Castell

17 Rec I - O Dragão Bastardo


Era tarde da noite, e a maioria dos habitantes do castelo dormia, mas não Rec. A ausência do lorde já durava algumas semanas, e ninguém sabia ao certo quando ele retornaria. Enquanto isto era motivo de preocupação para alguns, um trapaceiro como Rec via ali uma oportunidade perfeita.

Depois de muito tempo enganando Er e Kamo, as emissárias da eternidade e guardiãs da sala do trono, enquanto estudava seus hábitos, ele finalmente conseguiu alcançar os aposentos pessoais do lorde. A primeira reação que teve, entretanto, foi de genuíno espanto.

—Mas que droga, hein! Eu imaginava que alguém como o Julian fosse do tipo que mantém o próprio quarto arrumado! Olha só essa bagunça!

De fato, a quantidade de caixas de papelão espalhadas pelo chão era tamanha que ele tinha de tomar cuidado a cada passo que dava, correndo o risco de tropeçar e cair. Até mesmo sobre a cama havia caixas cheias de objetos estranhos e provavelmente, Rec imaginou, o armário estaria transbordando também. O que mais chamava a atenção, contudo, era o enorme quadro de um homem grisalho e ameaçador pendurado numa das paredes. Por algum motivo, a pintura passava a impressão de estar vigiando atentando quem quer que estivesse no recinto, quase como se estivesse viva.

—Credo, quanta coisa inútil aqui! Quem é que guarda um álbum de figurinhas da Disney? – Disse Rec, erguendo um livro ilustrado de uma das caixas antes de jogá-lo no chão. – Mas com tanta tralha nesse quarto aposto que deve ter algum segredinho sujo escondido no meio delas. Já fico emocionado só de pensar em que tipo de coisa o nosso nobre lorde já aprontou.

Primeiramente, ele se dirigiu até o armário e o abriu, fazendo uma rápida verificação do conteúdo. Lamentavelmente, nada lá lhe parecia interessante, e Rec virou as costas sem sequer se dar ao trabalho de fechar as portas. Ao invés disso, começou a revirar as caixas, lançando indiscriminadamente para todo lado os objetos que não lhe pareciam relevantes. Armas, pingentes, livros, caixas, braceletes, ferramentas e muitas outras quinquilharias passaram pelas suas mãos antes de serem arremessadas como se nada valessem.

A varredura continuou por um longo tempo, mas eventualmente o invasor percebeu que estava começando a verificar itens repetidos. Frustrado, ele se viu forçado a aceitar que talvez o lorde realmente não tivesse nenhuma vulnerabilidade a ser explorada. Ou, mesmo se tivesse, não estaria exposta num lugar tão fácil de encontrar.

—Que merda, só desperdicei meu tempo. E pensar que fiquei todas essas noites no castelo esperando por essa chance quando podia estar lá na taverna azarando as novinhas...

Um tanto cansado após todo aquele esforço, Rec deu um passo em falso para trás, tropeçou num patim e caiu, batendo com as costas no armário. O móvel se inclinou, colidindo com a parede, e voltou na direção oposta, tombando sobre o trapaceiro.

Houve um momento de silêncio, durante o qual ele se recobrou do choque, para então jogar o armário no outro lado da sala, causando uma sequência de ruídos conforme os objetos rolavam uns sobre os outros. Depois de praguejar até ficar com a garganta seca, Rec olhou ao redor, percebendo a confusão que o quarto havia se tornado.

—Meh, já estava tudo bagunçado mesmo. Aposto que ele nem vai perceber que passei por aqui.

Nisto, Rec tomou nota de algo inusitado. Antes oculta atrás do armário, uma porta de madeira havia sido revelada. Incapaz de resistir à curiosidade, ele a abriu, alcançando um recinto pequeno e completamente escuro. Com um grunhido irritado, o homem retornou ao quarto adjacente para recolher um dos candelabros e adentrou mais uma vez na sala secreta.

Diante de si havia uma tapeçaria enorme e totalmente coberta de poeira, pendurada na parede oposta à entrada. O recinto também continha duas estantes, uma de cada lado, com apenas alguns poucos livros sobre suas prateleiras enferrujadas.

Algo a respeito da tapeçaria o atraía, como se seus instintos lhe dissessem que finalmente encontrara algo de valor. Depois de bater um pouco da poeira que a cobria, Rec logo desconfiou do que se tratava. Com um pouco mais de trabalho, ele finalmente viu diante de si a árvore genealógica da família von Karma, traçando suas origens até o fundador.

O mais intrigante não era, contudo, os nomes do topo, mas sim aqueles na base. O último nome da linhagem, que deveria indicar o herdeiro legítimo do castelo, era Manfred. Não apenas isso, mesmo tendo vasculhado toda a tapeçaria várias vezes, Rec não encontrou em lugar algum o nome do lorde atual, Julian.

Aquele detalhe, tão curioso e inusitado, trouxe uma ideia nefasta para a sua mente.

Era tarde da noite, e a maioria dos habitantes do castelo dormia, mas não Geu. Tomado por um surto de inspiração, ele trabalhava incansavelmente em seu mais novo projeto, mantendo-se acordado na base de muito café e outras drogas. Contudo, sua concentração foi quebrada por uma sensação súbita de perigo. Movendo-se por reflexo, ele girou para o lado, apontando seu braço esquerdo para quem havia invadido seu laboratório.

Sob a mira do canhão laser, Rec preferiu se conter e não fazer nenhuma gracinha, limitando-se a erguer as mãos. Seu sorriso debochado, entretanto, não desapareceu dos lábios.

—Calma, Abraão. Isso lá é jeito de se cumprimentar um amigo?

—O que pensa que está fazendo aqui? – Perguntou o cientista, ainda com Rec em sua linha de fogo. – Como foi que entrou se a porta do laboratório estava trancada?

—Pffff, trancada. Até parece que isso já me impediu alguma vez de entrar onde eu quisesse.

—Hmpf. – Ainda que irritado, Geu baixou o braço e voltou a se concentrar no trabalho. – Que seja. O que você quer?

—Só vim bater um papo, ver como você está. – Intrigado, Rec deu um passo à frente para bisbilhotar o que o outro fazia. – Nem tive tempo de visitá-lo depois de tudo que aconteceu com os pais do Sayd. Como está se saindo com esse braço mecânico?

—Digamos que ele é mais útil do que você. – Nisto, o canhão que era o braço de Geu se remodelou, transformando-se em um maçarico. Então, com o membro reconfigurado, ele voltou a soldar a couraça metálica de sua invenção.

—Ora, não diga uma coisa assim tão cruel. – Com uma nota de ironia na voz, Rec continuava a xeretar o laboratório, guardando meticulosamente os detalhes em sua memória. – E se eu dissesse que descobri algo tão escandaloso que até mesmo você estaria interessado em saber?

—Se for mais um daqueles seus livros obscenos, pode esquecer...

—Não, dessa vez não é nada disso. Na verdade, o que eu descobri tem a ver com o castelo e a família von Karma. Por acaso você sabia que... – Rec fez uma pausa dramática, mas sua tentativa de criar suspense foi em vão. Completamente absorto em seu trabalho, Geu nem ao menos se virou para encará-lo, e foi com profundo desapontamento que o trapaceiro resignou-se a abrir o jogo de uma vez. – O lorde Julian von Karma na verdade não é descendente legítimo da família. Pronto, falei.

O barulho da solda parou e, muito lentamente, o cientista se virou. Contrariando suas expectativas, o que Rec tinha a dizer realmente lhe interessava.

—Ora, parece que agora eu tenho a sua atenção. – Deleitou-se o trapaceiro.

—Como assim ele não é um descendente legítimo?! Você tem como provar o que está dizendo?!

—Ora, meu caro Abraão, nem mesmo eu diria algo tão polêmico sem ter evidências concretas. Na verdade, acabei de voltar dos aposentos pessoais do lorde, e adivinha só o que eu encontrei lá! Uma tapeçaria mais antiga do que a época em que o fórum era bom, e nela tinha toda a genealogia da família von Karma. Não acha um tanto estranho que estivesse faltando o nome Julian?

Acreditar nas palavras de Rec contrariava o bom senso, mas o trapaceiro estava certo: nem mesmo ele cometeria tamanha audácia se não tivesse condições de se resguardar. Mentir sobre a linhagem do lorde era motivo mais do que suficiente para receber uma punição pior que a morte nas mãos de Er. Diante disso, Geu sentia-se inclinado a aceitar as palavras de Rec como verdade.

—Bem que o Daniel comentou hoje que você andava estranhamente comportado nos últimos dias. Então era isso que você estava aprontando. – O cientista sorveu um longo gole de café. Quando baixou a xícara, seu olhar afiado encontrou-se com os olhos enganosos de Rec. – Mas você não veio aqui só para me contar fofocas, não é mesmo? Desembucha logo, o que você quer comigo?

—Você é um homem criativo e inventivo, Abraão. Será que por acaso não tem uma máquina do tempo dando sopa no seu laboratório?

O cientista olhou nervosamente para o canto do laboratório, na direção de sua máquina do tempo. Então, tentando se mostrar o mais convincente possível, voltou a fitar a expressão repleta de más intenções de Rec.

—É claro que não! Por que diabos eu teria uma máquina do tempo?!

—Que pena. Eu estava pensando em realizar um pequeno experimento, sabe? Viajar para o passado e descobrir como é que foi que o lorde atual acabou herdando o castelo. Deve ter uma história e tanto por trás disso! Você não está curioso para saber o motivo também?

Geu sentou, pensativo. Envolver-se com Rec trazia consigo uma gama enorme de riscos e complicações, mas estaria mentindo se dissesse que não tinha interesse em chegar ao fundo daquele mistério.

—Talvez... apenas talvez... eu possa fazer algo a respeito. Mas mesmo que eu conseguisse, ainda tem a questão de saber para que período você seria enviado. Não tem ninguém morando no castelo que possa nos dizer quando foi que Julian se tornou parte da família von Karma.

—Não. – Uma nova ideia começava a surgir da mente de Rec. – Eu acho que tem alguém sim.

A noite seguinte. Mizu certamente não recebia com frequência convites para beber, e sem dúvida qualquer convite vindo de Rec era motivo para desconfiança, mas, já que não tinha nada melhor para fazer, ele resolveu aceitar a oportunidade de esvaziar umas garrafas de graça.

A taverna à beira da estrada onde o trapaceiro o levou chamava-se “A Fuinha Pinguça”, e era o tipo de lugar onde figuras curiosas se reuniam. Definitivamente um ambiente que seu irmão não frequentaria, mas Mizu sentia-se completamente à vontade no meio das cantorias desafinadas, xingamentos aleatórios e bebuns largados pelo chão.

Ao chegarem lá, foram direto para o balcão, onde Rec pediu duas bebidas, reafirmando que seria tudo por conta dele. Tal comportamento poderia significar muitas coisas, menos um sinal de normalidade. O trapaceiro não era o tipo de pessoa de quem se esperaria algum tipo de generosidade, mas Mizu não se fez de rogado. Estava lá para beber, e beber foi o que ele fez.

Todo tipo de drinque passou pela frente do irmão do lorde, apenas para ser prontamente esvaziado, um ritmo que seu companheiro acompanhava muito bem. Contudo, com o passar das horas e a noite tornando-se madrugada, Rec começava a se mostrar um tanto inquieto.

—Então, Mizu. Já que estamos aqui nos divertindo, por que não conversamos um pouco?

—E sobre o que você quer conversar? – Ele respondeu, virando uma garrafa de vodca como se estivesse bebendo suco de laranja.

—Ah, sei lá. Que tal sobre a sua família? Poderíamos falar sobre o lorde, não é?

—A respeito do meu irmão? – Mizu riu baixo. – Aposto que é com segundas intenções.

Por um longo momento, Rec permaneceu analisando intensamente o outro homem, até que finalmente lançou a pergunta que tanto o inquietava.

—Você não fica bêbado não, seu porra?

—Se essa é a sua intenção, não está nem chegando perto.

Frustrado, o trapaceiro levantou de seu banco e desceu o punho contra a bancada, rachando parte da madeira ao fazê-lo.

—Ah vai se foder! Para que foi que eu gastei todo esse dinheiro então?! Devo ter aumentado minha conta aqui em umas dez vezes, no mínimo!

Perfeitamente calmo, Mizu aproveitou a ocasião para pedir mais uma bebida e apreciou cada gole, até que Rec finalmente se acalmou e voltou a sentar.

—Não adianta, você não vai conseguir me deixar bêbado. Mas se está planejando criar confusão no castelo, deveria ter dito logo de uma vez. Já esqueceu que eu adoro um pouquinho de caos pela manhã?

Rec tomou um momento para pensar. De fato, Mizu possuía uma predisposição natural para causar problemas, assim como ele próprio. Desta vez, porém, não se tratava de uma pegadinha qualquer, era impossível saber como o irmão do lorde reagiria quando descobrisse suas verdadeiras intenções. Ainda assim, se aquela era a única forma de arrancar informações dele, Rec realmente não tinha muita escolha.

—Tá legal, espertinho. Você quer saber por que arrastei você até aqui? Eu estive fuçando nas coisas do seu irmão e descobri algo bem interessante. Parece que ele não é um descendente legítimo da família von Karma.

Mesmo Mizu não foi capaz de esconder seu espanto ao ouvir aquilo. Em sua mente não existiam dúvidas de que Julian era o lorde de Castell por direito. Ainda assim, a despeito do susto, ele mostrou apenas indiferença.

—É mesmo? E o que isso tem a ver comigo?

—Você sabe quando ele começou a morar no castelo? Eu pretendo fazer uma pesquisa a respeito e descobrir qual é sua a verdadeira origem. Se Julian não contou para ninguém, deve ser algo muito escandaloso, e podemos chantageá-lo com isso.

—Hmmm, difícil dizer. – Mizu fez um breve esforço mental. – Somos filhos de pais diferentes e ele só me trouxe para morar no castelo depois que já era o lorde, mas acho que me lembro de nossa mãe ter comentado, há muito tempo atrás, sobre o seu desaparecimento. Talvez eu consiga sim lhe dar uma noção da data.

—E o que você está esperando?! Fala logo!

—Calma, calma. Nada nessa vida é de graça. Se você quer algo de mim, nada mais justo que ofereça outra coisa em troca.

Impaciente, Rec apontou para a pilha de garrafas vazias ao lado de Mizu.

—E isso não conta, por acaso?

—Claro que não, só começamos a negociar agora.

Ainda mais furioso, o trapaceiro considerou a possibilidade de esfolar seu convidado vivo ali mesmo, mas decidiu controlar seus impulsos, pelo menos até saber qual seria a proposta dele.

—Certo, e o que você quer?

—Nada muito complicado. Na verdade, existe algo que eu desejo muito, mas que já não é mais possível adquirir nessa era. Como você vai fazer uma viagem no tempo, quem sabe possa arrumar isso para mim.

—Espera um pouco... como você sabe que pretendo viajar no tempo?

Rec franziu a sobrancelha. Em resposta a isso, Mizu levantou um livro em cuja capa se liam os dizeres “Spoilers de Castell”.

—Digamos que eu peguei emprestado esse livro do nosso amigo Abraão. Ou você não achou estranho que ele não soubesse das suas intenções desde o começo? – Com um sorriso diabólico capaz de rivalizar os do próprio Rec, Mizu rapidamente guardou o tomo em suas vestes. – Agora preste atenção. O que eu desejo é que você recolha um pouco do sangue da bruxa do desespero. Ela foi uma feiticeira muito poderosa no seu tempo, mas já está morta há alguns séculos.

Nisto, Mizu estendeu para Rec um pequeno vidro cilíndrico com tampa no formato de gárgula.

—Use isso aqui para guardar o sangue dela.

—Bruxa do desespero, um frasco sinistro para guardar sangue. Você sabe que está parecendo cada vez mais com um vilão, não sabe?

—É claro que sei! Que graça tem ser o mocinho da história? E você, vai aceitar minha proposta ou não?

Foi a vez de Rec mostrar o seu sorriso maligno.

—Óbvio que vou. Agora desembucha, quando foi que o lorde veio parar no castelo?

De volta ao castelo, Rec não perdeu tempo em procurar Geu. Agora que tinha a informação que precisava, restava apenas convencer o cientista a enviá-lo de volta no tempo. Assim, poderia finalmente colocar seu plano em prática.

Alcançando a biblioteca, ele correu para o laboratório secreto, tomando nota de que desta vez a porta não se encontrava trancada. Sua intuição lhe dizia que este era um sinal positivo. Então, quando por fim encontrou Geu, Rec percebeu que desta vez ele estava trabalhando em uma máquina diferente.

—Eu consegui, Abraão! De acordo com o Mizu, o lorde vivia com a sua mãe há 500 atrás, mas acabou desaparecendo. Com certeza deve haver alguma pista nessa época de como ele foi parar no castelo.

—É bom que seja esse o caso, porque você só vai ter quatro dias de prazo antes que a máquina o puxe de volta para o presente.

—Então você conseguiu! – De todos os sorrisos de Rec nos últimos dias, aquele foi sem dúvida o maior.

—É claro que eu consegui! Com quem acha que está falando?! Só espero não me arrepender disso...

—Ora deixa de bobagem! Isso vai valer muito a pena, eu lhe garanto!