Castell

2 Sayd II - Mousse de Manga


Aquele lugar era sempre frio e seco, do tipo em que ninguém gostava de ficar por muito tempo. A prisão no subsolo do quartel militar do castelo tinha ásperas paredes de rocha que separavam as poucas celas umas das outras, todas lacradas por grossas barras de ferro. Por mais deprimente que fosse, também era o lar de um homem, trancafiado atrás de grades diferentes de todas as demais: ao redor de cada uma delas girava sem cessar uma espiral do que parecia ser uma fumaça cinza, dentro da qual ascendiam sempre em movimento circular sequências aparentemente intermináveis de runas roxas.

O ocupante da cela, sentado num dos cantos, cobria o corpo com um enorme manto cinzento e surrado. Seu rosto permanecia oculto graças ao capuz e também à penumbra que permeava o ambiente. As poucas luzes do local vinham de dois lampiões presos ao teto no corredor que separava as fileiras de claustros.

O indiferente indivíduo ouviu passos ecoando pela escada que dava acesso ao andar mais profundo da masmorra, permanecendo completamente imóvel enquanto o som se tornava mais nítido. Por fim, ouviu o resmungo de alguém sentindo a temperatura gelada e fez uma aposta mental consigo mesmo quanto à identidade do visitante.

—Bom dia, Rec. Se bem que para você não deve fazer diferença se falar dia ou noite.

O prisioneiro havia adivinhado corretamente e virou de leve o pescoço para ver a figura de um jovem, recém-saído da adolescência, se posicionando diante sua cela. Era um rapaz elegante que vestia um terno negro e uma gravata da mesma cor, assim como sapatos reluzentes que combinavam com o restante da indumentária. De certa forma parecia ter alguma obsessão com a cor preta, que também estava presente em seus olhos, seu esboço de cavanhaque e seus cabelos, estes últimos curtíssimos, embora um pouco – apenas um pouco – mais volumosos na parte superior. Completando seus acessórios, ele usava óculos de armação quadrada, como os de Er, e luvas, naturalmente ambos de tons escuros.

—Do que está falando, Dan? Agora são exatamente oito horas e vinte e oito minutos, ou estou errado?

O homem do lado de fora da cela, que até então mantivera uma expressão de claro desdém no rosto, abrandou-se e esboçou um pequeno sorriso. Tratava-se de ninguém menos do que o mordomo-chefe, e aquela não era sua primeira visita ao prisioneiro. Ele então ergueu a mão direita, na qual segurava um maço de livretos, para em seguida arremessá-los através do vão entre duas grades.

—Aí estão suas revistas da semana.

Elas passaram sem perturbar as runas que dançavam em espiral e caíram no chão fazendo um barulho leve, logo diante dos pés de Rec. Este direcionou seu olhar para as capas e então as recolheu, mantendo seu sorriso de satisfação oculto pelo capuz e pelas sombras.

—Ah, minhas favoritas.

—De nada. Eu mesmo tive que ir até a cidade mais próxima para comprá-las! Por que você não pode simplesmente fazer palavras cruzadas?

—Se eu fizesse isso, meu caro Dan, que graça teria? Pensar pela lógica dos outros é uma tremenda chatice, eu prefiro ter minhas próprias ideias.

—E você tira inspiração disso aí? – Retorquiu o mordomo.

—Algum problema?

—Não, nenhum. E eu tenho mais o que fazer do que ficar aqui discutindo com você.

Dan virou as costas e se preparou para sair, mas congelou imediatamente ao ouvir o que Rec disse a seguir.

—Melhor não deixar Er descobrir o que você está aprontando.

O jovem permaneceu parado por um momento, mas nada respondeu e, finalmente, se afastou, o som de seus passos cada vez mais distantes morrendo devagar.

O nome da cidade era Pacata, a mais próxima dos domínios do dragão dentre aquelas pertencentes ao Condado da Lontra e um centro comercial de proporções consideráveis. Suas ruas bem pavimentadas e limpas estavam imersas no movimento e no burburinho mesmo às cinco horas da tarde. Sayd e Kamo estavam, neste momento, diante de um dos portões que permitiam a entrada: um majestoso arco de pedra com grades de pontas afiadas. Durante as horas do dia elas permaneciam erguidas por um mecanismo, permitindo que moradores e visitantes passassem sem dificuldade, mesmo aqueles com grandes veículos.

A intenção da dupla era passar a noite lá e seguir viagem em direção à capital cedo pela manhã. A garota estava animada, ainda mais do que de costume, observando as pessoas que iam e vinham. O alto comandante, contudo, tinha uma preocupação em sua mente, pois havia percebido que os guardas postados na parte interna do arco observavam com atenção.

—Kamo, acabou de me ocorrer uma coisa.

—Sim, Sayd?

—Sabe, eu acho que as pessoas comuns não estão acostumadas com gente que se locomove flutuando pelo ar.

—É realmente uma pena, você não acha? Eu ficaria muito triste se tivesse que caminhar o tempo todo para ir onde quero.

O sorriso inocente da responsável pelos assuntos diplomáticos desarmou Sayd, que não conseguiu concluir seu argumento. Contudo, sua companheira de viagem era perceptiva e não pretendia deixar aquela conversa acabar sem saber o que o guerreiro realmente queria.

—Mas você com certeza não fez essa observação por nada, certo? Onde quer chegar?

Seria melhor ter ficado quieto, foram os pensamentos que passaram pela mente do alto comandante, mas já era tarde demais. Sem escolha, ele abriu o jogo.

—Eu acho que chamaremos atenção demais se atravessarmos a cidade com você flutuando desse jeito. Mas não tem problema, tenho certeza que isso não vai atrapalhar em nada!

As feições da jovem angelical imediatamente tomaram contornos de seriedade e Sayd já lamentava o fato de tê-la aborrecido. Contudo, não era esta a verdade. Longe de estar chateada, Kamo compreendia a preocupação de seu amigo.

—Você tem razão, será melhor se passarmos despercebidos. – Lentamente, ela desceu até seus pés tocarem o chão. Suas pernas tremeram, mas ela rapidamente recuperou o equilíbrio. – É que já faz uns vinte e cinco anos que não caminho. Mas acho que consigo me acostumar de novo.

O soldado ficou total e completamente estupefato com a revelação. Jamais poderia imaginar que alguém que aparentava ter uma idade próxima dos dezoito anos pudesse ter caminhado pela última vez há tanto tempo. Parte de si desejava sanar a curiosidade e perguntar, afinal de contas, qual a verdadeira idade de Kamo, mas temia que ela não fosse tão compreensiva se assim o fizesse.

—Não se preocupe, pode apoiar uma mão no meu ombro se-

Quando finalmente se recuperou do choque e se decidiu oferecer sua ajuda, percebeu que seria desnecessário. A menina já estava correndo, sumindo no meio da multidão enquanto soltava risadas de animação.

—Mas que...?

Durante as duas horas que se seguiram, Sayd alcançou o centro de Pacata e visitou todos os locais de maior importância na esperança de reencontrar Kamo, mas sem qualquer sucesso. Ele também não havia se esquecido da missão secundária e definitivamente não desejava incorrer na ira de Er, logo aproveitou suas andanças para questionar outras pessoas a respeito do destino da Matadora de Fuinhas.

Infelizmente aquele estava mostrando não ser o dia de sorte do alto comandante, pois não importava quem interrogasse, fosse camponês, soldado, vendedor ou viajante, por mais que estivessem cientes do conflito recente, ninguém tinha qualquer informação relevante sobre uma espada perdida na última batalha.

Não bastasse isso, todas as estalagens por onde ele havia passado cobravam altos valores pela hospedagem. É evidente que existiam exceções, lugares suspeitos ou de qualidade duvidosa em que ele certamente não se importaria de dormir, mas que estavam muito abaixo dos padrões de uma diplomata. No fim das contas, ele resolveu optar por um meio-termo e fazer duas reservas no Hotel da Iguana Cangaceira, onde gastou a maioria do ouro que trazia consigo.

—Ugh, desse jeito vou acabar mesmo sendo preso junto com o Rec quando voltar ao castelo!

Enquanto resmungava em voz alta, ele enxergou uma barraca de venda de sucos e se deu conta de que realmente estava cansado e com sede. Não faria mal beber um refresco antes de continuar sua busca pela garota desaparecida. Após usar o que restava de seu dinheiro para comprar bebida e comida, ele sentou sozinho numa pequena mesa redonda e olhou ao redor.

Mal havia bebido metade do seu suco e viu uma garota de cabelos negros e quimono branco do outro lado da rua. Um olhar mais atento identificou os enfeites de prata e o rosto conhecido: era Kamo em pessoa. Para não perdê-la de vista, Sayd correu até lá, mas não precisou fazer muito esforço. Ela também estava sentada diante de uma mesa, embora aquela fosse quadrada, perto de um quiosque de doces.

—Kamo... que brincadeira foi aquela de me deixar para trás?

—Ah, desculpe mesmo, Sayd! Eu juro que não foi de propósito. Eu tinha esquecido de como correr era divertido e me deixei levar. Quando fiquei cansada vim aqui para recuperar as energias.

—Espere um pouco! Você esteve correndo por duas horas?!

—Sim, por quê? – Com um enorme sorriso de satisfação, ela levou uma colherada de doce amarelo-alaranjado à boca.

—Você não pode ser humana!

—E não sou mesmo! Você não sabia?

Cada vez mais o alto comandante se surpreendia com as revelações. Isso o fez indagar se a própria Er não teria também uma origem diferente, mas o que havia descoberto até ali já era o bastante por um dia.

—Eu fiz reservas num hotel não muito longe daqui. Quando você terminar de comer podemos ir lá e descansar, até porque logo vai escurecer.

—Sim, parece uma ótima ideia. – Ela respondeu entre os movimentos certeiros que comandavam a colher.

—A propósito, o que você está comendo?

—Mousse de manga, é uma delícia.

Nisto, o dono do estabelecimento, um homem careca que possuía um bigode três vezes mais robusto que o de Sayd e parecia um gigante com sua altura de mais de dois metros e meio, foi até a mesa de Kamo e colocou um pequeno pedaço de papel sobre ela.

—Desculpe a demora, mocinha, aqui está a sua conta.

—Conta, o que é isso? – A diplomata indagou, revelando genuína confusão. Antes que uma resposta pudesse ser dada, contudo, o guerreiro que a acompanhava pegou o bilhete e empalideceu. Aquele mousse tinha o custo exorbitante de trinta moedas de ouro.

—É o valor que você precisa pagar pelo mousse, senhorita. – O homem desconfiou que pudesse ser uma brincadeira de mau gosto, mas manteve a compostura.

—Ah, é verdade! Eu sempre esqueço que vocês humanos têm a mania de exigir moedas para qualquer coisa. Sayd, você tem algumas consigo, não é?

—E-Eu tinha, mas gastei todas reservando quartos no hotel...

Aquela era a gota d’água. O dono da loja de doces jamais admitiria que um cliente o ludibriasse, comendo sem pagar o que lhe era devido. Liberando uma aura de terrível instinto assassino, ele fez com que o alto comandante sentisse cinco tipos diferentes de calafrio em sua espinha.

—Escute aqui, rapaz! Ninguém come meu mousse de manga e vai embora sem pagar, então é bom estar preparado para oferecer algum tipo de compensação!

—Mas não fui eu que-

O comerciante o ignorou e continuou falando, desta vez num tom calmo.

—Felizmente eu estava justo precisando de alguém para me ajudar no festival que está sendo organizado pelo Grupo Tamanduá hoje à noite. Estamos esperando um grande fluxo de clientes, então todo apoio é bem-vindo.

Kamo parecia ter se isolado completamente da realidade, absorta na tarefa de degustar a sobremesa. Sayd não sabia se o homem estava implicando justamente com ele por não querer iniciar uma discussão com uma garota ou se também era capaz de sentir o poder imenso que dela emanava e temia sofrer algum tipo de retaliação, mas jamais aceitaria sofrer um abuso por algo que não havia feito. Não gostava de recorrer à violência em situações assim, mas estava pronto para sacar sua espada e lutar se fosse necessário. Já era hora de se impor e, para isso, ele bateu sua mão com força na mesa, exclamando.

—Escute aqui, se você pensa que eu vou ajudar-!

Nisto, uma moça que demonstrava alguns traços de adulta correu até lá, colocando-se diante do vendedor. Ela tinha uma expressão preocupada e alguns pingos de suor corriam por seu rosto enrubescido, resultado de esforço físico recente. Ela tinha cabelos de um castanho médio e usava um rabo de cavalo que descia até metade das suas costas, preso com um laço pequeno e vermelho. Vestia-se com simplicidade: uma camisa rosa de manga curta, saia xadrez nas cores vermelha com preta e sapatos simples, além de um avental branco por cima. A despeito dos trajes comuns, era uma jovem muito bela.

—Papai, eu sinto muito. Não consegui encontrar ninguém para nos ajudar no festival hoje à noite.

Após absorver a cena e pensar por um instante, Sayd retomou o que dizia antes de ser interrompido.

—Como eu ia dizendo, se você pensa que eu vou ajudar está totalmente correto! Inclusive eu peço desculpas pela minha amiga, é que ela não está muito acostumada à cidade grande, sabe? Prometo que vou me esforçar bastante para compensar essa confusão, senhor!

—Muito bem, então espere um minuto que vou arrumar um avental para você.

Enquanto o homem retornava para o interior da loja, sua filha segurou ambas as mãos do alto comandante, erguendo-as enquanto exibia um sorriso radiante.

—Muito obrigada mesmo! Estaríamos perdidos de não fosse por você! Como é o seu nome?

—Sayd, e o seu?

—Eu sou Nathalia. Agora vou pedir sua licença, tenho que terminar os preparativos para o festival!

O guerreiro observou enquanto a garota corria de volta para a loja também antes de se virar novamente para falar com Kamo. Ele estava finalmente contente após tantos desencontros.

—No fim das contas, tudo deu certo! Pode apreciar seu mousse de manga sem preocupar com mais-

O rapaz ficou sem saber o que dizer ao perceber que sua companheira de viagem tinha uma expressão chorosa no rosto, olhando fixamente para algo no chão, escondido da visão de Sayd pela mesa. Ela rapidamente deu a volta ao redor do móvel para confirmar seu temor: a tigela estava virada para baixo e o doce esparramado pelo chão. Foi então que lhe ocorreu que só havia um momento em que isso poderia ter acontecido: quando ele bateu no objeto de madeira com sua mão.