Castell
1 Sayd I - Retorno ao Castelo
Os pingos de chuva caíam devagar sobre o tecido do enorme estandarte derrubado. Manchas enormes de lama e sangue cobriam quase que toda a imagem do imponente dragão vermelho. Ao redor, centenas de corpos que uma vez pertenceram a corajosos guerreiros trajando armaduras. Indubitavelmente havia sido um dia tenebroso para os soldados que marcharam sob a bandeira da fera draconiana, pois a eles pertencia a maioria dos cadáveres naquela campina desolada.
A noite já estava se aproximando, mas apesar das grossas nuvens que cobriam o céu, ainda havia claridade suficiente para que o lado vitorioso, que agora numerava cerca de cinquenta homens, pudesse seguir o rastro do último combatente que havia jurado lealdade ao dragão. Ele pensava que poderia encontrar refúgio num bosque próximo, mas estava enganado. O homem que corria desviando de arbustos, galhos e raízes tinha uma posição facilmente reconhecível em seu exército. A armadura de aço que protegia seu corpo inteiro tinha formato arredondado com enfeites em alto relevo representando cada qual uma única asa surgindo de um círculo espiralado nas ombreiras, braceletes e perneiras. Na frente do peitoral via-se um leão apoiado sobre as patas traseiras, um único risco na parte superior, resultado do confronto, contrastando com a imagem. Somente a cabeça estava desprotegida, seu capacete perdido em algum lugar do campo de batalha que abandonara. Sua proteção indicava que ele era um tenente, posição concedida apenas aos guerreiros que demonstrassem aptidão na arte da guerra, o que lhe garantia o direito de liderar pelotões pequenos de soldados. Lamentavelmente não havia quem ele pudesse comandar lá, senão suas próprias pernas para que continuassem a correr na esperança de despistar os perseguidores. O rosto, indicando que se tratava de um jovem adulto, era levemente bronzeado, decorado com um bigode robusto, mas bem aparado, e a expressão demonstrava firmeza, apesar de sua situação deplorável. Os olhos de um castanho quase negro dançavam de um lado para o outro, buscando um caminho, e seus cabelos, curtíssimos e escuros, estavam ensopados de suor. Como era de se esperar, ele portava uma espada presa a seu cinto no lado direito, mas havia um detalhe que se opunha à imagem que alguém pudesse ter de um espadachim de armadura. Amarrado às suas costas, ele carregava um enorme tapete, que por diversas vezes atrapalhava seu avanço pelo bosque. Não havia como escapar da severa conclusão: enquanto carregasse aquele objeto jamais conseguiria fugir de seus perseguidores. Ainda assim, ele não estava disposto a abandoná-lo. Podia escutar os passos dos inimigos pisando sobre as plantas molhadas, estavam cada vez mais perto. Temia que se olhasse de relance para trás veria um deles já prestes a desferir um golpe. Então que assim fosse! Rapidamente mudou seu rumo em direção ao leste e em menos de um minuto deixava para trás as árvores para retornar à campina. Era o fim da linha e seus algozes se aproximavam rapidamente, contudo o soldado meramente removeu o tapete de suas costas o estendeu sobre o chão. A tapeçaria era rígida e compacta, com dois metros e meio de largura e quatro de comprimento. Não era excessivamente elaborada, colorida de preto e branco com seis retângulos concêntricos. Finas linhas vermelhas contornavam as arestas de cada forma geométrica sucessiva, separando as partes monocromáticas. O único detalhe que realmente chamava a atenção era a estampa presente no retângulo central: o kanji japonês para ‘guerra’. -Mas o que significa isso? – O homem que vinha à frente dos cinquenta, claramente o líder, se aproximou devagar após deixar o bosque. Seus subordinados também diminuíram o ritmo, todos curiosos, mas sem deixar transparecer. -Nada de mais, só gostaria de propor uma resolução digna de cavalheiros para nosso pequeno desentendimento. -Propor uma resolução? Você é tão imbecil que não percebe a situação em que se encontra? – O comandante inimigo também vestia um conjunto completo de armadura e seu rosto barbudo era marcado pela experiência. -Justamente. Eu desafio você para um duelo de esgrima usando o tapete como arena. Ganha quem ferir, desarmar ou forçar o inimigo a pisar fora do ringue. Nisto, os soldados que acompanhavam o diálogo desataram a murmurar. Alguns riam, outros se mostravam espantados, mas nenhum deles era capaz de levar a sério as palavras que o guerreiro do exército do dragão dissera. -Pelo visto você enlouqueceu mesmo ao se dar conta que está prestes a morrer. -Ah, que decepção, e eu pensando que o general do exército da lontra era um homem valente. Mas se está com medo de enfrentar um único inimigo pode mandar um de seus subordinados no lugar, eu não me importo. O jovem abriu um pequeno sorriso, visível mesmo sob seu espesso bigode, ele sabia que suas palavras haviam surtido o efeito desejado. Com passos firmes, o general avançou e subiu no tapete. Até mesmo a garoa havia cessado, como se tudo ao redor estivesse com a atenção focada no combate que logo se iniciaria. -Suponho que seus termos sejam que eu o deixe ir embora se vencer. Mas e eu, o que eu ganho se o derrotar?
-Eu respondo todas as perguntas que você quiser sobre meu lorde e o castelo. -Então está decidido. – O homem mais velho sacou a espada, uma ação que imediatamente foi imitada por quem o desafiava. Bastou alguns segundos para que o soldado do dragão percebesse que não estava lidando com um estrategista capaz apenas de gritar ordens. Não, aquele oponente era habilidoso no manejo da lâmina e desferia golpes precisos. De fato, o responsável pelo desafio logo se viu na defensiva, mas apesar da pressão não parecia sequer um pouco preocupado. Após meio minuto de troca incessante de floreios, fintas, ofensivas e arrestos, o resultado parecia estar definido. O general finalmente conseguira escancarar a guarda de seu adversário e estava prestes a desferir o golpe derradeiro, mas não seria fatal, afinal de contas não pretendia desperdiçar a chance de conseguir informações. Contudo, para o lamento dos subordinados que já davam gritos de viva, o homem perdeu o equilíbrio e seu corte passou longe do alvo. Recomposto, o soldado do dragão não perdeu sua chance: chutou com a perna direita o oficial do exército inimigo que tinha se mantido em pé por um triz. Este cambaleou de costas até chegar ao limitar do tapete e então caiu sentado no chão, sua espada fazendo um leve ruído ao cair sobre a grama. -Parece que eu venci, mas não se sinta mal, você lutou muito bem. Eram palavras carregadas de honestidade, mas em vão. A fúria borbulhava nos olhos do general, que se levantou urrando e comandando um ataque. Sem hesitar, os soldados da lontra pegaram em armas e se lançaram sobre o inimigo. Dez minutos de combate intenso depois e restava apenas um homem sobre o tapete, cercado de corpos sem vida: era o vencedor do duelo. Horas haviam se passado e o céu estava escuro, pois as nuvens persistentes bloqueavam a lua e as estrelas. Pelo menos a chuva dava uma trégua, mas depois de cair por um dia inteiro, toda a lenha que o soldado do dragão conseguiu encontrar estava molhada. Lamentava o fato de que não conseguiria sequer acender uma fogueira e abominou a ideia que veio em sua mente a seguir. Aquela era uma noite fria e a única forma de se aquecer seria enrolando-se no tapete que carregava. -Mas você é um inútil mesmo! Será que eu tenho que fazer tudo por aqui? Uma voz que vinha de sua retaguarda o despertou dos pensamentos, mas ela não pertencia a nenhum ser humano, pois ele era o único na orla do bosque. -Olha que eu largo você aqui e volto sozinho para o castelo, Luke! – Retrucou o jovem, dirigindo-se a ninguém menos que o tapete preso às suas costas. -Faça isso e a Er vai te manter preso nas masmorras para o resto da sua vida. E dividindo a cela com o Rec! -Fala logo o que você quer, tapete idiota. -Coloque aquele monte de lenha molhada que você recolheu em cima de mim, Sayd. Meio a contragosto, ele estendeu o tapete místico no chão e fez o que lhe havia sido ordenado. O símbolo no centro do objeto mudou, passando a representar “fogo” e, como num passe de mágica, os galhos se inflaram numa chama confortável. -Isso não vai queimar você? -Não me compare com tapetes de quinta categoria, Sayd, eu sou mágico! -Que seja então. – O guerreiro se sentou próximo do calor e estendeu as mãos, contente pela oportunidade de espantar o frio. Com sua preocupação mais imediata esquecida, seu estômago roncou para lembrá-lo de outra. – Você consegue criar comida também, Luke? -Aí você já está exagerando! Mas mesmo se eu pudesse não daria nada para um ingrato como você. Nem me agradeceu por ajudá-lo a derrotar todos aqueles inimigos. Se não fosse por mim agora você estaria comendo grama pela raiz. -Calma, não vou levar todo o crédito sozinho. Pode deixar que quando voltarmos para o castelo vou mencionar você no relatório. -É bom mesmo! Somente dois dias depois Sayd finalmente alcançou, já tarde da noite, o enorme portão duplo de cinco metros com a mesma figura de dragão presente no estandarte perdido no campo de batalha. Movido por uma força invisível, ele se abriu devagar para permitir a entrada do soldado no extenso castelo construído à beira de um penhasco. Estava em casa, finalmente. Depois da primeira refeição farta desde sua partida uma semana antes, Sayd imediatamente se recolheu para o quartel, aproveitando seu merecido descanso. Como único sobrevivente, coube a ele preencher um relatório, o que era normalmente realizado pelo alto comandante das forças de segurança. Infelizmente este estava morto, juntamente com a maioria dos soldados do castelo. Na calmaria que se seguiu ele pensava seguidamente o que seria de seu grupo militar que agora contava com tão poucos integrantes. Até que na noite do segundo dia ele recebeu um chamado. A convocação exigia que ele comparecesse à sala de reuniões no topo do salão principal e vinha de Er, uma das pessoas mais importantes do castelo, cuja autoridade era rivalizada somente por uma única outra. O homem desconfiava que ela desejava maiores esclarecimentos a respeito do confronto que terminara em massacre, mas somente se deu conta da gravidade da situação ao chegar no local indicado. A sala de reuniões era localizada no final de um cômodo que dispunha de um enorme tabuleiro de xadrez. Cada uma das peças, com exceção dos peões, tinha praticamente o dobro da altura de Sayd. Mas ele as deixou para trás e adentrou no recinto que continha apenas uma longa mesa de carvalho com espaço para aproximadamente cinquenta pessoas e muitas cadeiras estofadas espalhadas ao redor. A iluminação de lá, assim como de todo o castelo, vinha de candelabros presos às paredes e lustres no teto. Do lado oposto à porta, no final da sala, havia uma janela e uma poltrona maior do que os demais assentos, decorada com a cabeça e as asas de um dragão no topo. Estava vazia, mas de cada lado dela aguardavam em pé duas mulheres. O recém-chegado não foi capaz de evitar uma exclamação ao vê-las. -As emissárias da eternidade! Não se tratava apenas de Er, mas também da única autoridade que a ela se igualava no castelo: Kamo. Seus poderes transcendiam o mundano, mas eram muito mais que apenas magia. A aura que cada uma emanava tinha um quê de divino... ou diabólico. -Bem na hora, Sayd. Não precisa se sentar, o assunto será rápido. – Disse a primeira. Conselheira direta do lorde do castelo, Er tinha sob sua responsabilidade manter a ordem nos domínios do dragão e garantir que todos cumprissem suas funções. Mais alta que Kamo, ela tinha cabelos ruivos e encaracolados descendo até a altura do ombro. Seus olhos, protegidos atrás dos óculos de armação retangular, eram da mesma cor, algo nada natural, e fitá-los diretamente inspirava a sensação de observar chamas intensas, enquanto que sua pele alva aumentava ainda mais o contraste com seus lábios rubros como sangue. Ela trajava um vestido preto aberto no verso, revelando suas costas, e também do lado esquerdo, logo abaixo da cintura, com a barra cobrindo apenas a perna direita e deixando a outra completamente exposta. Completando a figura, calçados vermelhos de salto alto e vários adornos de ouro: ombreiras, braceletes e um único enfeite sem par no tornozelo esquerdo. Kamo, por sua vez, era responsável pelos assuntos externos, representando os interesses do dragão em reuniões diplomáticas e até mesmo conselhos de guerra, embora se esforçasse para evitar derramamento de sangue. Apesar de mais baixa, seu poder a permitia levitar, alcançando a mesma altura que Er e deslizando pelo ar sempre que se movia. Seus cabelos eram de um castanho profundo, mas não totalmente pretos, e maiores que os de sua colega, alcançando até a metade dos braços. Dotada de olhos azuis como safiras, fitá-los era o mesmo que observar um lago de almas calmas e límpidas. Vestia um longo quimono branco com largas mangas, estampado com violetas na parte superior juntamente com uma coroa alada de prata e um pequeno cinto do mesmo material. Embora quase nunca tocasse o chão com seus pés, ela calçava um par de sapatos brancos delicados. -A verdade é que graças aos seus esforços o Condado da Lontra decidiu propor um tratado de paz conosco. – Disse a jovem celestial. -Mas eu não fui o único... – Começou Sayd, que se viu rapidamente interrompido por Er. -Nós sabemos, não esqueça que lemos o relatório. O que importa aqui é que das forças militares você é o único membro experiente que sobrou, então decidimos que será promovido a alto comandante. -Eu? Alto comandante? – Ele simplesmente não conseguia acreditar, e sentia-se inseguro quanto a aceitar ou não. Afinal de contas, isso significava aceitar a responsabilidade de reconstruir as forças de defesas desmanteladas no último confronto. – Não sei se estou à altura...
-Você tem o direito de recusar se quiser, mas precisamos da sua habilidade nestes tempos difíceis, Sayd. – Argumentou Kamo. -Além do mais, já pensamos num teste para que você possa provar que é uma boa escolha, se é esse o problema. – A mulher de cabelos vermelhos já estava ficando impaciente. -Isso não vai envolver o risco de eu sofrer uma morte violenta e dolorosa, ou vai? -Talvez, mas devia ter pensado nisso antes de ter batido no portão do castelo três anos atrás procurando uma vaga nas nossas tropas. – Retrucou Er. -É que eu estava desempregado e ouvi dizer que o salário daqui era bom...! -Calma, vocês dois. – Interveio Kamo. – Não é nada de mais, Sayd, você apenas será meu guarda-costas na viagem que farei até o Condado da Lontra para negociar o tratado de paz. -Ah, mas não é apenas isso. – A jovem diabólica abriu um sorriso malicioso. – Sabe, você também terá que resgatar um objeto muito importante que estava em posse do alto comandante anterior. Talvez já tenha ouvido falar dele: a lendária espada Matadora de Fuinhas! -Não acredito! Ela estava em posse do nosso comandante esse tempo todo?! Onde ela está agora? -Isso não sabemos, quem terá que descobrir é você. Mas é melhor não voltar sem ela, senão vai descobrir por que todos no castelo temem minhas punições! Engolindo em seco, Sayd percebeu que realmente estava numa situação precária, afinal não havia uma única alma no castelo que não temesse a perspectiva de sofrer um dos castigos de Er. Se sua motivação se baseasse apenas em riqueza ou prestígio provavelmente teria desistido, mas havia algo a mais, uma devoção que o havia levado até lá e lhe dizia que deveria aceitar essa provação. Que se emergisse triunfante e garantisse a posição de alto comandante, estaria um passo mais próximo de cumprir seu objetivo de vida. -Não se preocupem, emissárias, eu juro que não falharei!
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