras e, sobre ela, um baralho e uma miríade de fichas multicoloridas.

–Estranho, eu estava pensando num lugar um pouco mais animado para o nosso jogo. –Surpreendeu-se Mizu.

–Acredite, se é emoção que você quer então vai ter o melhor jogo de pôquer de sua vida.

O irmão do lorde franziu a sobrancelha.

–O que você está aprontando?

–Este será um jogo das trevas. – Revelou Rec, com um riso maquiavélico. – Aquele de nós dois que vencer ficará livre, enquanto o perdedor retornará ao nosso mundo preso dentro da cela.