Castell
3 Sayd III - Diplomacia
No fim das contas, Sayd conseguiu convencer o dono da loja de doces a fazer outro mousse de manga para Kamo. Tinha de admitir, certamente isso não teria acontecido se não fosse por Nathalia, mas ainda assim o guerreiro tivera que prometer se esforçar ao máximo. E logo descobriu que aquele tipo de trabalho não era nada fácil, pois a quantidade de pessoas aumentava exponencialmente a cada hora que se passava, até o ponto em que ele não conseguia sequer um segundo de descanso.
A garota celestial, por outro lado, resolveu aproveitar o festival para se divertir, já que diferente de seu colega de viagem, não tinha nenhum compromisso. Tudo aquilo a encantava, pois depois de tanto tempo no castelo e em conferências, onde todos estão sempre sérios e atarefados, era uma mudança maravilhosa estar em meio a pessoas festejando com alegria num local cheio de música e artistas. Embora não tivesse dinheiro para comprar nada, ela já se alegrava em poder observar o povo e todos os objetos curiosos postos à venda. Esculturas, joias, vasos e muitas outras coisas. Inclusive, sua presença singular também chamava a atenção, tanto que ela recebeu uma proposta para posar para uma pintura, o que prontamente aceitou. Foi um tanto desconfortável manter-se sentada e imóvel por praticamente uma hora, mas o resultado final compensou o esforço. Tamanho era o prazer de Kamo em estar lá que resolveu tornar a noite ainda mais bela com uma pequena demonstração de seus poderes. Criando um agrupamento de feixes brilhantes em sua mão direita, ela então os lançou ao alto e aquilo se dividiu em diminutas estrelas que continuaram a subir em direções diferentes, até que finalmente explodiram, iluminando os céus de Pacata com um show de luzes coloridas. Quando finalmente tomou um momento para recuperar o fôlego, um pensamento um pouco menos feliz cruzou a mente da garota. Lembrou-se do lorde do castelo, sempre enfurnado em seu escritório revirando tomos e escrevendo, sempre ocupado. Talvez devesse insistir para que ele aproveitasse um momento de diversão como aquele, mas isso teria de esperar, pelo menos até que terminasse sua missão no Condado da Lontra e pudesse retornar. Sayd, infelizmente, não tinha muito tempo para se divertir com o trabalho incessante e, se não fosse o bastante, colocava um plano audacioso em ação. Em nenhum momento o dono da loja de doces havia mencionado algum tipo de pagamento em dinheiro e o guerreiro desconfiava que sairia de lá sem um tostão sequer.—“Isso é péssimo. Tudo nessa droga de condado é caro e eu já gastei todo o ouro que a Er me deu. Do jeito que as coisas vão não me resta outra escolha.” Talvez seu plano não fosse o mais honesto, mas ele tinha certeza de que merecia receber ao menos algum tipo de compensação pelos seus esforços. Sendo assim, nada mais justo que separasse um pouco – apenas um pouco, para não levantar suspeitas – dos valores que recebesse dos clientes para si mesmo. Porém, segurar uma grande quantidade de dinheiro consigo poderia ser suspeito, ainda mais depois de ter revelado que havia gasto tudo que tinha. Sayd olhou ao redor, pensando por um momento. Ele e Nathalia tinham sido responsabilizados pelo atendimento, enquanto o pai desta preparava as sobremesas. Então lhe ocorreu que havia recebido um conjunto de caixas de colheres e que a garota tinha o seu próprio. A primeira caixa já estava vazia e ninguém mais mexeria nela, era o lugar perfeito para armazenar sua ‘comissão’.—“Sim, é isso mesmo que vou fazer. Não sou um ladrão, estou trabalhando honestamente e me esforçando de verdade para ajudar aqui. Seria injusto eu ir embora sem receber nada!” Por cerca de uma hora e meia, Sayd encheu a caixa com algumas moedas, uma quantidade suficiente para garantir que ao menos ele e Kamo tivessem condições de chegar à capital sem sofrimento. Porém, mesmo com a aproximação da meia-noite, o movimento não dava sinais de diminuir. Pelo menos, ele pensou com um toque de alívio, não estava mais aumentando. Em torno deste horário, enquanto anotava vários pedidos, ele se deparou com uma figura que contrastava com o estilo comum dos demais clientes. Era um rapaz, mais jovem que ele próprio, de pele clara, olhos avermelhados e cabelos negros ondulados de um tamanho entre curto e médio. Vestia um protetor de couro sem mangas por cima da camisa branca e uma calça marrom, assim como um manto cinzento, mas mantinha o capuz abaixado. Presa ao seu cinto estava a bainha de uma katana, o que era suficiente para dissipar quaisquer dúvidas que restassem sobre seu estilo de vida. Sayd tinha certeza de que se tratava de um aventureiro viajante, mas ainda não sabia dizer exatamente de que tipo.—Ei você, serviçal, pare de vagabundear e venha logo me servir! Já estou esperando há cinco minutos! – Disse o grosseiro indivíduo.—Desculpe a demora, senhor. – Se não estivesse trabalhando como garçom, o guerreiro certamente não aceitaria aquilo, mas as circunstâncias o forçavam a usar tanta paciência quanto conseguia reunir. – Diga seu pedido que vou garantir que ele seja entregue rapidamente.—Pena que vocês só vendem porcaria aqui. Mas tudo bem, se me trouxer uma banana split com sorvete de chocolate eu finjo que esse lugar não é de quinta categoria.
Sayd estava surpreso, e de uma forma muito negativa. Naturalmente nem todos os clientes que atendera eram necessariamente gentis, mas era a primeira vez que alguém o tratava daquela forma tão ofensiva. Ainda assim, numa admirável demonstração de autocontrole, ele ignorou tudo aquilo e respondeu com uma única palavra.—Imediatamente. Tão logo quanto retornou para trás do balcão e passou ao dono da loja os pedidos, ele soltou um longo suspiro. O fez tão alto que chamou a atenção até mesmo de Nathalia, que também se via bastante atarefada. Ainda assim, ela se aproximou, a preocupação claramente visível em suas feições.—O que houve, Sayd? Algum problema?—Nada de mais, só atendi um babaca mal-educado. Além de não ter paciência, xingou a loja.—Não fique assim, de vez em quando aparecerem alguns imbecis de nariz empinado, mas nós temos que mostrar que somos melhores do que isso. Você está fazendo um bom trabalho. O sorriso da garota melhorou um pouco seu humor e ele então recolheu as sobremesas que já estavam prontas para levar às mesas. Cumprindo o que prometera, rapidamente entregou a banana split para o viajante, mas não perdeu nenhum tempo lá, seguindo imediatamente para o próximo cliente, tanto porque não aguentaria ouvir mais reclamações como porque tinha muitos pedidos para atender. Contudo, sem que houvesse notado, Sayd tinha entregado o doce sem uma colher. Obviamente enfurecido, o aventureiro pensou em reclamar, mas vendo que o garçom já havia virado as costas em claro sinal de que não queria lhe dar atenção, ele optou por resolver o problema pessoalmente.—Aquele inútil, paspalho infeliz. Deve ser o pior garçom que já pisou nesse lixo de cidade. Mas que se dane, eu mesmo vou pegar uma colher se é esse o problema. Ninguém deu bola quando ele se levantou e foi até o balcão, nem mesmo Nathalia, pois ela também estava muitíssimo ocupada. Ao chegar lá, o jovem viu as caixas de colheres que Sayd estava usando e concluiu que, já que ele não havia lhe entregado nenhuma, seria completamente justo que ele tomasse uma caixa inteira. Ou talvez não fosse tão justo assim, mas ele não se importava de qualquer forma. Contudo, quando retornou à mesa e a abriu, o viajante percebeu que algo muito diferente do esperado estava no interior. Moedas, e pelo menos umas oitenta, pela conta que fez rapidamente de cabeça. Tanto melhor, teria de pagar apenas cinco pelo doce que pediu. Desta forma ele engoliu banana, calda e sorvete num instante e então voltou ao balcão, entregando cinco moedas para Nathalia. Alguns momentos depois, Sayd reparou que o homem grosseiro já havia ido embora. Ele foi até a mesa agora vaga para recolher a louça e lavar, reparando que um bilhete havia sido deixado em cima. Nele estava escrito: “Muito obrigado pela caixa de colheres, otário.” Empalidecendo, ele correu para seu posto de trabalho e depois de revirar tudo por lá, deu-se conta de que realmente a caixa em que estava guardando sua ‘comissão’ tinha sumido. Isso era inaceitável.—“Uma coisa é agir como se fosse melhor que todo mundo, mas eu não admito que roube o dinheiro que eu já tinha rouba- quer dizer, o dinheiro do pagamento pelo meu trabalho árduo e esforçado!” No fundo não queria deixar Nathalia sozinha com todos aqueles clientes, mas se não agisse naquele momento, seria tarde demais. Ele tomou sua decisão e chamou a garota.—Escute, Nathalia, surgiu um grande problema. Um dos clientes roubou o dinheiro que eu tinha em caixa enquanto eu estava distraído, mas sei quem foi. Preciso ir atrás dele e recuperar as moedas.—Isso é terrível! Mas não quero que você se machuque tentando recuperar o nosso dinheiro.—Não se preocupe, pode não parecer, mas eu sou um guerreiro muito habilidoso. E tendo dito isso ele correu em direção à rua, determinado a encontrar o viajante mal-educado a qualquer custo, nem que tivesse de revirar o festival inteiro para isso. E quando finalmente o encontrasse, iria ensinar não uma, mas duas lições para ele.—“Pena que a Er não me deixou trazer o Luke junto. Ele com certeza seria útil numa situação como essa.” Depois de trinta minutos de busca e interrogatório, a situação não parecia nada promissora. De fato, Sayd começava a temer que não conseguiria encontrar seu alvo. Via-se incrédulo quanto ao fato de que ninguém sabia lhe indicar a direção para onde fora alguém vestido de forma tão peculiar. De tão absorto que estava nos seus pensamentos, somente quando foi cutucado no braço conseguiu voltar à realidade.—Você está acordado?—K-Kamo? Diante de si estava sua companheira de viagem. Depois de esclarecer a situação, ele finalmente conseguiu um fragmento de esperança. A garota prestou atenção em praticamente todas as pessoas que estavam por lá, incluindo o cliente grosseiro, e então levou seu amigo ao local onde o vira pela última vez.—Lembro que uma pessoa que bate com essa descrição falou com aquela mulher ali na barraquinha de informações turísticas. Talvez ela possa lhe dizer alguma coisa.—Ok, aguarde aqui um momento, Kamo, eu vou falar com ela. A atendente, que estava ocupada revirando alguns papéis, deixou-os de lado ao ver a aproximação do que considerou ser um cliente em potencial. Sayd foi o primeiro a falar.—Boa noite, eu preciso de ajuda.—Perfeitamente, senhor. Cobro uma moeda de ouro por uma informação específica, cinco por um panorama resumido e quinze pelo pacote completo.—Não, não vim pedir nada a respeito de turismo. Só quero perguntar uma coisa sobre uma pessoa que passou por aqui.—Bem, meu trabalho é comercializar informação. Pague ao menos uma moeda de ouro e responderei considerando como se fosse uma informação específica.—Você não entende, eu...! A mulher permaneceu impassível, claramente descontente com a confusão que se desenrolava. Dando-se por vencido, o guerreiro se afastou, retornando para perto de Kamo.—Não conseguiu o que queria?—Essa mulher quer me cobrar uma moeda de ouro só para me dizer para que lado o infeliz foi! Pode uma coisa dessas?—Mas uma moeda só não parece ser tanto. Por que você não paga?—Eu não tenho nenhum dinheiro comigo, lembra?—Ah sim... A severidade da situação pesou sobre os ombros de Sayd e ele baixou a cabeça, remoendo o fato de que, no fim das contas, não conseguiria dinheiro algum. Não! Não podia se dar por vencido assim, ainda havia uma última alternativa a que podia recorrer.—Kamo, espere aqui mais um momento, eu tive um plano. Já sei como farei aquela mulher falar.—O que você tem em mente? – Perguntou a jovem, curiosa.—Eu vou seduzi-la usando a minha melhor cantada! – Afirmou o soldado, suando frio e tentando se convencer de que era tão capaz quanto queria fazer parecer.—Ah, é mesmo? Então diga algo como “Seus olhos são muito lindos, ainda mais com esse brilho especial. Eu gostaria que eles estivessem brilhando por minha causa, será que me permite?”—Sem chance, nunca que eu vou dizer algo tão brega. Ela vai me expulsar na hora.—Como assim, ‘brega’? Você sabe que eu poderia forçar você a agir conforme eu desejasse, certo?—Com todo o respeito, Kamo, mas você é a especialista em diplomacia entre países. Confie em mim que da ‘diplomacia’ que vou usar agora eu entendo.—Quero só ver. De cabeça erguida e tentando disfarçar o nervosismo, o rapaz voltou até a banca de informações e engoliu em seco ao ver que o olhar da mulher traduzia o quanto ela estava incomodada de ter de vê-lo novamente. Mas já tinha ido longe demais para desistir!—Sabe, eu acho que nós começamos com o pé esquerdo. Na verdade eu poderia brincar de qualquer coisa com você, menos de esconder. Porque está na cara que é impossível achar outra pessoa como você.—Que diabos você quer dizer com isso? – A expressão dela se tornou ainda mais desconfiada, ao ponto de quase transbordar irritação.—Acho que não deu muito certo. Quer dizer, eu realmente disse isso seriamente, mas o fato é que o meu amigo-—Escute, babaca. Se você não sair daqui agora mesmo e parar de me importunar eu terei que chamar a guarda.—Desculpe, moça, é que os olhos são lindos, ainda mais com esse brilho especial, que eu acabei de distraindo. – Disse Sayd numa última tentativa desesperada, ao que a mulher adotou uma expressão bem menos negativa.—Ah, é mesmo?—É, eu inclusive gostaria muito que um dia olhos assim brilhassem para mim. Infelizmente eu sou apenas um viajante, não tenho muito para oferecer. E ainda por cima me desencontrei com meu amigo, que estava carregando nosso dinheiro. Eu juro que se tivesse aqueles moedas comigo pagaria generosamente pelos seus serviços.
A partir de tal ponto, a conversa seguiu um rumo muito mais tranquilo. No fim das contas, a dona do balcão de informações aceitou revelar sobre o que havia conversado com o suposto amigo de Sayd, embora tivesse dito a ele que deveria escolher melhor as amizades, pois se tratava de alguém muito grosseiro. Agradecido, ele seguiu as indicações, correndo em direção à saída da cidade oposta àquele pela qual tinha entrado mais cedo naquele dia.—“Por causa do festival os portões não foram fechados. O desgraçado está tentando fugir, mas eu não vou permitir!”
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