Castell

16 Geu IV - Até a Morte


Geu sabia que não tinham muito tempo para salvar a vida de Sayd. Talvez fosse capaz de reverter a mutação, afinal de contas era um cientista genial, mas justamente por ser tão inteligente ele sabia que não era sábio arriscar, que algumas alterações poderiam ser irreversíveis ou, mesmo que não fosse esse o caso, deixar sequelas permanentes.

—Escute, Juca. Temos que tirar o Sayd daquele tubo a qualquer custo.

—Entendi. Mas não vai ser tão fácil assim, não é?

—Você não acredita no meu talento? – O detetive franziu uma sobrancelha.

—Acreditar, eu acredito, mas não vai ter a menor graça se eles não nos derem um pouco de trabalho. – O cavaleiro de Akane segurou com firmeza suas duas lâminas, assumindo uma postura de combate. Já Geu sacou duas pistolas, que num instante se transformaram em canhões laser de pequeno porte, leves o suficiente para que ele conseguisse manusear ambos sem problemas, mas ainda assim quase tão compridos quanto seus próprios braços.

—Olhe só para você, repetindo as mesmas estratégias inúteis. – Disse Jasmina, cheia de desprezo. – E pensar que achamos que você fosse inteligente!

Pela primeira vez desde que invadiu a fábrica de balas, o companheiro de viagem de Sayd sorriu.

—Vocês nem imaginam o que eu consigo fazer com um pouquinho de tempo para me preparar!

Os disparos dos canhões se juntaram em uma só rajada de energia verde concentrada. A mulher nem ao mesmo se mostrou preocupada, limitando-se a erguer uma barreira protetora, Mas sua expressão de desdém se contorceu numa máscara de espanto quando o golpe atravessou a parede, como se houvesse derretido sua superfície.

—Mas como isso é--?

Atingida, ela voou para longe, batendo numa das paredes da fábrica. Antes que caísse, todos ali presentes puderam ver que havia um buraco fumegante no abdômen de Jasmina, exatamente no ponto em que havia sido atingida.

—Canhões de Dissipação Mágica. –Explicou o cientista. – Eu alterei um pouco minhas armas padrões para gerar um pulso que distorce efeitos mágicos em sua trajetória.

—Desgraçado. Quero ver se consegue dissipar isso! – Ali invocou seus feixes de energia, fazendo-os se espalhar pelo recinto, traçando rotas imprevisíveis e cercando Geu por várias direções. – Se não se defender, vou destroçar seu corpo em mil pedaços!

—Ele nem vai ter que se preocupar com isso, seu mané. – Afirmou Juca, juntando os cabos de suas lâminas. Uma vez fixos, a arma se tornou uma lança dupla, e assim que o cavaleiro começou a girá-la à sua frente, todos os feixes convergiram naquela direção, sendo absorvidos.

—O que você está fazendo?! – Gritou o pai de Sayd, aturdido.

—Cortesia minha. – Geu voltou a explanar. – Para meu amigo Juca aqui eu desenvolvi um mecanismo especial que cria um campo de força centrípeta capaz de influenciar energias mágicas. E não é só isso que a arma dele consegue fazer agora.

Para demonstrar o que estava sendo dito, o cavaleiro desenhou um corte no ar, liberando a força acumulada no formato de uma enorme lâmina lançada na direção de Ali. Sem reação, o homem teria sido atingido, mas uma barreira se interpôs no caminho, bloqueando o ataque.

—Então ainda estava viva! – Exclamou o detetive, encarando Jasmina.

—Seus desgraçados, não fazem ideia de com quem estão lidando. Serem transformados em acéfalos é bom demais para vocês! Vamos destruí-los de novo e de novo até que não reste nem pó! – Completamente enfurecida, a mulher avançava cambaleando enquanto seu ferimento terminava de regenerar.

—Foi mal, mas eu vou ter que recusar. Se eu morrer aqui, Akane é capaz de ir me procurar no inferno para tirar satisfação! – Disse Juca, pronto para atacar novamente. Enquanto isso, Geu ergueu suas armas, mirando os alvos

—Já basta dessa brincadeira! – Jasmina urrou e então liberou seu encantamento de paralisia. Seus inimigos congelaram, permanecendo sem reação, enquanto ela gargalhava. – Crianças tolas. Fiquem aí um momento enquanto eu termino de resolver as pendências com meu filho. Depois vamos dar a vocês as mortes horríveis que merecem.

Mas bastou eles darem as costas para observar Sayd novamente que o detetive ergueu sua cabeça, com um olhar tão afiado e determinado que deixava absolutamente claro que aquele era o momento pelo qual ele estava esperando.

—Agora, Juca!

Geu liberou a energia que esteve concentrando aquele tempo todo em suas armas. Cada disparo atingiu um dos vilões com força suficiente para arremessá-los e feri-los gravemente. Depois da demonstração de poderes curativos de Jasmina, ele não esperava encerrar a luta apenas com aquilo, mas bastava ganhar tempo suficiente. Juca já estava em pleno ar, a poucos metros de distância do tubo, pronto para libertar o comandante dos exércitos do dragão.

—Tire as patas imundas! – Um grito grotesco, de uma voz completamente desconhecida, gelou a espinha do cavaleiro. Antes mesmo que pudesse reagir, foi arrastado por uma onda de choque e rolou pelo chão após cair.

—Mas o que... é isso? – Abraão estava estarrecido com a cena diante de seus olhos. Uma criatura monstruosa de cabelos cinzentos e asas coriáceas andava cambaleando perto do lugar onde antes estavam Jasmina e Ali. Mais assustador ainda, a criatura, apesar de ter um rosto de feições femininas, era claramente assimétrica, com o lado direito do corpo de construção feminina e o esquerdo masculino. – Não me diga que eles se fundiram!

A criatura urrou. Era um grito bestial, amedrontador, que permitia aos dois heróis sentir somente uma fração de seu real poder, mas, mesmo assim, era algo tão terrível que os fazia questionar a possibilidade de vitória.

—Ok, Geu, admito que suas ideias de criar um canhão capaz de perfurar barreiras mágicas, tornar minhas espadas capazes de absorver energia e cobrir nossas roupas com material reversor para deter a paralisia foram muito boas. Mas agora o que nós fazemos contra ISSO?! – Desesperava-se Juca.

—É uma pena que acabaram meus chicletes de estouro sônico. Eles bem que poderiam vir a calhar agora.

O monstro não daria a eles nem mais um segundo para pensar. Agora que havia se recuperado plenamente da transformação, ele disparava feixes mágicos ainda mais espessos que os de Ali e em maior quantidade. Eles se espalhavam quase sem controle nenhum, causando explosões em tudo que tocassem.

—Nem tente absorver essas coisas! – Gritou Geu, agora atirando com suas armas de energia como se fossem metralhadoras. Já o cavaleiro, valendo-se de sua agilidade superior, conseguia desviar dos ataques, ainda que isso não o permitisse fazer mais nada.

Enfurecida, a besta concentrou suas forças, criando dois raios contínuos e destrutivos a partir de suas mãos. O detetive e seu aliado não tinham outra escolha senão continuar evadindo, pois era óbvio que se fosse atingidos não restaria muito de seus corpos para que continuassem lutando.

—Assim não dá, Geu! Nós temos que fazer alguma coisa, senão o Sayd vai virar um chupa-cabra ou coisa pior!

—Eu sei disso. – Ele respondeu, suando frio. Seus olhos constantemente se voltavam para o vidro em que o comandante estava preso enquanto ele tentava imaginar quando tempo ainda teriam para salvá-lo. Com certeza não muito. Precisavam fazer algo a respeito logo, ou a missão de resgate seria em vão. – Não! Não vou permitir que o Sayd morra!

Resoluto, Abraão pressionou um botão de suas armas que as fez mudarem de forma. Elas se tornaram manoplas dotadas de pontas afiadas como garras e envolveram seus braços. O detetive estava disposto a arriscar a própria vida para salvar a de seu amigo.

—Escute, Juca. Eu vou distrair essa aberração e enquanto isso, você tira o Sayd de lá e ativa o controle que eu te dei.

—Você tem certeza disso? – O cavaleiro, preocupado, lembrou que tinha em seu bolso um pequeno dispositivo entregue a ele por Geu e que deveria ativar somente depois de resgatar o alvo.

—É a nossa única chance! Se não fizermos isso o Sayd estará condenado! Vamos lá, mostre do que são feitos os cavaleiros de Nadeko!

—É melhor você não morrer! Senão quem vai até o inferno para tirar satisfação sou eu!

Ainda sendo forçados a esquivar dos raios que àquela altura já haviam destruído muito do maquinário, do chão e das paredes, eles avançaram, aproximando-se dos respectivos objetivos. Geu alcançou o seu primeiro, agarrando o inimigo por trás e cravando as garras de sua manopla nos braços. Com o contato, ele liberou uma poderosa corrente elétrica, tão forte que fazia suas mãos formigarem e o monstro urrar de dor.

—Vai, Juca!

—Eu vou tirar você daí... Sayd!!!

Um corte cruzado estouro o vidro, fazendo o líquido no interior vazar. Juca rapidamente segurou o corpo do comandante, antes que caísse, e o retirou com cuidado do interior da cápsula. A fusão de Ali e Jasmina percebeu isto e começou a reagir com mais violência, tornando cada vez mais difícil para Geu manter a criatura presa.

—Agora, use o controle agora!

Sem soltar Sayd, o cavaleiro clicou no único botão do dispostivo e então seu corpo se desvaneceu em questão de um segundo. Abraão sorriu ao ver o rosto confuso do outro rapaz desaparecer, mas não teve tempo para comemorar. O inimigo finalmente conseguiu se libertar e segurou seu braço esquerdo com ambas as mãos, liberando uma energia explosiva tão potente que lançou o detetive no outro lado da fábrica.

Com ferimentos por todo o corpo e o braço atingido completamente obliterado do cotovelo para baixo no último ataque, Geu mal consiga se levantar e sua visão embaçava enquanto perdia sangue rapidamente. Pensava ser seu fim, mas ao olhar para o lado por acaso, algo chamou sua atenção: era um tubo pequeno, dentro do qual se encontrava um tapete. Um tapete familiar.

—L-Luke?

Ele não conseguia imaginar por que motivo o tapete mágico do castelo estava preso na fábrica de balas, mas não poderia tê-lo encontrado em momento mais fortuito e uma ideia agora tomava forma em sua mente. Primeiro, deu um tiro leve contra a ferida de seu membro perdido para cauteriza-la e não morrer prematuramente pela perda de sangue. Em seguida, atirou contra o vidro e libertou Luke, que imediatamente despertou e começou a planar ao redor.

—Pela deusa, Abraão! O que foi que aconteceu com você?! – Então o objeto mágico ouviu o urro do monstro ensandecido. – E que diabos é aquela coisa?

—Longa história, e nós não temos tempo para isso. Escute, eu vou usar meu canhão para energizar você e atirar contra o inimigo. Temos que gerar um impacto poderoso o suficiente para destruí-lo completamente ou ele vai conseguir se regenerar, e só combinando nossos poderes seremos capazes de fazer isso.

—É verdade que eu consigo causar uma explosãa que envergonharia qualquer coisa mais fraca que uma bomba atômica, mas se eu fizer isso, você também vai morrer!

—Eu sei disso. – Não havia hesitação nos olhos do detetive. Havia cumprido sua missão e agora queria apenas alcançar uma última vitória pessoal, mesmo que significasse sua própria morte. – Vamos logo, antes que aquela coisa perceba que ainda estou vivo e acabe com nós dois!

—Tudo bem, que seja! – O símbolo no centro do tapete se transformou no kanji representando “destruição”. Em seguida ele entrou no canhão de Geu, pronto para ser usado como munição.

—Bem que imaginei que isso viria a calhar. – O cientista acoplou uma pequena caixa de circuitos à arma e isto a fez expandir até chegar ao tamanho de um lança-foguetes. Reunindo as poucas forças que lhe restavam, ele se colocou em pé e começou a concentrar energia para seu disparo derradeiro.

A fusão de Ali e Jasmina, que até então esteve destruindo tudo ao seu redor para aplacar a raiva, finalmente se deu conta das ações do detetive e também se preparou para lançar seu ataque final, reunindo poder na palma de suas mãos. Os dois atiraram ao mesmo tempo, gritando a plenos pulmões ao fazê-lo.

Luke, completamente envolto em energia esverdeada, atravessou o ar e a rajada do monstro, cravando-se no peito dele. A criatura teve apenas um instante para expressar no rosto toda a sua incompreensão antes de ser obliterada. Geu observou, sereno, enquanto a explosão se expandia em sua direção, pronto para aceitar a própria morte, mas algo inesperado o espantou. Uma fenda dimensional rasgou o ar, engolindo toda aquela destruição, e então sumiu, como se nunca tive existido.

Quando tudo terminou, Luke estava estirado no fundo de uma grande cratera e Abraão piscava, mais confuso do que já esteve em toda a sua vida, olhando para os lados e se dando de que a fábrica continuava inteira.

—O que...? Como...?

Polux caiu diante dele, dobrando as pernas para amortecer o impacto, e, enquanto se endireitava, a armadura que vestia reluziu e desapareceu. A garota sorria, mas tinha uma expressão um tanto severa no rosto.

—Com licença, mas a única que tem permissão para mandar coisas pelos ares aqui sou eu.

—F-Foi você que fez aquilo? – Perguntou Geu, ainda boquiaberto.

—Sim, é um dos meus poderes. Agora vem, vamos levar você a um lugar seguro antes que morra pra valer.

Mais tarde, Polux, Juca e Luke deixavam o hospital de Graventown pela porta da frente. O cavaleiro havia sido teleportado para o lado de fora da fábrica juntamente com Sayd ao apertar o botão do controle e avisou que Geu ainda estava em perigo, o que permitiu que ele fosse salvo. Agora que os dois feridos estavam recebendo tratamento adequado, os demais podiam descansar aliviados.

—Ah, então aquela coisa que eu destruí eram os pais do Sayd. Mas nunca imaginei que eles fossem tão poderosos assim. – Comentou Luke, finalmente entendendo tudo que aconteceu, graças à explicação de Juca. Ainda assim, optou por não revelar os reais motivos de ter sido encontrado na fábrica.

—Tem uma coisa que eu gostaria de saber. – Perguntou o vassalo de Akane. – Afinal de contas, Polux, por que você resolveu nos ajudar?

—Eu sou uma amiga de longa data do lorde do Sayd. Resolvi vigiar ele e Geu para ver se descobria o que o Julian tem aprontado ultimamente, mas nunca imaginei que acabaria tendo que salvar os dois desse jeito.

—Nem eu. Mas agora é melhor eu colocar o pé na estrada e voltar para Nadeko, senão é capaz da Akane ter um surto nervoso.

—Não se preocupe, eu te dou uma carona até lá. Devo uma a vocês por terem me ajudado também. – Disse Luke. – Da próxima vez que nos encontrarmos, moça, vou pagar minha dívida com você.

—Tudo bem então, façam uma boa viagem.

Polux ficou observando enquanto Juca subia no tapete e os dois desapareciam no céu noturno. Então assoviou, chamando Denka para junto de si, e seguiu seu caminho.

—É, talvez esteja na hora de fazer uma visita para o castelo de novo.

Dias depois. Já tarde da noite quando Daniel entrou na biblioteca para devolver um livro sobre técnicas de duelo que estivera lendo recentemente. Ele também tinha outro motivo para estar lá e resolver aproveitar a ocasião, encontrando finalmente quem procurava no terceiro andar.

—Ouvi dizer que você passou maus bocados na última viagem, mas está me parecendo muito bem hoje.

Completamente curado e novamente possuindo um braço esquerdo, Geu levantou da cadeira em que estava sentado para cumprimentar seu amigo. Como de costume, vestia um jaleco impecavelmente limpo sobre as roupas. Não havia nem sequer um único detalhe em sua figura que traísse o fato de que esteve à beira da morte recentemente.

—É verdade que foi uma missão bastante difícil, mas quem sabe eu possa até dizer que fiquei mais forte graças a ela.

—É mesmo? – O ex-mordomo se mostrou interessado. – Pois eu gostaria de experimentar isso pessoalmente. Faz bastante tempo que não temos uma batalha amistosa, então o que me diz de nos exercitarmos um pouco?

—Se você não se importa de ir dormir chorando, vamos lá!

Os dois seguiram juntos até o jardim na frente da torre onde viviam Kamo, Er e o lorde, na orla do cemitério. Daniel, um exímio mestre das facas, dobrou os braços para o lado, com as mãos voltadas para cima, e fez com que algumas lâminas começassem a flutuar ao seu redor.

—Já vou começar atacando pra valer, Geu!

—Pode vir.

Liberando seu poder, Daniel conjurou uma espiral de uma centena de facas ao seu redor. Ao ver isso, o cientista imediatamente ativou, com um comando mental, seu braço esquerdo, que se remodelou na forma de um canhão laser acoplado a seu corpo. Ele concentrou o máximo de poder possível enquanto seu rival comandava a nuvem de facas a atacá-lo como uma torrente horizontal.

A um instante de ser atingido, Geu disparou uma esfera de energia azul maior até que seu próprio corpo. O poder seguiu adiante, defletindo todas as lâminas em seu caminho, até que finalmente chegou a Daniel e o envolveu. Contudo, este não se feriu, pois trouxe às próprias mãos uma katana de aura poderosa e a usou para cortar ao meio o tiro.

—Então você realmente perdeu um braço, como o Sayd disse, e já o transformou em uma arma? Estou impressionado!

—Eu avisei que estava mais forte.

—Realmente. Isso vai ser muito divertido, Geu! Prepare-se, pois eu estou indo com força total!

A luta somente terminou com o raiar do sol. Quando Kamo saiu pela porta que dava acesso à torre de relógio e viu aquela cena, ela demonstrou um pouco de preocupação, mas logo sorriu, pois se deu conta de que, apesar de tudo, tanto Daniel quanto Geu estavam satisfeitos.