Castell

18 Rec II - Coincidências


O corpo de Rec despencava pelo túnel temporal, regressando pelos anos conforme as imagens desfocadas ao redor se mesclavam em formas cada vez mais alucinantes. Então, sem qualquer aviso prévio, a viagem encontrou um fim no chão sólido que deteve sua queda.

Contudo, abaixo de si não estava o piso frio de pedra do castelo, mas rocha e poeira. Erguendo-se, ele percebeu que estava em um lugar ermo e pouco familiar, com colinas descendo em direção ao sul e alguns poucos arbustos pontuando a paisagem aqui e ali.

Mais ao leste, cruzando o morro, via também uma estrada um tanto diferente do que estava acostumado, mas ainda assim muito parecida com a que seguia em direção ao castelo. Porém, não havia castelo nenhum diante de Rec, e isso o aborrecia imensamente.

—Desgraça! Que merda o Abraão fez com aquela máquina?! – A sensação insistente de estar em um lugar familiar lhe dava a certeza de que aquela deveria ser a localização do castelo, mas não fazia sentido que o local estivesse deserto. A linhagem von Karma era antiga, habitando aquelas terras há milênios. A única conclusão a que conseguia chegar era que Geu havia cometido um erro. Ao invés de fazê-lo voltar no tempo, ele o havia enviado para uma dimensão paralela. – Agora eu me fodi de vez! Vou ter que rezar para conseguir voltar mesmo em três dias...

Enquanto remoía tal situação deplorável, considerando suas opções, uma memória veio de súbito à mente de Rec. De fato, a morada dos von Karma era praticamente tão antiga quanto a própria família, mas tinha a impressão de ter ouvido Er mencionar uma catástrofe ocorrida algum tempo depois de Julian se tornar lorde, na época em que ele vivia sozinho no castelo.

—É mesmo, ela disse que o castelo tinha sido destruído...

Desconfiado, o trapaceiro decidiu se virar, observando pela primeira vez o que estava atrás de si. Para sua surpresa, lá estava o castelo, mais sombrio do que nunca, elevando-se à beira de um penhasco.

—Ah, agora tudo faz sentido. – Um tanto pensativo, Rec concluiu. – É, acho que no lugar do Julian eu também teria reconstruído o castelo num lugar mais seguro. Aquela droga parece que vai cair a qualquer momento!

Após um quilômetro e meio de caminhada, ele já se encontrava diante dos portões negros de ferro. Analisando a estrutura gigantesca e cheia de espinhos ameaçadores no topo, Rec precisava admitir que no futuro Julian realmente havia tornado o lugar bem mais simpático. Entretanto, isto estava longe de fazê-lo se sentir intimidado. Respirando fundo, ele então gritou.

—Ô de casa! Tem alguém aí?!

—Quem é você?! – Veio uma voz grave do outro lado. – Identifique-se!

—Eu sou o... – A primeira ideia de Rec, dizer era o entregador de pizza, foi descartada de imediato. Hesitando apenas por um instante, ele logo completou com algo menos estúpido. – ...o representante de um importante conglomerado comercial! Nós gostaríamos de negociar direitos exclusivos para a aquisição das nossas armas feitas de oricalco!

—Não tem nenhuma visita do tipo agendada para hoje, ainda mais a essa hora da manhã! Se estiverem interessados em falar com o lorde, sugiro que enviem uma carta esclarecendo os termos do acordo primeiro!

—Eu entendo que o lorde von Karma tenha uma rotina difícil! – Sem deixar a negativa desanimá-lo, Rec colocou em prática suas habilidades de persuasão. – Mas esta é uma oportunidade única e tenho certeza de que será um negócio muito proveitoso! Se me mandar embora, infelizmente serei obrigado a conceder essas vantagens para o Ducado de Nadeko! Não acha que o seu lorde vai ficar furioso se souber que perdeu essa oportunidade por causa de uma guarda teimoso?!

—Se está com tanta pressa assim, vá abanar seu rabo para o duque de Nadeko! – A voz que lhe respondia manteve-se tão inflexível quanto antes. – Agora suma daqui, antes que eu solte os cachorros infernais atrás de você!

Rec, porém, não pretendia desistir. De fato, desde o começo estava decidido a conseguir as informações que queria de uma forma ou de outra. Se entrar no castelo pacificamente estava fora de cogitação, ele não hesitaria em apelar para métodos mais incisivos.

Com uma quantidade assustadora de energia negra concentrada em seu braço direito, o trapaceiro golpeou os portões com força suficiente para arrancar um gigante do chão, mas o golpe parou a milímetros de distância da superfície metálica, seu impacto absorvido por uma massa extremamente densa de energia mística. A única coisa que Rec conseguiu fazer foi criar algumas ondulações na barreira, e seguindo a trajetória destas era possível perceber que o perímetro inteiro do castelo estava protegido.

Esfregando o punho para aliviar a dor, uma expressão preocupada tomou as feições do homem enquanto ele observava o obstáculo em seu caminho. Por mais que lhe frustrasse admitir, não tinha certeza de que seria capaz de passar pelas defesas do castelo.

—Merda, o que eu faço agora?

Ainda passando a mão esquerda pelo punho ferido, Rec sentiu algo em seu pulso e então lembrou do presente que havia recebido de Geu. Tratava-se de um relógio de pulso cinza, enfeitado com linhas à semelhança de circuitos e exibindo números azulados em sua tela digital. Havia um único botão no aparelho, posicionado logo acima do visor.

O Relógio das Coincidências, de acordo com o próprio Geu. Fitando o botão com uma expressão incerta, Rec recordou-se das palavras do cientista.

—“Só com o conhecimento que você tem do passado vai ser praticamente impossível localizar o lorde, então vou lhe emprestar esse relógio. Ele tem o poder de influenciar levemente o fluxo do destino e fazer com que coincidências inesperadas aconteçam quando é ativado. Se você estiver com dificuldades, experimente usá-lo.”

—“Bom, eu certamente estou com dificuldades agora...” – Ponderou Rec. – “Vamos ver se esse negócio realmente serve para alguma coisa.”

Após pressionar o botão, ele aguardou, observando atentamente as muralhas diante de si, mas mesmo depois de passado um minuto inteiro, nada aconteceu. Sem ter a menor indicação de que o poder do relógio havia funcionado, Rec urrou em fúria.

—Filho da puta! Cadê a porra da coincidência?! Você me deu esse relógio de merda só para tirar com a minha cara, é?!

—Você não deveria ficar xingando desse jeito, Rec. Se continuar fazendo isso, daqui a pouco o autor vai ter que aumentar a classificação etária da história.

A voz que vinha de trás do trapaceiro era velha e conhecida, pertencente a um homem completamente coberto por um manto cinzento e surrado, com apenas sua longa barba branca visível. Ele logo tirou o capuz que o ocultava, revelando um rosto familiar a Rec.

—Cleber! O que você está fazendo aqui?

—Ajudando o roteiro a avançar, é claro. – O sábio respondeu com um sorriso. – É o que eu sempre faço, não é verdade?

—Tem razão... – Depender da ajuda de alguém como Cleber, cuja lealdade mudava ao sabor da conveniência da história, era um sinal de perigo para Rec. Com certeza havia um esquema maior por trás para que ele que se desse ao trabalho de ajudá-lo, e isso o deixava hesitante em aceitar ser ajudado.

—A propósito Rec, e quanto a você? O que está fazendo aqui, tão longe dos mares do sul? Você não era o capitão do navio pirata La Cucaracha?

—Você não sabe o que eu vim fazer aqui? – Devolveu o trapaceiro, erguendo uma sobrancelha.

—Não. Acontece que isso foi algo completamente inesperado e, ah, daria trabalho demais explicar...

Para Rec, que acreditava que Cleber tinha total conhecimento das circunstâncias sempre que aparecia em algum lugar, a situação era no mínimo curiosa. Mas melhor assim, pois em sua opinião já havia pessoas demais cientes de seus planos.

—Olha, Cleber, eu adoraria explicar tudo para você, mas é uma história longa e complicada. Eu só preciso encontrar um jeito de entrar nesse castelo. Será que você não consegue me ajudar?

—Está com dificuldades para passar pela barreira? É simples, você só precisa dar a volta e entrar pelo lado do penhasco.

—Quer dizer que do outro lado não tem barreira? – Perguntou Rec, confuso.

—Claro que tem, mas ela foi projetada para resistir a ataques frontais e do alto. A parte de baixo é mais vulnerável, então se você escalar o precipício, deve conseguir abrir uma passagem com a sua força.

—Entendo. – O trapaceiro já começava a pensar em como faria tal escalada. – Mas como você sabe disso?

—Vai dar muito trabalho se eu for explicar. – Respondeu Cleber, com seu sorriso críptico de sempre.

—Bom, que seja. – Rec virou-se na direção do castelo, estudando cuidadosamente a borda do desfiladeiro. – Isso deve resolver meu problema, então você pode cair fora agora.

Mas ao procurar por Cleber novamente, percebeu que ele já não estava mais lá.

—É, ele não perde tempo mesmo...

Antes de iniciar sua descida, Rec olhou o relógio em seu pulso uma última vez. A princípio não havia colocado muita fé na capacidade do aparato de ajudá-lo, mas agora percebia que influenciar o fluxo do destino realmente era um poder fascinante. Ainda assim, o cansaço que sentia era um sinal de que o aviso dado por Geu realmente deveria ser levado a sério.

—“Você não deve usar o poder do relógio mais do que uma vez por dia. Movimentar as engrenagens do destino exige uma quantidade enorme de energia, e por isso ele usa a sua própria força vital como combustível. Se você abusar dessa habilidade, não posso garantir que sobreviva.”

Confrontado com tal risco, até mesmo um trapaceiro do nível de Rec era forçado a respeitar as limitações que lhe eram impostas. Com apenas mais dois usos à disposição antes que seu tempo no passado acabasse, ele decidiu que era melhor buscar as pistas do paradeiro do lorde por conta própria e usar o poder do relógio somente se absolutamente necessário.

Íngreme e profundo, o precipício se mostrava proibitivo, mas se havia algo em que Rec confiava mais do que tudo, era em suas próprias habilidades. Escalar desde a base exigiria um esforço imenso, logo a alternativa mais prática se mostrava contornar a barreira do castelo a partir do topo. Tomando muito cuidado ao descer e escolher seus pontos de apoio, o trapaceiro prosseguiu com a perigosa escalada até o meio do desfiladeiro, onde desconfiava ser o ponto mais vulnerável.

Eventualmente, seus dedos encontraram a barreira invisível, causando ondulações minúsculas ao tentar forçar a passagem. Testando a resistência desta forma, ele logo se convenceu de que a proteção lá realmente era muito mais frágil do que próximo ao portão e com um único e poderoso golpe abriu uma ruptura, permitindo então sua passagem.

Temendo que a barreira pudesse se restaurar a qualquer momento, Rec se apressou em subir, continuando a escalada até finalmente alcançar a rocha sólida e polida da parede externa do castelo. Transformando as pontas de seus dedos em garras negras e afiadas, ele em seguida galgou a distância que o separava de uma janela aberta, prendendo-se com firmeza à estrutura enquanto avançava.

Espiando o interior antes de entrar, Rec percebeu que a janela dava acesso a um quarto simples, mas não sabia dizer se era projetado para acolher empregados ou hóspedes. Contudo, estava vazio, e era apenas isso que lhe importava. Valendo-se de toda a furtividade do mundo, saltou para dentro e se esgueirou em direção à porta.

Após alcançar o corredor do outro lado, começou a explorar o interior do castelo, tomando extremo cuidado para não ser notado. Felizmente, esta era sua especialidade, e as poucas pessoas que via pelo caminho não demonstravam o menor sinal de desconfiança quanto à invasão. Com seu avanço desimpedido, Rec podia se concentrar em sua investigação, passando por cômodos, salas e corredores cuja disposição em nada se assemelhava ao que estava acostumado.

Ao colocar os pés no salão de baile, entretanto, ele foi acometido por uma sensação intensa de perigo. Com seus instintos apitando, o trapaceiro imediatamente se escondeu, apenas meros segundos antes que outra porta do salão fosse aberta, dando passagem a uma mulher de expressão firme, cujos olhos cor de mel brilhavam tal qual chamas intensas.

Seus cabelos castanhos eram de comprimento médio, descendo alguns centímetros sob o terno elegante que vestia, completo com uma gravata vermelha. Conforme ela avançava para o centro do recinto, o som de seus sapatos escuros ecoando pelo ambiente, a espada presa em seu cinto balançava de forma gentil.

—É inútil tentar se esconder, eu sei que você está aí. – Disse a mulher com uma voz calma, porém enérgica. – Seu castigo será pior se eu tiver que apelar para a força.

Lentamente, a cabeça de Rec surgiu de dentro do piano. Desajeitado, ele então saltou para fora, percebendo em seguida que o rosto daquela pessoa também lhe era familiar.

—Akane?! Quer dizer que antes de virar duquesa você trabalhava como serviçal do lorde von Karma? – Rec deixou escapar uma breve risada. – Essa é boa! Espera só o Juca ficar sabendo!

—Duquesa? Juca? – O tom da voz de Akane tornou-se ligeiramente mais agressivo. – Quem diabos é você e do que está falando?!

—Ah, nada não, só tive um devaneio. – Ele respondeu, lembrando-se que falar do futuro poderia ser perigoso. – Aliás, como foi que você descobriu que eu estava aqui?

—Você fede.

Ao ouvir isso, o trapaceiro instintivamente ergueu os braços para verificar se ela dizia a verdade, mas Akane não tardou em se explicar.

—Tem um aroma intenso de más intenções ao seu redor. Eu já tinha percebido sua presença desde o momento em que invadiu a barreira.

—Então foi por causa dessa habilidade que você ganhou um cargo de estagiária aqui?

—Não sou estagiária! – Ela retrucou com rispidez. – Eu sou responsável por manter a segurança do castelo, e você vai me acompanhar até a saída agora mesmo se não quiser se machucar!

—Na verdade eu queria é acompanhar você a outro lugar, mas hoje não vai dar. – Disse Rec, cheio de si. – Então se puder só me dar algumas informações, eu juro que vou embora imediatamente.

—Você não está em condições de fazer exigências. – Akane sacou sua espada, apontando a lâmina para o pescoço de Rec. – E eu estou começando a ficar irritada.

—Credo, como você é chata! Tá bom então, já que faz tanta questão de dificultar minha vida, eu lhe proponho uma troca.

Sob o olhar curioso da moça, Rec tirou do bolso seu celular e procurou no outro o fone de ouvido. Em seguida, estendeu ambos para ela, insistindo para que os pegasse.

—Vai, coloca isso no ouvido. Você vai gostar.

A melodia que Akane ouviu ao colocar os fones a deixou pasma, a ponto de baixar a espada e ficar lá parada, completamente absorta. Quanto mais escutava a música, mais seu rosto se enchia de admiração.

—Que sinfonia maravilhosa! Quem compôs isso aqui?

—Uma banda chamada Arctic Monkeys. Você pode ficar com o celular, tem várias músicas deles aí.

—Fascinante... – Akane tirou os fones, agora encarando Rec de forma muito mais tranquila, quase até simpática. – E que tipo de informação você quer em troca?

—Eu só tenho duas perguntas. Primeira: quem é o lorde atual do castelo?

—Está falando do senhor Manfred? Ele é um homem ocupado e detesta ser interrompido. Não vai ser fácil arrumar uma audiência com-

—Não, eu não tenho interesse em falar com ele. Só queria saber mesmo. – Rec se apressou em dizer. – Próxima pergunta: você conhece alguém chamado Julian von Karma?

—Julian? Nunca ouvi falar. – Ela declarou, pensativa.

—Entendi. Bom, isso já me ajuda bastante. Obrigado, Akane, eu espero que você se torne uma duquesa logo.

—Como é?

—Nada não. – O trapaceiro riu. – Onde fica a saída mesmo?

No fim, Rec deixou o castelo sem pista alguma a respeito do paradeiro de Julian, mas qualquer dúvida que ainda tivesse quanto ao fato de que ele era realmente um lorde ilegítimo agora estava dissipada. Desta forma, o que precisava fazer a seguir tornou-se óbvio. Não era pelo nome Julian von Karma que deveria procurar, mas sim pela alcunha que a ele foi dada quinhentos anos antes de sua época. Para descobrir como se encaixavam as peças daquele quebra-cabeça, Rec precisava encontrar o dragão do desespero.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.